quinta-feira, novembro 13, 2008


ACASO EPISTÉMICO E CONHECIMENTO


Diz-se frequentemente que o conhecimento aspira à verdade, no sentido em que quando acreditamos numa proposição, acreditamos que ela é o caso (i. e. que é verdadeira). Quando aquilo em que acreditamos é verdadeiro, dá-se uma coincidência entre o que pensamos ser o caso e o que é o caso. Acertamos na verdade. No entanto, se a mera crença verdadeira é suficiente para 'acertar' na verdade, podemos interrogar-nos porque é que os epistemólogos, na sua busca por uma boa definição de conhecimento, não se dão imediatamente por satisfeitos, aceitando que conhecimento não é mais do que crença verdadeira - i. e. acertar na verdade.
Há realmente uma boa razão que explica porque é que os epistemólogos não se contentam com a ideia de conhecimento como crença verdadeira. É que uma pessoa pode possuir uma crença verdadeira por acaso, situação em que não poderíamos atribuir-lhe mérito por acertar na verdade. Suponhamos que Henrique fica convencido de que o cavalo Moça Sortuda irá ganhar a próxima corrida só porque achou o nome do cavalo engraçado. Esta não é claramente uma boa base sobre a qual devêssemos construir uma crença acerca do vencedor da próxima corrida de cavalos, visto que o facto de acharmos o nome do cavalo apelativo não tem influência sobre a prestação deste durante a corrida. 
Suponhamos, no entanto, que a crença de Henrique acaba por se tornar verdadeira, que Moça Sortuda ganha de facto a corrida. É isto conhecimento? Intuitivamente não, pois a crença é verdadeira apenas por uma questão de sorte. Não esqueçamos que o conhecimento é algo que se alcança, algo que resulta do mérito de alguém, não podendo ser aquilo que alcançamos puramente por uma questão de sorte. 
Para enfatizar este ponto, pensemos por um momento no que significa alcançar um feito noutra área, como no tiro com arco. Se alguém é um bom arqueiro, ao tentar atingir o centro do alvo em condições favoráveis (por exemplo, sem um vento demasiado forte), atingi-lo-á habitualmente. É isso que significa ser um bom arqueiro. A palavra 'habitualmente' é aqui importante, porque àqueles que não são bons arqueiros acontece-lhes às vezes acertar no centro do alvo, mas não habitualmente. É possível que apontem a seta e que, por sorte, atinjam o centro do alvo. Mas significa isto que quem acerta numa ocasião é um bom arqueiro? Não, pela simples razão de que essas pessoas não seriam capazes de repetir a façanha. Se tentassem outra vez o mais certo era que a seta desaparecesse no céu.
Possuir conhecimento é algo semelhante. Imaginemos que uma crença é uma seta que apontamos ao alvo, neste caso a verdade. Atingir o alvo e formar uma crença verdadeira é acertar, visto que temos sucesso numa dada ocasião. No entanto, formar uma crença verdadeira não é suficiente para possuir conhecimento, tal como não basta acertar no centro do alvo por mera sorte para se ser um bom arqueiro. O conhecimento tem de ser um resultado dos nossos esforços, em vez de um resultado que se alcança por puro acaso. Isto quer dizer que o modo como formamos uma crença deve, em circunstâncias normais, conduzir habitualmente à verdade.
Henrique, que forma a crença verdadeira de que Moça Sortuda ganhará a corrida só porque gostava do nome do cavalo, é como a pessoa a quem aconteceu acertar no alvo e que não é um bom arqueiro. Formar uma crença sobre a possível vitória de um cavalo, considerando apenas se o seu nome tem ou não tem graça, conduzirá habitualmente à formação de uma crença falsa. 
Comparemos Henrique com alguém que genuinamente sabe que a corrida será ganha por Moça Sortuda. Essa pessoa pode ser, por exemplo, um poderoso gangster que viciou a corrida, drogando os outros cavalos para que Moça Sortuda ganhasse. Ele sabe que a corrida será ganha por Moça Sortuda, pois o modo como ele formou a sua crença, baseando-se na informação privilegiada de que dispunha para pensar que Moça Sortuda não poderia perder, conduzi-lo-á normalmente a uma crença verdadeira. Não é por uma questão de sorte que o gangster atinge o alvo da verdade.
Deste modo, o desafio para os epistemólogos é explicar o que é necessário juntar à mera crença verdadeira de modo a que se obtenha conhecimento. Em particular, os epistemólogos precisam de explicar o que tem de ser acrescentado à crença verdadeira para capturar esta ideia de que o conhecimento, em contraste com a mera crença verdadeira, é um autêntico feito do agente, algo de que ele é responsável, no sentido de uma crença obtida não apenas por uma questão de sorte.
Duncan Pritchard, What is This Thing Called Knowledge? (Abington & New York: 2006, p. 6). Trad. Carlos Marques.

terça-feira, novembro 11, 2008


A REVIRAVOLTA CARTESIANA

No Discurso do Método, [Descartes] conta-nos como na sua juventude se sentia perturbado com o espectro da incerteza:

[…] encontrava-me embaraçado com tantas dúvidas e erros que me parecia não ter tido outro proveito, ao tentar instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, no entanto, estive numa das escolas mais célebres da Europa…
E, enfim, o nosso século parecia-me tão florescente e fértil de bons espíritos quanto qualquer um dos precedentes. Por isso, tomei a liberdade de tomar o meu juízo como universal, concluindo que não há nenhuma doutrina no mundo que fosse como até então me fizeram crer.


