segunda-feira, julho 23, 2007

Argumentação 1

A Argumentação na comunicação empresarial.
A importância dos argumentos.
Qual a importância dos argumentos para um profissional da comunicação empresarial?
Fotografia: Leibovitz, O ciclista Lance Armstrong

O objectivo de um profissional desta área, muitas vezes, não é apenas informativo: não se trata apenas de transmitir informação sobre um certo estado de coisas. Por vezes, o objectivo é influenciar uma decisão ou uma opinião. Acontece que só há duas maneiras de influenciar uma decisão ou uma opinião: através da persuasão ilícita ou através da argumentação. Na persuasão ilícita procura-se enganar o destinatário através de todos os recursos que vão desde o uso da força física até às mais rebuscadas formas de trapaça, de que são especialistas sobretudo os maus políticos, os maus jornalistas e os maus especialistas em marketing e publicidade.Sempre que se fala de argumentos surge alguém que, com ares de sofisticação intelectual, afirma uma de duas coisas (ou até as duas ao mesmo tempo, se for verdadeiramente extravagante): ou que não há objectividade ou que para convencer as pessoas temos de usar recursos que não se compadecem com as "regras académicas" da argumentação. Poderíamos discutir brevemente o tópico da objectividade, mas não é esse o nosso tema; basta-nos pensar que não é óbvio que nada seja objectivo. Quem pensa isto tem de procurar persuadir-nos. Como? Argumentando? Mas se a sua posição é que os argumentos carecem de força objectiva, também os seus argumentos não têm força para nos persuadir. Deixemos isto de lado. Detenhamo-nos na ideia de que se queremos convencer as pessoas temos de usar recursos que excedem o domínio da argumentação estritamente «académica». Quem estiver interessado em ver um político a defender esta ideia basta pedir-me a cassete de vídeo em que o Pacheco Pereira o faz, com ares de sofisticação intelectual, no antigo programa "Flashback" da SIC.Há uma distinção crucial, que pessoas como o Pacheco Pereira desconhecem, entre o que acontece de facto e o que devia acontecer. Acontece de facto que há imensas pessoas a roubar outras pessoas; acontece de facto que há pessoas a matar injustamente outras pessoas; acontece que há pessoas a violar crianças. Tudo isto acontece de facto. Mas não devia acontecer. Está errado que aconteça. É sempre triste ver uma pessoa com responsabilidades públicas a defender a arte da aldrabice só porque é expedita. Por mais expedita que seja, está errada. Está profundamente errada. E tem a consequência infeliz de não conduzir às melhores decisões; se conseguimos convencer alguém ilicitamente não há a garantia de a termos convencido a tomar a melhor decisão.(...)
Quem quiser optar pela expediência já sabe o que o espera.No entanto, tenho dúvidas de que o engano e a aldrabice levem longe um profissional de comunicação empresarial. Isto porque os destinatários destes profissionais são em parte quadros superiores, habituados a tomar decisões cuidadosamente, pesando os prós e os contras. Duvido que as técnicas que talvez funcionem com o eleitorado tenham efeito nos quadros superiores.Por outro lado, há uma coisa que os partidários da expediência esquecem sistematicamente quando defendem o seu ponto de vista: é que os destinatários não são sempre os outros; nós também somos destinatários. Acontece o mesmo com os ladrões: acham que têm o direito de roubar, mas acham que os outros não têm o direito de os roubar a eles. Por isso, ainda que existam pessoas moralmente deploráveis a favor da expediência, quererão mesmo assim conhecer as regras da arte de argumentar a fim de evitarem ser vítimas da trapaça dos outros (tal como os ladrões apesar de serem ladrões fecham a porta do carro à chave). Todavia, isto deve ficar claro para todos: aqueles que procuram não ser enganados mas que procuram enganar são moralmente deploráveis.
Esclarecidas as coisas voltemos ao nosso tema: qual é afinal a importância dos argumentos? Os argumentos são importantes porque é com base neles que tomamos decisões — desde as decisões pessoais até às decisões profissionais. Uma empresa tem de tomar decisões constantemente. Essas decisões apoiam-se em razões, ou informações, ou dados. Com base nos nossos objectivos empresariais e nos dados disponíveis tomamos uma decisão. Mas os dados disponíveis não se organizam sozinhos; não são uma espécie de sinais de trânsito claramente dispostos que indicam onde devemos virar se queremos ir para determinado sítio. Os dados e as informações só podem ser a base para a tomada de decisões se estiverem organizados; caso contrário, não passam de um agregado amorfo de dados e informações sem qualquer valor para a tomada de decisões, como um monte de sinais de trânsito dispostos sem nenhuma organização especial.Argumentar é usar essas informações e esses dados para que constituam verdadeiros sinais de trânsito que nos dizem onde virar se quisermos ir para determinado sítio. Argumentar é organizar dados e informações de forma a mostrar qual a melhor decisão a tomar.A argumentaçãoPenso que o leitor já começou a ter uma ideia quanto à importância dos argumentos na comunicação empresarial. Mas agora pode perguntar-se: poderá a argumentação ser ensinada? Não será a argumentação uma arte e como arte algo que pertence ao domínio da intuição e da subjectividade, contrastando por isso com a objectividade e o carácter estritamente cognitivo da ciência? Quem responde afirmativamente a esta pergunta é céptico quanto à possibilidade de se ensinar uma arte. A arte seria qualquer coisa intuitiva, misteriosa e incompreensível, imprópria para um ensino sistemático e objectivo. Consequentemente, também a argumentação não seria passível de ser ensinada: seria uma coisa inteiramente subjectiva.Acho que esta ideia está errada. Para mostrar por que acho que esta ideia está errada tenho de falar da diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Na verdade já falei tantas vezes sobre condições necessárias e condições suficientes que ouvir falar nesta distinção começa a ser uma condição suficiente para eu fugir cuidadosamente ao assunto.Uma condição necessária é apenas a consequente de uma condicional; e uma condição suficiente é apenas a antecedente de uma condicional. Mas o que é uma condicional? É uma frase da forma «se (qualquer coisa), então (qualquer outra coisa)». Por exemplo: "Se ele não chumbou, então teve pelo menos 10 valores". Esta frase afirma que uma condição necessária para não chumbar é ter pelo menos 10 valores. Não é possível passar se não tivermos pelo menos 10 valores. Mas não é necessário ter dez valores, como é óbvio: podemos ter 17, se formos sortudos. Por isso podemos afirmar que apesar de ser uma condição necessária para passar ter pelo menos 10 valores, ter exactamente 10 valores não é uma condição necessária; no entanto, é uma condição suficiente. Basta ter exactamente 10 valores para passar.Por vezes usa-se a expressão condição sine qua non, que significa «sem a qual não». Uma condição sine qua non é uma condição necessária.Tive de falar nisto para se poder perceber o que significa dizer que defendo que apesar de o domínio de regras claras e objectivas não ser uma condição suficiente para o domínio de uma arte, é no entanto uma condição necessária. Isto quer dizer que apesar de uma pessoa conhecer e dominar todas as regras de uma arte como a pintura ou o piano, não se segue que seja um grande pintor ou um grande pianista; mas se não dominar essas regras não conseguirá de certeza ser um grande pintor ou um grande pianista. Na verdade, nem consegue ser um pintor nem um pianista, quanto mais um grande pintor ou um grande pianista.O mesmo acontece com a argumentação. Não é possível garantir o virtuosismo argumentativo quando se aprende as regras da argumentação. Mas se não aprendermos as regras da argumentação de certeza que nunca dominaremos a argumentação. Aliás, o mesmo acontece com as ciências. Mesmo que alguém domine todas as leis da física ou todos os teoremas da matemática, não há a garantia de que essa pessoa seja um grande físico ou um grande matemático; mas não é possível ser um grande físico ou um grande matemático sem dominar esses aspectos técnicos.Tentei mostrar a importância dos argumentos na actividade dos profissionais de comunicação empresarial e defendi que o domínio das regras da argumentação é uma condição necessária para argumentar com eficácia. Mas o que é exactamente um argumento? Um argumento é uma certa quantidade de informação ou dados organizados de forma a sustentarem uma certa decisão, opinião ou teoria. Chama-se "premissas" a essa informação ou dados; e chama-se "conclusão" à decisão, opinião ou teoria que queremos defender. Por exemplo, podemos desejar fazer uma proposta para vender um certo serviço a uma empresa. Temos de conseguir convencer os quadros dessa empresa de que vale a pena contratar os nossos serviços. Para isso temos de organizar um conjunto de informações relativas à nossa empresa, relativas à empresa cliente e relativas aos ganhos e custos do serviço que queremos vender. Organizar toda essa informação para que a conclusão legítima seja a contratação dos nossos serviços é argumentar a favor da contratação dos nossos serviços. Nunca nos devemos esquecer, claro, que podemos estar (e muitas vezes estamos) na posição inversa, isto é, a avaliar as propostas de várias empresas que pretendem vender-nos um certo serviço. Se não dominarmos a argumentação não saberemos escolher a melhor proposta; se não dominarmos a argumentação não saberemos submeter boas propostas.Agora que já sabemos em geral o que é um argumento, podemos perguntar: os argumentos, além de poderem ser bons ou maus, são todos do mesmo tipo? Não. Os argumentos não são todos do mesmo tipo. Há vários tipos de argumentos. As duas grandes categorias em que se dividem os argumentos são os válidos e os informais.Os argumentos válidos são os mais seguros porque oferecem uma garantia incrível: é logicamente impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa. Os argumentos informais não oferecem este tipo de garantia. Num bom argumento informal, como um bom argumento indutivo, não é logicamente impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa; pode ser impossível, mas não é logicamente impossível — e isto torna mais difícil decidir se é ou não impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.Com a caracterização dos dois grandes tipos de argumentos ficámos já com uma ideia do que é um argumento correcto ou válido: é um argumento que sustenta a verdade da conclusão, dada a verdade das suas premissas. E já vimos que a diferença entre os argumentos válidos e os argumentos informais é o facto de estes últimos, ao contrário dos primeiros, não garantirem em termos meramente lógicos a verdade da conclusão dada a verdade das premissas.
Aos bons argumentos, os chamados argumentos correctos ou válidos, opõem-se os maus argumentos, os chamados argumentos incorrectos ou inválidos. O que é um argumento inválido ou mau? Um argumento inválido é um argumento que não sustenta a verdade da sua conclusão. Se um argumento for inválido as premissas, ainda que sejam todas verdadeiras, não sustentam a conclusão. O que significa que uma pessoa pode concordar com todas as premissas, mas recusar a conclusão. Por isso é que os bons argumentos, válidos ou informais, são tão importantes: são os únicos que nos conduzem às suas conclusões.Mas repare-se numa subtileza. Dado um argumento válido podemos afirmar que ele conduz a uma conclusão verdadeira? A resposta, talvez surpreendente, é «não». Um argumento válido só conduz a uma conclusão verdadeira se todas as suas premissas forem verdadeiras. A verdade das premissas e a validade do raciocínio conduzem, ambos e apenas ambos, à verdade da conclusão. Por isso, na argumentação, a verdade e a validade andam de mãos dadas, e é preciso dar tanta atenção à validade ou correcção dos nossos raciocínios quanto à verdade das premissas usadas.
Há 4 tipos de argumentos informais:1. Nos argumentos com base em exemplos as premissas consistem num conjunto de exemplos que visam sustentar a conclusão.2. Nos argumentos por analogia as premissas estabelecem uma relação de semelhança entre duas coisas. Afirma-se que uma vez que num certo caso X se defende que Y então no caso Z se deve defender também Y porque X é semelhante a Z.3. Nos argumentos de autoridade citam-se certas fontes e especialistas que dispõem de dados fidedignos de que nós não dispomos.4. Os argumentos causais visam estabelecer uma relação causal entre dois ou mais tipos de fenómenos.Cada um destes tipos de argumentos tem regras próprias, que podem ser preliminarmente estudadas no livro "A Arte de Argumentar", de Anthony Weston.Algumas regras geraisVou agora, para terminar, falar de algumas regras gerais da arte de argumentar. Antes, porém, tenho de alertar o leitor para uma coisa. Hoje em dia está um pouco na moda, em alguns países, a retórica. Não se confunda a retórica de que em geral se fala com a argumentação de que falo aqui. A retórica de que em geral se fala é a arte de enganar; é a arte de usar todos os dispositivos possíveis para influenciar o auditório, apelando para os seus instintos mais baixos, ou para argumentos que parecem razoáveis mas não o são (as falácias). Daí que os amantes da retórica tenham a tendência para dizer que a retórica ultrapassa as limitações da lógica. Sejamos claros: se um argumento for mau, ou incorrecto, ou inválido, por mais retórica que se use, por mais que esse argumento funcione junto das pessoas em geral, continua a ser um mau argumento e quem está a usá-lo está a enganar as pessoas.
Desidério Murcho
Nota: Este é o texto de uma conferência proferida na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

