terça-feira, janeiro 13, 2009

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, parte 2: o Jaime não passa de um cérebro a boiar e os filósofos interessam-se por ele

Uma história de terror
Um dia, dois marcianos – o Blib e o Blob - chegaram à Terra. A sua missão era estudar os seres humanos. Decidiram escolher o Jaime como objecto de estudo e começaram, às escondidas, a observar o seu comportamento.
O Blib e o Blob ficaram fascinados com a verdadeira adoração do Jaime pelo seu jogo Monstros e calabouços. Observaram que ele dedicava cada segundo de seu tempo livre a esse jogo. 
0 pai do Jaime preparou-lhe um chá. "Vem beber o chá, Jaime!", gritou para chamá-lo. Os marcianos perceberam que ele teve de chamar o filho pelo menos seis vezes. Também observaram que o Jaime engoliu a comida à pressa e subiu as escadas a correr até ao seu quarto para continuar o jogo.
O Blib e o Blob também não deixaram de notar que, a cada versão que saía de Monstros e calabouços, o Jaime ficava desesperado para obtê-Ia. Nos dois meses antes do Natal, a única frase do Jaime era:
- Pai, mãe, por favor, vão dar-me o último Monstros e calabouços de presente de Natal, não é?
Depois de observar tudo aquilo, o Blib e o Blob concluíram que o Jaime seria a mais feliz das criaturas se ficasse para sempre a jogar a versão mais realista possível de Monstros e calabouços. E decidiram tornar o Jaime feliz.
Na manhã de Natal, o Jaime, ao começar a acordar, a primeira coisa que notou foi que a sua cama parecia dura e fria como pedra. E tinha também um cheiro um pouco estranho. Uma mistura de humidade e mofo. Como os cogumelos. E ouvia também um ruído de gotas a pingar.
O Jaime abriu os olhos devagar. Viu-se num longo corredor de pedras, iluminado por pequenas tochas penduradas em suportes enferrujados de metal. Havia passagens fechadas à esquerda e à direita. Virou-se para trás. Viu que o corredor se estendia, igual, até desaparecer nas trevas.
Este corredor pareceu-lhe vagamente familiar. Então lembrou-se: era o mesmo corredor do Monstros e calabouços. Só que agora parecia real. O Jaime podia alcançar e tocar com os seus dedos suas as paredes gélidas e viscosas. Então, ouviu um uivo e sentiu gelar-se-lhe o sangue. Era um uivo que o Jaime ouvira milhares de vezes antes. Só que agora o uivo não vinha das pequenas colunas de som ao lado do seu computador. Desta vez, o uivo vinha das trevas do fundo do corredor. Desta vez, era um uivo real, como eram reais aqueles passos arrastados. Jaime sabia quem estava para chegar. Com o coração a sair-lhe pela boca, as suas pernas cambalearam. Começou a correr.
Os pais do Jaime ficaram intrigados. Haviam comprado ao Jaime um novo computador programado com a última versão de Monstros e calabouços. Por que não descera o rapaz correndo escadas abaixo para abrir o seu presente como de costume? Subiram as escadas e abriram a porta do seu quarto devagar. Espreitaram.
- Jaime, estás acordado?
0 silêncio reinava no quarto. As cortinas estavam fechadas. E a cama do Jaime, vazia. 0 quarto estava iluminado por uma luz sinistra. Os pais do Jaime viraram-se para constatar que a luz saía do monitor de um computador no cão. Mas aquele não era o computador do Jaime. Quando os seus olhos se acostumaram à escuridão, compreenderam que o ecrã bruxuleante estava ligado a uma grande caixa cinzenta.
Na verdade, essa caixa cinzenta era um super-computador marciano. O Blib e o Blob tiveram muito trabalho para construir aquele computador capaz de passar a versão mais realista de Monstros e calabouços que se podia imaginar. Haviam montado aquele computador especialmente para o Jaime.
- MEU DEUS!!! - gritaram os pais do Jaime, horrorizados. Quando a imagem no ecrã se tornou mais clara por um instante, enchendo o quarto de luz, viram que, nas trevas atrás do computador, havia um cérebro humano a flutuar numa cuba de vidro.
Era o cérebro vivo do Jaime. E completamente consciente. Durante a noite, o Blib e o Blob tinham removido o cérebro do rapaz. Destruíram o resto do seu corpo e colocaram o seu cérebro dentro de uma cuba com um líquido capaz de manter o orgão vivo. Então ligaram o seu cérebro ao computador. O Jaime agora é um corpo virtual num ambiente virtual: o ambiente de Monstros e calabouços. Está agora a jogar a versão mais realista imaginável de Monstros e calabouços. Só que nunca mais pode parar, nem deixar de senti-la como real.
Os pais do Jaime olham para a imagem no ecrã do monitor do computador. É o Jaime. Vêem o filho a ser perseguido por um monstro enorme no corredor estreito.
- Pobre Jaime! - grita a mãe.
Mas claro que gritar não adianta. Tudo o que o Jaime consegue ouvir são os uivos do monstro a correr mesmo atrás dos seus calcanhares. O Jaime jamais ouvirá novamente a voz da sua mãe.
Chocados, os pais do Jaime assistem às peripécias do filho para enganar o monstro. Às vezes, ele tenta desesperadamente esconder-se na escuridão. Fica agachado, quietinho, sem sequer ousar respirar. 0 monstro pára, fareja o ar húmido. Então desaparece. Mas por pouco tempo. 
Os pais do Jaime não aguentam assistir mais e viram-se de costas para o monitor. Só então, vêem um cartãozinho colado ao computador com uma fita vermelha. Tremendo, aproximam-se. Afinal, sob a luz dos clarões tremeluzentes do monitor conseguem ler os gatafunhos compridos e finos da mensagem no cartão, que diz: 

