quarta-feira, janeiro 30, 2008

Descartes e o génio maligno.


Um filme que se aproxima significativamente da situação do demónio mau [de Descartes] no que diz respeito à profundidade da dissimulação que apresenta é The Matrix (Andy e Larry Wachowski, 1999). A premissa deste filme é a de que a maior parte da humanidade foi escravizada por uma raça de máquinas inteligentes que usam corpos humanos como fontes de energia. Contudo, aqueles que se encontram neste estado ignoram completamente a sua situação real. Tudo parece normal porque um super-computador os alimenta com uma realidade simulada ('o Matrix'). Apenas alguns rebeldes conseguiram escapar a esta escravização e estão em condições de oferecer resistência às máquinas. Assim, no começo do filme, antes de escapar do Matrix, tudo o que o personagem principal, Neo (Keanu Reeves), experimenta e toma como real é, de facto, uma ilusão gerada por computador. (…)
O líder dos rebeldes, Morfeu (Lawrence Fishburne), (…) [que] entra no Matrix para trazer Neo para a causa da resistência, (…) oferece ao nosso herói a oportunidade de 'acordar' da sua ilusão. O enigma que ele coloca é puro Descartes: 'Já tiveste algum sonho, Neo, de que estivesses convencido que era real? E se não conseguisses acordar desse sonho? Como saberias a diferença entre o mundo do sonho e o mundo real?'
(…) em The Matrix, nós, como Neo inicialmente, não temos qualquer ideia de que o mundo em que Neo habita é uma ilusão, e ficamos tão desorientados como ele quando a situação é de repente revelada.
O argumento do demónio de Descartes pode ser facilmente reformulado em termos retirados de The Matrix - pode ou não acontecer que tudo aquilo de que temos experiência, tudo de que até agora tivémos experiência, mesmo aquilo que tomamos como verdades lógicas básicas, ser uma fabricação gerada por um supercomputador? E o efeito desta questão é igualmente o de colocar em dúvida, de um modo extremamente radical, o que a nossa experiência nos diz acerca do mundo.

Christopher Falzon, Philosophy Goes To The Movies. An Introduction To Philosophy. London and New York, 2002. Trad. Carlos Marques.

Regressão infinita na justificação das crenças?

Alfred Sisley, Cheia em Ort-Marley, Paris, 1839/1899


Conhecimento e justificação
Pense numa crença em que acredita, numa crença de cuja verdade esteja seguro. Pense, por exemplo, na sua crença de que a terra gira em volta do sol e não o contrário. Se está certo acerca disto, então, intuitivamente, tem de considerar esta crença como estando bem sustentada, como estando justificada. Mas pergunte a si mesmo a seguinte questão: o que justifica esta crença? (…)

A natureza enigmática da justificação
Uma resposta possível a esta questão podia ser que nada a justifica; que esta crença não necessita de nada além de si mesma para ser sustentada adequadamente. Porém, no caso da maior parte das nossas crenças (se não de todas) esta possibilidade não é muito plausível.
Podemos pensar numa crença como uma casa. Se a casa não tem fundações, ela cai. O mesmo vale para uma crença. Se lhe faltam fundações sólidas - se nada a pode justificar - , então a crença não é sustentada adequadamente e 'cai'. Até porque se uma pessoa pudesse sustentar como deve ser uma crença sem que ela fosse suportada por quaisquer fundamentos seguros, isso impedir-nos-ia em princípio de fazer qualquer distinção epistémica entre as crenças de indivíduos racionais e as de indivíduos irracionais. Por exemplo, imaginemos uma criança que forma, sem nenhuma base, a crença de que a lua é um balão. Se considerássemos a nossa crença de que a terra gira em volta do sol sem necessidade de justificação, então colocá-la-íamos ao nível da crença da criança acerca da lua. Porém, a justificação da nossa crença não se compara à da criança.
Portanto, parece que, pelo menos numa vasta maioria de casos, tem de haver qualquer espécie de sustentação da nossa crença a que possamos recorrer, qualquer espécie de fundamento ou razão de ser. No caso da nossa crença de que a terra gira em redor do sol, uma possível razão que poderíamos usar em favor dela seria que podemos lê-lo num manual científico escrito por um especialista no assunto. O que faríamos seria apoiar a nossa crença de que a terra gira em redor do sol apelando para uma outra nossa crença, a de que esta ideia se encontra escrita num manual fidedigno.
No entanto, o problema de apoiar as nossas crenças recorrerendo a outras crenças é que isso levanta a questão de saber qual a base dessas crenças 'de apoio'. Como já rejeitámos a possibilidade de justificar crenças se estas não forem fundamentadas, isto significa que temos de apoiar as crenças de apoio num apoio adicional. Além disso, como considerámos que eram estas crenças de apoio que justificavam, de alguma maneira, a crença original, se não conseguirmos indicar uma base adequada para apoiar as crenças de apoio, também a crença original fica sem justificação. Se acredito que a terra gira em volta do sol porque é isso que diz o manual científico, mas não tenho boas razões para acreditar no que me dizem os manuais científicos, então dificilmente poderei considerar adequadamente fundamentada a minha crença de que a terra gira em volta do sol. O problema está, é claro, no facto de que seja qual for o apoio que eu usar em favor da minha crença de que posso confiar no que dizem os manuais científicos essa crença de apoio não deixará de ser, por sua vez, uma crença adicional a necessitar de sustentação adicional. A ideia de regressão infinita começa, portanto, a pairar ameaçadoramente. Quando começamos a indicar aquilo em que apoiamos a nossa crença parece que ficamos condenados a procurar mais e mais apoios adicionais, sob pena de não podermos encontrar alicerces adequados para a nossa crença inicial.
De modo a perceber isto melhor, pense-se novamente na analogia com a casa. Notámos atrás que uma casa sem fundações cai. E uma casa que possui fundações que se apoiam em outras fundações, e estas em outras e estoutras em outras, e assim até ao infinito, não terá um destino diferente. Se, no fim, não houver algo que mantenha toda a estrutura de pé, o edifício ruirá.
É claro que na vida real somos normalmente incapazes de indicar os fundamentos das nossas crenças a partir de um certo ponto. A certa altura começamos a andar em círculos. O que justifica a crença de que a terra gira em volta do sol? O que os manuais científicos dizem. O que justifica a confiança nos manuais científicos? Que na escola o meu professor de ciências tenha asssegurado que eles são boas fontes de informação nas respectivas matérias. O que justifica confiar no que diz o professor de ciências? Que o que o professor diz coincide com o que dizem os manuais. Aqui chegados, a cadeia de justificação fechou-se sobre si própria, visto que uma razão adiantada inicialmente - acerca da fidedignidade dos manuais científicos - reaparece mais abaixo na cadeia de justificação. Porém, uma justificação circular não se pode considerar uma justificação. Pense mais uma vez na analogia com a casa. Se as fundações dessa casa assentam em outras fundações que, no fim de contas, acabam por assentar nas fundações originais, então a casa não poderá ficar de pé por muito tempo. Alguma coisa tem de sustentar tudo e como as coisas estão nada parece poder desempenhar a tarefa.