A resposta de Descartes a esta situação foi procurar os fundamentos sobre os quais a verdade podia ser assegurada. Por isso, nas suas Meditações Sobre Filosofia Primeira, ele faz uso de um método de dúvida radical, cujo fim é o de estabelecer pelo menos alguma crença que possa então servir como alicerce para o conhecimento. A dúvida radical significa apenas isso. Como diz Descartes, 'A mais pequena dúvida será suficiente para me fazer rejeitar qualquer das minhas crenças.'
O argumento de Descartes é um dos mais famosos na história da filosofia. Ele mostra que nos podemos enganar acerca de certos dados dos sentidos; que é possível colocar toda a nossa experiência dos sentidos sob dúvida - podemos, por exemplo, estar a sonhar sem o saber; e, de modo mais radical, que é possível que nada exista para além das nossas experiências sensíveis - podemos ter sido iludidos por um demónio maligno.
Contudo, este processo também mostra que há uma crença renitente. Por mais que apliquemos o método da dúvida, não é possível duvidar de que existimos. O próprio facto de se duvidar significa que tem de haver um 'Eu' que está a duvidar. É isto o famoso
cogito de Descartes:

Mas persuadi-me de que não havia nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. E não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, se me persuadi de alguma coisa, eu existia com certeza. […] De maneira que, depois de ter-se pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo é necessariamente verdadeira sempre que proferida por mim ou concebida pelo espírito.

Descartes, porém, tem agora um problema. Tendo estabelecido a existência de uma entidade pensante (se realmente foi estabelecida), como recupera o resto do mundo? A resposta, de modo breve, é que não é capaz de o fazer; pelo menos, de modo a satisfazer um filósofo dos nossos tempos. A sua tentativa envolve o emprego de uma versão do argumento ontológico com o objectivo de provar a existência de Deus, argumentando depois que, como Deus não é enganador, não somos sistematicamente enganados sobre as coisas que percebemos claramente. É razoável assim retomar algumas das nossas crenças acerca do mundo exterior.

Ophelia Benson & Jeremy Stangroom, Why Truth Matters (London, 2006, pps. 26-27). Tradução Carlos Marques.



A VISÃO CIENTÍFICA DO UNIVERSO
E O SENTIDO DA VIDA
Será útil fazer uma recapitulação (...) da familiar narrativa evolucionista moderna sobre a natureza e origem humanas, de modo a ver com mais clareza quais os seus elementos que supostamente ameaçam o quadro tradicional do sentido e valor [da vida] conferidos pela linguagem da religião. Grosseiramente a narrativa padrão reza assim:
Há cerca de 14 milhões de anos, teve início, por alguma razão, o cosmos - tudo o que existe, incluindo matéria, radiação, espaço e tempo -, explodindo a partir de uma pequena concentração de matéria-espaço-energia. Expandiu-se com grande rapidez. Mais tarde, os efeitos gravitacionais fizeram com que a matéria se concentrasse em massas de hidrogénio (galáxias, estrelas) e que o hidrogénio se começasse a fundir em hélio. Explosões causaram novos elementos mais pesados, que acabaram por constituir os planetas. Pelo menos num planeta, surgiu uma molécula auto-reprodutora. Os descendentes desta molécula evoluíram para organismos vivos que se diversificaram em todos os tipos de plantas, animais, micróbios, etc., tudo isto somente como resultado da selecção natural (um processo totalmente cego, operando através de mutações ao acaso em conjunto com a luta constante pela sobrevivência). Após milhões de anos uma dessas espécies torna-se inteligente. O ser humano é um produto dessas forças cegas. Quer os seus impulsos morais, quer os outros, mais selvagens, foram formados pelas pressões da sobrevivência da espécie. As narrativas religiosas sobre a nossa natureza e origens foram ultrapassadas por uma narrativa científica e as noções de criação divina são ressacas de mitos antropomórficos primitivos que procuram explicar a nossa origem na ausência de métodos científicos adequados. A ciência revela que a nossa natureza e existência são o resultado de processos inteiramente naturais que compreendemos e predizemos cada vez melhor. Estamos sós num universo material impessoal e completamente desprovido de qualquer propósito (embora outros seres inteligentes possam ter evoluído em outros planetas). Um dia, o nosso sistema solar deixará de poder ser habitado e a vida humana (ou seja o que for que evolua a partir dela) cessará, a não ser que continue noutras paragens. Seja como for, o universo inteiro chegará finalmente a um termo, pois a energia e o calor serão a pouco e pouco dispersados de acordo com as leis da entropia. Não há um significado 'último' para tudo isto, nem para nenhuma vida humana particular (na verdade, falar do sentido ou propósito do universo ou da vida humana é uma confusão filosófica). Ao pôr de parte a falsa demanda de um significado religioso, podemos, ainda assim, viver melhor ou pior, dependendo de como conseguimos aliviar o sofrimento (usando a ciência) e maximizar a oportunidade de actividades que dêem satisfação ou que sejam enriquecedoras para o maior número de pessoas.
John Cottingham, On the Meaning of Life (London & New York, 2003, pps. 41-43). Tradução Carlos Marques.

