domingo, maio 29, 2016

O Poder dos Mitos



Rubens, Prometeu agrilhoado, 1610

A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem que terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoraram o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra o rochedo até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada. Restou o rochedo inexplicável.

Franz Kafka, Contos, 2005, Relógio D'Água, Lx, p.41

A virtude deste texto é a de produzir uma sensação de temporalidade que afecta não só os protagonistas, como as histórias e os seus leitores. A História passa a histórias e nenhum mito sobrevive no absoluto da sua tragédia. O tempo acaba por fazer desaparecer os seus  contornos mais fortes e exemplares e desvanece a tragédia, ficando apenas a memória longínqua do que inventámos para explicar o inexplicável. É a derrota dos mitos e a permanência do inexplicável. Discordo de Kafka apesar de admirar a lassidão pessimista deste texto.  Os mitos não fracassaram, pelo contrário, a sua força  não é como a das teorias científicas, estas vão sendo substituídas sem deixarem rasto, pois prevalece a que gera mais resultados positivos no domínio sobre a natureza. A força dos mitos não se pode medir em termos de resultados positivos, ela está na eloquência, na imaginação, no poder de evocar imagens poderosas. Adaptados ou recriados os mitos não desaparecem nem são substituídos, vão apontando as condições através das quais compreendemos melhor a nossa humanidade e assim, através dessa vaga compreensão, nos aproximamos dela.

quinta-feira, maio 19, 2016

Hotel Paradiso

Para uma Filosofia da Arte Conceptual


 Sol LeWitt, EUA, 19228/2017 "Janelas" 1980

Embora seja enganador categorizar LeWitt como restrito "puro" (por oposição a "primeiro") artista conceptual, ele não deixa de ser amplamente considerado muito influente na produção e recepção desta arte, através da publicação, no verão 1967 e em Janeiro de 1969, dos seus "Parágrafos" e"Sentenças" sobre a Arte Conceptual. Apesar destes textos serem geralmente lembrados como reivindicações programáticas,  por exemplo: " a ideia é a máquina que faz a arte "ou " as ideias sozinhas podem ser obras de arte", são também impressionantes quando revistos à luz da anterior consideração da teoria de Kant sobre a  arte como expressão de ideias estéticas. Consideremos  as seguintes generalizações empíricas que LeWitt faz sobre a nova arte, em 1967:

• Este tipo de arte não é teórica ou ilustrativa de teorias; é intuitiva, ela está envolvida com todos os tipos de processos mentais e é inútil.
• Arte Conceptual não é necessariamente lógica [...] As ideias são descobertas por intuição.
• A Arte Conceptual não tem na realidade muito a ver com a matemática, a filosofia, ou qualquer outra disciplina mental.
• A Arte Conceptual é feita para envolver a mente do espectador, ao invés da sua visão ou emoções.
• A Arte Conceptual só é boa quando a ideia é boa.
(...)
Estas preocupações são ainda mais pronunciadas nos "Sentenças sobre Arte Conceptual” publicadas um ano e meio mais tarde:

• Os artistas conceptuais são místicos ao invés de racionalistas. Saltam para conclusões que a lógica não pode alcançar.
• Os julgamentos racionais repetem julgamentos racionais. Os juízos ilógicos conduzem a novas experiências.
• As Ideias não procedem necessariamente por ordem lógica.
• Uma vez que a ideia da peça tenha sido  estabelecida na mente do artista e a sua forma final decidida, o processo é realizado de forma cega.
• O processo é mecânico e não deve ser interrompido (adulterado). Deve executar o seu curso.

• A vontade do artista é secundária em relação ao  processo que inicia desde a ideia até à  conclusão. A sua obstinação só pode ser ego."

Nota: A ordem das frases aqui reproduzida  não é a original do texto de LeWitt.

Diarmuid Costello, Kant after LeWitt: Towards an Aesthetics of Conceptual Art, in Philosophy and Conceptual Art, Claredon Press, Oxford, 2007, p.104, 105

Tradução de Helena Serrão

domingo, maio 08, 2016

O dramatismo da escrita de Nietzsche



Fotografia da série "The III Nietzsche", de Hans Olde, Junho e Agosto de 1899.

Vede o homem pequeno, especialmente o poeta… O ardor com que as suas palavras acusam a vida! Escutai-o, mas não vos esqueçais de ouvir o prazer que há em toda a acusação. A estes acusadores da vida deixa a vida atados num abrir e fechar de olhos. “Amas-me? – diz a impertinente. Espera um bocado, ainda não tenho tempo para ti”. O homem é o animal mais cruel para consigo; e sempre que ouvirdes alguém chamar-se “pecador” ou “penitente”, ou falar da “sua cruz”, não vos esqueçais de ouvir a voluptuosidade que respiram essas queixas e essas acusações. E até eu… acaso quererei ser com isto acusador do homem? Ai, animais meus! O maior mal é necessário para o maior bem do homem; é a única coisa que até agora tenho aprendido. O maior mal é a melhor força do homem, a pedra mais dura para o mais alto criador; é mister que o homem se torne melhor e mais mau. Eu não só me não vi cravado nesta cruz – saber que o homem é mau – mas também gritei como ninguém gritou ainda: “Ah! como é pequeno o pior dele! Ah! como é pequeno o melhor dele.” O que me afogava e se me atravessava na garganta era o grande tédio do homem; e também o que predissera o adivinho: “Tudo é igual; nada merece a pena; o saber asfixia”. Na minha frente arrastava-se um longo crepúsculo, uma mortal tristeza ébria e fatigada que falava bocejando. “O homem de que estás enfastiado torna eternamente, o homem pequeno”. Assim bocejava a minha tristeza.

Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche Tradução de José Mendes de Souza, 2002