· O trilema de Agripa
· Parece que estamos confrontados com três desagradáveis alternativas de resposta à questão de como justificar as nossas crenças. Estas alternativas são as seguintes:
·
· 1 as nossas crenças não são fundamentáveis; ou
· 2 as nossas crenças apoiam-se numa cadeia infinita de justificação (i. e. numa cadeia de justificação na qual nenhuma base de apoio ocorre mais do que uma vez); ou
· 3 as nossas crenças apoiam-se numa cadeia circular de justificação (i. e. numa cadeia de justificação na qual uma base de apoio ocorre mais do que uma vez)

Todas estas alternativas são desagradáveis porque todas parecem implicar que não estamos na realidade em condições de defender a nossa crença original. Tal como uma casa sem fundações, ou com uma cadeia infinita de fundações, ou com fundações circulares, não será bem sustentada - acabará simplesmente por cair - portanto, uma crença sem fundamentos (i. e., opção 1), com uma cadeia de justificação infindável (i. e., opção 2) ou com fundamentação circular (i. e., opção 3), não estaria bem apoiada e, portanto, intuitivamente, não estaria justificada.
Este problema respeitante à estrutura da justificação é conhecido por trilema de Agripa, nome derivado do filósofo [céptico] da antiguidade grega, Agripa. (…)

Infinitismo
A resposta menos plausível (e, portanto, historicamente menos popular) ao trilema de Agripa aceita a opção 2 e sustenta que uma cadeia infinita de justificação pode justificar uma crença. Esta posição é conhecida por infinitismo. Aparentemente, esta perspectiva é insustentável, pois, tal como não é claro que uma série infinita de fundações possa sustentar uma casa, não o é também que uma cadeia infinita de razões possa justificar uma crença. (…)

Coerentismo
Uma resposta mais plausível (e mais popular) ao trilema de Agripa parte da opção 3 e sustenta que uma cadeia circular de bases de sustentação pode justificar uma crença. Esta perspectiva [é] conhecida como coerentismo (…)
É difícil reconciliar o coerentismo com a reflexão simples de que uma cadeia circular de justificação (…) não oferece nenhuma espécie de suporte para uma crença.
Parte da motivação subjacente ao coerentismo é prática, visto que os coerentistas afirmam que nós justificamos de facto as nossas crenças do modo descrito por eles. Assim é, dizem, porque os fundamentos para acreditar numa dada proposição envolvem muitas vezes, implicitamente, uma rede geral ou 'teia' de outras crenças em que acreditamos. Um modo de expressar esta ideia é dizer que as crenças individuais que defendemos reflectem a mundividência geral que possuímos. (…)
Considere-se, por exemplo, a diferença entre mim e alguém que viveu vários séculos atrás e que pensa que é o sol que gira em torno da terra em vez do contrário. Dada a sua mundividência, ver o sol a nascer de manhã é uma confirmação do facto de a terra ser o centro da órbita do sol. Por contraste, alguém como eu, que vive na actualidade, e que sabe perfeitamente que de facto a terra é que gira em volta do sol, não interpreta o nascer matinal do sol da mesma maneira. (…)
Note-se, porém, que apesar de a pessoa que viveu antes da revolução copernicana estar errada a respeito da sua crença, é admissível supor que esta se justificava em virtude das suas crenças de fundo. Dado o modo como a sua crença se apoia na sua mundividência geral, é para esta pessoa inteiramente razoável acreditar que o nascer do sol é uma confirmação do facto de o sol orbitarr em torno da terra.
Seja como for, mesmo se é desta maneira que, de facto, que formamos habitualmente as nossas crenças - apelando implicitamente à rede de crenças que fazem parte da nossa mundividência - esse facto só por si não garante que é isso que devemos fazer.
(…) falta considerar uma terceira opção(…)

Fundacionalismo 
Esta opção é conhecida por fundacionalismo. Responde ao trilema de Agripa aceitando, em linha com a opção 1, que uma crença pode ser por vezes justificada mesmo não estando apoiada em outras crenças. À primeira vista, esta perspectiva pode parecer problemática pela razão mencionada acima que referia que as crenças mal fundamentadas - como a crença da criança de que a lua é um balão - não eram candidatas prováveis à condição de crenças justificadas. Contudo, os defensores da escola fundacionalista dominante argumentam que algumas crenças não requerem ulterior justificação, porque elas, de alguma maneira, se auto-justificam. Este tipo de fundacionalismo é conhecido por fundacionalismo clássico e defende que o conhecimento é estruturado de tal modo que as cadeias de justificação terminam com crenças fundacionais especiais que se auto-justificam e que não requerem suporte adicional.(…)
O principal problema do fundacionalismo sempre foi o de identificar essas crenças que se auto-justificam e que podem servir de fundações.

Duncan Pritchard, What is This Thing Called Knowledge? (Abington & New York, 2006). Trad. Carlos Marques.

Descartes: o método da dúvida e o Cogito.

René Descartes, Franz Hals, Antuérpia, 1580/1666


O 'método da dúvida' de Descartes implica pôr de lado qualquer crença ou conhecimento que admitam a mais pequena dúvida, por mais improvável ou absurda que essa dúvida possa ser, no intuito de ver se resta alguma coisa. Se restar alguma coisa é precisamente porque é invulnerável à dúvida: é certo. Uma vez que o objectivo de Descartes nas Meditações é o de descobrir o que pode ser conhecido com certeza, o método da dúvida é crucial, pois constitui o caminho para o seu objectivo. A tentativa de considerar cada uma das suas crenças ou pretensões de conhecimento e submetê-las a escrutínio seria uma tarefa impossivelmente longa, de modo que Descartes teve necessidade de uma estratégia geral para pôr de lado todo o corpo de crenças dubitáveis. Procurou alcançá-la utilizando argumentos cépticos.
É preciso notar que o uso de argumentos cépticos por parte de Descartes não faz dele um céptico. Longe disso. Ele usa-os meramente como um instrumento heurístico para mostrar que nós possuímos efectivamente conhecimento. Ele é, portanto, um 'céptico metódico' e não um 'céptico problemático', entendo-se por esta última expressão alguém que pensa que os problemas colocados pelos cépticos são sérios e colocam uma genuína ameaça à nossa ambição de adquirir conhecimento. Acontece que, desde o tempo de Descartes, muitos filósofos pensaram que ele não produziu uma resposta adequada às dúvidas cépticas que ele próprio levantou e que, por conseguinte, o cepticismo é deveras um problema. O próprio Descartes não pensava de todo assim.
As considerações cépticas que Descartes usou (…) merecem aqui referência. A primeira delas é a de recordar que os sentidos por vezes nos conduzem no caminho do erro. Equívocos perceptivos, ilusões e alucinações podem levar, e ocasionalmente levam, a crenças falsas. Isto pode fazer com que não depositemos confiança no que pensamos conhecer através da experiência dos sentidos, ou, no mínimo, que sejamos cautelosos antes de confiarmos nela como fonte de verdade. Não obstante, diz Descartes, haverá muita coisa em que eu acredito com base na minha experiência - tal como, por exemplo, que tenho mãos e que estou a segurar um pedaço de papel com elas, que estou sentado numa poltrona defronte de uma lareira, etc. e que duvidar disto seria uma loucura, mesmo dada a falta de fiabilidade dos sentidos. Mas, apesar disso, diz Descartes, continuaria a haver muita coisa em que eu acreditaria com base na minha experiência actual - como, por exemplo, que tenho mãos e que estou a segurar com elas uma folha de papel, que estou sentado numa poltrona em frente da lareira, e assim por diante, coisas das quais seria uma loucura duvidar, não obstante a frequente falta de fiabilidade dos sentidos.
Mas será mesmo loucura duvidar destas coisas? Não, diz Descartes - e aqui ele vem com o seu segundo argumento - porque muitas vezes sonho quando durmo e se estou agora a sonhar que estou sentado em frente à lareira segurando um pedaço de papel, o pensamento de que assim estou é falso. Para estar certo de assim estar teria de poder excluir a possibilidade de estar meramente a sonhar com isso. Como pode isso ser feito? Parece difícil, senão impossível.
Mas se estivermos a dormir e a sonhar, continua ele, poderíamos saber que, por exemplo, um mais um é igual a dois. Na verdade, há muitas destas crenças que mesmo num sonho podemos conhecer como verdadeiras. Por isso, Descartes introduz uma consideração ainda mais extrema: suponha-se que em vez de existir um deus bom que quer que conheçamos a verdade, existe um demónio maligno cujo propósito central fosse o de nos enganar a respeito de todas as coisas, mesmo acerca de 'um mais um é igual a dois' e de todas as outras verdades deste género, aparentemente indubitáveis. Se existisse um tal ser, teríamos uma razão geral para duvidar de todas as coisas de que se pode duvidar. E agora podemos perguntar: supondo que tal ser existe, haverá, não obstante, alguma crença de que eu não possa duvidar, mesmo que o demónio enganador faça com que cada crença que eu tenha seja falsa (se for possível que seja falsa)? E, como sabemos, a resposta é sim, há uma crença indubitável: é a de que eu existo.
Alguns críticos deste procedimento dizem que os argumentos cépticos utilizados por Descartes não funcionam. Criticam os argumentos do sonho e do demónio maligno em vários aspectos - (...) que há na realidade critérios que permitem distinguir o sonho do estado de vigília e que a hipótese do demónio enganador é muito menos plausível do que a maior parte das crenças que ela supostamente coloca em questão (tal como a de que um mais um é igual a dois). Mas são desajustadas estas tentativas para mostrar que o método da dúvida de Descartes não tem pernas para andar. Os argumentos de Descartes podem ser menos plausíveis que aquilo que impugnam, mas isso não é importante. Eles são simplesmente uma ferramenta heurística, algo que nos ajuda a ver o que está em causa quando dizemos que 'Eu existo' não pode deixar de ser verdade. Se, em qualquer caso, o objectivo (…) é o de demonstrar o que pode ser conhecido com certeza, praticamente qualquer instrumento heurístico que torne possível descobrir certezas funcionará igualmente bem.