segunda-feira, novembro 10, 2008

BEM ESCREVER


Estas são regras que fui adoptando ao longo dos anos, com o fim de permanecer invisível quando escrevo um livro; que me ajudam a mostrar, em vez de contar, o que se passa na história. Se tem jeito para as palavras, para criar imagens e se sente feliz com o som da sua voz, não é a invisibilidade aquilo que procura e pode ignorar as regras. Em todo o caso, pode dar-lhes uma vista de olhos.


1.
Nunca começar um livro falando do tempo.

2.
Evitar prólogos.

3.
Nunca introduzir um diálogo a não ser com a forma verbal “disse”.

4.
Nunca usar um advérbio para qualificar a forma verbal “disse”.

5.
Manter os pontos de exclamação sob controlo. Não se deve usar mais do que dois ou três por 100 000 palavras.

6.
Nunca usar as expressões “subitamente” ou “que grande confusão”.

7.
Usar dialectos regionais ou patoás com parcimónia.

8.
Evitar descrições pormenorizadas dos personagens.

9.
Não entrar em grandes pormenores ao descrever lugares ou coisas.

10.
Procurar excluir aquelas partes que os leitores tendem a saltar.


Elmore Leonard, Ten Rules of Writing (New York, 2007). Tradução Carlos Marques.

* Elmore Leonard (1925- ) é um grande escritor americano que se tem ultimamente dedicado aos thrillers e à literatura policial, apesar de no início da sua carreira ter escrito sobretudo westerns. São famosos alguns filmes baseados em obras suas, como Jackie Brown ou Be Cool. Os pontos fortes do seu estilo são os seus diálogos vívidos e o realismo que imprime nos seus personagens e ambientes.

CONSURSO "O PENSADOR CONSISTENTE"


O teste que aqui propomos pretende medir a consistência dos seus pensamentos.
Responda, apondo um C (concordo) ou um D (discordo) ao número correspondente a cada afirmação. Exemplos: 1. C; 2. D. Depois explicar-lhe-emos se é um pensador consistente.
ACEITAREMOS RESPOSTAS SÓ ATÉ AO FIM DO MÊS!



EXAME À SUA SAÚDE FILOSÓFICA

Faça o exame

Para fazer o exame à sua saúde filosófica percorra as afirmações abaixo, decidindo se concorda ou discorda com cada uma delas. (…)
Sabemos que nem sempre concordará ou discordará a 100%, mas quase sempre terá mais tendência para uma resposta do que para outra. Se estiver hesitante, seleccione a resposta mais próxima da sua opinião. Se não tiver mesmo opinião é altura de formá-la!
O exame à sua saúde filosófica não faz juízos sobre a verdade ou falsidade das suas respostas, por isso responda tão honestamente quanto lhe for possível. Todas as afirmações foram cuidadosamente concebidas; portanto, preste atenção ao que cada uma delas realmente diz.


1. Não há princípios morais objectivos. Os juízos morais são mera expressão dos valores de uma determinada cultura.

2. Desde que não prejudiquem os outros, as pessoas devem ser livres de perseguir os seus próprios fins.

3. As pessoas não devem usar o carro se podem, em alternativa, ir a pé ou apanhar um comboio.

4. É sempre errado tirar a vida a alguém.

5. O direito à vida é tão fundamental que considerações financeiras são irrelevantes quando se trata de tentar salvar vidas.

6. A eutanásia voluntária deve permanecer ilegal.

7. A homossexualidade é errada por ser contra-natura.

8. É perfeitamente razoável acreditar na existência de uma coisa mesmo sem haver a possibilidade de obter evidência de que ela existe.

9. A posse de drogas para uso pessoal deve ser descriminalizado.

10. Existe um Deus todo-poderoso, bom e que nos ama.

11. A segunda guerra mundial foi uma guerra justa.

12. Tendo-se feito uma escolha, poder-se-ia sempre ter feito uma outra.

13. Nem sempre é justo julgar um indivíduo tendo apenas em conta o seu mérito.

14. Os juízos acerca das obras de arte são apenas uma questão de gosto.

15. Quando o corpo morre, a pessoa continua a existir de uma maneira não física.

16. O governo não devia permitir a comercialização de tratamentos médicos que não foram testados na sua eficácia e segurança.

17. Não há verdades objectivas quanto a questões de facto. ‘A verdade’ é sempre relativa a uma determinada cultura e a um determinado indivíduo.

18. O ateísmo é uma fé tal como outra qualquer, visto não ser possível provar a não-existência de Deus.

19. Medidas sanitárias e medicamentos adequados são, em geral, bons para uma sociedade.

20. Em certas circunstâncias, será desejável discriminar positivamente a favor de uma pessoa como recompensa para males que lhe tenham sido feitos no passado.

