JÁ NÃO HÁ MESTRES
Há cerca de um mês ou dois atrás, este blogue foi muito procurado como palco para acusar indiscriminadamente os professores de abuso de autoridade. Agora que as águas acalmaram um pouco, gostaria de voltar à questão, discutindo a autoridade do professor a um nível de abstracção um pouco mais elevado.
O ensino, a transmissão de saber (é este, e não outro, o propósito da 'relação pedagógica'), pressupõe, como todos sabemos, uma relação entre duas entidades, o professor e o aluno. Essa relação, ao contrário do que dizem certas visões em voga, é inevitavelmente desigual, pois supõe uma hierarquia natural. Se é necessário que o conhecimento seja transmitido, não se pode evitar uma relação entre quem sabe e pode em princípio ensinar (o professor) e aquele que não sabe e quer, ou precisa de, aprender (o aluno). Isto é tão óbvio que só por cegueira ideológica ou por outras razões ainda mais rasteiras se pode negar.
A autoridade ou superioridade do professor (deixemo-nos da pieguice eufemística do português-suave e chamemos os bois pelos nomes!) quer dizer apenas uma coisa: há alguém (aluno) que depende de alguém (o professor) para alcançar um determinado objectivo pessoal (aprender algo). Esta relação não é necessariamente escolar e, por isso, não depende de um enquadramento institucional. Se quero, por exemplo, saber mais sobre o conflito israelo-palestiniano não tenho de ir tirar um curso. Posso ler um livro ou ver um documentário sobre o assunto. A hierarquia natural, não obstante, mantém-se.
A ideologia subjacente ao que podemos chamar igualitarismo pedagógico decorre da conveniente diabolização saloia de palavras como autoridade, hierarquia, excelência, disciplina, esforço, etc. Até o ensino já não é 'ensino', mas ‘ensino-aprendizagem’. A ideia que se faz passar é a seguinte: admitir a ascendência do professor na relação pedagógica implica a diminuição da pessoa do aluno ou, pelo menos, o menosprezo pela contribuição activa deste nessa relação. Ora, é preciso dizer com toda a veemência: ambas as implicações são falaciosas!
Consideremos, em primeiro lugar, a última destas. É certíssimo que o aluno pode (e deve) ter um papel relevante, mesmo decisivo, numa aula. Para além de um mínimo de boa educação (respeito pelos outros, solidariedade para com os colegas, etc.), o aluno contribui para uma aula quando, procurando seguir as matérias, coloca dúvidas, estabelece relações criativas entre as matérias leccionadas e outros conhecimentos, estimulando o professor a ser, ele próprio, mais engenhoso e criativo. Portanto, tem de ser dado espaço aos alunos para contribuir. Mais, o professor deve encorajar a participação fecunda dos alunos. Todos ganham com isso. Lembro-me, a este propósito, com saudade, de uma aluna que tive o ano passado, de seu nome Maria Belo (não desfazendo em muitos outros queridos alunos da mesma e de outras turmas), sem a qual as minhas aulas eram sempre piores. Porém, por muito que me possa desfazer em elogios por estes alunos, não posso deixar de constatar que são eles, nas circunstâncias em que nos conhecemos e nos relacionamos, que dependem de mim para aprender e não o oposto. O professor que não assuma isto, está a sacudir a água (a sua responsabilidade enquanto professor) do capote. É evidente que eu próprio, frequentemente, aprendo coisas (mesmo na minha área) por efeito das intervenções dos alunos. Mas isso que 'aprendo' com eles é, na maior parte das vezes, mais suscitado do que ensinado por eles. Há, no entanto, ocasiões em que aprendo coisas com alunos que supõem transmissão de saber. Mas aí são eles os professores e eu o aluno. Logo, sou eu que nessa relação estou numa posição de dependência ou inferioridade.