A. C. Grayling. Descartes (London: Pocket Books, 2005), pp. 281-4. Trad. Carlos Marques.

O método de Descartes.

[No seu livro Meditações de Filosofia Primeira, Descartes] começa com (…) [a regra]: não aceites nada que não se apresente à mente tão clara e distintamente que não haja razão para disso duvidar. Descartes não está aqui a falar apenas de uma ‘dúvida razoável’. A exigência, no fim de contas, é alta, e o objectivo é encontrar a certeza absoluta, um fundamento sobre o qual se construa todo o sistema da ciência. Qualquer razão para duvidar, não importa quão bizarra, servirá para tornar suspeita uma crença. Portanto, o método de Descartes é o método da dúvida. Se uma crença sobrevive ao teste de Descartes, ela terá de estar até acima da mais pequena sombra de dúvida. Examinar cuidadosamente todas as nossas crenças individualmente seria uma tarefa sem fim, por isso, Descartes começa por procurar a certeza lançando a dúvida sobre uma classe de crenças no seu todo.

A destruição das crenças

Descartes começa com crenças baseadas na percepção dos sentidos. A maior parte das coisas que ele conhece são crenças baseadas no uso dos sentidos, mas os sentidos são por vezes enganadores. Olhemos para um remo imerso na água pela metade e ele parecerá torto. Pensemos em truques luminosos, miragens no deserto ou na ilusão de água tremeluzente no alcatrão quente à distância. Se os sentidos às vezes nos enganam, argumenta Descartes, é um sinal de prudência nunca neles confiar completamente. Devemos então concluir que não é certa nenhuma das nossas crenças baseadas na nossa evidência sensorial? Baseando-se nestas reflexões, pode o leitor duvidar que está a segurar este livro nas suas mãos?
Ele pensa que o argumento não pode provar tanto. As ilusões que foram consideradas parecem depender de condições sensoriais não óptimas. Quando a iluminação é boa e um objecto está mesmo diante de si, é difícil pensar que truques luminosos possam dar-lhe uma razão para duvidar do que está a ver. De qualquer modo, apenas compreendemos que existe ilusão apoiando-nos nos nossos sentidos. Apesar da minha experiência visual, sei que o remo não está na realidade torto ao apalpá-lo ou trazendo-o para fora da água, sujeitando-o a uma inspecção mais cuidada. Sabemos das ilusões sensoriais precisamente porque confiamos algumas vezes nos nossos sentidos. Portanto, o argumento da ilusão não pode lançar a dúvida sobre todas as sensações. Ele depende à partida da veracidade da percepção sensível.
Descartes chega a dizer que teria de ser um pouco doido para pensar que as mãos que via não eram as suas mãos segurando um papel, enquanto fazia estas meditações ao calor da lareira. O leitor pode até sorrir maliciosamente com Descartes olhando com a confiança restabelecida para as suas mãos, ao ler o livro em que ele assim fala. Porém, o sorriso desvanece-se rapidamente.
Quantas vezes, pergunta Descartes, sonhou ele que estava sentado à lareira, escrevendo ou lendo, vendo inocentemente o que ele julgava serem as suas mãos, quando de facto estava a dormir profundamente sem estar a olhar para nada? Os sonhos podem parecer, para aquele que está no momento a sonhar, tão real como a experiência de estar acordado. Pode o leitor estar certo que são as suas mãos que estão a segurar no livro ou estarão as suas mãos enfiadas por debaixo da sua almofada? Dizer a si mesmo que os sentidos são fiáveis quando as condições são boas não reassegura, uma vez que compreendemos que se pode estar a sonhar com essas boas condições. A situação fica bem pior se não se puder divisar uma maneira que distinga entre as experiências da vigília e do sonho. Sem isso, sem qualquer critério que possa ser usado para estabelecer a diferença entre os dois estados, podemos simplesmente ter sonhado que é verdadeira qualquer crença que tenhamos.
Antes de o leitor ir demasiado longe nos seus pensamentos na busca de provas conclusivas de que está acordado, vale a pena notar que o céptico tem resposta pronta para qualquer delas. Ele pode dizer que os sonhos seguem uma ordem, são claros, vívidos e assim por diante.
(…)
Descartes julga que o argumento do sonho prova muita coisa. No entanto, pensa que as imagens que experimentamos ao sonhar são como pinturas que podem ser formadas apenas com base em algo real. Quando, por exemplo, um pintor pinta um unicórnio, ele tem em mente algo real, nomeadamente, cavalos e cornos, e combina-os. Experiências oníricas têm de vir também de algo real. Porém, Descartes usa aqui das cautelas exigidas pelo método da dúvida. Talvez coisas gerais como mãos e lareiras não existam, mas pode ser que existam entidades mais simples e universais. Conclui que aspectos da natureza corpórea em si mesma – figura, quantidade, tamanho, número, lugar e tempo em geral – existem realmente, mas que crenças acerca de coisas particulares são agora suspeitas. Ele [com base no argumento do sonho] rejeita, portanto, as crenças a que se dedicam o estudo da Física, Astronomia e Medicina – numa palavra, quaisquer crenças que dependem de entidades compósitas. Só as crenças que não dependem da existência real de coisas particulares, como as da Matemática e Lógica, permanecem.
Descartes lança a dúvida sobre estas ao considerar a sua própria origem. Ou foi criado por um Deus todo-poderoso ou por um mecanismo menor, porventura uma série de acidentes ao acaso. Se foi Deus que o fez, é possível que tal ser o tenha construído de tal modo que mesmo as suas crenças sobre a Matemática e a Lógica sejam falsas. Podia ter sido construído a pensar que os triângulos tivessem quatro lados. Se deve a sua origem a algo menor, a uma série fortuita de acidentes, então é ainda mais provável que tenha defeitos de concepção. Seja como for, tem razão para duvidar da sua capacidade de formar crenças acerca de coisas simples e universais.
Ao concluir o seu argumento, ele escreve: ‘Nada tenho certamente a dizer em resposta a estes raciocínios, e sou constrangido a admitir que, de todas as opiniões que no passado aceitei como verdadeiras, não há nenhuma que não seja agora legitimamente posta em dúvida’. Para manter esta conclusão desconfortável em destaque, emprega um artifício psicológico, o chamado ‘Demónio Maligno’. Descartes diz que tem dificuldade em pensar que Deus o pode enganar. Portanto, imagina antes um demónio malicioso, tão poderoso e astucioso, como traiçoeiro, ocupado inteiramente em enganá-lo. Isto, em conjunção com os três argumentos acima, parece ter deixado Descartes com dúvidas acerca de todas as suas crenças.