21. As medicinas alternativas e complementares têm tanto valor como a medicina tradicional.

22. Lesões cerebrais graves podem retirar toda a consciência e identidade a uma pessoa.

23. É moralmente repreensível deixar que uma criança inocente sofra inutilmente quando isso se poderia prevenir.

24. O ambiente não deve ser degradado desnecessariamente para satisfazer interesses humanos.

25. Miguel Ângelo é um dos melhores artistas da história.

26. Um indivíduo tem apenas direitos sobre o seu corpo.

27. Actos de genocídio são um testemunho da capacidade humana para criar grandes males.

28. O Holocausto é uma realidade histórica que aconteceu mais ou menos como os livros de história relatam.

29. Os governos deviam poder impor um aumento substancial dos impostos para se salvarem vidas no mundo não desenvolvido.

30. O futuro está traçado. O modo como a nossa vida decorre depende do destino.


Retirado de J. Baggini e J. Stangroom, Do You Think What You Think You Think? The Ultimate Philosophical Quiz (London, 2006). Tradução Carlos Marques.

sexta-feira, novembro 07, 2008

O que queria Kurt Gödel?

Entre os ‘humanistas’ que invocam o nome de Gödel, ele é frequentemente associado ao assalto à objectividade e à razão que ganhou tanta popularidade no último século. Dou comigo muitas vezes a pensar sobre o que seria melhor para Gödel, se o anonimato, se a incompreensão. Qual teria preferido Gödel? Tomo a `’posição privilegiada do biógrafo’ para presumir que sei pelo menos a resposta para esta pergunta: Gödel, que era tão apaixonadamente dedicado à verdade, teria preferido o esquecimento completo às falsificações dos seus teoremas que lhe deram a fama que tem no mundo dos não-matemáticos.
E que falsificações! Ele quis que os seus teoremas da incompletude provassem a posição filosófica a que ele, de alma e coração, era dedicado: o platonismo matemático, que consiste sumariamente na crença de que há uma realidade matemática independente da mente humana na qual as verdades matemáticas se alicerçam. Os matemáticos têm a tarefa de descobrir, e não de inventar, a matemática. Os seus teoremas da incompletude dizem respeito à incompletude dos sistemas formais feitos pelo Homem e não da verdade matemática ou do nosso conhecimento dela. Ele acreditava que a realidade matemática e o nosso conhecimento da realidade matemática excedem as regras formais dos sistemas formais. Portanto, ao contrário da perspectiva que diz que não há verdade independente das verdades que criamos para nós mesmos, de tal modo que o conceito de verdade se desintegra numa pluralidade de pontos de vista, Gödel acreditava que a verdade – e de modo mais paradigmático a verdade matemática – subsiste independentemente de qualquer ponto de vista humano. Se houve alguma vez algum homem dedicado à objectividade da verdade, esse homem foi Gödel. A usurpação dos seus teoremas por parte dos pós-modernos é irónica. Jean Cocteau escreveu em 1926 que “O pior que pode acontecer aos poetas é serem admirados por serem incompreendidos.” Para um lógico, especialmente um lógico com a psicologia delicada de Gödel, a tragédia é talvez ainda maior.
Rebecca Goldstein, Incompleteness: The Proof and Paradox of Kurt Gödel (New York & London, 2005). Tradução Carlos Marques.

quinta-feira, novembro 06, 2008

A lógica da descoberta científica

O livro mais importante [de Karl Popper] sobre a filosofia da ciência, A Lógica da Descoberta Científica, faz duas grandes alegações sobre a investigação científica. Primeiro, Popper defende uma certa versão do falsificacionismo, a perspectiva de que a ciência procede, não verificando a verdade das hipóteses científicas, mas pondo de parte hipóteses falsas. O falsificacionismo, argumenta Popper, resolve o (ou pelo menos salva-nos do) terrível problema da indução. Segundo, Popper defende que as proposições científicas são diferentes das proposições pseudo- ou não-científicas, porque são falsificáveis empiricamente. (…)