FELIZ NATAL, JAIME
BLIB & BLOB

Será que não somos cérebros em cubas?
(...) Os filósofos acham muito interessantes as histórias sobre cérebros em cubas. São particularmente interessantes para os filósofos interessados na pergunta: o que é possível, se é que é possível, conhecer o mundo à nossa volta? Esta é a questão que vamos examinar agora.
Tomemos um tipo diferente de história sobre cérebros em cubas: uma história sobre si. Suponha que ontem à noite o Blib e o Blob passaram pela sua casa enquanto estava a dormir. Doparam-no e levaram-no para Marte no seu disco voador. Nesse planeta removeram o seu cérebro do seu corpo, colocaram-no numa cuba de vidro com um líquido especial para preservar a vida e ligaram-no a um super-computador. E então destruíram o seu corpo. Agora é o super-computador que controla todas as suas experiências. 
Estale os dedos. Ao estalar seus dedos, o computador controla os impulsos que saem do seu cérebro: os mesmos impulsos que chegariam aos seus dedos caso ainda os tivesse. Então, o computador estimula as extremidades nervosas que estavam antes ligadas aos seus olhos, pontas dos dedos, ouvidos, etc., de modo que fica com a impressão de ver, sentir e ouvir seus dedos a estalar. Mas, na verdade, nem tem já dedos verdadeiros. Só tem dedos virtuais gerados por computador.
0 computador que gera essas experiências é tão incrivelmente avançado que copia o seu ambiente real até aos ínfimos detalhes. De modo que tudo o que experimenta parece real. A sua cama virtual parece-se perfeitamente com a sua cama real. O seu quarto virtual é igualzinho ao seu quarto verdadeiro. Os seus pais virtuais agem exactamente como os seus pais verdadeiros. A sua rua virtual parece-se exactamente com a sua rua verdadeira. 
A grande questão filosófica que se pode extrair desta história é: como sabe que não é um cérebro numa cuba? Como pode saber que o mundo que o cerca não é virtual? Talvez os marcianos realmente lhe tenham feito uma visita a noite passada. Talvez tenham realmente extraído o seu cérebro e o tenham ligado a um super-computador. Se fizeram isso, será que podia sabê-lo? Parece que não, porque tudo para si continuaria a parecer exactamente igual.

Talvez tenha sido SEMPRE um cérebro numa cuba
Eis uma ideia ainda mais inquietante. Talvez tenha sido sempre um cérebro numa cuba, desde o dia em que nasceu.
Talvez o planeta Terra nem exista. Talvez as coisas que lhe parecem tão familiares – a sua casa, os seus vizinhos, os seus amigos, a sua família, não sejam mais "reais" do que os lugares e os personagens do jogo Monstros e calabouços do Jaime. Talvez não passem de uma criação de programadores de computador marcianos. Talvez esses marcianos estejam a estudar o seu cérebro para ver como ele reage ao mundo que eles inventaram.
Por outras palavras, talvez a única realidade que jamais conheceu seja uma realidade virtual. Como pode ter certeza que não? Não, parece que não pode.