O Cogito

Mas há uma crença, uma proposição resistente, da qual ele não pode absolutamente duvidar. Mesmo que ele seja enganado pelos seus sentidos, que esteja perdido num sonho, que a sua origem seja tal que ele seja um pensador imperfeito, até que um demónio vicioso esteja determinado a lançar sobre ele a confusão, permanece acima de qualquer dúvida que ele existe. Como Descartes diz: ‘ Penso, existo, é necessariamente verdadeiro, de cada vez que eu o expresso ou concebo na minha mente.’ Temos não só um dos mais famosos slogans filosóficos jamais escritos, mas também a primeira verdade, o fundamento sobre o qual Descartes reconstrói o seu sistema de conhecimento. A primeira verdade é por vezes designada ‘o Cogito’, abreviatura da expressão latina ‘Cogito, ergo sum’, ‘Penso, logo existo’.
O estatuto do Cogito tem ocupado os filósofos desde então. Numerosas questões se levantam quase instantaneamente. Trata-se da conclusão de um argumento? Não é claro como possa ser isso, visto que Descartes admitiu não ter crenças, quaisquer premissas com que construir um argumento. Além do mais, ele disse também não ter fé na sua capacidade de construir argumentos, não ter confiança na Lógica. Alguns vêem no Cogito não a conclusão de um argumento, mas uma espécie de descoberta epistémica: uma verdade indubitável na qual ele tropeça. Outros preocupam-se em saber se Descartes pode ter direito ao ‘Eu’ presente no Cogito. Não terá ele de direito apenas a qualquer coisa de menos, a dizer somente que o pensamento ocorre e não que quem o pensa é o próprio Descartes?

O círculo cartesiano

No entanto, Descartes tenta ir para a frente, olhando para novas verdades dentro da sua mente. Pensa um pouco acerca da natureza da dúvida e conclui que a dúvida é uma forma de imperfeição, em comparação com o conhecimento. A reflexão sobre a própria ideia de perfeição condu-lo a uma das várias provas da existência de Deus. Dada a natureza das suas várias dúvidas, Descartes sabe que não é um ser perfeito. Não obstante, tem a ideia de perfeição e essa ideia não lhe pode ter vindo de si mesmo ou de qualquer ser imperfeito. Pode apenas vir de um ser perfeito, nomeadamente, de Deus. Esta linha de pensamento conduz a uma versão do argumento ontológico de Anselmo. A ideia que Descartes tem de Deus é a de um ser com todas as perfeições. A existência é uma forma de perfeição; portanto, Deus tem de existir. Pensar em Deus como não existindo é como pensar num triângulo sem três lados. Assim como possuir três lados está no conceito de triangularidade, existência está no conceito de Deus. Se compreendemos bem a ideia de Deus, temos de aceitar que Deus existe.
O engano, nota Descartes, é uma forma de imperfeição e, por isso, conclui que Deus não pode ser enganador. Logo, podemos confiar nas nossas percepções claras e distintas; não somos sistematicamente enganados e a verdade tem de estar ao alcance das nossas capacidades. Reconstruir um sistema de crenças enraízado na percepção clara e distinta é a tarefa [seguinte].
Muitos notaram nesta linha de argumento um círculo demasiado fechado. Chegamos ao conhecimento de que Deus existe e não é enganador apenas porque aceitámos uma série de percepções claras e distintas. Sabemos que as nossas percepções claras e distintas são fiáveis porque Deus existe e não é enganador. Mas não depende a nossa fé nas percepções claras e distintas da prova de que Deus existe e não pressupõe essa prova a veracidade das nossas percepções claras e distintas?
O problema (…) é o de que o conhecimento parece ser uma coisa frágil. Descartes tem certamente sucesso na parte negativa do seu projecto, arrasando os fundamentos do conhecimento com os argumentos cépticos (…). No entanto, o seu esforço para erguer tudo a partir do nada constitui uma espécie de falhanço. Mas o seu objectivo principal, o de mostrar que uma compreensão científica do mundo é possível é algo que nós, modernos, tomamos como adquirido demasiado facilmente.

James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books. London & New York: Continuum, 2006.
Trad. Carlos Marques.

Historicidade dos valores.

As normas morais mudam de sociedade para sociedade, e modificam-se no decorrer da história. O antigo guerreiro considerava altamente moral fazer uma incursão em território inimigo e trazer de lá a cabeça dos adversários mortos. Os Romanos consideravam digno e meritório pôr a ferros os chefes dos exércitos derrotados, arrastá-los atrás do carro dos vencedores, e depois destruí-los. A nós, isso parece-nos um acto inútil, cruel e mesquinho. Os inquisidores torturavam as feiticeiras e depois queimavam-nas numa fogueira, convencidos de proceder em nome de Deus. Nós ficamos horrorizados.
A variedade dos costumes, as suas transformações no tempo demonstraram-nos que não existe um direito natural. A natureza não prescreve nada. A natureza não conhece a lei da sobrevivência do mais hábil. Só sobrevive quem conseguiu fugir às inúmeras insídias do ambiente, às infinitas armadilhas que lhes são estendidas pelos outros seres vivos. Quem conseguiu comer sem ser comido, quem conseguiu expulsar do seu nicho ecológico o concorrente mais perigoso ou conviver astutamente com ele. Quem conseguiu vencer os seus adversários na competição sexual, procriar, difundir o seu património genético.
Tudo é competição. Pelo território, pela comida, pelo sexo. E a competição desenvolve-se não só entre indivíduos, mas também entre sociedades organizadas como no caso dos insectos.
Ou então entre órgãos, mesmo a nível celular, entre espermatozóides. Esta competição não se desenvolve na base de princípios cavalheirescos ou seguindo regulamentos imutáveis. Cada nova espécie viola as regras anteriores, dá-lhe voltas, dá à competição novas formas. Os estratagemas para se conseguir a sobrevivência assumem todas as formas possíveis, e parecem-nos bizarros, geniais ou monstruosos.
Também nós, apesar da nossa cultura e da nossa moral, damo-nos conta de que estamos envolvidos nestas forças primordiais, na guerra e na fome. Quando a fome destrói os nossos sentimentos morais, transformando-nos em feras empenhadas numa luta sem quartel pela sobrevivência. [...].
A teoria do gene egoísta, elaborada pelos sociobiólogos, diz que os indivíduos não agem para maximizar a própria utilidade pessoal, mas para difundir os seus próprios genes. São os genes que utilizam os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem. Mas os genes são moléculas e não têm uma moralidade do tipo humano. Os homens julgam seguir os seus próprios princípios morais, quando na realidade obedecem apenas às exigências dos próprios genes.
A solidariedade social, segundo esta teoria, pode ser considerada um meio para aumentar a difusão dos genes. Se um homem se sacrifica para defender os seus consanguíneos, o pai, a mãe, o irmão, a irmã, os filhos, renuncia a procriar mas, em compensação, favorece uma bem maior proliferação dos genes semelhantes aos seus. Do ponto de vista do gene, o balanço é positivo.
A lealdade para com o grupo e o amor da pátria são, porém, todos explicáveis como consequência da selecção genética. Na competição pela existência, a ajuda recíproca favorece a sobrevivência das origens mais sociáveis. Contudo, nos momentos de grande escassez e de conflito violento, uma excessiva solidariedade e um excessivo altruísmo tornam-se perigosos. Nos campos de concentração não sobreviveram os mais generosos e os mais altruístas mas, frequentemente, os mais violentos ou aqueles que colaboravam com o inimigo.
Nós somos filhos de quem se demonstrou capaz de sobreviver. Quem se comportou de uma ou de outra forma. Quem se comportou de outra forma não pode falar. Os seus descendentes não chegaram a nascer. E ressurge assim a pergunta que, de tantas formas perturbou o Ocidente cristão. Os pobres de espírito, os mansos, os bons, os puros de coração, aqueles que não defendem com unhas e dentes o seu território e a sua prole, combatendo contra o inimigo, que não o aniquilam quando é perigoso, que não disseminam os próprios genes a todo o custo, esses estão em desvantagem na luta pela vida e não deixarão descendentes.
Apenas sobrevivem os filhos de Caim. Disse-o a sabedoria bíblica, Abel está morto. Apenas ficou Caim e nós somos a sua primogenitura. Também na evolução, todos aqueles que eram como Abel morreram. Com Abel a vida não se teria desenvolvido. Como se poderá continuar a repetir que Abel era bom e que Caim era mau? Uma moral que parte dos interesses e das necessidades, que quer favorecer a vida, encontra-se em sérias dificuldades para considerar boa a renúncia, a mansidão, o puro amor incondicionado.