Os problemas da indução e da demarcação
Recordemos que Hume deu conta de um problema envolvendo o que ele chamou 'raciocínio causal', uma dificuldade lógica respeitante ao nosso pensamento sobre factos para além da nossa experiência sensória do momento. Hume defende que ir para além das nossas experiências correntes requer que pensemos essas experiências como causas ou efeitos de coisas que no momento não nos rodeiam. Vejo pegadas na praia e, sabendo a partir da experiência passada que as pegadas são efeitos de uma pessoa que caminhou pela praia antes de mim, concluo que alguém caminhou pela praia antes de mim. Este tipo de raciocínio parece depender do princípio da indução, algo que liga muitas observações particulares a uma conclusão geral. O princípio pode ser descrito de diversas maneiras: o futuro será como o passado, a natureza é uniforme, as coisas continuarão a ser como sempre foram, e por aí em diante. Quando concluo que uma pessoa a caminhar pela praia foi a causa das pegadas faço uma inferência indutiva do género: 'Aqui há algumas pegadas. Vi muitos exemplos de pegadas no passado. Em cada uma dessas ocasiões passadas, as pegadas foram causadas por uma pessoa a caminhar. Assim, todas as pegadas são causadas por pessoas. Portanto, essas pegadas foram feitas por alguém que caminhou na praia antes de mim.' O princípio da indução, argumenta Hume, suporta a inferência indutiva que parte de muitas observações particulares para uma conclusão geral - neste caso, o raciocínio que parte de se ter encontrado várias pegadas causadas por pessoas a caminhar para a conclusão de que todas essas pegadas são causadas por pessoas a caminhar. É com base na alegação geral sobre todas a pegadas que penso que sei algo sobre a causa das pegadas que vi.
A dificuldade identificada por Hume, para nós o problema da indução, é que não há justificação racional para o próprio princípio da indução. Hume considera que as proposições justificáveis são apenas de dois tipos: matérias de facto e relações de ideias. Podemos determinar se certa matéria de facto alegada é verdadeira olhando para o mundo em nosso redor. As relações de ideias são ou verdades por definição ou verdades que se tornam tal em virtude de convenção simbólica. Hume diz que podemos identificar relações de ideias porque a negação destas resulta em contradição. (…) Hume mostrou que o princípio da indução não pode ser uma relação de ideias, porque a sua negação não envolve contradição; e não pode ser justificado numa base empírica, visto que isto nos levaria a raciocinar em círculo. Com efeito, não há contradição em pensar que o futuro possa não ser como foi o passado e estaremos a argumentar em círculo se dissermos que o futuro será como foi o passado porque os futuros passados sempre foram como os passados passados. Por outras palavras, o princípio da indução não tem uma base racional.
Se pensarmos um pouco neste contexto sobre a investigação científica, podemos ser conduzidos com alguma rapidez à conclusão de que a ciência não é, no fim de contas, racional. À primeira vista, a ciência procede através da experimentação, da recolha de um certo número de observações particulares, concluindo, com base nelas, que alguma afirmação geral é verdadeira. Por outras palavras, a ciência é posta em marcha quando se nota por observação que várias instâncias de um certo tipo de coisa possuem uma dada propriedade. Dado o princípio da indução, uma conclusão geral é atingida quando se diz que todas as coisas daquele tipo possuem a propriedade em questão. Este gás aquece quando a pressão sobre ele aumenta; este outro gás aquece da mesma maneira; também ainda este outro; portanto, a tempertura de todos os gases aumenta com uma intensificação da pressão. Se algo é indutivo, é isto; e se Hume está certo sobre a irracionalidade do princípio da indução, parece que a ciência é, no fundo, irracional. E se a ciência é irracional qual a diferença entre a pesquisa científica e os lunáticos da Nova Era? Se queremos predizer o comportamento dos gases sob pressão, porque não consultar um leitor de entranhas de pombo em vez de um cientista?
Deste modo, os dois problemas de Popper dizem respeito ao papel da indução na ciência e à diferença entre ciência e pseudo-ciência. A sua solução para ambos envolve a ideia de falsificação. Daremos conta de cada um deles à vez.

Indução e falsificação
Popper resolve o problema da indução substituindo a concepção indutivista da investigação científica por uma coisa diferente, nomeadamente, a falsificação. Os cientistas não precisam de proceder indutivamente inferindo afirmações gerais a partir de várias observações. Em vez disso, a prática científica envolve a proposição e depois o teste de alegações teóricas gerais. Por outras palavras, a ciência não tem de inferir teorias de observações - isto lumps us with o problema da indução. Em vez disso, os cientistas podem inferir dedutivamente consequências observacionais das teorias e então, com base nas suas deduções, sujeitar a teoria a testes rigorosos. Se os testes mostrarem que a teoria prediz falsas declarações observacionais, sabemos que a própria teoria é falsa.
O estratagema de Popper depende de uma assimetria lógica interessante. Uma forma de entender o problema da indução é notar que, independentemente do número de observações que possamos registar a favor da nossa conclusão indutiva, ela pode sempre vir a ser falsa. Isto é apenas dizer que as inferências indutivas não são logicamente válidas. Numa inferência indutiva podemos ter premissas inteiramente verdadeiras e, ainda assim, obter uma conclusão falsa. Suponhamos que esta pegada foi causada por uma pessoa a caminhar ao longo da praia, e esta também e ainda estoutra, e assim por diante por quantas observações quisermos. A minha conclusão indutiva de que todas as pegadas são causadas por pessoas caminhando ao longo da praia pode sempre mostrar-se falsa, mesmo sendo as minhas premissas verdadeiras. Basta para isso que um punhado de crianças criativas faça uma falsa pegada na praia.
Mas notemos o que acontece se voltarmos a lógica da situação de pernas para o ar e pensarmos apenas dedutivamente. Começamos com a teoria de que todas as pegadas são causadas por pessoas que caminham ao longo da praia. Supunhamos que deduzimos disto a consequência observacional que as pegadas observadas amanhã na Costa da Caparica serão causadas por pessoas a caminhar na praia. Vamos à praia dar uma olhadela. Se encontrarmos apenas um exemplo de pegadas falsas feitas por crianças, então sabem com certeza que a nossa teoria é falsa. A indução nunca nos leva a parte nenhuma, a falsificação pode pelo menos dizer-nos quando as nossas teorias são incorrectas.
Falando sem grande rigor, podemos dizer que Popper advoga que se mude de uma argumentação indutiva para uma forma de argumento que os lógicos chamam modus tollens. Estes argumentos têm a seguinte estrutura: se p implica q e q é falso, então p é falso. Traduzindo para o contexto da filosofia da ciência, Popper está a sugerir que a racionalidade científica consiste no mesmo tipo de forma lógica: se a minha teoria conduz a uma certa observação e a experiência contradiz a observação prevista, então a minha teoria é falsa. Se não podemos obter certeza indutiva acerca da verdade das nossas teorias, podemos, no entanto, pelo menos algumas vezes, ter certeza dedutiva da sua falsidade.