quarta-feira, julho 04, 2007

A Filosofia e os factos

Fotografia: Catarina Carvalho

"O poder da filosofia consiste numa suspeita corporativa em relação aos factos, que umas vezes adopta a forma de desconfiança face ao meramente dado e outras dá origem a uma irada rebeldia. Em nenhum dos casos o facto deixa de ser 'uma bela e insidiosa palavra', segundo a acertada definição de Heidegger, porque os factos não têm a razão do seu lado, apesar de terem a assistência de maiorias triunfantes e milhares de vezes avalizados por costumes históricos. Devemos à filosofia - a essa impenitente desconfiança perante os factos - a manutenção de uma obstinação contra o fáctico, debaixo da qual se esconde sempre uma forma de pertinaz sensatez. A filosofia é rebeldia quando não se resigna a ser mera expressão do seu tempo, quando prefere ser evocação a ser reflexo e goza mais da vizinhança da literatura que da companhia fatal das ciências exactas."

Daniel Innerarity, A Filosofia como uma das Belas Artes

sexta-feira, junho 22, 2007

O anel de Giges

Nana Sousa Dias

" Querias roubar aquele disco ou aquela peça de roupa numa loja...mas há um vigilante que te observa, ou um sistema de vigilância electrónica, ou tens simplesmente medo de ser apanhado, de ser punido, de ser condenado...Não é honestidade; é calculismo. Não é moral, é precaução. O medo da autoridade é o contrário da virtude, ou é apenas a virtude da prudência.
Imagina, pelo contrário, que tens esse anel de que fala Platão, o famoso anel de Giges, que te torna invisível quando queres...É um anel mágico que um pastor encontrou por acaso. Basta rodar o anel e rodar o engaste para o lado da palma da mão para a pessoa se tornar invisível, e rodá-lo para o outro lado para voltar a ficar visível...Giges, que era um homem honesto, não soube resistir às tentações a que este anel o submetia; aproveitou os seus poderes mágicos para entrar no Palácio, seduzir a raínha, assassinar o rei, tomar o poder e exercê-lo em seu exclusivo benefício... (...) Possuíssem um e outro o anel de Giges e nada os distinguiria: 'tenderiam ambos para o mesmo fim'. Isto é sugerir que a moral não é senão uma ilusão, um engano, um medo disfarçado de virtude."
Comte-Sponville, Apresentações de Filosofia
Tradução de Helena Serrão

terça-feira, junho 19, 2007

O que é Arte?

Claes Oldenburg, 1929 , Estocolmo, Nac. USA



1. Deram-se algumas tintas e papel à Betsy, uma chimpanzé do Jardim Zoológico de Baltimore, com os quais ela criou vários produtos alguns dos quais podem chamar-se pinturas. Ainda que os trabalhos de Betsy não sejam obras-primas, são inegavelmente interessantes e, à sua maneira, apelativos. Foram expostos no Field Museum of Natural History em Chicago algumas peças seleccionadas do trabalho de Betsy. Suponha que, no mês seguinte, aquelas mesmas peças são exibidas no Chicago Art Institute, e que nas duas exposições os trabalhos de Betsy foram muito admirados pelos visitantes.
É arte o trabalho de Betsy? Será só arte em certas condições de exposição (por exemplo, no museu de arte, mas não no museu de história natural)? Se é arte (pelo menos algumas vezes) de quem é?
Quando se procura decidir se uma peça é uma obra de arte, que tipo de considerações devemos ter presentes? Será importante que o criador seja humano? Será importante se o seu criador pretenda que seja recebida ou compreendida como arte? Será importante que o objecto em questão seja, segundo o nosso juízo ou o de outros, um objecto excelente do seu tipo? Será importante onde, quando e por quem seja visto, se o for por alguém? Se, por acaso, a Betsy criar uma composição que não se distinga de uma obra universalmente aceite como uma obra de arte, transformará isso o seu trabalho numa obra de arte? Que diferença fará se determinarmos que a composição de Betsy ou quaisquer outras coisas sejam obras de arte? Que alterações, se as houver, são necessárias no modo como tratamos e pensamos tais objectos quando fazemos esta determinação?
2. Em 1967, a Galeria de arte de Ontário pagou 10.000 dólares por um trabalho de Claes Oldenburg chamado O Hamburguer Gigante (1967): um hamburguer completo com pickles em cima, feito em tela de vela e preenchido com espuma de borracha, com cerca de 1,32 m de altura e 2,13 m de comprimento. Um grupo de estudantes de arte fabricou em cartão uma garrafa de Ketchup à mesma escala, e conseguiram pô-la ao lado do hamburger, o que fez as delícias da imprensa e aborreceu a direcção do museu. O hamburger continua na colecção do museu mas a garrafa nunca mais foi vista.
Este incidente aconteceu realmente. Como podemos avaliá-lo? Deve ser visto como um gesto de desrespeito a um artista eminente e a uma instituição digna, uma demonstração de falta de maneiras? Ou devemos olhá-lo unicamente como um comentário satírico da facilidade e superficialidade da arte "pop", a arte da altura (como a arte "pop" era um comentário à arte "séria" da altura)? Era uma graça sem importância, deixando as coisas como estavam, sem qualquer dano estético? Ou houve um dano estético ou outro, pelo facto ser embaraçoso? Não passou de um grande erro? Será que os estudantes não compreenderam o objectivo do trabalho de Oldenburg e por isso estabeleceram a relação entre a garrafa de cartão e o trabalho cómico de Oldenburg tornando-o esteticamente sem interesse? Mais precisamente, poderíamos dizer que os estudantes criaram uma nova obra de arte própria, incorporando nela o trabalho de Oldenburg como parte?

