sábado, janeiro 31, 2009


COMO USAM OS FILÓSOFOS AS CELULAZINHAS CINZENTAS

Raciocinar em filosofia é semelhante a raciocinar em outras áreas. Frequentemente raciocinamos acerca de questões como 'Quem cometeu o crime?', 'Que carro comprar?',  'Há um número primo maior do que todos?' ou 'Como curar o cancro?' Ao abordar estes temas, clarificamos as questões e colhemos informação de fundo. Consideramos o que outros disseram sobre o assunto. Consideramos perspectivas alternativas e as objecções a estas. Fazemos distinções e pesamos os prós e contras. O clímax do processo atinge-se quando tomamos posição e tentamos justificá-la. Explicamos que a resposta tem de ser tal e tal e apontamos para outros factos que justificam a nossa resposta. Isto é raciocínio lógico, no qual vamos de premissas para uma conclusão.
Raciocinar logicamente é concluir algo a partir de algo diferente. Por exemplo, concluir que foi o mordomo que cometeu o homicídio a partir das crenças (1) ou foi o mordomo ou a criada e (2) a criada não pode ter sido. Se colocamos o racicínio em palavras temos um argumento - uma série de proposições consistindo em premissas e uma conclusão:

Ou foi o mordomo ou a criada.
A criada não foi.
Logo, foi o mordomo.

[…] Este argumento é válido, o que significa que a conclusão se segue logicamente das premissas. Se as premissas são verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. Portanto, se podemos ter confiança nas premissas, podemos estar confiantes de que foi mordomo que cometeu o crime.
Dizer que um raciocínio é válido é dizer que a conclusão se segue das premissas e não que as premissas são verdadeiras. Para provar algo precisamos, além da validade do argumento, de premissas verdadeiras. Provamos a nossa conclusão se ela se segue logicamente de premissas claramente verdadeiras.  
A filosofia envolve muito raciocínio lógico. A forma mais comum de raciocínio lógico em filosofia consiste em atacar-se uma tese P argumentando que ela conduz ao absurdo Q:

Se P é verdadeiro, então Q também o será.
Q é falso.
Logo, P é falso.

Ao examinarmos uma tese, consideramos as suas implicações e vamos à procura das falhas. Se encontramos implicações claramente falsas, então mostrámos que a tese é falsa; se encontramos implicações altamente duvidosas, então a tese é duvidosa.
Na formação das nossas perspectivas filosóficas são igualmente importantes o raciocínio e o empenho pessoal. O raciocínio só por si não resolve todas as disputas. Uma vez considerados os argumentos de um lado e de outro, temos de tomar uma decisão. Se nos decidimos por uma perspectiva que levanta fortes objecções, temos de estar à altura de lhes responder.

Harry Gensler, Ethics - A Contemporary Introduction. (London & New York, 1998, p. 3). Tradução de Carlos Marques.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Os Exemplos contrários de Gettier

Henry está a ver televisão numa tarde de Junho. Assiste à final masculina de Wimbledon e, na televisão, McEnroe vence Connors; o resultado é de dois a zero e «match point» para McEnroe no terceiro «set». McEnroe ganha o ponto. Henry crê justificadamente que
1 acabei de ver McEnroe ganhar a final de Wimbledon deste ano, e infere sensatamente que
2 McEnroe é o campeão de Wimbledon deste ano.
No entanto, as câmaras que estavam em Wimbledon deixaram na realidade de funcionar, e a televisão está a passar uma gravação da competição do ano passado. Mas enquanto isto acontece, McEnroe está prestes de repetir a retumbante vitória do ano passado. Portanto a crença 2 de Henry é verdadeira, ele tem decerto justificação para nela crer. Contudo, dificilmente aceitaríamos que Henry conhece 2.
Este tipo de exemplo contrário à descrição tripartida do conhecimento é conhecido como exemplo contrário de Gettier, segundo E. L. Gettier (1963). (Devo este exemplo específico a Brian Garrett.) Gettier argumentava que eles mostram que a descrição tripartida é insuficiente; é possível que alguém não conheça, mesmo que as três condições sejam realizadas.
Gettier não põe aqui em causa nenhuma das três condições. Aceita que elas são individualmente necessárias, e apenas argumenta que precisam de ser complementadas. (...)
O exemplo contrário de Gettier é por conseguinte um exemplo em que "a" tem uma crença justificada mas falsa por inferência a partir da qual ele justificavelmente crê que algo que acontece é verdadeiro, e chega deste modo a uma crença verdadeira justificada que não é conhecimento.
Que resposta poderá ser dada a estes infames mas ligeiramente irritantes exemplos contrários? Parece haver três vias possíveis:
1 encontrar algum meio de demonstrar que os exemplos contrários não funcionam;
2 aceitar os exemplos contrários e tentar encontrar um complemento à análise tripartida que os exclui;
3 aceitar os exemplos contrários e alterar a análise tripartida para os incluir em vez de lhe acrescentar o que quer que seja.
O restante prende-se com a primeira via.
Em que princípios de inferência se baseiam estes exemplos contrários? O próprio Gettier apresenta dois. Para que os exemplos funcionem, deve ser possível que uma crença falsa continue a ser justificada; e uma crença justificada deve justificar qualquer crença que ela implique (ou que se creia justificadamente que implique). Este último é precisamente o princípio da oclusão POj acima mencionado na discussão do cepticismo (1.2). Portanto, se pudéssemos mostrar que POj é falso, isto teria o duplo efeito de destruir os exemplos contrários de Gettier bem como (pelo menos em parte) o primeiro argumento céptico. Poderia ser, contudo, possível construir novas variantes do tema Gettier que não se baseiam na inferência ou numa inferência deste tipo, como veremos a seguir, e sendo assim não há queixas acerca do PO% ou de outros princípios que venham a ser muito eficientes.
Uma coisa que não podemos fazer é rejeitar os exemplos contrários de Gettier como forjados e artificiais. São perfeitamente eficientes nos seus próprios termos. Mas poderíamos sensatamente perguntar de que serve cansar o cérebro a descobrir uma definição aceitável de «a sabe que p». Será isto mais do que um mero exercício técnico? O que nos desconcertaria no facto de não conseguirmos elaborar uma definição à prova de problemas? Muitas das inúmeras dissertações escritas em resposta a Gettier dão a impressão de que responder a Gettier é uma espécie de jogo filosófico privado, que não tem qualquer interesse a não ser para os jogadores. E não nos demonstrou afinal Wittgenstein que um conceito pode ser perfeitamente legítimo sem ser definível, argumentando que não é indispensável que exista qualquer elemento comum a todos os casos de uma propriedade (p. ex. casos de conhecimento) para além do facto de serem casos (p. ex. de que são conhecimento)? (Cf. Wittgenstein, 1969b, pp. 17-18, e 1953, §§ 66-7.) Então o que é que poderia afinal depender do nosso êxito ou malogro para descobrir condições necessárias e suficientes para o conhecimento?
Ver mais aqui

Jonathan Dancy (1990), Epistemologia Contemporânea, Ed.70, Lx

domingo, janeiro 18, 2009


JÁ NÃO HÁ MESTRES

Há cerca de um mês ou dois atrás, este blogue foi muito procurado como palco para acusar indiscriminadamente os professores de abuso de autoridade. Agora que as águas acalmaram um pouco, gostaria de voltar à questão, discutindo a autoridade do professor a um nível de abstracção um pouco mais elevado.