O critério da demarcação
Também podemos ver, novamente sem grande rigor, como a ideia de falsificação leva à solução de Popper para o segundo problema e encontrar uma distinção entre ciência e pseudo-ciência. Caracterizar esta distinção - mostrar 'o critério de demarcação', como Popper o designa - ajudar-nos-á a compreender o que é a ciência. Conduzir-nos-á também a pôr sob dúvida práticas a que se dá por vezes demasiada atenção, em particular, aquelas que se confundem com a ciência. Popper trabalhou por uns tempos com o freudiano Alfred Adler e é esclarecedor, neste contexto, dizer algumas palavras sobre o freudianismo.
Supunhamos que eu o incomodo a si com a minha teoria freudiana de que o desejo sexual inconsciente por figuras maternas está na base do comportamento masculino. Eu exijo-lhe provas e dirigimo-nos a um bar para observar o modo como os clientes interagem com o homem e com a mulher que estão ao balcão. Um cliente homem escolhe a mulher quando decide pedir uma bebida e eu exclamo 'Ah ah! O seu desejo inconsciente pela mãe levou-o a interagir primeiro com ela! Isto prova a minha teoria.' Mas se as coisas tivessem acontecido de maneira diferente e o cliente se tivesse dirigido ao homem atrás do balcão, eu poderia dizer também sem dificuldade 'Ah ah! Ele está a tentar ultrapassar o seu desejo pela mãe evitando a mulher do bar! Isto prova a minha teoria.'
O problema em Freud e até certo ponto, na óptica de Popper, em Marx, é que as perspectivas destes não são falsificáveis. Uma hipótese freudiana não tem consequências empíricas e é por isso que devemos hesitar em considerá-las científica. O que distingue a ciência da mera pseudo-ciência como o freudianismo é precisamente a testabilidade das hipóteses científicas. As teorias científicas têm consequências que podemos inspeccionar através da observação. (…)

Dificuldades da perspectiva de Popper
Há todo um conjunto de preocupações associadas à concepção da ciência de Popper, apesar de ele ter contornado o problema da indução e de ter conseguido distinguir a ciência dos pretensos candidatos a esse estatuto. Podemos perceber as dificuldades ao pensar como é que a perspectiva falsificacionista funciona supostamente na prática. Por exemplo, devemos pensar nos cientistas como alguém que tenta genuinamente falsificar, e não provar, as suas teorias? (…)
deve esperar-se que acreditemos que os cientistas devam ser ou sejam falsificacionistas? Dão eles saltos de alegria quando descobrem que a teoria sobre a qual trabalham, porventura à décadas, é falsa? Devia ser assim? Não é descabido pensar que os esforços de Popper para evitar o problema da indução o fizeram cair em algo que não se parece com a ciência tal como é praticada ou mesmo tal como deve ser praticada. Uma olhadela à história da ciência chega para sugerir que os próprios cientistas não pensam que o seu trabalho consiste em remover falsidades, mas em encontrar verdades. Seja como for, a perspectiva de Popper parece ignorar a dimensão social da ciência tal como esta é praticada, um facto explorado por filósofos posteriores como Thomas Khun e Paul Feyerabend.
James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006). Trad. Carlos Marques.
Imagem: tradução inglesa da obra A Lógica da Descoberta Científica.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Para professores e alunos! Concurso sobre Darwin.

A Fundação Calouste Gulbenkian está a realizar uma série de eventos para comemorar o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação da sua obra principal: "A origem das Espécies". Esta série de eventos inclui uma exposição a inaugurar a 12 de Fevereiro de 2009, um ciclo de conferências, que já foi iniciado a 25 de Outubro até Janeiro do próximo ano e um concurso dirigido a professores e alunos. Neste concurso, cada aluno terá de escrever uma carta a Darwin, onde procurará convencer o mestre da sua necessidade de o ter como discípulo e ajudante, tarefas que ele se propõe cumprir com todo o brilhantismo e ousadia. Quanto aos professores terão de escrever um ensaio sobre o significado de ser "mentor" de alguém e como se pode aplicar na actualidade este conceito.

Cada concorrente é um par: Professor/aluno, cada aluno escolherá um professor... aqui está o
regulamento do concurso!

...e que tal candidatarem-se?!

terça-feira, novembro 04, 2008

Há progresso neste mundo?