Margaret P. Battin.
Tradução de Luís Nunes
Texto extraído de Margaret P. Battin, John Fisher, et al.: Puzzles About Art: An Aesthetics Casebook (St. Martin's Press, 1989), pp. 1-3.

segunda-feira, junho 18, 2007

O EXAME DE FILOSOFIA:

- Demasiado direccionado para uma forma de colocar os problemas. Para uma certa forma de entender o ensino da Filosofia que nem todos os professores seguem, logo os alunos desses professores podem ficar prejudicados.
- Demasiada ênfase na lógica em detrimento da Filosofia do conhecimento. Contra a própria orientação do programa.

- Coloca argumentos que podem ser convertidos em silogismos numa área geral quando esta matéria é opcional.

Veja-se o exercício 5 do grupo 1
Os filósofos querem saber se o conhecimento é possível, porque procuram o conhecimento e quem procura o conhecimento quer saber se o conhecimento é possível.

Poderia ser convertido à forma padrão de um silogismo categórico:

Todos os que procuram o conhecimento querem saber se ele é possível
Todos os filósofos procuram o conhecimento.
Logo, todos os filósofos querem saber se o conhecimento é possível.


e a resposta certa seria a D, é válido porque a conclusão é consequência das premissas.

O aluno teria de dominar a forma padrão do silogismo
e as regras da sua validade.
Esta matéria é opcional
A questão é de resposta obrigatória.

Para não falar na forma como o argumento aparece, forma que se presta a grandes confusões porque parece uma falácia de petição de princípio
porque se alguém procura o conhecimento parte do princípio que ele é possível.Ou não?

Disparates do exame: Como se resolve o problema 5?

Os filósofos querem saber se o conhecimento é possível, porque procuram o conhecimento e quem procura o conhecimento quer saber se o conhecimento é possível.



1º Poderíamos reduzir este ar

quarta-feira, junho 13, 2007

Arte como forma significante


O ponto de partida para todos os sistemas da estética tem de ser a experiência pessoal de uma emoção peculiar. Aos objectos que provocam tal emoção chamamos obras de arte. Qualquer pessoa sensível concorda que há uma emoção peculiar provocada pelas obras de arte. Não quero dizer, claro, que todas as obras de arte provocam a mesma emoção. Pelo contrário, cada obra de arte produz uma diferente emoção. Mas todas essas emoções são reconhecivelmente do mesmo tipo; de qualquer maneira, esta é, até agora, a melhor opinião. Que existe um tipo particular de emoção provocado por obras de arte visual e que essa emoção é provocada por todos os tipos de arte visual, por pinturas, esculturas, edifícios, peças de cerâmica, gravuras, têxteis, etc., etc., não é disputado, penso eu, por ninguém capaz de a sentir. Esta emoção é chamada emoção estética, e se pudermos descobrir alguma qualidade comum e peculiar a todos os objectos que a provocam, teremos resolvido o que considero ser o problema central da estética. Teremos descoberto a qualidade essencial numa obra de arte, a qualidade que distingue as obras de arte de outras classes de objectos.



Pois, ou todas as obras de arte visual têm alguma qualidade comum, ou quando falamos de "obras de arte" estamos a desconversar. Cada pessoa fala de "arte", fazendo uma classificação mental pela qual distingue a classe das "obras de arte" de todas as outras classes. Qual é a justificação para essa classificação? Qual é a qualidade comum e peculiar a todos os membros dessa classe? Seja ela qual for, não há dúvida que se encontra muitas vezes acompanhada por outras qualidades; mas estas são casuais — aquela é essencial. Tem de haver uma qualquer qualidade sem a qual uma obra de arte não existe; na posse da qual nenhuma obra é, no mínimo, destituída de valor. Que qualidade é essa? Que qualidade é partilhada por todos os objectos que provocam as nossas emoções estéticas? Que qualidade é comum à Santa Sofia e às janelas de Chartres, à escultura mexicana, a uma tijela persa, aos tapetes chineses, aos frescos de Giotto em Pádua, e às obras-primas de Poussin, Piero della Francesca e Cézanne? Só uma resposta parece possível — forma significante. Em cada uma, linhas e cores combinadas de uma maneira particular, certas formas e relações de formas, estimulam as nossas emoções estéticas. Estas relações e combinações de linhas e cores, estas formas esteticamente tocantes, chamo-as "Forma Significante"; e a "Forma Significante" é a tal qualidade comum a todas as obras de arte visual.

A hipótese segundo a qual a forma significante é a qualidade essencial de uma obra de arte tem ao menos o mérito negado a muitas outras mais famosas e impressivas — ajuda a explicar as coisas. Todos nós conhecemos quadros que nos interessam e despertam a nossa admiração, mas não nos tocam como obras de arte. A esta classe pertence aquilo a que chamo "Pintura Descritiva" — isto é, pintura em que as formas não são usadas como objectos de emoção, mas como meios de sugerir emoção ou veicular informação. Retratos de valor psicológico ou histórico, obras topográficas, quadros que contam histórias e sugerem situações, ilustrações de todos os tipos, pertencem a esta classe. Que todos nós reconhecemos a distinção é evidente, pois quem não disse já que tal e tal desenho era excelente como ilustração, mas sem valor como obra de arte? Claro que muitos quadros descritivos possuem, entre outras qualidades, significado formal, e são assim obras de arte: mas muitos outros não. Eles interessam-nos; podem tocar-nos também de uma centena de maneiras diferentes, mas não nos tocam esteticamente. De acordo com a minha hipótese não são obras de arte. Deixam intocadas as nossas emoções estéticas porque não são as suas formas mas as ideias ou informação sugeridas ou veiculadas pelas suas formas a afectar-nos. [...]
Que ninguém pense que a representação é má em si; uma forma realista pode ser tão significante, enquanto parte do desenho, como uma forma abstracta. Mas se uma forma representativa tem valor, é como forma, não como representação. O elemento representativo numa obra de arte pode ou não ser prejudicial; é sempre irrelevante. Pois, para apreciar uma obra de arte não precisamos de nos fazer acompanhar de nada da nossa vida, nem de nenhum conhecimento das suas ideias e ocupações, nem de qualquer familiaridade com as suas emoções. A arte transporta-nos do mundo da actividade humana para o mundo da exaltação estética. Por um momento somos afastados dos interesses humanos; as nossas previsões e recordações são aprisionadas; somos elevados acima da corrente da vida.


Quadros:
1º: Artemisia Gentileschi, (1593/1652), Judith,Roma
2º Paul Cezanne, (1893/1906) Cortine, cruchon et compotier
3º :Giotto, 1266/1337, Lamentação, Fresco da capela degli Strovegni, Pádua


Clive Bell "The Aesthetic Hypothesis", in Charles Harrison & Paul Wood, Art in Theory, 1900-1990, Blackwell, Oxford, 2000, pp. 113-115
TRadução de Aires de Almeida



segunda-feira, junho 11, 2007

Fé e Conhecimento.