O ensino, a transmissão de saber (é este, e não outro, o propósito da 'relação pedagógica'), pressupõe, como todos sabemos, uma relação entre duas entidades, o professor e o aluno. Essa relação, ao contrário do que dizem certas visões em voga, é inevitavelmente desigual, pois supõe uma hierarquia natural. Se é necessário que o conhecimento seja transmitido, não se pode evitar uma relação entre quem sabe e pode em princípio ensinar (o professor) e aquele que não sabe e quer, ou precisa de, aprender (o aluno). Isto é tão óbvio que só por cegueira ideológica ou por outras razões ainda mais rasteiras se pode negar.

A autoridade ou superioridade do professor (deixemo-nos da pieguice eufemística do português-suave e chamemos os bois pelos nomes!) quer dizer apenas uma coisa: há alguém (aluno) que depende de alguém (o professor) para alcançar um determinado objectivo pessoal (aprender algo). Esta relação não é necessariamente escolar e, por isso, não depende de um enquadramento institucional. Se quero, por exemplo, saber mais sobre o conflito israelo-palestiniano não tenho de ir tirar um curso. Posso ler um livro ou ver um documentário sobre o assunto. A hierarquia natural, não obstante, mantém-se.

A ideologia subjacente ao que podemos chamar igualitarismo pedagógico decorre da conveniente diabolização saloia de palavras como autoridade, hierarquia, excelência, disciplina, esforço, etc. Até o ensino já não é 'ensino', mas ‘ensino-aprendizagem’. A ideia que se faz passar é a seguinte: admitir a ascendência do professor na relação pedagógica implica a diminuição da pessoa do aluno ou, pelo menos, o menosprezo pela contribuição activa deste nessa relação. Ora, é preciso dizer com toda a veemência: ambas as implicações são falaciosas!

Consideremos, em primeiro lugar, a última destas. É certíssimo que o aluno pode (e deve) ter um papel relevante, mesmo decisivo, numa aula. Para além de um mínimo de boa educação (respeito pelos outros, solidariedade para com os colegas, etc.), o aluno contribui para uma aula quando, procurando seguir as matérias, coloca dúvidas, estabelece relações criativas entre as matérias leccionadas e outros conhecimentos, estimulando o professor a ser, ele próprio, mais engenhoso e criativo. Portanto, tem de ser dado espaço aos alunos para contribuir. Mais, o professor deve encorajar a participação fecunda dos alunos. Todos ganham com isso. Lembro-me, a este propósito, com saudade, de uma aluna que tive o ano passado, de seu nome Maria Belo (não desfazendo em muitos outros queridos alunos da mesma e de outras turmas), sem a qual as minhas aulas eram sempre piores. Porém, por muito que me possa desfazer em elogios por estes alunos, não posso deixar de constatar que são eles, nas circunstâncias em que nos conhecemos e nos relacionamos, que dependem de mim para aprender e não o oposto. O professor que não assuma isto, está a sacudir a água (a sua responsabilidade enquanto professor) do capote. É evidente que eu próprio, frequentemente, aprendo coisas (mesmo na minha área) por efeito das intervenções dos alunos. Mas isso que 'aprendo' com eles é, na maior parte das vezes, mais suscitado do que ensinado por eles. Há, no entanto, ocasiões em que aprendo coisas com alunos que supõem transmissão de saber. Mas aí são eles os professores e eu o aluno. Logo, sou eu que nessa relação estou numa posição de dependência ou inferioridade.

Passo agora ao segundo ponto. A superioridade do professor na relação pedagógica é comparável à superioridade do capitão de um navio no alto mar relativamente aos passageiros que nada percebem das artes náuticas. Estes, se querem chegar a bom porto, têm de se pôr nas mãos do ‘lobo do mar’. A superioridade do professor na relação pedagógica é fundada no seu superior conhecimento de uma dada matéria. E apenas neste! Portanto, tal como a situação de inferioridade em que se encontra o passageiro não lhe retira a dignidade enquanto indivíduo, também a situação de inferioridade do aluno na relação pedagógica não implica inferioridade pessoal. Na verdade, tal como o capitão do navio, o professor está ao serviço do aluno, põe o seu saber ao serviço do aluno! Até certo ponto, o professor é mesmo um criado do aluno (excepto no sentido em que o aluno não procuraria um professor se soubesse o que este sabe, ao passo que aquele que procura um criado pode saber o que este sabe, simplesmente não quer perder tempo ou ter trabalho a ocupar-se de certas actividades)!

Um último ponto importante. Reconhecer a autoridade (epistémica) do professor significa impor uma enorme responsabilidade sobre aqueles que ensinam. E é essa responsabilidade que muitos professores não querem, infelizmente, assumir. Ela exige muito trabalho para garantir uma grande solidez científica e também para manter a actualização necessária para reforçar aquela.
A pedagogia que põe o professor ao nível do aluno só serve os professores que não estão para estudar e se querem ‘safar’ com ‘conversa fiada’ e iniciativas pseudo-pedagógicas ou, na melhor das hipóteses, os professores que, apesar de terem estudado seriamente no passado, querem agora limitar-se a viver desses rendimentos.