Acredito que o Homem é, por natureza, um exilado e que nunca será auto-suficiente ou completo nesta Terra; que as suas hipóteses de atingir aqui a felicidade ou a virtude se mantêm mais ou menos as mesmas através dos séculos e que, falando em geral, não são muito afectadas pelas condições políticas ou económicas em que vive (…) acredito (…) que são tão fortes os elementos de anarquia na sociedade que a manutenção da paz é uma tarefa de sempre. Acredito que as desigualdades em termos de riqueza ou de posição são inevitáveis e que, por isso, não faz sentido discutir as vantagens de as eliminar; que os homens se constituem naturalmente num sistema de classes (….) acredito que a guerra e a conquista são inevitáveis.
Evelyn Waugh, Robbery Under Law (1939). Tradução Carlos Marques.




[Evelyn Waugh (1903-1966) foi um grande génio literário britânico, autor de vasta obra. Ficou conhecido, entre outras coisas, pelo seu conservadorismo e pelo seu desgosto perante o desrespeito pelas tradições. George Orwell disse dele, numa declaração famosa: "um romancista tão bom quanto se pode ser, um defensor de opiniões insustentáveis." ]

domingo, novembro 02, 2008

Comunicado

Este espaço terá, a partir de agora, moderação de comentários. A liberdade de expressão acaba quando começa a insinuação e a falta de respeito por professores e filósofos. Este espaço não foi criado para fomentar o ataque pessoal por parte de pessoas que a coberto do anonimato dizem as maiores alarvidades sem que possam ser confrontadas ou responsabilizadas por isso. Resta-nos lamentar que alguns não saibam utilizar a liberdade à sua disposição. Mais dizemos, caros comentadores, que não há machado que corte a raíz de um pensamento, mas haverá sempre uma atenção especial para separar o trigo do joio!

sábado, novembro 01, 2008

O que distingue a arte?


A coisa mais importante na arte é A Moldura. Para a pintura, literalmente; para as outras artes, figurativamente - porque, na ausência deste humilde utensílio, não podemos saber onde acaba A Arte e começa O Mundo Real.
Temos de colocar a arte numa 'caixa' porque, de contrário, que merda é aquela na parede?
Se, por exemplo, John Cage [compositor contemporâneo famoso pelo seu vanguardismo experimentalista] diz "Estou a colocar um microfone na garganta e vou beber sumo de cenoura e, assim, criar uma composição", o seu gorgolejar conta como uma composição sua, pois ele pô-la numa moldura e afirmou-o. "É pegar ou largar, eu quero que a partir de agora isto seja música." Daí em diante é uma questão de gosto. Sem a moldura, trata-se apenas de um tipo a beber sumo de cenoura.
Frank Zappa, The Real Frank Zappa Book (NYC, 1989). Tradução Carlos Marques.

Autoridade das (e respeito pelas) autoridades.