"A Fé é diferente do conhecimento. Giordano Bruno acreditava e Galileu sabia. Exteriormente estavam ambos na mesma situação. O tribunal da Inquisição exigia, sob pena de morte, tanto a um como a outro que se retratassem. Giordano Bruno estava pronto a retratar certas proposições, mas não as que julgava essenciais; teve a morte dos mártires. Galileu retratou a doutrina do movimento da terra à volta do Sol, mas conta-se a sua exclamação significativa: "E no entanto ela move-se". É precisamente aí que reside a diferença: há uma verdade que sofre por ser retratada e há outra que nenhuma retratação consegue abalar. Os dois acusados agiram de acordo com o que consideravam ser a sua verdade. O que é para mim vital só existe quando me identifico com ele.É histórico quanto à sua aparição, não tem valor universal quanto à sua expressão objectiva, mas é absoluto.
A verdade que posso demonstrar subsiste sem mim: é universalmente válida, não histórica, independente do tempo, mas não é absoluta, visto que se subordina a hipóteses, aos métodos de conhecimento na relatividade do finito. Seria desproporcionado querer morrer por ela. Mas em compensação, para o pensador que acredita ter alcançado o fundo das coisas e não pode mais retratar as suas declarações sem atentar contra a própria verdade, o debate trava-se no segredo da sua consciência. "

Karl Jaspers, La foi philosophique

segunda-feira, junho 04, 2007

A evolução da Ciência : a proposta de Popper entendida por Alexandre Marques

O progresso da ciência, tal como o vê o falsificacionista, poderá resumir-se da seguinte forma. A ciência começa com problemas, problemas que estão associados à explicação do comportamento de alguns aspectos do mundo. O cientista propõe hipóteses falsificáveis para solucionar os problemas. As hipóteses são criticadas e comprovadas. Algumas são eliminadas rapidamente, outras podem ter mais êxito. Estas devem submeter-se a críticas e provas mais rigorosas. Quando finalmente se falsifica uma hipótese que tenha superado com sucesso uma grande variedade de testes, surge um novo problema, que é a invenção de novas hipóteses, seguidas de novas críticas e provas. Este processo continua indefinidamente. Por isso nunca se pode afirmar que uma teoria é verdadeira, por muitas provas rigorosas que tenha superado, somente podemos afirmar que a teoria em vigor é superior às suas predecessoras, no sentido de que foi capaz de superar testes que falsificaram as teorias anteriores. No dizer de Popper "(...) só há um caminho para a ciência: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte nos separe – a não ser que obtenhamos uma solução. Mas, mesmo que obtenhamos uma solução, poderemos então descobrir, para nosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem-estar poderemos trabalhar, com um sentido, até ao fim dos nossos dias".1 A afirmação de que a origem da ciência está nos problemas é perfeitamente compatível com a prioridade das teorias sobre a observação e os enunciados observáveis. A ciência não começa com a pura observação. A concepção falsificacionista, proporciona uma imagem dinâmica da ciência. O progresso da ciência, exige que as teorias sejam cada vez mais falsificáveis e em consequência tenham cada vez mais informação, exclui no entanto, que se efectuem modificações nas teorias destinadas simplesmente a protegê-las da falsificação ou de uma falsificação ameaçadora. Essas modificações, tal como a adição de mais um postulado sem consequências que não tenham sido já comprovadas, são denominadas de modificações ad hoc. As modificações ad hoc são rejeitadas pelo falsificacionista, no entanto, existe outro tipo de modificações não ad hoc, aceites pelo falsificacionista. Centramos a nossa atenção na seguinte proposição: "O pão alimenta". No entanto, em França, numa determinada região, o trigo que crescia de maneira normal foi convertido em pão normal e a maioria das pessoas que comeu esse pão ficou gravemente doente. A teoria de que "todo o pão alimenta" foi falsificada. Podemos modificar a teoria para evitar a sua falsificação: "Todo o pão alimenta, excepto, aquele que é produzido numa determinada zona de França". Esta é uma modificação ad hoc. A teoria modificada não pode ser comprovada de maneira que não o seja também a teoria original. A hipótese modificada é menos falsificável que a versão original. O falsificacionista rejeita essas acções de retaguarda. Como modificar a teoria de uma maneira aceitável? Da seguinte forma: "Todo o pão alimenta, excepto aquele, cujo trigo é contaminado por um determinado tipo de parasita". Esta teoria modificada, não é ad hoc porque leva a novas comprovações. No dizer de Popper, é contrastável de forma independente.
1. Karl Popper, O Futuro está aberto

Alexandre Marques, A doutrina do falseamento de Karl Popper

segunda-feira, maio 28, 2007

O paradoxo hedonista

De Kooning, Sem título, EUA , 1904/1997

“ A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.
Tem-se dado o nome de ‘paradoxo do hedonismo’ ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes.”

Peter Singer, Ética prática


quarta-feira, maio 23, 2007

Será que uma vida subjectivamente satisfatória é uma vida com sentido?

Tiziano, Sísifo, 1548, Veneza ,1490-1576


“ A ideia de uma distinção entre uma vida com sentido e uma vida sem sentido não é equivalente à diferença mais óbvia e incontroversa entre uma vida que é subjectivamente satisfatória ou enriquecedora e outra que não o é. Quando perguntamos se as nossas vidas têm sentido não estamos a fazer algo totalmente introspectivo, e quando procuramos uma forma de dar sentido às nossas vidas, não estamos à procura do comprimido da felicidade. A vida de Sísifo, perpetuamente condenado a carregar um pedregulho por um monte acima que depois caía outra vez, tem sido caracterizada (…) como um paradigma da ausência de sentido. Se imaginarmos que Sísifo encontrava uma perversa satisfação nesta actividade repetitiva e inútil, não é claro se pensamos que nesse caso a sua vida tem mais sentido, ou se pelo contrário é mais miserável.”


Susan Wolf, O Sentido da Vida

terça-feira, maio 22, 2007

Arte (i) moral?


Franz Kline, 1910-1962, EUA

" Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais (...) A vida moral do Homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo (...) o vício e a virtude são para o artista materiais de arte. Pode-se perdoar a um homem fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.

Toda a arte é absolutamente inútil."
Oscar Wilde, prólogo do Retrato de Dorian Gray

" A obra literária tem necessariamente de exercer uma acção no espírito de quem a lê. Mas se essa acção é imoral, destruirá fatalmente a emoção estética. Portanto, uma obra imoral, na medida em que for, deixaraá de ser artística."

Paulo Durão Alves, Arte e Moral, Brotéria, 1927


A interpretação da obra de arte.

Deolinda Fonseca, 2004

"O que é importante hoje é recuperar os nossos sentidos. Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais.A nossa tarefa não é descobrir numa obra de arte o máximo de conteúdo, e ainda menos espremer mais conteúdo de uma obra do que aquele que já lá está. A nossa tarefa é reduzir o conteúdo de modo a podermos ver realmente o que lá está."


Na maior parte das situações na época moderna, a interpretação corresponde à recusa filistina de deixar em paz a obra de arte. A verdadeira arte tem a propriedade de nos deixar nervosos. Ao reduzir a obra de arte ao seu conteúdo para depois interpretar esse conteúdo, é o mesmo que domesticar a obra de arte. A interpretação torna a arte dócil, conformada."


"Mas, naturalmente, a arte permanece ligada aos sentidos. Assim como não se pode fazer flutuar a cor no espaço (o pintor precisa de um qualquer tipo de suporte, como a tela, ainda que neutro e sem textura) também não se pode ter uma obra de arte que não actue sobre os sentidos humanos. Mas é importante compreender que a consciência sensorial humana não tem apenas uma biologia, mas também uma história específica, com cada cultura a privilegiar a tónica em certos sentidos e inibindo outros. (A mesma coisa vale para a gama de emoções humanas primárias). É aqui que (entre outras coisas) entra em jogo a arte, e é essa a razão por que descobrimos na arte interessante da nossa época um tal sentimento de angústia e de crise, por mais alegre, abstracta e ostensivamente neutra do ponto de vista ético que possa parecer. Pode dizer-se que o homem ocidental tem sofrido uma anestesia maciça dos sentidos (concomitante do processo a que Max Weber chama «racionalização burocrática») pelo menos desde a Revolução Industrial, com a arte moderna a funcionar como uma espécie de terapia de choque, confundindo e descerrando os nossos sentidos simultaneamente.


Susan Sontag in Contra a Interpretação e outros ensaios, Lisboa, Gótica, 2004

segunda-feira, maio 21, 2007

A arte. Excesso.

Vincent Van Gogh, Holanda, 1853/1890
Noite estrelada,1889

" Se realmente amamos a arte, devemos amá-la acima de todas as outras coisas do mundo, e, contra um tal amor, a razão, se lhe déssemos ouvidos, levantaria a sua voz: não há nada de equilibrado na adoração da beleza. É demasiado esplêndida para ser equilibrada."
"A estética é algo de mais alto que a ética. Pertence a uma esfera mais alta. Discernir a beleza de uam coisa é o ponto mais alto a que podemos chegar. Até mesmo o sentido da cor é mais importante, no desenvolvimento do indivíduo, do que a noção de bem e de mal."

Oscar Wilde, Intenções

terça-feira, maio 15, 2007

Tudo pode ser arte?