Francesco Alberoni, Valores, Círculo de Leitores, 2001, trad. do italiano por Maria Carlota Álvares da Guerra, pp. 5-8.
Fotografia: Abutre e menina de Kevin Carter

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Porque interessa falar de Ética hoje.

Algumas pessoas pensam que a moral está ultrapassada, nos dias que correm. Encaram a moral como um sistema de proibições puritanas descabidas que se destinam sobretudo a evitar que as pessoas se divirtam. Os moralistas tradicionais pretendem ser os defensores da moral em geral, mas o que defendem na realidade é um determinado código moral. Apropriaram-se desta área a tal ponto que, quando uma manchete de jornal insere o título «bispo ataca a decadência dos padrões morais», pensamos logo que se trata de mais um texto sobre promiscuidade, homossexualidade, pornografia, etc., e não sobre as verbas insignificantes que concedemos para a ajuda internacional às nações mais pobres, nem sobre a nossa indiferença irresponsável para com o meio ambiente do nosso planeta.
Portanto, a primeira coisa a dizer da ética é que não se trata de um conjunto de proibições particularmente respeitantes ao sexo. Mesmo na época da SIDA, o sexo não levanta nenhuma questão ética específica. As decisões sobre o sexo podem envolver considerações sobre a honestidade, o respeito pelos outros, a prudência, etc., mas não há nisso nada de especial em relação ao sexo, pois o mesmo se poderia dizer de decisões respeitantes à condução de um automóvel. (Na realidade, as questões morais que a condução de um automóvel levanta, tanto do ponto de vista ambiental como do da segurança, são muito mais sérias do que as suscitadas pelo sexo.) Assim sendo, este livro não aborda a moral sexual. Há questões éticas bem mais importantes.
Em segundo lugar, a ética não é um sistema ideal, nobre na teoria, mas inútil na prática. O inverso está mais perto da verdade: um juízo ético que seja mau na prática sofre necessariamente de um defeito teórico, porque a finalidade do juízo ético é orientar a prática.
Algumas pessoas pensam que a ética é inaplicável ao mundo real, por a encararem como um sistema de regras curtas e simples do tipo «não mintas», «não roubes» ou «não mates». Não admira que quem adopta esta visão da ética pense que esta não se adapta às complexidades da vida. Em situações invulgares, as regras simples entram em conflito; e, mesmo quando isso não acontece, seguir uma regra pode levar ao desastre. Em circunstâncias normais pode ser um mal mentir, mas no caso de uma pessoa que vivesse na Alemanha nazi e a quem a Gestapo batesse à porta à procura de judeus, por certo seria correcto negar a existência de uma família judia escondida nas águas-furtadas.
Tal como o fracasso da moral sexual restritiva, o fracasso da ética baseada em regras simples não deve ser encarada como o fracasso da ética no seu todo. Não passa do fracasso de uma perspectiva da ética e nem sequer é irremediável. (...)
Em terceiro lugar, a ética não é algo que apenas se torne inteligível no contexto da religião.
Tratarei a ética como algo totalmente independente da religião.
Alguns teístas dizem que a ética não faz sentido sem a religião, porque o próprio significado de «bem» é «aquilo que Deus aprova». Platão refutou uma tese semelhante há mais de 2000 anos, argumentando que se os deuses aprovam uma acção, é porque essa acção é um bem; não pode ser a aprovação dos deuses que a torna um bem. (...)
Tradicionalmente, a ligação mais importante entre religião e ética baseava-se na ideia de que a religião proporcionava uma razão para praticar o bem. A razão apresentada era a de que os virtuosos seriam recompensados com a bem-aventurança eterna, enquanto os outros arderiam nas chamas do Inferno. Nem todos os pensadores religiosos aceitaram este argumento: Emmanuel Kant, que era um cristão devoto, rejeitava tudo o que parecesse uma obediência às leis morais motivada pelo interesse pessoal. Devemos obedecer-lhes, dizia, pelos seus méritos próprios. Mas não precisamos de ser kantianos para rejeitar as motivações oferecidas pela religião tradicional. Há uma longa tradição de pensamento, que encontra a origem da ética nas atitudes de benevolência e solidariedade para com os outros, que a maioria das pessoas possui. (...)

Peter Singer, Ética Prática, Lisboa, Ed. Gradiva, pp. 18-20.
Manifestação em Santiago de Compostela contra as condições de trabalho das mulheres nas fábricas da Zara, e do império Inditex. (Associação galega: Mulheres transgredindo)

quinta-feira, janeiro 24, 2008

De que falamos quando falamos de moral?


Harriet, a terrível
Harriet está no colégio, mas não é uma estudante muito simpática. Bate nos seus colegas e rouba o dinheiro que eles troxeram para comprar o lanche. Rasga os livros da biblioteca e parte as bicicletas das outras crianças. Na verdade, Harriet torna a vida dos outros alunos nada agradável.

Murphy, o assassino
Claro que todos nós fazemos coisas erradas. Em geral sentimo-nos culpados pelas nossas maldades. Sentimos que deveríamos tntar ser melhores do que somos. Fiz certamente muitas coisas pelas quais me senti culpado e que gostaria de não ter feito. E tenho a certeza de que isso é também uma verdade para si. Ninguém é perfeito.
Embora muitas das coisas que Harriet fez estejam erradas, há coisas piores. Vejam Murphy, por exemplo. Murphy é um cowboy. Também é um assassino. Dispara sobre viajantes indefesos e mata-os para lhes roubar o dinheiro. (...) É claro que matar uma pessoa é considerado uma das piores coisas que uma pesso pode fazer.