Passo agora ao segundo ponto. A superioridade do professor na relação pedagógica é comparável à superioridade do capitão de um navio no alto mar relativamente aos passageiros que nada percebem das artes náuticas. Estes, se querem chegar a bom porto, têm de se pôr nas mãos do ‘lobo do mar’. A superioridade do professor na relação pedagógica é fundada no seu superior conhecimento de uma dada matéria. E apenas neste! Portanto, tal como a situação de inferioridade em que se encontra o passageiro não lhe retira a dignidade enquanto indivíduo, também a situação de inferioridade do aluno na relação pedagógica não implica inferioridade pessoal. Na verdade, tal como o capitão do navio, o professor está ao serviço do aluno, põe o seu saber ao serviço do aluno! Até certo ponto, o professor é mesmo um criado do aluno (excepto no sentido em que o aluno não procuraria um professor se soubesse o que este sabe, ao passo que aquele que procura um criado pode saber o que este sabe, simplesmente não quer perder tempo ou ter trabalho a ocupar-se de certas actividades)!
Um último ponto importante. Reconhecer a autoridade (epistémica) do professor significa impor uma enorme responsabilidade sobre aqueles que ensinam. E é essa responsabilidade que muitos professores não querem, infelizmente, assumir. Ela exige muito trabalho para garantir uma grande solidez científica e também para manter a actualização necessária para reforçar aquela.
A pedagogia que põe o professor ao nível do aluno só serve os professores que não estão para estudar e se querem ‘safar’ com ‘conversa fiada’ e iniciativas pseudo-pedagógicas ou, na melhor das hipóteses, os professores que, apesar de terem estudado seriamente no passado, querem agora limitar-se a viver desses rendimentos.
É claro que muitos destes professores dizem, por exemplo, ‘há-des’ em vez de ‘hás-de’ ou trocam a segunda pessoa do singular pela do plural [‘(tu) fizestes’ em vez de ‘fizeste’]; alguns preferem mesmo usar, num esforço de acompanhar os tempos, adjectivos no lugar de substantivos (‘A problemática do conhecimento…’, em vez de ‘o problema do conhecimento…’) ou adjectivos em vez de advérbios (‘’É preciso andar rápido.’ em vez de ‘É preciso andar rapidamente’). E as trapalhadas e pobreza científicas? Deixem-me estar calado… Quantas voltas na tumba já deram Galileus, Eças ou Platões... Mas, pensando bem, que importa tudo isso se apostarmos nos ‘afectos’, nas ‘novas tecnologias’, nas ‘novas estratégias’, na ‘socialização’? Há várias vantagens: ele é ver os alunos (e os pais dos alunos) a tornarem-se nossos ‘amigos’ enquanto o diabo esfrega um olho; ele é ver os colegas a admirar (ou invejar) o nosso ‘dinamismo’ e ‘empenho’ (remédio santo para a neura de estar em casa sem saber o que fazer ou, pior, de aturar o querido cônjuge); finalmente, e acima de tudo, irradiamos todo este fogo de vista sem precisar de fazer mais do que dar uma vista de olhos à pressa pelo manualzinho (ele próprio muitas vezes em litígio com o conhecimento) e amanhar mal e porcamente uma laracha ou duas para ver passar o tempo lectivo. Esta opção é, aliás, facilmente legitimada por premissas incontestáveis do género 'A sociedade já não é o que era.' ou 'Temos de acompanhar os tempos.'
O ‘igualitarismo pedagógico’ pode servir os interesses de professores preguiçosos e pouco sérios (bem como a de políticos pouco escrupolosos), mas não serve certamente os interesses daqueles que precisam de obter conhecimentos e aptidões para se fazerem à vida e se tornarem seres humanos autónomos, dignos desse nome. Quando se põe o professor ao nível do aluno, nem os professores ensinam, nem os alunos aprendem. Os alunos (e a seguir, os seus encarregados de educação e os governos) deviam ser os primeiros a exigir: PROFESSORES DE TODOS OS PAÍSES, ASSUMI-VOS!
Carlos Marques