Andy Warhol, Caixa de Brillo, EUA ,1964

"O senhor Andy Warhol, artista Pop, expõe cópias exactas de caixas de papelão de Brillo (famosa marca americana de detergentes para a loiça) cuidadosamente empilhadas ao alto, como no armazém de um supermercado.
Acontece que são de madeira, se bem que pintadas de modo a parecer papelão. E por que não? (...)
Sucede que o preço destas caixas é milhares de vezes superior ao das suas réplicas da vida real -uma diferença que dificilmente pode ser atribuída à sua maior durabilidade. O que faz dessas coisas obras de arte? E porque precisa Warhol de fazer essas obras à mão? (...)
O que afinal faz a diferença entre uma caixa de Brillo en uma obra de arte que consiste numa caixa de Brillo é uma certa teoria da Arte. É a teoria que a mantém no mundo da arte e a impede de resvalar para o objecto real que é (num outro sentido de ser diferente do de identificação artística). Claro que é improvável que sem a teoria alguém a visse como arte. De modo a vê-la como parte do mundo da arte, uma pessoa tem que dominar bem a teoria da arte, assim como precisa de ter um profundo conhecimento da história da pintura nova- iorquina recente."

Arthur Danto, A libertação artística dos objectos reais: o mundo da arte.

quarta-feira, maio 09, 2007

A Arte como testemunho

1840 Gustave Courbet, Auto-retrato com braço levantado
" O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele; e, como é pela emoção, e pelo pensamento que a emoção provoca que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experiência, regista-a ele nos faustos das sua emoções e não na crónica do seu pensamento científico, ou na história dos seus regentes e dos seus donos.
Com a ciência buscamos compreender o mundo que habitamos, mas para o utilizarmos; porque o prazer ou ânsia só da compreensão, tendo de ser gerais, levam à metafísica, que é já uma arte.
Deixamos a nossa arte escrita para guia dos vindouros, e encaminhamento plausível das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida."
Fernando Pessoa, Páginas de Estética

quinta-feira, maio 03, 2007

Do padrão de gosto.

Gustave Courbet, Costa marítima, 1850

“É natural que procuremos encontrar um padrão do gosto, uma regra capaz de conciliar as várias opiniões dos homens; ou pelo menos uma decisão reconhecida, aprovando uma opinião e condenando outra.

Há uma espécie de filosofia que condena qualquer esperança de sucesso nessa tentativa, concluindo pela impossibilidade de vir jamais a atingir qualquer padrão de gosto. Diz ela que há uma diferença muito grande entre o juízo e o sentimento. O sentimento está sempre certo –porque o sentimento não tem outro referente senão ele mesmo e é sempre real, quando alguém tem consciência dele. Mas nem todas as determinações do entendimento são certas, porque têm como referente algumas coisas para além delas mesmas, a saber, os factos reais e nem sempre são conformes a esse padrão. Entre mil e uma opiniões que pessoas diferentes podem ter a respeito do mesmo assunto, há uma e apenas uma que é justa e verdadeira e a única dificuldade é encontrá-la e confirmá-la. Pelo contrário, os mil e um sentimentos despertados pelo mesmo objecto são todos certos, porque nenhum sentimento representa o que realmente está no objecto. Ele limita-se a observar uma certa conformidade ou relação entre o objecto e os órgãos ou faculdades do espírito e, se essa conformidade realmente não existisse, o sentimento jamais poderia ter ocorrido. A beleza não é uma qualidade das próprias coisas, existe apenas no espírito que a contempla e cada espírito percebe uma beleza diferente. É possível até uma pessoa encontrar deformidade onde uma outra vê apenas beleza e qualquer indivíduo deve concordar com o seu próprio sentimento, sem ter a pretensão de regular o dos outros. Procurar estabelecer uma beleza real ou uma deformidade real é uma investigação tão infrutífera como procurar uma doçura real ou um amargor real. Conforme a disposição dos órgãos do corpo, o mesmo objecto tanto pode ser doce ou amargo e o provérbio popular afirma, com muita razão, que gostos não se discutem. É muito natural e mesmo absolutamente necessário aplicar este axioma ao gosto mental, além do gosto corpóreo e assim o senso comum, que tão frequentemente diverge da filosofia, neste caso, está de acordo com esta decisão.
David Hume, Do padrão de gosto

Síntese:
O argumento é o seguinte: se o gosto provém de um sentimento, então não pode haver padrão de gosto porque os sentimentos são sempre certos para o que sente e não há referente exterior. Não podendo encontrar uma beleza objectiva é impossível então encontrar um objecto que seja unanimemente considerado belo. Daqui poderíamos concluir que depende do sentimento de cada um que por sua vez depende da forma, estado de espírito etc de cada um. Hume defende, no entanto que é possível estabelecer um padrão de gosto, isto é, é possível estabelecer condições pela quais a subjectividade é conduzida a uma espécie de condição de percepção. Há condições pela quais podemos percepcionar um objecto, se essas condições forem satisfeitas podemos chegar a um acordo acerca da beleza ou do valor estético de um objecto. Nessas condições, emitir o juízo de que a música de Bach e a de Emanuel são igualmente belas ou dizer"Gosto mais da música de Emanuel que da de Bach", equivaleria  a dizer que o a Lagoa de Óbidos é maior que o Oceano Atlântico, o que é obviamente uma falsidade, assim como fere o mais elementar senso comum.Tal, explica Hume só se pode dar por deformação do órgão sensível, sendo assim, a expressão, os gostos discutem-se é mais aproximada, na origem da diversidade de opiniões estão uma série de factores que contribuem para  que o nosso gosto seja sujo pois nele estão presentes interesses, estados de espírito, hábitos, conhecimentos, modas. Poderse-ia justificar o padrão de gosto colocando-o como aquele que é pronunciado por um crítico excelente, numa situação ideal, e Hume enumera o que tem de ter o crítico excelente, resta pensar se a situação ideal pode acontecer.

quarta-feira, maio 02, 2007

O juízo estético



Maggie Taylor, Surrounded, 2004 Cleveland 1961

" Cada qual chama agradável ao que lhe causa prazer, belo o que simplesmente satisfaz; bom o que ele estima, aprova, isto é aquilo a que atribui um valor objectivo. O agradável tem valor mesmo para os animais desprovidos de razão: a beleza só tem valor para os homens, ou seja, seres de natureza animal, contudo racionais. (...)

Pode-se dizer que destes três géneros de satisfação, o gosto pelo belo é a única satisfação desinteressada e livre. Com efeito, nenhum interesse, nem dos sentidos, nem da razão, constrange o assentimento. Nos três casos indicados, a satisfação deve-se, no primeiro à inclinação, no segundo ao favor e último ao respeito. O favor é a única satisfação livre.Um objecto da inclinação ou uma lei da razão que nos ordena desejar, não nos deixa nenhuma liberdade de deles fazermos, para nós, um objecto de prazer.

Todo o interesse pressupõe uma carência ou produz uma, e como princípio determinante do assentimento, não deixa o juízo sobre o objecto ser livre."

Immanuel Kant, Crítica do Juízo, tradução?

segunda-feira, abril 30, 2007

O que é a Arte?

Juan Muñoz, Apres Degas, 1997

" Os sentimentos com que o artista contagia os outros podem ser os mais variados -muito fortes ou muito fracos, muito importantes ou muito insignificantes, muito maus ou muito bons: sentimentos de amor pelo seu próprio país, de entrega e submissão ao destino ou a Deus expressos numa peça dramática, arrebatamentos de amantes descritos numa novela, sentimentos de volúpia expressos num quadro, coragem expressa numa marcha triunfal, felicidade evocada numa dança, humor evocado numa história divertida, o sentimento de serenidade transmitido por uma paisagem ou por uma canção de embalar, ou o sentimento de admiração evocado por um belo arabesco - tudo isso é arte.
Desde que os espectadores ou ouvintes sejam contagiados pelos mesmos sentimentos que o autor sentiu, há arte."

Leão Tolstoi, O que é a Arte.

segunda-feira, abril 23, 2007

Rousseau, o solitário

Jean-Jacques Rousseau,Genebra, Suíça 1712

" Não posso deixar de verificar, em conclusão, uma oposição muito estranha entre nós no que respeita ao assunto desta carta. Recompensado com a glória, e desenganado, com ares presunçosos, viveis livre e despreocupadamente (...) No entanto, não encontrais senão mal no mundo. E eu, na obscuridade, pobre, só, atormentado por um sofrimento sem remédio, medito com prazer no meu retiro e descubro que tudo está bem. De onde vêm estas contradições aparentes? Vós o haveis explicado - enchei-vos de júbilo, e eu de esperança, e a esperança embeleza o mundo. "
in , Carta a Voltaire ,18 Agosto de 1756

Duas notas, ou dúvidas:

Primeira: porque é que o nome de um determinado autor dá um poder especial ao texto, independentemente do que é dito? Se fosse escrito por um anónimo este texto não teria honra de citação e reflexão.

Será uma questão de autoridade consentida? Uma questão de facilidade de encontrar e ler determinados autores que a tradição permitiu que fossem publicados?

Segundo: Interessará saber de que padece Rousseau para validar a sua argumentação?



quarta-feira, abril 18, 2007

Descrever ou explicar?