Moralidade
Ao dizer que algumas das coisas que Harriet e Murphy fazem são erradas, estou a falar sobre a moralidade do que fizeram. Harriet e Murphy não deveriam fazer o que fazem.
É claro que a moralidade não diz respeito apenas ao que não devemos fazer. Também diz respeito ao que devemos fazer. Diz respeito a fazer a coisa certa. Suponha que o senhor Black pediu emprestado um "balão" ao senhor Brown. Mas, enquanto o Sr. Black brinca , entusiasma-se e fura-o. O que deve fazer o Sr. Black? Pensa atirar o balão para o jardim do Sr Brown, sem que ele veja e fugir antes que ele descubra. Mas o Sr. Black faz a coisa certa. Confessa ao Sr. Brown que furou o balão. Concorda em consertá-lo.
Pagar as dívidas, ajudar as pessoas em seus contratempos, dizer a verdade são outros exemplos de fazer aquilo que é correcto.
Quando falamos de moralidade - do certo e do errado -, estamos a falar sobre o modo pelo qual deveríamos viver a vida. A maioria de nós sente que é moralmente errado mentir, enganar, roubar e matar. Sentimos que devemos ser honestos e dignos de confiança. Sentimos que devemos tratar as outras pessoas com respeito.


Stephen Law, Os Arquivos filosóficos, Martins Fontes, S.Paulo, 2003 (Trad. , adaptada)
Ilustração: Correggio, Retrato de um jovem ,1525

terça-feira, janeiro 22, 2008

O campeão dos cavalos de pau.


O Paulo sabia qual o cavalo que ia vencer a corrida. Sentia-se seguro quanto a isso e sempre que sentira esta certeza no passado, nunca se enganara.
A convicção do Paulo não se baseava no estudo de cavalos; nem o Paulo tinha visões do futuro. Muito simplesmente, o nome dos vencedores ocorria-lhe quando se punha a baloiçar no seu cavalo de pau (embora fosse já demasiado crescido para isso).
O Paulo não ganhava todas as suas apostas (incluindo aquelas que os adultos que conheciam o seu segredo faziam em seu nome). Por vezes, sentia-se menos seguro e noutras ocasiões não sabia de todo o que fazer, deitando-se apenas a adivinhar. Porém, nesses casos não apostava grandes somas. Quando se sentia completamente seguro, isso sim, apostava quase todo o dinheiro que tinha. Até à data, o método nunca o deixara ficar mal.
Óscar, um dos seus colaboradores adultos, não tinha dúvida de que Paulo possuía um dom misterioso, mas não se convencera de que Paulo conhecesse realmente os cavalos vencedores. Não bastava para isso que o Paulo tivesse sempre ganho até agora. Sem saber porque é que acertava, os fundamentos das suas crenças seriam sempre incertos para poderem ser considerados verdadeiro conhecimento. Apesar disso, Óscar não deixou de apostar algum do seu dinheiro nas dicas do Paulo.

O que é o conhecimento por oposição à mera crença correcta? Tem de haver alguma diferença. Por exemplo, imagine que alguém que nada sabe de geografia encontra um cartão com uma lista dos principais países e suas capitais. Pode ler-se: Reino Unido - Edimburgo; Espanha - Barcelona; Itália - Roma. Essa pessoa aceita o que o cartão diz tal qual e, portanto, acredita que estas cidades são na realidade as capitais dos seus respectivos países. Engana-se em todos os casos, excepto num, Roma. Embora acredite que Roma é a capital de Itália e esteja nisso correcto, é justo dizer que ele sabe que isso é verdade? A sua crença baseia-se numa fonte demasiado fraca para poder contar como conhecimento. Dá-se apenas o caso de nesta circunstância, contrariamente ao habitual, a sua fonte estar correcta. A sua crença verdadeira não lhe dá mais conhecimento do que lhe daria a circunstância de ter adivinhado o nome da capital de Itália.
É por esta razão que os filósofos insistem usualmente que as crenças verdadeiras têm de ser justificadas de um modo apropriado para poderem contar como conhecimento. Mas que tipo de justificações são essas? No caso de Paulo, a sua pretensão ao conhecimento baseia-se num simples facto: a fiabilidade da fonte das suas crenças. Quando se sente convencido que sabe o nome do cavalo vencedor acerta sempre.
O problema é que o Paulo não tem ideia de onde vem essa convicção. A evidência de que esta fornece um caminho fiável para o conhecimento provém somente dos resultados até à data, mas isto não mostra que o mecanismo não é de confiança. Por exemplo, pode ser que alguém que tenha o poder de viciar os resultados da corrida consiga, de algum modo, colocar na mente do Paulo os nomes dos cavalos vencedores, sendo o seu objectivo o de um dia colocar na mente do rapaz um nome errado arrebatando-lhe assim todas as poupanças que acumulou. Tal como a falta de fiabilidade da lista das capitais de países do cartão não pode ser fonte de conhecimento, mesmo se algum dos exemplos é correcto, também a falta de fiabilidade introduzida pela hipótese do viciador de corridas mostra que os nomes que ele coloca na mente do Paulo não podem ser fonte de conhecimento, mesmo se bateram sempre certo até agora.
E se a fonte das crenças do Paulo é algo genuinamente misterioso? E se não é algo do tipo de um viciador de corridas, que sabemos não digno de confiança, mas simplesmente algo que não conseguimos explicar? Nesse caso, o único juíz sobre o que é ou não digno de confiança seria a experiência do passado. Isso abriria a possibilidade de erro no futuro. E será que há algum caminho para um conhecimento seguro sobre o qual não tenhamos dúvidas sobre a sua fiabilidade futura?

Julian Baggini, The Pig That Wants To Be Eaten... (London, 2005).  Trad. De Carlos Marques.
Ilustração: As corridas de cavalos, Degas, Paris, 1911

NÃO BASTA CRER PARA CONHECER

Joseph Koudelka, Carnaval em Olomouc, Checoslováquia, 1968

Tipos de Conhecimento
No quotidiano (…) falamos acerca do “conhecimento” de coisas. Dizemos também que certas crenças estão “fortemente apoiadas por provas”; que elas estão “justificadas” ou “bem confirmadas”.(…)
A epistemologia tenta avaliar a ideia do senso comum de que possuímos (frequentemente, senão sempre) realmente conhecimento e que as crenças que temos estão (frequentemente, senão sempre) racionalmente justificadas. Alguns filósofos tentaram defender com argumentação filosófica estas ideias do senso comum. Outros desenvolveram uma posição filosófica que nega estas ideias do senso comum. Um filósofo que sustenta que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, está a defender uma versão de cepticismo filosófico. (…)

Três tipos de conhecimento
Antes de perguntar-mos a nós mesmos se conhecemos alguma coisa, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Para focar ideias, quero distinguir três diferentes sentidos em que podemos falar de conhecimento. (…)
Considere-se a diferença entre as declarações seguintes, relativas a um sujeito, a quem chamarei S (o sujeito):

(1) S sabe andar de bicicleta.
(2) S conhece o Presidente dos Estados Unidos.
(3) S sabe que as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte.