Como sabe que não é um cérebro numa cuba?
Mas convenhamos, não acredita realmente que é um cérebro numa cuba. Acho que, como eu, acredita que não é um cérebro numa cuba. Mas a pergunta é: sabe que não é um cérebro numa cuba? Sabe que o mundo que parece ver em seu redor é real?
A resposta, ao que parece, é: não, não sabe. Pode acreditar que o mundo que vê é real. E talvez seja verdade que o mundo que vê seja mesmo real. Mas, ainda que seja real, parece que não sabe se é real. Para saber se ele é real ou não, decerto precisaria de uma razão para acreditar que é real. E não há razão alguma para acreditar que o mundo que vê é real e não virtual, pois tudo lhe pareceria exactamente igual mesmo se ele fosse virtual. De modo que, assombrosamente, ao que parece, não sabe que não é um cérebro numa cuba.
Na verdade, parece que não sabe coisa alguma do mundo que nos cerca. Porque tudo o que vê - a mão que vê diante dos olhos, esta folha que aparentemente segura nas suas mãos, a árvore que parece ver ali fora, e até o planeta Terra - poderia ser virtual.
A história continua. Não perca o próximo, e último, episódio na parte 3.

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 52-60). Adaptação da tradução brasileira. O título principal não se encontra no original.

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, PARTE 3: o Jaime põe os filósofos às aranhas


O que é o cepticismo?
0 argumento que acabamos de examinar - o de que não conhecemos nada sobre o mundo que nos cerca - chama-se argumento céptico. Os cépticos sustentam que, na verdade, não sabemos o que pensamos que sabemos. E a afirmação de que não sabemos nada sobre o mundo que nos cerca chama-se cepticismo sobre o mundo exterior.

Cepticismo "versus" senso comum
A visão do senso comum, é claro, sustenta que de factconhecemos o mundo exterior. Na verdade, se resolvesse dizer, "não sei se as árvores existem", especialmente se estivesse a olhar para uma árvore em plena luz do dia, os outros achariam que tinha enlouquecido.
Mas os cépticos achariam que estava certo. Não sabemos se árvores existem. 0 senso comum está enganado.

Outros exemplos de enganos do senso comum
Os argumentos dos cépticos podem deixar algumas pessoas muito irritadas. Sabermos que as árvores existem é uma das nossas crenças mais básicas - como costumo dizer, sentimos que é isso é apenas senso comum. Existem muitas crenças que abandonaríamos com muita satisfação, caso alguém conseguisse demonstrar que estamos errados. Mas, quando se trata das crenças mais arraigadas do nosso senso comum - como a crença de que sabemos que as árvores existem -, não ficamos nada satisfeitos por abandoná-las.
Na verdade, ter as nossas crenças mais elementares ameaçadas pode ser uma experiência bem desconfortável, especialmente quando não vemos como defendê-las. Nessas ocasiões muitos ficam enraivecidos. Dizem que é um disparate o que o filósofo está a dizer. "Isso é uma completa estupidez", gritam. "Claro que eu sei que as árvores existem." E retiram-se, ofendidos.
Mas o filósofo pode apontar que em muitos outros casos se comprovou que o senso comum estava errado. Por exemplo, noutros tempos, o senso comum afirmava que a Terra era plana. As pessoas simplesmente achavam que era óbvio que a Terra fosse plana. Afinal, parece plana, não parece? Os marinheiros até tinham medo de chegar ao fim da Terra e cair. Também nessa época algumas pessoas ficavam muito irritadas quando a  sua crença comum era desafiada. "Não seja ridículo", gritavam. "É claro que a Terra é plana." E saíam a bater os pés. Hoje, porém, sabemos que a Terra não é plana. 0 senso comum estava enganado.
(...)
O que os cépticos NÃO afirmam
Vale a pena deixar claro o que os cépticos não afirmam, para não ficarmos confusos. Em primeiro lugar, os cépticos não afirmam saber que nós ou eles somos cérebros numa cuba. Só afirmam que ninguém pode saber de maneira alguma se alguém é um cérebro numa cuba.
Em segundo lugar, eles não afirmam apenas que não podemos ter a certeza absoluta de que o mundo que vemos é real ou virtual. Afirmam muito mais do que isso. Afirmam que não temos razão alguma para acreditar que o mundo que vemos é real e não virtual.
Em terceiro lugar, eles não vão tão longe a ponto de afirmar que ninguém pode saber nada. Afinal, eles próprios reivindicam saber uma coisa: que ninguém pode conhecer o mundo exterior.