Transformações, Sarah Grilo, Argentina, 1973
"Não podemos explicar, por exemplo, por que a bala de John Wilkes Booth matou Lincoln enquanto os nacionalistas porto-riquenhos que tentaram matar Truman não tiveram sucesso. Talvez tivéssemos uma explicação parcial se tivéssemos provas de que um dos braços do atirador tremeu ao puxar o gatilho, mas o facto é que não temos. Todas essas informações estão perdidas nas brumas do tempo; os eventos dependem de acidentes que jamais poderemos recuperar.
Podemos, talvez, tentar explicá-los estatisticamente: por exemplo, pode-se cogitar a teoria de que os actores sulistas em meados do século 19 costumavam ser bons atiradores, enquanto os nacionalistas porto-riquenhos em meados do século 20 costumavam ser maus atiradores, mas, quando se tem somente informações esparsas, é muito difícil fazer até mesmo inferências estatísticas. Os físicos tentam explicar justamente as coisas que não dependem de acidentes, mas no mundo real a maior parte do que tentamos compreender depende de acidentes.

Além disso, a ciência nunca pode explicar nenhum princípio moral. Parece haver um abismo intransponível entre questões do que "é" e do que "deve ser". Talvez possamos explicar por que as pessoas acham que devem fazer as coisas, ou por que a raça humana evoluiu para sentir que certas coisas devem ser feitas e outras não, mas permanece em aberto para nós transcender essas regras morais de base biológica. Pode ser, por exemplo, que a nossa espécie tenha evoluído de tal modo que homens e mulheres desempenhem papéis diferentes - os homens caçam e brigam, as mulheres dão à luz e cuidam dos filhos, mas podemos tentar evoluir para uma sociedade em que todo tipo de trabalho esteja igualmente aberto a mulheres e homens. Os postulados morais que nos dizem se devemos ou não fazê-lo não podem ser deduzidos do conhecimento científico.

Há também limitações na certeza de nossas explicações. Não creio que jamais teremos certeza de nenhuma delas. Tal como há profundos teoremas matemáticos que mostram a impossibilidade de provar que a aritmética é consistente, parece que nunca seremos capazes de provar que as mais fundamentais leis da natureza são matematicamente consistentes. Não que isso não me assuste, porque, mesmo que soubéssemos que as leis da natureza são matematicamente consistentes, ainda assim não teríamos certeza de que são verdadeiras. Deixamo-nos de preocupar com a certeza quando se dá aquela mudança na carreira que nos transforma em físicos e não em matemáticos.

Finalmente, parece claro que nunca seremos capazes de explicar os nossos mais fundamentais princípios científicos. (Talvez seja por isso que alguns dizem que a ciência não fornece explicações, mas por esse raciocínio, nada mais o faz.) Creio que, no fim, chegaremos a um conjunto de leis da natureza simples e universais, leis que não podemos explicar. O único tipo de explicação que posso imaginar (se não descobrirmos um simples conjunto de leis mais profundo, o que somente estenderia a questão) seria mostrar que a consistência matemática exige essas leis. Mas isso é obviamente impossível, porque já podemos imaginar conjuntos de leis da natureza que, até onde sabemos, são perfeitamente consistentes em termos matemáticos, mas não descrevem a natureza tal como a observamos. "
Stephen Weinberg, Os limites da explicação científica

terça-feira, abril 17, 2007

Religião e sentido da existência

Mark Rothko, Russia 1903

" Uma das respostas hoje em dia mais populares no que respeita ao sentido da vida é a resposta religiosa. Ao passo que na Antiguidade grega e romana as respostas ao problema do sentido da vida eram de carácter filosófico e cognitivo, hoje em dia é costume pensar que só a religião pode fornecer uma resposta ao problema. Nesta secção quero mostrar em linhas gerais qual é a resposta teísta habitual ao problema e mostrar as suas limitações. Na verdade, penso que o conjunto de doutrinas sobre o deus cristão que se foram cristalizando ao longo dos séculos — em parte em resposta aos desafios de filósofos não religiosos — é um agregado incoerente de doutrinas que só aparentemente respondem aos anseios humanos mais profundos. Vejamos o caso concreto da resposta teísta genérica ao problema do sentido da vida.
Do ponto de vista teísta, Deus é criador. Criou todo o universo para os seres humanos. Só por si, isto não dá grande sentido à nossa vida. Dá-nos apenas um lugar de destaque, que talvez seja emocionalmente reconfortante para algumas pessoas. O que dá sentido à nossa vida, do ponto de vista teísta, é o facto de Deus ter um plano para nós: uma finalidade, precisamente. Todo o universo, com os seus biliões de biliões de estrelas (só na nossa galáxia o número de estrelas é igual ao número de segundos que há em 2 mil anos — e há milhões de galáxias), foi criado para nós e com uma finalidade em vista. A monstruosidade aritmética desta ideia é impressionante. Mas mais impressionante ainda é o facto de ninguém saber bem que finalidade é essa. Todavia, mais grave do que ninguém saber que finalidade Deus nos reservou, são os dois problemas seguintes.
Em primeiro lugar, o teísta defende que é em princípio impossível saber exactamente quais são os desígnios divinos; podemos ter algumas ideias aproximadas, mas os desígnios divinos ultrapassam necessariamente a razão humana. Assim, em última análise, não podemos compreender qual é o sentido da nossa vida. Um teísta apenas tem a esperança (do meu ponto de vista, injustificada) de que a sua vida faça sentido, apesar de o sentido que a sua vida faz, se fizer, ser insusceptível de ser compreendido pela razão humana. Em resumo, a resposta teísta é esta: a nossa vida tem sentido, mas não sabemos nem podemos saber qual é.
Em segundo lugar, do facto de Deus ter reservado para nós uma finalidade última não se segue que a nossa vida tem sentido na acepção forte do termo. Como vimos, para que a minha vida tenha sentido em termos substanciais não basta que tudo o que eu faço se organize em torno de um conjunto de finalidades últimas; é preciso que essas finalidades últimas tenham em si valor objectivo — caso contrário, seremos como psicopatas felizes, que organizam a sua vida em torno de um dado conjunto de finalidades, sem que no entanto pareça que se possa dizer que a sua vida tem sentido.
A resposta teísta ao segundo problema é surpreendente e acaba por nos conduzir ao primeiro. A resposta é a seguinte: viver no paraíso, junto de Deus, é algo que tem valor em si. E uma vez mais somos reconduzidos ao primeiro problema: esta ideia é incompreensível. Por que razão viver eternamente feliz, num júbilo permanente, e junto de Deus, tem valor objectivo? Se temos a audácia de perguntar por que razão uma vida ética, como a proposta pelos estóicos ou por moralistas como Peter Singer, dá sentido objectivo à nossa vida, estamos obrigados a fazer a mesma pergunta agora. E a resposta teísta reconduz-nos ao primeiro problema: a vida eterna, no paraíso, junto de Deus, tem valor objectivo, mas é impossível saber porquê; isso é algo que só compreenderemos quando lá estivermos. Por outras palavras, a resposta teísta ao problema do sentido da vida é apenas a esperança de que um dia iremos dar connosco no paraíso com capacidades superiores de compreensão, altura em que compreenderemos por que razão tudo fez, objectivamente, sentido. Em resumo: o teísmo é a esperança de que a nossa vida faça sentido, apesar de ser impossível compreender que sentido é esse.
Não me parece que esta perspectiva seja muito satisfatória. Imagine-se que eu dizia que há leis que explicam o movimento dos planetas e a queda dos corpos; mas que essas leis são inalcançáveis pela razão humana. Isto, em si, não explica o movimento dos planetas nem a queda dos corpos; é apenas uma maneira de nos fazer parar de pensar acerca disso. Faz-nos parar de pensar porque nos garante que é impossível descobrir tal coisa, ao mesmo tempo que nos assegura que basta esperar que compreenderemos tudo, quando mudarmos de nível de existência — desde que façamos certas coisas, como ser virtuoso e crer firmemente, contra todos os indícios em contrário, que Deus existe. Mas se tivermos a audácia de querer continuar a pensar, se insistirmos em estudar o problema do sentido da vida, que alternativas nos restam? É isso que iremos ver na próxima secção."