É claro que muitos destes professores dizem, por exemplo, ‘há-des’ em vez de ‘hás-de’ ou trocam a segunda pessoa do singular pela do plural [‘(tu) fizestes’ em vez de ‘fizeste’]; alguns preferem mesmo usar, num esforço de acompanhar os tempos, adjectivos no lugar de substantivos (‘A problemática do conhecimento…’, em vez de ‘o problema do conhecimento…’) ou adjectivos em vez de advérbios (‘’É preciso andar rápido.’ em vez de ‘É preciso andar rapidamente’). E as trapalhadas e pobreza científicas? Deixem-me estar calado… Quantas voltas na tumba já deram Galileus, Eças ou Platões... Mas, pensando bem, que importa tudo isso se apostarmos nos ‘afectos’, nas ‘novas tecnologias’, nas ‘novas estratégias’, na ‘socialização’? Há várias vantagens: ele é ver os alunos (e os pais dos alunos) a tornarem-se nossos ‘amigos’ enquanto o diabo esfrega um olho; ele é ver os colegas a admirar (ou invejar) o nosso ‘dinamismo’ e ‘empenho’ (remédio santo para a neura de estar em casa sem saber o que fazer ou, pior, de aturar o querido cônjuge); finalmente, e acima de tudo, irradiamos todo este fogo de vista sem precisar de fazer mais do que dar uma vista de olhos à pressa pelo manualzinho (ele próprio muitas vezes em litígio com o conhecimento) e amanhar mal e porcamente uma laracha ou duas para ver passar o tempo lectivo. Esta opção é, aliás, facilmente legitimada por premissas incontestáveis do género 'A sociedade já não é o que era.' ou 'Temos de acompanhar os tempos.'

O ‘igualitarismo pedagógico’ pode servir os interesses de professores preguiçosos e pouco sérios (bem como a de políticos pouco escrupolosos), mas não serve certamente os interesses daqueles que precisam de obter conhecimentos e aptidões para se fazerem à vida e se tornarem seres humanos autónomos, dignos desse nome. Quando se põe o professor ao nível do aluno, nem os professores ensinam, nem os alunos aprendem. Os alunos (e a seguir, os seus encarregados de educação e os governos) deviam ser os primeiros a exigir: PROFESSORES DE TODOS OS PAÍSES, ASSUMI-VOS!

Carlos Marques

Arte e Terror


Retrato de Rebecca Gratz, Thomas Sully (1783/1872)

Este conto foi inspirado num retrato do pintor americano Thomas Sully que Poe viu numa galeria da 4ª Avenida.

Para aqueles alunos que adoram uma boa história de terror


O retrato, já o disse, era o de uma jovem. Tratava-se de uma cabeça simples, com ombros, o todo no estilo a que se chama, em linguagem técnica, modo de vignette, muito ao modo de ser de Sully das suas cabeças predilectas. Os braços, o seio, e mesmo as pontas dos cabelos radiosos, fundiam-se imperceptivelmente na sombra vaga mas profunda que servia de fundo ao conjunto. A moldura era oval, magnificamente dourada e com lavores a prata de gosto mourisco. Como obra de arte, nada de mais admirável se podia encontrar do que a própria pintura. mas pode muito bem ser que não fosse nem a execução da obra, nem a beleza imortal da fisionomia, que me tivessem impressionado tão súbita e fortemente. Ainda menos devia eu acreditar em que a minha imaginação, saindo de um semi-sono, houvesse tomado a cabeça pela de uma pessoa viva. Vi primeiro que os pormenores do desenho, o estilo da vinheta e o aspecto da moldura teriam dissipado imediatamente um tal encantamento e me teriam evitado qualquer ilusão, mesmo momentânea. Enquanto fazia estas reflexões e muito vivamente, permaneci, meio sentado, meio estendido, talvez uma hora inteira. Por fim, tendo finalmente descoberto o verdadeiro segredo do seu efeito, tornei a deixar-me cair na cama. Adivinhara que o encanto da pintura era uma expressão vital absolutamente adequada à própria vida, que a princípio me fizera estremecer e, por fim, me confundira, subjugara, aterrorizara. Com um pavor profundo e respeitoso, (...) agarrei logo no volume que continha a análise dos quadros e a sua história. Indo direito ao número que designava o retrato oval, li a narrativa vaga e singular que segue:


" Era uma jovem de uma beleza rara, e que não era menos amável ou cheia de alegria. E maldita foi a hora em que viu, e amou, e desposou, o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero e tendo já encontrado uma esposa na sua Arte; ela, uma rapariga de uma beleza muito rara e não menos amável do que cheia de alegria: só luz e sorrisos, e a galhofa de um pavão novo; amando e prezando as coisas; apenas odiando a Arte que era sua rival; apenas temendo a paleta e os pincéis, e os outros instrumentos importunos que a privavam da presença do seu adorado. Foi uma coisa terrível para esta dama ouvir o pintor falar do desejo de pintar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente, e sentou-se com doçura durante longas semanas, no sombrio e alto quarto da torre, onde a luz se filtrava pálida pelo tecto sobre a tela. Mas ele, o pintor, empenhava-se a fundo na obra, que avançava hora a hora, dia a dia. E era um homem apaixonado, estranho e pensativo, que se perdia em devaneios; de tal modo que não queria ver que a luz que tão lugubremente caía naquela torre isolada, minava a saúde e o espírito da mulher que elanguescia visivelmente para todos, excepto para ele. Contudo, continuava a sorrir, sem jamais se lastimar, porque via que o pintor sentia um prazer vivo e ardente no seu trabalho e trabalhava noite e dia para pintar o que tanto amava. Os que contemplavam o retrato falavam em voz baixa da sua semelhança, como uma maravilha e como uma prova, não menor, da força do pintor e do seu amor profundo por aquela que pintava tão miraculosamente bem. Mas, por fim, como a tarefa se aproximasse do seu termo, ninguém mais foi admitido na torre, porque o pintor enlouquecera devido ao ardor do seu trabalho, e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para fitar a figura da mulher. E não queria ver que as cores que expunha na tela eram tiradas das faces daquela que se achava sentada perto dele. E, quando muitas semanas passaram e pouco restava para fazer, apenas um retoque na boca e uma cor clara e transparente no olhar, o espírito da dama palpitou ainda como a chama no bico de um candeeiro. E então foi dado o retoque, a cor clara e transparente foi colocada; e durante um momento o pintor manteve-se em êxtase diante do trabalho terminado; mas um minuto depois, enquanto ainda o contemplava, estremeceu, tornou-se pálido, - e foi atingido pelo pavor; gritando com uma voz retumbante: 'Na verdade, é a própria Vida!', virou-se bruscamente para encarar a bem-amada: ela estava morta!"
Edgar Allan Poe, Contos Fantásticos, Guimarães Editores, Lisboa, 2002
Tradução de João Costa

sábado, janeiro 17, 2009


CLEPTOMANÍACOS OU LADRÕES
DETERMINISMO E LIBERDADE: PROBLEMAS COM A TEORIA COMPATIBILISTA

Muitos filósofos da tradição empirista admitiram que o determinismo é um problema real e acreditam que o determinismo é verdadeiro, mas sustentam que este é compatível com a responsabilidade. Sustentam que se um agente é responsável, tem de ser livre, não da necessidade causal, mas de compulsão ou coacção. O exemplo paradigmático de falta de liberdade é estar na prisão. Um prisioneiro não pode ser objecto de reprovação por não visitar a sua tia doente, pois é constrangido a permanecer no cárcere. Só se eu for compelido a fazer algo, ou a não fazê-lo, é que fico isento de ter de dizer porque o fiz ou não. Visto que – seja o que for que dizem os psicólogos - é manifestamente verdade que não somos compelidos a fazer a maioria das coisas que fazemos, segue-se que somos responsáveis. Na verdade, independentemente da exegese específica que se possa oferecer, temos de ser responsáveis de modo geral pelas nossas acções, uma vez que usamos a palavra “responsável” e o seu uso determina o seu significado. Quaisquer que sejam os critérios que apliquemos para decidir se alguém é responsável ou não, esses critérios determinam o significado da palavra, e, portanto, fazem com que a palavra seja bem aplicada pelo menos em certos casos.