Chamo conhecimento proposicional ao tipo de conhecimento apresentado em (3). Note-se que o objecto do verbo em (3) é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte — e (3) afirma que S sabe que essa proposição é verdadeira. As frases (1) e (2) não têm esta estrutura. O objecto do verbo em (2) não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo tipo de conhecimento estaria envolvido se eu dissesse que S conhece Chicago. A afirmação (2) diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso, direi que (2) descreve uma instância de conhecimento por contacto.(…)
Consideremos agora o tipo de conhecimento descrito na afirmação (1). Chamar-lhe-ei conhecimento de saber fazer. Que significa dizer que sabemos fazer qualquer coisa? Penso que esta ideia tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. O meu filho Aaron sabia andar de bicicleta aos cinco anos. Isso significa que ele tinha certas aptidões – sabia como manter o equilíbrio, como pedalar, e por aí fora. Se perguntar a um físico para descrever o que Aaron fazia para poder andar na bicicleta, ele poderia pôr por escrito um conjunto de proposições. Estabeleceria factos acerca da gravidade, do movimento para a frente, do equilíbrio de forças. Porém, Aaron, com a idade de cinco anos, não era um físico. Não conhecia as proposições que o físico especifica. Aaron obedece aos princípios que o físico descreve – o seu comportamento está em conformidade com o que aqueles dizem. Mas não o faz aprendendo as proposições em questão. Aaron possui um conhecimento de saber-fazer, mas pouco conhecimento do tipo proposicional. Conversamente, um físico que tem um conhecimento detalhado dos princípios físicos que descrevem como se deve andar de bicicleta pode, não obstante, não saber como andar de bicicleta. (…) Não necessitamos de conhecimento proposicional para saber executar uma tarefa, nem ele é suficiente para tal.

Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade
Devemos fazer notar desde já duas ideias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, se S sabe que p, então tem de acreditar que p. Segundo, se S sabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. (…)
A segunda ideia requer alguma explicação. As pessoas dizem às vezes que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Ora, isto não quer dizer que sabem coisas que são falsas, mas que pensavam que sabiam coisas que, de facto, se revelaram falsas.
O conhecimento tem um lado subjectivo e um lado objectivo. Um facto é objectivo se a sua verdade não depende da mente das pessoas. É um facto objectivo que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar. Por outro lado, um facto é subjectivo se não é objectivo. O exemplo mais óbvio de um facto subjectivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém. Se uma pessoa acredita ou não que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar é uma questão subjectiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objectiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjectivo como um elemento objectivo. Para que S conheça p, p tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que p é verdadeira.

Elliott Sober, Core Questions in Philosophy (New York, 1991). Trad. Carlos Marques.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Sobre a Amizade.

Jackson Pollock, Lavande, 1950

Os que têm a amizade com base na utilidade gostam uns dos outros pelo bem que os outros lhes fazem; os que têm uma amizade com base no prazer, gostam uns dos outros pelo próprio prazer que lhes dá. Nestes casos há amizade não pelo facto de outrem ser em si susceptível de amizade e amor, mas porque é útil e agradável. Estas formas de amizade são, portanto, meramente acidentais. porque não se gosta do outro apenas por aquilo que ele é, mas por ser vantajoso ou ser agradável. Estes laços de amizade são os que mais facilmente se rompem, sobretudo se os que por eles estão envolvidos com outros, não ficarem os mesmos e se tiverem tornado diferentes ao longo do tempo. Isto é, deixam de ser amigos, quando o prazer acaba ou deixa de haver vantagens. A utilidade não permanece a mesma ao longo do tempo, mas altera-se conforme a diferença das circunstâncias. Ora se deixar de existir utilidade, também cessa o motivo para a amizade. Assim, ela dissolve-se, como se tivesse apenas existido como meio para obtenção de vantagens, como o fim em vista. É sobretudo entre os mais velhos que nasce esta forma de amizade(...).

A amizade entre os jovens parece existir com base no prazer, porque estes vivem de paixões e perseguem sobretudo o seu próprio prazer e aquele que se oferece no momento presente. À medida que a idade passa, também são outras as coisas que lhes dão prazer.É por esse motivo que tão depressa arranjam amigos como deixam de os ter. A amizade altera-se com o que dá prazer e a alteração do objecto de prazer é muito rápida nestas idades (...)

Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. Estes querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo. E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. Estes são assim amigos, de uma forma suprema. Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem; e na verdade, a excelência é duradoura. Cada um deles é um bem absoluto para o seu amigo. Os homens de bem são absolutamente bons e úteis aos outros; também são agradáveis entre si, porque quem é absolutamente bom também é absolutamente agradável.


Aristóteles, Ética a Nicómaco, Quetzal, 2004, Lx


Tradução do grego de António C. Caeiro

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Como os príncipes devem honrar a sua palavra


Todos concordaram que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que houve grandes príncipes que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade.

Convém saber que existem duas maneiras de combater: pelas leis e pela força. A primeira é própria dos homens: a segunda é própria dos animais. Mas como, muitas vezes, aquela não chega, há que recorrer a esta e, por isso, o príncipe precisa de saber ser animal e homem. Esta regra foi ensinada aos príncipes, em palavras veladas, pelos antigos autores que escreveram como Aquiles, e vários outros grandes senhores do tempo passado foram confiados ao centauro de Quíron, para os educar sob a sua disciplina. Ter, assim, por preceptor um ser meio animal, meio homem, só significa que um príncipe precisa de saber utilizar uma e outra natureza e que uma sem a outra não é duradoura. Já que um príncipe deve saber utilizar bem a natureza animal, convém que escolha a raposa e o leão: como o leão não se sabe defender das armadilhas e a raposa não se sabe defender dos lobos, é necessário ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para meter medo aos lobos. Os que querem fazer apenas de leão não percebem nada do assunto. Por conseguinte, o senhor sensato não pode respeitar a fé dada se essa observância o prejudica e se as causas que o levaram a fazer promessas deixaram de existir. Se os homens fossem todos gente de bem, o meu preceito seria nulo, mas como são maus e não respeitariam a palavra que te dessem, se não lhes conviesse, também não és obrigado a respeitares a que lhes deres. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra, e seriam infinitos os exemplos do tempo presente, demonstrativos de quantas pazes, quantas promessas foram feitas em vão e reduzidas a nada por infidelidade dos príncipes, e demonstrativos também de que as coisas correram melhor aos que melhor souberam representar o papel de raposa. Mas é indispensável saber ocultar este pendor, disfarçá-lo bem. Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar.
Maquiavel, O Príncipe, Europa América, Lx, s.d
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Agir por amor ao dever

Gauguin, Café nocturno de Arles, 1888

Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade. (...) Bom, na prática, é aquilo que determina a vontade por meio de representações da razão, por conseguinte não por causas subjectivas, mas objectivamente, quer dizer por princípios que são válidos para todo o ser racional como tal (...). Distingue-se do agradável, pois que este só influi na vontade por meio da sensação em virtude de causas puramente subjectivas que valem apenas para a sensibilidade deste e daquele, e não como princípio da razão que é válido para todos (...)


O imperativo categórico é portanto só um único, que é este: Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal (...).


Uma pessoa encontra em si um talento natural que , cultivado em certa medida, poderia fazer dele um homem útil sob vários aspectos. Mas encontra-se em circunstâncias cómodas e prefere ceder ao prazer a esforçar-se por alargar e melhorar as suas felizes disposições naturais. Mas está em condições de poder perguntar ainda a si memo se, além da concordância que a sua máxima do desleixo dos seus dons naturais tem com a sua tendência para o gozo, ela concorda com aquilo que se chama dever. E então vê que na verdade uma natureza com uma tal lei universal poderia ainda subsistir, mesmo que o homem ( como os habitantes dos mares do Sul) deixasse enferrujar o seu talento e cuidasse apenas de empregar a sua vida na ociosidade, no prazer, na propagação da espécie, numa palavra, no gozo; mas não pode querer que isto se transforme em lei universal da natureza ou que exista dentro der nós por instinto natural. pois como ser racional quer ele necessariamente que todas as suas faculdades se desenvolvam, porque lhe foram dadas e lhe servem para toda a sorte de fins possíveis.




Imannuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos costumes, Coimbra, A.Amado, 1960

quarta-feira, janeiro 09, 2008

O Conhecimento não é só uma crença verdadeira.