Em Desidério Murcho, 'O Sentido da Vida', Intelectu, http://www.intelectu.com

quarta-feira, abril 11, 2007

Ciência e senso comum

Andrei Tarkovski, Andre Rublev, URRS, 1969
Nas diferenças entre a ciência moderna e o senso comum já mencionadas, está implícita a diferença importante que deriva de uma estratégia deliberada da ciência que a leva a expor as suas propostas cognitivas ao confronto repetido com dados observacionais criticamente comprovativos, procurados sob condições cuidadosamente controladas. Isto não significa, no entanto, que as crenças do senso comum sejam invariavelmente erradas, ou que não tenham quaisquer fundamentos em factos empiricamente verificáveis. Significa que, por uma questão de princípio estabelecido, as crenças do senso comum não são sujeitas a testes sistemáticos realizados à luz de dados obtidos para determinar se essas crenças são fidedignas e qual é o alcance da sua validade. Significa também que os dados admitidos como relevantes na ciência devem ser obtidos através de procedimentos instituídos com o objectivo de eliminar fontes de erro conhecidas. Deste modo, a procura de explicações na ciência não consiste simplesmente em tentar obter "primeiros princípios" que sejam plausíveis à primeira vista e que possam vagamente dar conta dos "factos" da experiência habitual. Pelo contrário, essa procura consiste em tentar obter hipóteses explicativas que sejam genuinamente testáveis, porque se exige que elas tenham consequências lógicas suficientemente precisas para não serem compatíveis com quase todos os estados de coisas concebíveis. As hipóteses procuradas devem assim estar sujeitas à possibilidade de rejeição, que dependerá dos resultados dos procedimentos críticos, inerentes à pesquisa científica, destinados a determinar quais são os verdadeiros factos do mundo.

Ernest Nagel, The Structure of Science (Nova Iorque, Harcourt, Brace & World, 1961). Tradução de Pedro Galvão

sexta-feira, março 23, 2007

O outro - mediador

Jean Paul Sartre, 1905-1980, França
“ Acabo de fazer um gesto desastrado ou ordinário: (…) Apercebo-me de súbito, de toda a baixeza do meu gesto e tenho vergonha. Claro que a minha vergonha não é reflexiva, pois a presença de outrem à minha consciência, nem que seja à maneira de um catalisador, é incompatível com a atitude reflexiva: no campo da minha reflexão não posso nunca encontrar senão a minha própria consciência. Ora, o outro é o mediador indispensável entre mim e eu próprio: tenho vergonha de mim tal como apareço ao outro. E, pela própria aparição do outro, tenho a possibilidade de fazer um juízo sobre mim como sobre um objecto, pois é como objecto que apareço ao outro. (…) A vergonha é por natureza reconhecimento. Reconheço que sou como o outro me vê.”

Jean Paul Sartre, O ser e o nada

quarta-feira, março 21, 2007

Ódios de estimação - Nietzsche

Que se me perdoe a descoberta de que, até agora, toda a filosofia da moral foi enfadonha e fez parte dos soporíferos - e que, a meu ver, a virtude só foi prejudicada pelo fastio dos seus apologistas:(...)



Nenhum destes pesados animais de rebanho de consciência inquieta (e que se propõem defender a causa do egoísmo como causa do bem-estar geral) quer saber ou farejar que o bem-estar geral não é um ideal, um alvo, um conceito definível, mas sim e apenas um vomitório – que o que é justo para um, é muito capaz de não poder ser justo para o outro, que a exigência de uma moral para todos é o prejuízo precisamente dos homens superiores, enfim, que há uma ordem hierárquica entre os homens e, por conseguinte, também entre as morais.
É um tipo de homem modesto e integralmente medíocre, o destes ingleses utilitários, e, como já disse: conquanto sejam enfadonhos, pode muito bem ter-se em conta a sua utilidade. Devia-se mesmo encorajá-los: como se tentou, em parte nos versos seguintes:
Salve, bravos carroceiros,
Sempre “quanto mais melhor”,
Cada vez mais entorpecidos de cabeça e de joelhos,
Sem entusiasmo, sem graça,
Irremediavelmente medíocres,
Sans génie et sans esprit!

Nietzsche,Humano demasiado humano

A moral de Stuart-Mill

A Leiteira, Johannes Vermeer, 1632-1675, Delft, Holanda.

Quem supõe que ...o ser superior, em qualquer coisa como circunstâncias iguais, não é mais feliz que o inferior -confunde as duas ideias muito diferentes de felicidade e contentamento. É indiscutível que um ser cujas capacidades de deleite são baixas tem maior probabilidade de tê-las inteiramente satisfeitas, e que um ser altamente dotado sentirá sempre que qualquer felicidade que pode esperar, tal como o mundo é constituído, é imperfeita. Mas pode aprender a suportar as suas imperfeições, se de todo forem suportáveis, e elas não o farão invejar o ser que na verdade não tem consciência das imperfeições, mas só porque não sente de maneira nenhuma o bem que essas imperfeições qualificam. É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito. E se o idiota ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.

Stuart-Mill, O Utilitarismo

domingo, março 18, 2007

Da vida feliz

“ “ Dizemos que o prazer é o começo e o fim da vida feliz. Sabemos que ele é o bem primeiro e conforme à nossa natureza e é dele que derivamos toda a escolha e toda a rejeição. (…) Há casos em que excluímos muitos prazeres se daí resultar para nós aborrecimento, julgamos muitas dores preferíveis aos prazeres quando dos sofrimentos que suportamos resulta para nós um prazer mais elevado.
Assim, todo o prazer é, em si mesmo, um bem, mas nem todo o prazer deve ser procurado; do mesmo modo, toda a dor é um mal, mas nem toda a dor deve ser evitada.
Deste modo, para decidir, convém analisar atentamente o que é útil e o que é prejudicial, porque usamos, às vezes, o bem como se fosse um mal e o mal como se fosse um bem.”

Epicuro, Carta a Meneceu

sábado, março 17, 2007

O Problema da Liberdade

Bento de Espinosa, 1632-1677, Holanda
Pelo meu lado, digo que esta coisa é livre, que existe e age pela necessidade da sua natureza e é constrangida e determinada por uma outra a existir e a agir segundo uma modalidade precisa e determinada. Deus, por exemplo, existe livremente porque existe apenas pela necessidade da sua natureza. Vedes então que não sintuo a liberdade num decreto livre mas numa necessidade livre.
Mas regressemos às coisas criadas que, todas elas, são determinadas a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada. Uma pedra recebe de uma causa exterior que a atira, uma certa quantidade de movimento...todo o objecto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma lei precisa e determinada...
Concebei agora, se quiserdes, que a pedra, enquanto se move, sabe e pensa que faz todo o esforço possível para continuar a mover-se. Este perdura, certamente, porque não tem consciência senão do seu esforço...julgará ser livre...
Tal é a liberdade humana que todos os homens se envaidecem de ter e que consiste em os homens serem conscientes dos seus desejos e ignorantes da causas que os determinam. É assim que uma criança julga desejar livremente o leite...Um ébrio julga dizer por decisão o que seguidamente quererá calar."
Bento de Espinosa, Carta a G.H. Shuller

Melancolia Filosófica - David Hume

Fotografia de Manuela Afonso
Sinto-me assustado e confuso com esta situação desesperante em que me encontro na minha filosofia, e imagino-me a mim mesmo como um monstro estranho e grosseiro que, não sendo capaz de se misturar e se unir em sociedade, foi expulso do convívio humano, totalmente abandonado e deixado inconsolável. De bom grado misturar-me-ia à multidão em busca de protecção e cordialidade, mas sendo possuidor de tal deformidade, não posso ousar misturar-me. Convido a outros que se unam a mim com o objectivo de constituir uma sociedade à parte, mas ninguém me atende. Todos se opõem à distância e temem a tormenta que me golpeia de todos os lados. Expus-me à inimizade de todos os metafísicos, lógicos, matemáticos e mesmo teólogos; devo alegrar-me com os insultos que tenho de suportar? Declarei a minha desaprovação de seus sistemas; devo surpreender-me por eles expressarem seu ódio da minha pessoa? Quando contemplo todas as disputas, contradições, calúnia e difamação; quando dirijo a minha atenção para o meu interior, não encontro nada senão dúvida e ignorância. Todo o mundo me opõe e me contradiz; tal é a debilidade que experimento que todas as minhas opiniões se desfazem e caem por si mesmas quando não sustentadas pela aprovação dos outros. Cada passo que dou com vacilação e cada nova reflexão me faz temer um erro ou um absurdo no meu raciocínio. Ora, com que confiança posso aventurar-me a um empreendimento tão audaz quando, além das infinitas debilidades que me são peculiares, descubro tantas outras que são comuns à natureza humana? Posso estar seguro de que ao abandonar todas as opiniões estabelecidas chegarei à verdade? E por qual critério devo distingui-la se a fortuna guia por fim os meus passos? Após o mais preciso e exacto dos meus raciocínios, não posso dar uma razão porque devo eu assentir a ele e não experimento mais do que uma forte inclinação a considerar os objectos fortemente do ponto de vista a partir do qual se me apresentam.
(...)
David Hume, Treatise of Human Nature , Conclusão, do Livro I