O argumento, tal como é apresentado, não é convincente. Não obstante ser certamente verdade que um homem não é livre se for constrangido ou compelido, não se segue de modo nenhum que ele não é livre apenas se for constrangido ou compelido. Para tornar isso plausível, teríamos de entender as palavras ‘constrangido’ e ‘compelido’ num sentido muito alargado. No sentido habitual das palavras, o cleptomaníaco não é constrangido ou compelido a roubar: ninguém move o seu corpo contra a sua vontade, ninguém lhe está a cravar uma faca ou o cano de uma pistola nas costas, ameaçando-o de morte se não fizer o que lhe é dito. Se dizemos, no entanto, que ele é constrangido a roubar por causa das suas neuroses ou traumas de infância, estamos a alargar o conceito e, neste sentido alargado, temos de admitir que, à luz de novas descobertas, todos os casos de tomadas de decisão humanas possam vir a ser casos de constrangimento ou coacção. Se o compatibilista se remete ao sentido estrito de ‘constrangido’ e ‘compelido’, há contra-exemplos à elucidação que propõe sobre o real significado da liberdade; se ele procura abarcar esses contra-exemplos, dizendo que nestes casos os agentes estão, vistas bem as coisas, a agir sob alguma compulsão ou coacção, então deixa de ter fundamentos para negar que possa vir a acontecer que todas as nossas acções sejam casos de compulsão ou coacção. Nem pode fundamentar um argumento geral sobre a circunstância de termos a palavra ‘responsável’ e de a sabermos usar. Não há argumentos válidos da linguagem para a realidade. Temos o conceito de ‘disco voador’, mas daí não se segue que existam discos voadores.

J. R. Lucas, Responsibility (Oxford, 1995, pp. 14, 15). Tradução de Carlos Marques. Título não está no original.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

QUALIAS DANÇANTES NUM CÉREBRO SINTÉTICO

Muitas pessoas acham fascinante saber se a consciência poderia surgir num sistema sintético complexo. Embora a construção desse sistema ainda possa demorar décadas ou até mesmo séculos, uma experiência mental fornece forte evidência de que um cérebro artificial, se organizado de forma adequada, teria os mesmos tipos de experiência consciente de um ser humano. 

Considere-se um sistema de silício no qual os chips são organizados e funcionam da mesma forma que os neurónios no nosso cérebro. Isto é, cada chip no sistema de silício faz exactamente o que seu análogo natural e está interligado a elementos adjacentes precisamente da mesma forma. Assim, o comportamento do sistema artificial será exactamente igual ao nosso. A questão crucial é: ele será consciente da mesma forma que nós? Vamos supor, para efeito de argumento, que não seja. (Usamos aqui uma técnica de argumentação conhecida como redução ao absurdo, em que supomos a hipótese oposta à que queremos provar e mostramos que ela implica conclusões insustentáveis.) Isto é, o sistema tem experiências diferentes - digamos, uma experiência do azul quando nós vemos o vermelho - ou nenhuma experiência. Vamos considerar aqui o primeiro caso (o raciocínio é similar para as dois casos). Como os chips e os neurónios têm a mesma função, eles são permutáveis entre si, com o interface apropriado. Assim, os chips podem substituir os neurónios, produzindo um contínuo de unidades em que uma proporção cada vez maior de neurónios são substituídos por chips. Ao longo desse contínuo, a experiência consciente do sistema também irá mudar. Por exemplo, podemos substituir todos as neurónios do nosso córtex visual com uma versão de silício organizada de forma idêntica. O cérebro resultante, com um córtex visual artificial, terá uma experiência consciente diferente da experiência do original: se anteriormente se via vermelho, experimenta-se agora a cor púrpura (ou talvez um rosa pálido, caso o sistema de silício não tenha nenhuma experiência). 

Os dois córtices visuais são então ligados ao nosso cérebro por um interruptor de duas posições. Quando o interruptor está numa posição, usamos o córtex visual normal; quando está na outra, o córtex artificial é activado. Quando o interruptor é manipulado, a vivência muda do vermelho para o púrpura ou vice-versa, e quando é repetidamente manipulado, as experiências "dançam" entre os dois estados conscientes (vermelho e púrpura), estados conscientes esses conhecidos como qualia. Entretanto, como a organização do cérebro não mudou, não pode haver alteração comportamental quando o interruptor é manipulado. Portanto, quando nos perguntam a respeito do que vemos, diremos que nada mudou. Afirmaremos que vemos o vermelho e apenas o vermelho, ainda que as cores dancem diante dos nossos olhos. Esta conclusão é tão desarrazoada que deve ser considerada uma redução ao absurdo da suposição inicial - de que um sistema artificial com organização e funcionamento idênticos teria uma experiência consciente diferente daquela do cérebro neuronal. Afastando então essa suposição, provamos o seu oposto, isto é, que sistemas com a mesma organização têm a mesma experiência consciente.
David J. Chalmers, in Scientific American, nº 23 - versão brasileira (edição especial), p.48, adaptado.

terça-feira, janeiro 13, 2009


NÃO CONHECIMENTO

Foi uma estranha coincidência. Num dia da semana passada, quando a Noémia estava a pagar o café que bebera, o homem que estava atrás dela, vasculhando os bolsos, deixou cair o seu porta-chaves. A Noémia apanhou-o e não pôde deixar de reparar no coelhinho pendurado no porta-chaves. Ao receber o porta-chaves, o homem, cuja face era bastante peculiar, angulosa e pálida, mostrou-se um pouco embaraçado, dizendo “Trago-o sempre comigo, por razões sentimentais.” Corou e nada mais disse.