Um enigma antigo
Estamos então diante de um enigma difiícil. Por um lado, a visão do senso comum é que sabemos que as árvores existem. Nós não queremos de facto abrir mão dessa visão do senso comum (na verdade, nem estou certo de que poderíamos abrir mão dela mesmo que quiséssemos). Por outro, o céptico tem um argumento que parece mostrar que a nossa visão do senso comum está errada: nós não sabemos que as árvores existem. Qual das visões está certa?
Apesar da roupagem moderna que eu lhe dei, este enigma é na verdade bem antigo. É de facto um dos enigmas filosóficos melhor conhecidos. Ainda hoje, nas universidades do mundo inteiro, os filósofos se debruçam sobre ele. E ainda não conseguiram decidir se os cépticos têm razão. Eu devo admitir: não sei se os cépticos têm ou não razão. Ao longo dos séculos, muitos filósofos tentaram lidar com o cepticismo. Procuraram demonstrar que o senso comum está certo: nós conhecemos efectivamente afinal o mundo que nos cerca. Algumas das suas tentativas para derrotar os cépticos são muito perspicazes. Mas será que alguma delas funciona mesmo? Examinemos agora uma dessas tentativas.

A navalha de Ockham
0 céptico apresenta-nos duas teorias on hipóteses. A primeira hipótese - a hipótese do senso comum – é a de que não somos um cérebro numa cuba: o mundo à nossa volta é real. A segunda é a de que somos um cérebro numa cuba: o mundo que vemos é meramente virtual. 0 céptico diz não haver razão para acreditar na primeira ou na segunda hipótese. Ambas são igualmente bem sustentadas pelo testemunho dos nossos sentidos. De um ou de outro modo, tudo pareceria igual para nos. Então, não se pode saber se a primeira hipótese é verdadeira e a segunda falsa.
Mas temos de convir com os cépticos que a maneira como as coisas se nos apresentam está de acordo com as duas hipóteses. Porém, como explicarei a seguir, daqui não se conclui que a maneira como as coisas se apresentam sustenta igualmente as duas hipóteses. Existe um famoso princípio filosófico que diz que, diante de duas hip6teses, ambas igualmente sustentadas por provas, é sempre razoável acreditar na hipótese mais simples. Esse princípio chama-se navalha de Ockbam. Parece um princípio bastante plausível.

O exemplo das duas caixas
Aqui está um exemplo de como a navalha de Ockham funciona. Imagine que lhe apresentam uma caixa com um botão de lado e uma lâmpada em cima. Constata que, de todas as vezes que aperta o botão, a lâmpada se acende. Se não aperta, a lâmpada fica apagada.
Agora examinemos duas hipóteses opostas que explicam como isso acontece. A primeira hipótese é que o botão e a lâmpada estão ligados por um circuito a uma bateria dentro da caixa. Quando aperta o botão, o circuito completa-se, e a lâmpada acende-se. A segunda hipótese é mais complicada. Diz que o botão é preso a um circuito eléctrico que liga a bateria a uma segunda lâmpada dentro da caixa. Quando se aperta o botão, essa lâmpada interna acende-se. Nessa altura, um sensor de luz dentro da caixa detecta que a lâmpada se acende acciona um segundo circuito eléctrico que liga uma segunda bateria à lâmpada que vê fora da caixa. Isso faz com que a lâmpada de fora se acenda.
Qual das hipóteses acha mais razoável? Sem dúvida, ambas estão de acordo com o que viu: nos dois casos, a lâmpada acende-se quando e só quando carrega no botão. Mas parece errado dizer que as duas hipóteses são igualmente razoáveis. Sem dúvida, é mais razoável acreditar na primeira do que na segunda hipótese, porque a segunda hipótese é menos simples: ela sustenta que há dois circuitos eléctricos na caixa, e não um só.
Podemos usar a navalha de Ockham para vencer o céptico? Talvez. Poderíamos sempre dizer que das nossas duas hipóteses a de que o mundo que estamos a ver é real e a de que é meramente virtual - a primeira é mais simples; porque, enquanto a primeira hipótese diz que só há um mundo, a segunda de facto diz que há dois: há um mundo real, com marcianos, um super-computador, uma cuba e seu o seu cérebro, dentro do qual é criado um segundo mundo virtual que contém árvores, casas, pessoas virtuais, etc. Portanto, dado que a primeira hipótese é mais simples, significa que é a mais razoável.
Por isso, o céptico está errado: é mais razoável acreditar que o mundo que vemos é um mundo real e não virtual, apesar do fato de o modo como as coisas aparecem estar de acordo com as duas hip6teses.