Conhecer o que amamos

Foto de Manuela Afonso

“ Uma criança aprende uma lição de Geografia para ter uma boa nota, ou para obedecer a ordens recebidas, ou para dar prazer aos pais, ou porque sente poesia nos longínquos países e nos seus nomes. Se nenhum destes motivos existe, não aprende a lição. Se num determinado momento ignora qual é a capital do Brasil e, se no momento seguinte a aprende, tem mais um conhecimento. Mas não está mais próximo da realidade do que estava antes. A aquisição de um conhecimento pode, em alguns casos, aproximar da verdade, mas noutros não aproxima nada. Como discernir os casos?Se um homem surpreende a mulher que ele ama e em que depositou toda a confiança, em flagrante delito de infidelidade, entra em contacto brutal com a verdade. Se sabe que uma mulher que não conhece, da qual escuta pela primeira vez o nome, numa cidade de que nunca ouviu falar, enganou o seu marido, isso não modifica de forma nenhuma a sua relação com a verdade.Este exemplo fornece a chave. A aquisição de conhecimentos aproxima da verdade quando se trata daquilo que amamos, e em nenhum outro caso.”
Simone Weil, Enraízamento
Tradução Helena Serrão

Kant:Sensibilidade e Entendimento

Immanuel Kant, 1724-1804, Alemanha
" O nosso conhecimento provém de duas fontes fundamentais do espírito, das quais a primeira consiste em receber as representações (a receptividade das impressões) e a segunda é a capacidade de conhecer um objecto mediante estas representações (espontaneidade dos conceitos); pela primeira é-nos dado um objecto; pela segunda é pensado em relação com aquela representação (como simples determinação do espírito). Intuição e conceitos constituem, pois os elementos de todo o nossoconhecimento, de tal modo que nem conceitos sem intuição que de qualquer modo lhes corresponda, nem uma intuição sem conceitos podem dar conhecimento.
Ambos estes elementos são puros ou empíricos. Empíricos, quando a sensação (que pressupõe a presença real do objecto) está neles contida; puros, quando nenhuma sensação se mistura à representação. A sensação pode chamar-se matéria do conhecimento sensível. Daí que a intuição pura contenha unicamente a forma sob a qual algo é intuído e o conceito puro somente a forma do pensamento de um objecto em geral.
Se chamamos sensibilidade à receptividade do nosso espírito em receber representações na medida em que de algum modo é afectado, o entendimento é, em contrapartida, a capacidade de produzir representações ou a espontaneidade do conhecimento."
Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, Edição Fundação Calouste Gulbenkian,Lisboa 1985
Tradução de Manuela Pinto dos Santos
Vocabulário:
Sensibilidade:Faculdade que permite receber as representações.(vago...)
Entendimento:Faculdade de coordenar as sensações com base em categorias, de julgar e raciocinar.
Puro:Puras são as representações nas quais nada se encontra que pertença à experiência sensível. Por exemplo, poderia o excelentíssimo Sr Kant dignar-se a dar-nos um exemplo??As intuições puras do espaço e do tempo, os conceitos puros ou categorias do entendimento como Causa/efeito, Quantidade etc.
Empírico: Resultante da experiência.
Representação: Síntese do sujeito e do objecto numa consciência.

O Poder do Discurso

Michel Foucault, 1926 -1984, França
O desejo diz: " Não quereria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não quereria estar a contas com ele no que há de cortante e decisivo; quereria que à minha volta fosse tudo transparente e calmo, profundo, indefinidamente aberto, em que os outros respondessem à minha espera, e as verdades nascessem uma a uma; não teria senão de me deixar conduzir nele e por ele, como um destroço feliz."
A instituição responde:" Não tens de temer começar; nós estamos todos aí para te mostrar que o discurso está na ordem das leis; (...) e se lhe acontecer ter algum poder é de nós, e somente de nós que o recebe."
(...)Suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é, ao mesmo tempo, controlada seleccionada, organizada e redistribuída por um certo número de processos que têm por fim conjurar-lhe os poderes e os perigos, dominar-lhe o acontecer aleatório, evitar-lhe a pesada, a temível materialidade.
Numa sociedade como a nossa conhecem-se os processos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar, é o interdito. Sabe-se que não há o direito de tudo dizer, que não se pode falar de tudo em quaisquer circunstâncias, que qulquer pessoa não pode falar seja do que for."

Michel Foucault, A ordem do Discurso

Lógica: Retórica e Falácias

FALÁCIAS DE RELEVÂNCIA
( Quando as razões são logicamente irrelevantes embora possam psicologicamente ser relevantes)
Argumentum ad baculum (apelo à força) quando ameaça o ouvinte.
Argumentum ad misericordiam (apelo à misericórdia) quando se procura comover o ouvinte.
Argumentum ad populun (apelo ao povo) quando se apela ao que a maioria das pessoas faz, ao “espírito das massas”.
Argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa) quando para destruir o argumento de alguém tenta-se destruir a pessoa.
FALÁCIAS DAS PREMISSAS INSUFICIENTES:
(Quando a indução é fraca e as premissas embora relevantes não são suficientes para justificar a conclusão)
Argumentum ad verecundiam (apelo ao uma autoridade não qualificada). Quando para se justificar algo se recorre a uma autoridade que não é digna de confiança ou que não é uma autoridade no assunto.
Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância). Quando as premissas de um argumento estabelecem que nada se sabe acerca de um assunto e se procura concluir a partir dessas premissas algo acerca do assunto.
Exemplos:Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?
Como os cientistas não podem provar que se vai dar uma guerra global, ela provavelmente não ocorrerá.
Fred disse que era mais esperto do que Jill, mas não o provou. Portanto, isso deve ser falso..
Generalização apressada . Quando se extrai uma conclusão de uma amostra atípica e não significativa.
Exemplos: Fred, o australiano, roubou a minha carteira. Portanto, os Australianos são ladrões. (Claro que não devemos julgar os Australianos na base de um exemplo).
Perguntei a seis dos meus amigos o que eles pensavam das novas restrições ao consumo e eles concordaram em que se trata de uma boa ideia. Portanto as novas restrições são populares.
Falsa Causa. Quando a ligação entre premissas e conclusão depende de uma causa não existente.Os argumentos causais são os argumentos onde se conclui que uma coisa ou acontecimento causa outra. São muito comuns mas, como a relação entre causa e efeito é complexa, é fácil cometer erros. Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre.
Exemplo de uma Falsa Causa: Ganho sempre ao poker quando levo uma camisa preta. Amanhã, se levar a camisa preta também ganharei.
Também a podemos designar como falácia: post hoc ergo propter hoc , o nome em latim significa: "depois disso, logo, por causa disso". Um autor comete a falácia quando pressupõe que, por uma coisa se seguir a outra, então aquela teve de ser causada por esta.
Mais Exemplos:A imigração do Alentejo para Lisboa aumentou mal a prosperidade aumentou. Portanto, o incremento da imigração foi causado pelo incremento da properidade.
Tomei o EZ-Mata-Gripe e dois dias depois a minha constipação desapareceu...Prova: Mostre que a correlação é coincidência, mostrando: 1) que o "efeito" teria ocorrido mesmo sem a alegada causa ocorrer, ou que 2) o efeito teve uma causa diferente da que foi indicada.
Reacção em cadeia. Quando as premissas apresentam uma reacção em cadeia com uma probabilidade mínima de acontecer.
Exemplos: Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.
Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.
Se eu abrir uma excepção para ti, terei de abrir excepções para todos.
FALÁCIAS DE PRESSUPOSIÇÃO
Petitio principii (Petição de princípio). Quando o que devia ser aprovado pelo argumento é já suposto pelas premissas.
Exemplos:Dado que não estou a mentir, segue-se que estou a dizer a verdade.
Sabemos que Deus existe, porque a Bíblia o diz. E o que a Bíblia diz deve ser verdadeiro, dado que foi escrita por Deus e Deus não mente. (Neste caso teríamos de concordar primeiro que Deus existe para aceitarmos que ele escreveu a Bíblia.)
FALÁCIAS DE AMBIGUIDADE
( Quando se tira partido da ambiguidade de sentido de certas expressões para promover determinada conclusão)
Equívoco. Quando a conclusão de um argumento depende de uma ou mais palavras serem usadas com dois sentidos diferentes.
Anfibologia. Quando o duplo sentido é de uma frase.
FALÁCIAS POR ANALOGIA GRAMATICAL
(Quando as premissas têm uma forma gramatical semelhante às premissas de um argumento válido e daí se extrair uma conclusão)
Composição. Quando o predicado é transportado das partes para o todo.
Exemplo:Um exército de homens fortes é um exército forte.
Divisão. Quando o predicado é erradamente transportado do todo para as partes.
Exemplo:Um exército forte é um exército onde todos os homens são fortes.

Adaptado das classificações em Stephen Downes (in Crítica na Rede) e Enciclopédia de Termos lógico Filosóficos (Gradiva, Lisboa 2001).