Logo no dia seguinte a Noémia estava para atravessar a rua quando ouviu um chiar de travões e uma pancada surda. Quase sem pensar deixou-se arrastar com outras pessoas que, como limalhas de ferro convergindo para um magnete, se precipitavam para o local do acidente. A Noémia tentou perceber quem era a vítima e viu a mesma face branca e irregular. Um médico estava já a examinar o homem. “Está morto.”

Ela teve de reportar à polícia. ‘Tudo o que sei é que ele bebeu um café ontem na pastelaria e que ele trazia sempre consigo um porta-chaves com um coelho branco.’ A polícia pôde confirmar a verdade de ambos os factos.

Cinco dias depois, a Noémia quase que se pôs aos gritos na pastelaria. Estando outra vez na bicha para pagar o café, deparou com uma pessoa em tudo semelhante ao mesmo homem que cinco dias antes estivera atrás de si. Ele percebeu o espanto dela sem se mostrar surpreendido. ‘Pensou que eu era o meu irmão gémeo, não foi?’, perguntou. A Noémia acenou com a cabeça. ‘Não é a primeira pessoa a reagir assim desde o acidente. Até porque frequentávamos a mesma pastelaria, embora habitualmente a horas diferentes.’

Enquanto o homem falava, a Noémia não pôde deixar de reparar no que o homem tinha nas mãos: um porta-chaves com um coelho branco. O homem também não se deixou impressionar com isso. ‘Sabe como são as mães; gostam de tratar os filhos de igual modo.’
A Noémia achou tudo isto desconcertante. Quando finalmente se acalmou, ficou preocupada com o seguinte: terei dito a verdade à polícia?

********

O que a Noémia disse à polícia foi ‘Tudo o que sei é que ele pagou um café ontem na pastelaria e que trazia sempre consigo um porta-chaves com um coelho branco.’ Ambos os factos se confirmaram verdadeiros. Mas estava ela certa, ao dizer que sabia que eles eram verdadeiros?
Muitos filósofos argumentaram que o conhecimento implica três condições. Para conhecer algo é preciso, primeiro, acreditar que esse algo é verdadeiro. Não se pode saber que Roma é a capital de Itália se estamos convencidos de que a capital é Milão. Em segundo lugar, aquilo em que acreditamos tem de ser verdadeiro. Não se pode saber que Milão é a capital de Itália, sendo que a capital é Roma. Em terceiro lugar, a nossa crença verdadeira tem de ser de alguma maneira justificada. Se nos acontece ficarmos convencidos sem boas razões de que Roma é a capital de Itália e isso se revela certo, não devemos dizer que possuíamos conhecimento. Tratou-se apenas de um palpite afortunado.

A Noémia possuía duas crenças verdadeiras sobre o morto. Também parecia que tinha justificação para as ter. Porém, parece que não sabia realmente que eram verdadeiras. Não sabia que o homem tinha um irmão gémeo que trazia consigo um porta-chaves idêntico ao do morto. Portanto, se o homem que morreu tivesse sido o irmão gémeo do homem que ela viu na pastelaria e se este último não tivesse estado na pastelaria no dia anterior, nem trouxesse consigo aquele porta-chaves, ela teria afirmado saber as mesmas duas coisas acerca dele, só que desta vez estaria enganada.

Para se ter verdadeiramente ideia de quão pouco ela sabia, note-se que ainda agora a Noémia não sabe se o homem que ela viu na pastelaria no dia antes do acidente era o gémeo que morreu no acidente ou o outro que ela viu na pastelaria uns dias depois. Ela não tem ideia de qual é qual.

A solução óbvia para este problema parece ser que é preciso precisar melhor a ideia de justificação. A Noémia não sabia, porque a sua justificação para dizer que sabia os dois factos sobre o morto não era suficientemente forte. Contudo, se assim é, então é preciso exigir que o conhecimento pressuponha condições de justificação de uma crença muito apertadas, seja ela qual for. E isso significa que quase tudo o que julgamos saber não se encontra suficientemente justificado para poder contar como conhecimento. Se a Noémia não sabe na verdade o que pensava saber sobre o homem que morreu, quer dizer que também nós não sabemos muito do que pensamos saber.

Julian Baggini, The Pig That Wants To Be Eaten and 99 other thought experiments (London, 2005, págs. 187-189). Trad. de Carlos Marques.

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, parte 1: o Jaime e a realidade virtual

O jogo do Jaime 
(...) O Jaime está a jogar um jogo no computador. 0 nome do jogo é Monstros e calabouços. Para vencer, é preciso percorrer um labirinto de calabouços, matar todos os monstros e ficar com todos os tesouros. (...) O Jaime adora este jogo. Especialmente matar monstros. É bom avisar: uma coisa terrível vai acontecer ao Jaime. Mas isso fica para mais tarde. Primeiro, quero explicar o que é a realidade virtual.

Realidade virtual
Os calabouços, os tesouros, os monstros e as armas do jogo do Jaime não são verdadeiras, é claro. Eles constituem o que é conhecido como realidade virtual, um mundo criado por computador. Uma realidade virtual é composta por um ambiente virtual dentro do qual se podem encontrar objectos virtuais. No jogo do Jaime, os calabouços e os labirintos são o ambiente virtual. As armas, os monstros e os tesouros são os objectos virtuais.
Já deve ter tido provavelmente alguma experiência com a realidade virtual. Talvez já tenha jogado um jogo de computador no qual pilotou um carro de corrida numa pista ou um avião pelo céu. Os carros, as pistas, os aviões, etc. que vê nesses jogos são todos virtuais. Eles não existem na realidade.

Usando um capacete para entrar em contacto com a realidade virtual
Normalmente, quando se brinca com este tipo de jogo, assiste-se à acção numa espécie de ecrã. Mas já existem outras maneiras de experimentar a realidade virtual. De facto, os especialistas em computadores desenvolveram capacetes de realidade virtual.
O capacete funciona assim: quando o colocamos, vemos um pequeno ecrã. Este ecrã mostra o ambiente virtual. E o importante no ecrã é que, quando movimentamos a cabeça de um lado para o outro, o que vemos muda, como se estivéssemos de facto nesse ambiente. Se olharmos, por exemplo, para a esquerda, vemos o que está à nossa esquerda no ambiente virtual. Olhamos para baixo e vemos o que há no chão do ambiente virtual. Viramo-nos e vemos o que está atrás de nós, e assim por diante.
0 capacete também é equipado com pequenos altifalantes - um para cada ouvido - de modo a que possamos ouvir tudo o que se passa dentro da realidade virtual. Mais uma vez, os sons também se modificam de acordo com o lado para o qual se está voltado. Portanto, com o capacete virtual, tudo parece e soa como se o ambiente virtual estivesse de facto à nossa volta.