Penso, por razões que apresentarei mais abaixo, que é errado pensar que uma postura de deferência pela 'autoridade' é necessariamente desprezível, humilhante ou indigna. Em muitos casos, respeitar e seguir a opinião de uma autoridade é, pelo contrário, um sinal de inteligência. Antes de tratar deste aspecto, queria chamar a atenção para um erro muitas vezes cometido por pessoas que, como eu, defendem esta tese.
Ao tentar justificar-se a ideia de que a deferência pela autoridade nem é sempre negativa, invoca-se frequentemente o facto de não podermos, na prática, viver sem argumentos de autoridade (argumentos que afirmam a verdade de uma conclusão só com base na palavra de alguém). É sem dúvida uma verdade incontornável que a imensidão e complexidade do mundo que nos rodeia (bem como a finitude das nossas existências e aptidões) fazem com que, pessoalmente, tenhamos dele um conhecimento muito escasso. Portanto, se não confiássemos na palavra de outras pessoas ficaríamos paralisados em grande parte das nossas iniciativas. Como iniciar um procedimento legal, como ultrapassar uma doença, como construir uma casa, como atravessar um rio, como reparar uma avaria mecânica do automóvel... sem confiar que outros o sabem fazer por mim? A necessidade prática de recorrer à palavra de outros sem estar em condições de a avaliar por nós mesmos é o que justifica que a todo o momento recorramos de facto à palavra de outros. Quem nunca confiou na palavra de um médico? Quem nunca se meteu num barco ou avião, acreditando que aqueles que estão aos comandos sabem o que estão a fazer? É claro que todos nós reconhecemos que sem autoridades ficaríamos muitas vezes (quase sempre?) sem saber o que fazer.
É preciso, no entanto, perceber que não é a necessidade de autoridades que justifica a autoridade dessas autoridades. O facto de não podermos viver sem argumentos de autoridade não garante, por si só, de modo nenhum, que estes sejam fiáveis. O facto de precisarmos de um parecer jurídico não garante que haja pareceres jurídicos nos quais possamos confiar, não percebendo nós mesmos nada de leis. A respeitabilidade lógica de um argumento (de autoridade ou outro) não decorre da circunstância empírica de termos dele necessidade para fins práticos. Para que um argumento tenha peso lógico tem de ser pelo menos razoável aceitar a sua conclusão e isso só pode decorrer da verdade das suas premissas e de se saber se essas mesmas premissas implicam de alguma maneira a conclusão.
Com isto não se quer dizer que a deferência pela autoridade seja sempre injustificada. O que se quer dizer é que a racionalidade ou bondade de um argumento (incluindo argumentos de autoridade) tem de provir de razões que não as nossas necessidades práticas, psicológicas, ou outras necessidades de facto.
A questão é, então, a seguinte: se o nosso desejo de tomar decisões não é suficiente para justificar a confiança na palavra de outrém, o que há que possa justificar essa confiança, sendo que não podemos, por nós mesmos, garantir a sua racionalidade? Não estamos condenados a ser uma Maria-vai-com-as-outras em grande parte das nossas decisões? Não desesperemos. Se estiverem presentes certos requisitos há boas razões para aceitar uma opinião, mesmo se a nossa ignorância pessoal não nos permite determinar se as premissas que lhe estão subjacentes são verdadeiras ou não. Sucintamente, um argumento de autoridade tem autoridade (é racionalmente aceitável) quando:
(i) a opinião em causa for a opinião de alguém que possui credenciais que nos levem a crer que se trata de alguém entendido na matéria em questão. Por exemplo, se procuramos aprender matemática, uma licenciatura em Matemática, por exemplo, confere alguma autoridade na matéria à pessoa que a possui. Uma licenciatura acompanhada de um doutoramento melhor ainda; um doutoramento, muitos anos de prática lectiva, a ascensão a cargos importantes numa universidade prestigiada, a autoria de artigos científicos em publicações prestigiadas, etc. são indícios que nos tranquilizam ainda mais. Por outro lado, se ouvirmos dizer "Compre relógios Omega, pois os relógios Omega são os preferidos das estrelas de Hollywood.", não temos boas razões para aceitar a conlusão veiculada, pois ser estrela de Hollywood não confere competência relojoeira.
(ii) as conclusões veiculadas por um entendido na matéria em questão são consensuais entre os entendidos. Por exemplo, se um matemático apresentou uma demonstração de uma certa proposição matemática e a grande maioria dos matemáticos aceitam essa demonstração como boa, temos aí uma boa razão para aceitar o que é dito, mesmo que não saibamos, por assim dizer, juntar dois mais dois. Além disso, esse consenso dá-me razão para crer que se eu próprio percebesse o suficiente de matemática estaria de acordo com aqueles que percebem.
(iii) não há indícios fiáveis, para além das opiniões dos especialistas, que contrariem o que os especialistas dizem. Por exemplo, se uma comissão de especialistas afirma que a construção de um aeroporto é essencial ao país e que o local de construção dessa estrutura é, de entre um conjunto de alternativas, preferencialmente o local x, temos boas razões para aceitá-lo, apesar de não sermos especialistas, desde que não haja nada, para além do que é dito pela comissão, que nos force a desconfiar da correcção da escolha. Por exemplo, se o impacte ambiental for claramente intolerável ou muito grande, sendo o dos locais alternativos mínimo; ou se verificar que os especialistas da comissão estão a ser claramente manipulados ou de algum modo condicionados pelos políticos que têm interesse em construir o aeroporto num certo local, etc.
É óbvio que um argumento de autoridade nunca nos pode conduzir a certezas, mas é óbvio também que nos pode conduzir a uma conclusão que é com muita probabilidade verdadeira. A racionalidade inclui também os argumentos cuja conclusão se segue muito provavelmente das premissas (argumentos com validade não dedutiva) e não apenas aqueles cuja conclusão se segue obrigatoriamente delas (argumentos dedutivos). Em suma, há argumentos de autoridade (os que cumprem os requisitos enunciados acima) que estão perfeitamente dentro da esfera da racionalidade. Ora, quem pode dizer que seguir a razão é um sinal de pouca inteligência? As reticências (ideológicas) da moda em relação à palavra autoridade não nos devem deixar de ver o que está à vista.
Carlos Marques

quinta-feira, outubro 30, 2008

Educação: o respeito e a falta dele.

A falta de respeito na nossa sociedade tem uma causa simples: o respeito já não é ensinado. As crianças são encorajadas a pensar que estão em pé de igualdade com os seus pais, professores ou outras autoridades. Não são ensinadas a dirigir-se aos adultos correctamente ou a ter deferência pela sua opinião. A insolência raramente é punida e não é claramente conferido à insolência o estigma que ela merece. O parque infantil sem respeito conduz à comunidade adulta sem respeito. Isso vê-se especialmente na [televisão], onde os noticiários, os debates ou entrevistas são conduzidas sem deferência pelo conhecimento, cultura ou estatuto social das pessoas que neles intervêm. O objectivo de entrevistar uma figura pública não é o de obter instrução, mas o de a apanhar em falso; o propósito de discutir qualquer questão difícil não é o de resolvê-la, mas o de gerar uma interlocução acesa. Notas pessoais ou argumentos ad hominem são perfeitamente permissíveis e os títulos que conduzem normalmente ao respeito, como o conhecimento, competência e cargos importantes, são deliberadamente rebaixados a fim de os tornar risíveis.
Roger Scruton, http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/4589586.stm. Tradução Carlos Marques.