sexta-feira, novembro 10, 2017

Sobre a arte da retórica



                                                                       Júlio Pomar

“Entendamos por retórica a capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso com o fim de persuadir. Esta não é certamente a função de nenhuma outra arte; pois cada uma das outras é instrutiva e persuasiva nas áreas da sua competência (...) Mas a retórica parece ter, por assim dizer, a faculdade de descobrir os meios de persuasão sobre qualquer questão dada. E, por isso, afirmamos que, como arte, as suas regras não se aplicam a nenhum género específico de coisas. (...)
As provas de persuasão fornecidas pelo discurso são de três espécies: umas residem no carácter moral do orador, outras, no modo como se dispõe o ouvinte; e outras, no próprio discurso, pelo que ele demonstra ou parece demonstrar.
Persuade-se pelo carácter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé. Pois acreditamos mais depressa em pessoas honestas, em todas as coisas em geral, mas sobretudo nas de que não há conhecimento exato e que deixam margem para dúvida. É, porém, necessário que esta confiança seja resultado do discurso e não de uma opinião prévia sobre o carácter do orador, (...) mas quase se podia dizer que o carácter é o principal meio de persuasão.
Persuade-se pela disposição dos ouvintes, quando estes são levados a sentir emoção por meio do discurso, pois os juízos que emitimos variam conforme sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio. É desta espécie de prova e só desta que, dizíamos, se tentam ocupar os autores atuais de artes retóricas. E a ela daremos especial atenção quando falarmos das paixões.
Persuadimos, enfim, pelo discurso, quando mostramos a verdade ou o que parece verdade, a partir do que é persuasivo em cada caso particular.”

Aristóteles, Retórica, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2005, Lisboa, p.97

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