Mãos e pernas virtuais
Também já é possível alcançar e apanhar objectos virtuais. Desenvolveram-se luvas electrónicas que controlam mãos virtuais. Basta calçá-las, e podemos mover as mãos virtuais que vemos à nossa frente quando usamos o capacete de realidade virtual. Com essas mãos virtuais, podemos pilotar um carro virtual ou disparar uma arma virtual a laser contra um extra-terrestre virtual.
De facto, podemos até caminhar dentro da realidade virtual. É até possível ligar o computador que gera a realidade virtual às nossas pernas e pés por meio de sensores especiais. Se andamos para a frente, o computador detecta o movimento e modifica o que vemos e ouve. Parece que caminhamos para dentro do ambiente virtual.
Suponha que damos ao Jaime um desses equipamentos de realidade virtual - capacete, luvas e sensores para pernas - e o ligamos a um poderoso computador passando uma versão do seu favorito Monstros e calabouços. O Jaime pode iniciar então o seu jogo, só que desta vez este lhe pareceria muito mais real, iria ter a sensação de que o calabouço virtual estava mesmo ali. Desta vez, sentiria que podia alcançar e tocar as paredes do calabouço com as mãos.

Olhos artificiais
Agora vamos examinar um tipo de tecnologia diferente: olhos artificiais. Ao contrário da realidade virtual, este avanço ainda não ocorreu. Mas não vejo razão para que não possam ser inventados.
Erga uma de suas mãos diante do seu rosto e olhe bem para ela. 0 que acontece quando vê a sua mão? Em primeiro lugar, a luz reflecte-se da sua mão nos seus olhos. Uma lente na parte da frente do olho foca essa luz numa superfície na parte de trás do olho, produzindo uma imagem. Essa superfície na parte de trás do seu olho é formada por muitos milhares de células sensíveis à luz. Quando a
luz atinge uma dessas células, emite um leve impulso eléctrico. 0 padrão de impulsos eléctricos causados pela imagem da sua mão atingindo as células passa então por um feixe de nervos (chamado nervo óptico), que vai do seu olho até ao seu cérebro. E é assim que vê a sua mão. Mas será que só um olho humano normal teria capacidade para enviar os impulsos eléctricos pelo seu nervo óptico para o cérebro? Não vejo porquê. Por é que os seus olhos humanos normais não poderiam ser substituídos por pequenas câmaras de vídeo? Essas câmaras fariam o trabalho que o olho humano faz, enviando pelos nervos ópticos
os mesmos padrões de estímulos eléctricos que os seus olhos normais hoje enviam. 0 que para si daria no mesmo. 0 mundo visto pelos olhos artificiais parecer-lhe-ia o mesmo que com
os olhos normais.

Com um olho na ponta da varinha
De facto, seria uma grande vantagem ter olhos de pequenas câmaras de vídeo. Imagine se tivesse olhos artificiais. Eles poderiam ser ligados aos seus nervos ópticos por cordas super-compridas. Poderia tirar um olho da cara e andar com ele na mão.
Poderia fixá-lo atrás da cabeça: muito útil se quisesse saber se há alguém a segui-lo.
Também poderia amarrar um olho na ponta de uma varinha - inestimável para achar a moeda que deixou cair debaixo do sofá.

Um corpo de robô
É possível que um dia os cientistas desenvolvam não só olhos artificiais, como também ouvidos artificiais: pequenos microfones electrónicos capazes de ocupar o lugar dos ouvidos humanos normais. Esses microfones estimulariam os nervos que ligam os nossos ouvidos aos nossos cérebros exactamente da mesma maneira que os nossos ouvidos normais. Os sinos de uma igreja soariam exactamente da mesma maneira para alguém com ouvidos artificiais.
Na verdade, quando se pensa no assunto, parece não haver, em princípio, razão alguma para que o nosso corpo inteiro não possa ser substituído por um corpo artificial. Poderíamos ter um corpo de robô. Vejamos como.
O nosso cérebro está ligado ao resto do nosso corpo por um sistema nervoso. Alguns desses caminhos de nervos emitem impulsos eléctricos. Outros captam-nos. Os nervos que emitem impulsos eléctricos enviam muitos deles aos músculos que possibilitam que o seu corpo se movimente. Ao virar esta página, por exemplo, as suas mãos movem-se porque o seu cérebro envia um padrão de impulsos eléctricos a determinados músculos do seu braço. Esses impulsos fazem os músculos moverem-se. E o movimento desses músculos move a sua mão.
Os caminhos nervosos que captam impulsos eléctricos recebem muitos deles dos nossos cinco sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. É isso que faz com que tenhamos experiência do mundo à nossa volta.
Agora imagine isto: o seu cérebro é removido do seu antigo corpo humano e transferido para um corpo novo de robô. O seu antigo corpo humano é então destruído. Mas tudo bem, porque o seu novo corpo de robô mantém o seu cérebro vivo. Também estimula os nervos que vão até ao seu cérebro exactamente do mesmo modo como eram estimulados pelo seu antigo corpo. De modo que o seu novo corpo de robô lhe transmite experiências rigorosamente como o seu antigo corpo humano. Com o seu novo corpo de robô, pode deliciar-se com um gelado de chocolate, ouvir uma música, sentir o cheiro das flores. Tudo parece exactamente como dantes.
E os padrões dos impulsos eléctricos emitidos pelo seu cérebro ainda conseguem fazer com que o seu novo corpo de robô se movimente exactamente da mesma maneira que o seu corpo normal (só que agora não move músculos: move pequenos motores eléctricos). De modo que pode andar e falar exactamente como dantes.

Sobrevivendo à morte do seu corpo humano
É claro que sozinhos ainda não podemos construir corpos de robôs. A tecnologia ainda não progrediu tanto. Mas, sem dúvida, parece possível que um dia se construam esses corpos de robô, talvez daqui a poucas centenas de anos.
Caso se construam corpos de robôs, seremos capazes de sobreviver à morte dos nossos corpos de carne e osso. Suponha que o seu corpo humano é atropelado por um camião. Seria possível remover o seu cérebro e transferi-lo para um novo corpo de robô. Neste caso, apesar do seu corpo de carne e osso ter morrido, continuaria vivo. Seria parte homem, parte máquina. Provavelmente os corpos de robô também poderiam ser construídos para ser mais fortes, mais duráveis e de várias maneiras melhores do que nossos corpos comuns de carne e osso. Poderia ter uma força sobre-humana, uma audição incrivelmente mais sensível e até visão de raios X. Quem sabe se um dia, talvez daqui a mil anos, todos seremos super-seres robotizados. Talvez a única parte humana que restará no nosso corpo seja o nosso cérebro.