Argumento de Platão no Teeteto.

Sócrates: Diz-me, então, qual a melhor definição que poderíamos dar de conhecimento, para não nos contradizermos?
(…)
Teeteto: A de que a crença verdadeira é conhecimento? Certamente que a crença verdadeira é infalível e tudo o que dela resulta é belo e bom.
(…)
Sócrates: O problema não exige um estudo prolongado, pois há uma profissão que mostra bem como a crença verdadeira não é conhecimento.
Teeteto: Como é possível? Que profissão é essa?
Sócrates: A desses modelos de sabedoria a que se dá o nome de oradores e advogados. Tais indivíduos, com a sua arte, produzem convicção, não ensinando mas fazendo as pessoas acreditar no que quer que seja que eles queiram que elas acreditem. Ou julgas tu que há mestres tão habilidosos que, no pouco tempo concebido pela clepsidra sejam capazes de ensinar devidamente a verdade acerca de um roubo ou qualquer outro crime a ouvintes que não foram testemunhas?
Teeteto: Não creio, de forma nenhuma. Eles não fazem senão persuadi-los.
Sócrates: Mas para ti persuadir alguém não será levá-lo a acreditar em algo?
Teeteto: Sem dúvida.
Sócrates: Então, quando há juízes que se acham justamente persuadidos de factos que só uma testemunha ocular pode saber e mais ninguém, não é verdade que ao julgarem esses factos por ouvir dizer, depois de terem formado deles uma crença verdadeira, pronunciam um juízo desprovido de conhecimento, embora tendo uma convicção justa e dando uma sentença correcta?
Teeteto: Com certeza.
Sócrates: Mas, meu amigo, se a crença verdadeira e o conhecimento fossem a mesma coisa, os melhores juízes não podiam ter uma crença verdadeira sem ter conhecimento.
Teeteto: Eu mesmo já ouvi alguém fazer essa distinção, Sócrates; tinha-me esquecido dela, mas voltei a lembrar-me. Dizia essa pessoa que a crença verdadeira acompanhada de razão (logos) é conhecimento e desprovida de razão (logos), não.”

Platão, Teeteto, 201 ac
Ilustração: Os advogados do Sr. Germano por Galvão, Brasil

Não estamos programados.


O único ponto sobre o qual, à primeira vista, os seres humanos estão de acordo é que nem todos estamos de acordo. Mas lembra-te de que as opiniões diferentes coincidem também num outro ponto; a saber, que aquilo que vai ser a nossa vida é, pelo menos, em parte, resultado do que quiser cada um de nós. se a nossa vida fosse algo completamente determinado e fatal, irremediável, todas estas questões careceriam do mínimo sentido. Ninguém discute para saber se as pedras caem para cima ou para baixo: caem para baixo, ponto final. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No seu meio natural, cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussão nem dúvidas. Não há animais maus nem bons na Natureza, embora talvez a mosca considere má a aranha que lhe lança a sua teia e a come. Mas a aranha não o pode evitar.

E chegamos assim à palavra fundamental de toda esta embrulhada: liberdade. Os animais (para já não falarmos nos minerais e nas plantas) não podem evitar ser como são e fazer aquilo que naturalmente estão programados para fazer. Não se lhes pode censurar que o façam nem aplaudi-los pelo que fazem, porque não sabem comportar-se de outro modo. As suas disposições obrigatórias poupam-lhes, sem dúvida, muitas dores de cabeça. Em certa medida, de início, nós, os homens também estamos programados pela natureza. Estamos feitos para beber água e não lixívia, e tomemos as precauções que tomarmos, mais cedo ou mais tarde, morremos. E de modo menos imperioso mas análogo, o nosso programa cultural é também determinante: o nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma ( uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventámos para nosso uso pessoal) e somos educados em certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...; numa palavra, são-nos inculcadas desde o berço certas fidelidades e não outras. Tudo isto pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis.

Com os homens nunca podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres naturais, sim. Por grande que seja a nossa programação biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente). Podemos dizer "sim" ou "não", quero ou não quero. Por muito apertados que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho a seguir, mas sempre vários.

Fernando Savater, Ética para um jovem, Lx, 1998



segunda-feira, janeiro 07, 2008

O que são os valores?


 O que são os valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades.

Nos objectos mencionados há algumas qualidades que parecem essenciais para a própria existência dos objectos, por exemplo, a extensão. Mas o valor não confere nem agrega ser, pois a pedra existia plenamente antes de ser talhada, antes de se transformar num bem.

Enquanto as qualidades primárias não se podem eliminar dos objectos, bastam uns golpes de martelo para terminar com a utilidade de um instrumento ou a beleza de uma estátua. Antes de incorporar-se no respectivo portador ou depositário, os valores são meras "possibilidades", isto é, não têm existência real mas virtual.
Ver-se-á melhor a diferença se se comparar a beleza, que é um valor, com a ideia de beleza, que é um objecto ideal. Captamos a beleza primordialmente por via emocional, enquanto a ideia de beleza aprende-se por via intelectual.
Com o fim de distinguir os valores dos objectos ideais, afirma-se que estes são, enquanto os valores não são mas valem.
Uma característica fundamental dos valores é a polaridade. Enquanto as coisas são o que são, os valores apresentam-se desdobrados num valor positivo e o correspondente valor negativo. Assim, a beleza opõe-se à fealdade, o mal ao bem. A polaridade implica a ruptura com a indiferença. Não há obra de arte que seja neutra, nem pessoa que se mantenha indiferente a escutar uma sinfonia, ler um poema ou ver um quadro.
Aliás os valores estão ordenados hierarquicamente, isto é, há valores inferiores e superiores. É mais fácil afirmar a existência de uma ordem hierárquica do que indicar qual é essa ordem e quais são os critérios para a estabelecer.
Muitos são os axiólogos que têm enunciado uma tábua de valores, pretendendo que essa seja a "TÁBUA", mas a crítica mostra rapidamente os erros de tais tábuas e dos critérios usados na sua elaboração.
O homem individualmente, bem como as comunidades e os grupos culturais concretos, manejam sempre uma tábua de valores. É certo que tais tábuas não são fixas, mas flutuantes, e nem sempre coerentes; porém é indubitável que o nosso comportamento frente ao próximo, aos seus actos, às suas criações estéticas (...) é julgá-los e preferi-los de acordo com uma tábua de valores. Submeter essas tábuas de valores, que obscuramente influem na nossa conduta e nas nossas preferências, a um exame crítico, é a tarefa a que o homem moderno não pode renunciar.
Frondizi, Qué son los valores? (México, Fondo de Cultura Económica).
Ilustração: Paul Gauguin, Les Alychamps, 1888

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Os valores dependem dos gostos

Vivienne Westood, Foto de desfile


" As questões sobre os valores - isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram - a de que as questões sobre "valores" estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem "valor", estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. (...)


Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste em criar nos outros emoções semelhantes às suas - ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua actividade.


Quando um homem diz "Isto é bom em si" parece estar a exprimir uma proposição como se tivesse dito "Isto é um quadrado" ou "Isto é doce". Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é "Quero que toda a gente deseje isto", ou melhor, "Quem me dera que toda a gente desejasse isto". Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na Ética. (...)


Se esta análise está correcta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral - e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso.


A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da "subjectividade" dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz "As ostras são boas" e outro diz "Eu acho que são más" , reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que as das ostras. A razão principal para adoptar esta perspectiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens tem. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos de chegar à conclusão de que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objectiva.

Bertrand Russell, Ciência e Ética, 1935. Tradução de Paula Mateus