Um corpo virtual
Tão plausível quanto ter um corpo de robô é a possibilidade de termos um corpo virtual.
Imagine a seguinte situação: uma pequena tomada eléctrica é ligada à sua nuca. Esta tomada é ligada ao lugar em que os nervos que entram e saem do seu cérebro se ligam ao resto do seu corpo. A tomada permite-lhe ligar o seu cérebro a um super-computador incrivelmente potente. Só seria preciso ligar um fio do computador à sua tomada e accionar um pequeno interruptor fixado na sua nuca.
Quando accionasse o interruptor, todos os impulsos eléctricos emitidos pelo seu cérebro para movimentar o seu corpo seriam desviados. Seriam enviados para o super-computador. E, em vez de receber sinais eléctricos dos seus olhos, dos seus ouvidos, do seu nariz, da sua língua e da sua pele, o seu cérebro recebê-lo-ia do super-computador.
Agora, imagine que esse computador está a passar um programa de realidade virtual. Funcionaria assim: uma pessoa deita-se numa cama ao lado do computador e liga-se a si mesmo a ele. Em seguida, acciona o interruptor na sua nuca. Claro que no momento em que acciona o interruptor, o seu corpo fica sem energia: desligou o seu corpo do seu cérebro.
Mas não é assim que o sentiria. Teria a nítida sensação de que ainda consegue mexer o corpo. Imagine que tentava agitar os seus dedos à frente do seu rosto. 0 computador registaria os impulsos eléctricos para agitar os seus dedos vindos do seu cérebro e transmitiria de volta ao cérebro exactamente o mesmo tipo de sinais que receberia dos seus olhos e mãos se estivesse a sacudir os dedos diante do rosto. Portanto, isso é o que vê. Só que os dedos que veria a agitar-se à sua frente não seriam os seus dedos verdadeiros – as suas mãos verdadeiras continuariam ali, deitadas quietinhas na cama -, mas sim dedos virtuais.
Na verdade, se o computador fosse mesmo potente, poderia gerar todo um ambiente virtual. Poderia, por exemplo, dar-lhe a impressão de que está deitado numa floresta habitada por pássaros canoros fabulosos e cheia de belas flores. Poderia levantar-se e passear por essa floresta. Claro que as árvores que viu, os pássaros que ouviu e as flores que cheirou não seriam reais. Seriam virtuais. E o corpo que lhe pareceu ser o seu seria um corpo virtual, não um corpo verdadeiro. 0 seu corpo verdadeiro continuaria imóvel na cama.
Transferir-se para um corpo virtual pode ser uma maneira agradável de passar a noite. Após um dia de trabalho exaustivo, relaxaríamos transferindo-nos para um corpo virtual, explorando um ambiente virtual. Poderíamos inventar qualquer mundo novo estranho para nos ocuparmos por algumas horas. Poderíamos, por exemplo, escolher a aparência do seu corpo virtual. Poderíamos, quem sabe, escolher a aparência de Elvis Presley e visitar um planeta inteiramente feito de marshmallow.
Bem, agora que viu como seria ter um corpo virtual num ambiente virtual, façamos um intervalo. Vou contar o que aconteceu ao Jaime.
A história continua. Não perca o próximo episódio na parte 2.  

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 41-52). Adaptação da tradução brasileira. O título principal não se encontra no original.

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, parte 2: o Jaime não passa de um cérebro a boiar e os filósofos interessam-se por ele

Uma história de terror
Um dia, dois marcianos – o Blib e o Blob - chegaram à Terra. A sua missão era estudar os seres humanos. Decidiram escolher o Jaime como objecto de estudo e começaram, às escondidas, a observar o seu comportamento.
O Blib e o Blob ficaram fascinados com a verdadeira adoração do Jaime pelo seu jogo Monstros e calabouços. Observaram que ele dedicava cada segundo de seu tempo livre a esse jogo. 
0 pai do Jaime preparou-lhe um chá. "Vem beber o chá, Jaime!", gritou para chamá-lo. Os marcianos perceberam que ele teve de chamar o filho pelo menos seis vezes. Também observaram que o Jaime engoliu a comida à pressa e subiu as escadas a correr até ao seu quarto para continuar o jogo.
O Blib e o Blob também não deixaram de notar que, a cada versão que saía de Monstros e calabouços, o Jaime ficava desesperado para obtê-Ia. Nos dois meses antes do Natal, a única frase do Jaime era:
- Pai, mãe, por favor, vão dar-me o último Monstros e calabouços de presente de Natal, não é?
Depois de observar tudo aquilo, o Blib e o Blob concluíram que o Jaime seria a mais feliz das criaturas se ficasse para sempre a jogar a versão mais realista possível de Monstros e calabouços. E decidiram tornar o Jaime feliz.
Na manhã de Natal, o Jaime, ao começar a acordar, a primeira coisa que notou foi que a sua cama parecia dura e fria como pedra. E tinha também um cheiro um pouco estranho. Uma mistura de humidade e mofo. Como os cogumelos. E ouvia também um ruído de gotas a pingar.
O Jaime abriu os olhos devagar. Viu-se num longo corredor de pedras, iluminado por pequenas tochas penduradas em suportes enferrujados de metal. Havia passagens fechadas à esquerda e à direita. Virou-se para trás. Viu que o corredor se estendia, igual, até desaparecer nas trevas.
Este corredor pareceu-lhe vagamente familiar. Então lembrou-se: era o mesmo corredor do Monstros e calabouços. Só que agora parecia real. O Jaime podia alcançar e tocar com os seus dedos suas as paredes gélidas e viscosas. Então, ouviu um uivo e sentiu gelar-se-lhe o sangue. Era um uivo que o Jaime ouvira milhares de vezes antes. Só que agora o uivo não vinha das pequenas colunas de som ao lado do seu computador. Desta vez, o uivo vinha das trevas do fundo do corredor. Desta vez, era um uivo real, como eram reais aqueles passos arrastados. Jaime sabia quem estava para chegar. Com o coração a sair-lhe pela boca, as suas pernas cambalearam. Começou a correr.
Os pais do Jaime ficaram intrigados. Haviam comprado ao Jaime um novo computador programado com a última versão de Monstros e calabouços. Por que não descera o rapaz correndo escadas abaixo para abrir o seu presente como de costume? Subiram as escadas e abriram a porta do seu quarto devagar. Espreitaram.
- Jaime, estás acordado?
0 silêncio reinava no quarto. As cortinas estavam fechadas. E a cama do Jaime, vazia. 0 quarto estava iluminado por uma luz sinistra. Os pais do Jaime viraram-se para constatar que a luz saía do monitor de um computador no cão. Mas aquele não era o computador do Jaime. Quando os seus olhos se acostumaram à escuridão, compreenderam que o ecrã bruxuleante estava ligado a uma grande caixa cinzenta.
Na verdade, essa caixa cinzenta era um super-computador marciano. O Blib e o Blob tiveram muito trabalho para construir aquele computador capaz de passar a versão mais realista de Monstros e calabouços que se podia imaginar. Haviam montado aquele computador especialmente para o Jaime.
- MEU DEUS!!! - gritaram os pais do Jaime, horrorizados. Quando a imagem no ecrã se tornou mais clara por um instante, enchendo o quarto de luz, viram que, nas trevas atrás do computador, havia um cérebro humano a flutuar numa cuba de vidro.
Era o cérebro vivo do Jaime. E completamente consciente. Durante a noite, o Blib e o Blob tinham removido o cérebro do rapaz. Destruíram o resto do seu corpo e colocaram o seu cérebro dentro de uma cuba com um líquido capaz de manter o orgão vivo. Então ligaram o seu cérebro ao computador. O Jaime agora é um corpo virtual num ambiente virtual: o ambiente de Monstros e calabouços. Está agora a jogar a versão mais realista imaginável de Monstros e calabouços. Só que nunca mais pode parar, nem deixar de senti-la como real.
Os pais do Jaime olham para a imagem no ecrã do monitor do computador. É o Jaime. Vêem o filho a ser perseguido por um monstro enorme no corredor estreito.
- Pobre Jaime! - grita a mãe.
Mas claro que gritar não adianta. Tudo o que o Jaime consegue ouvir são os uivos do monstro a correr mesmo atrás dos seus calcanhares. O Jaime jamais ouvirá novamente a voz da sua mãe.
Chocados, os pais do Jaime assistem às peripécias do filho para enganar o monstro. Às vezes, ele tenta desesperadamente esconder-se na escuridão. Fica agachado, quietinho, sem sequer ousar respirar. 0 monstro pára, fareja o ar húmido. Então desaparece. Mas por pouco tempo. 
Os pais do Jaime não aguentam assistir mais e viram-se de costas para o monitor. Só então, vêem um cartãozinho colado ao computador com uma fita vermelha. Tremendo, aproximam-se. Afinal, sob a luz dos clarões tremeluzentes do monitor conseguem ler os gatafunhos compridos e finos da mensagem no cartão, que diz: 

FELIZ NATAL, JAIME
BLIB & BLOB

Será que não somos cérebros em cubas?
(...) Os filósofos acham muito interessantes as histórias sobre cérebros em cubas. São particularmente interessantes para os filósofos interessados na pergunta: o que é possível, se é que é possível, conhecer o mundo à nossa volta? Esta é a questão que vamos examinar agora.
Tomemos um tipo diferente de história sobre cérebros em cubas: uma história sobre si. Suponha que ontem à noite o Blib e o Blob passaram pela sua casa enquanto estava a dormir. Doparam-no e levaram-no para Marte no seu disco voador. Nesse planeta removeram o seu cérebro do seu corpo, colocaram-no numa cuba de vidro com um líquido especial para preservar a vida e ligaram-no a um super-computador. E então destruíram o seu corpo. Agora é o super-computador que controla todas as suas experiências. 
Estale os dedos. Ao estalar seus dedos, o computador controla os impulsos que saem do seu cérebro: os mesmos impulsos que chegariam aos seus dedos caso ainda os tivesse. Então, o computador estimula as extremidades nervosas que estavam antes ligadas aos seus olhos, pontas dos dedos, ouvidos, etc., de modo que fica com a impressão de ver, sentir e ouvir seus dedos a estalar. Mas, na verdade, nem tem já dedos verdadeiros. Só tem dedos virtuais gerados por computador.
0 computador que gera essas experiências é tão incrivelmente avançado que copia o seu ambiente real até aos ínfimos detalhes. De modo que tudo o que experimenta parece real. A sua cama virtual parece-se perfeitamente com a sua cama real. O seu quarto virtual é igualzinho ao seu quarto verdadeiro. Os seus pais virtuais agem exactamente como os seus pais verdadeiros. A sua rua virtual parece-se exactamente com a sua rua verdadeira. 
A grande questão filosófica que se pode extrair desta história é: como sabe que não é um cérebro numa cuba? Como pode saber que o mundo que o cerca não é virtual? Talvez os marcianos realmente lhe tenham feito uma visita a noite passada. Talvez tenham realmente extraído o seu cérebro e o tenham ligado a um super-computador. Se fizeram isso, será que podia sabê-lo? Parece que não, porque tudo para si continuaria a parecer exactamente igual.

Talvez tenha sido SEMPRE um cérebro numa cuba
Eis uma ideia ainda mais inquietante. Talvez tenha sido sempre um cérebro numa cuba, desde o dia em que nasceu.
Talvez o planeta Terra nem exista. Talvez as coisas que lhe parecem tão familiares – a sua casa, os seus vizinhos, os seus amigos, a sua família, não sejam mais "reais" do que os lugares e os personagens do jogo Monstros e calabouços do Jaime. Talvez não passem de uma criação de programadores de computador marcianos. Talvez esses marcianos estejam a estudar o seu cérebro para ver como ele reage ao mundo que eles inventaram.
Por outras palavras, talvez a única realidade que jamais conheceu seja uma realidade virtual. Como pode ter certeza que não? Não, parece que não pode.

Como sabe que não é um cérebro numa cuba?
Mas convenhamos, não acredita realmente que é um cérebro numa cuba. Acho que, como eu, acredita que não é um cérebro numa cuba. Mas a pergunta é: sabe que não é um cérebro numa cuba? Sabe que o mundo que parece ver em seu redor é real?
A resposta, ao que parece, é: não, não sabe. Pode acreditar que o mundo que vê é real. E talvez seja verdade que o mundo que vê seja mesmo real. Mas, ainda que seja real, parece que não sabe se é real. Para saber se ele é real ou não, decerto precisaria de uma razão para acreditar que é real. E não há razão alguma para acreditar que o mundo que vê é real e não virtual, pois tudo lhe pareceria exactamente igual mesmo se ele fosse virtual. De modo que, assombrosamente, ao que parece, não sabe que não é um cérebro numa cuba.
Na verdade, parece que não sabe coisa alguma do mundo que nos cerca. Porque tudo o que vê - a mão que vê diante dos olhos, esta folha que aparentemente segura nas suas mãos, a árvore que parece ver ali fora, e até o planeta Terra - poderia ser virtual.
A história continua. Não perca o próximo, e último, episódio na parte 3.

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 52-60). Adaptação da tradução brasileira. O título principal não se encontra no original.