Uma dúvida
0 que acha desta resposta ao argumento céptico? Eu tenho algumas dúvidas quanto a ela. Uma dessas dúvidas é: será que a hip6tese de que o mundo que n6s vemos 6 um mundo real 6 de fato a hip6tese mais simples? Depende do que se entende por mais simples. Na verdade se, de alguns pontos de vista, a primeira hipótese é mais simples, existem aspectos em que é menos simples. Por exemplo: alguém poderia dizer que a segunda hipótese é mais simples, pois ela precisa de muito menos objectos físicos: só dos marcianos, do seu cérebro numa cuba e de um super-computador. Não haveria necessidade alguma de supor que um planeta Terra com todas as suas árvores, casas, cães, gatos, montanhas, carros, etc. realmente existe. 
E alguém ainda poderia dizer que a segunda hipótese é mais simples porque precisa de um número bem menor de mentes. Se toda a sua família, os seus amigos, os seus vizinhos, etc. são meramente virtuais, também as suas mentes seriam virtuais. As únicas mentes reais de que a segunda hipótese necessita são a sua e as dos programadores de computador. Assim, seria de facto mais razoável acreditar que é um cérebro em uma cuba.

Sou uma ilha?
Se o céptico está certo (e não estou a dizer que está), cada um de nós é de uma maneira significativa isolado do mundo que nos cerca. Não sabe nada do mundo exterior, nem tem nenhum motivo para acreditar que habita num mundo com árvores, casas, cães, gatos, montanhas e carros. E também não tem motivo algum para supor que está cercado de outras pessoas. Pois tudo o que sabe, o seu mundo inteiro - incluindo todas as pessoas que há nele (incluindo-me a mim) – é meramente virtual.
É um pensamento bem assustador. Obriga-o a pensar em si de uma maneira bem diferente. Alguém disse um dia: "Nenhum homem é uma ilha." Mas, se o céptico estiver certo, há um sentido em que isso seria falso. Cada um de nós seria um náufrago na sua própria ilha deserta, incapaz de saber alguma coisa do mundo para além do horizonte das nossas próprias experiênclas sensoriais. Estaríamos fechados para o mundo exterior e isolados uns dos outros. Seríamos prisioneiros das nossas próprias mentes. 0 céptico pinta um quadro multo solitário.
Num outro sentido, porém, o cepticismo pouco importa. Não altera em nada nossa vida quotidiana. Mesmo os cépticos continuam a viver sua rotina diária. Alimentam os seus gatos. Lavam as suas roupas. Vão trabalhar. Encontram um amigo para tomar café. Nem mesmo o céptico consegue realmente evitar acreditar que o mundo que vê é real, apesar de não encontrar razão para acreditar que é real. Parece que nascemos naturalmente crentes: não podemos fugir a isso.
Mas tem o céptico razão? Eu não tenho a certeza. 0 que acha?

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 60-69). Adaptação da tradução brasileira. O título principais não está no original.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Conhecimento de coisas: conhecimento por contacto e conhecimento por descrição


Neste capítulo ocupar-nos-emos exclusivamente do conhecimento de coisas, do qual por seu turno teremos de distinguir dois tipos. 0 conhecimento de coisas, quando é do tipo a que chamamos conhecimento por contacto, é essencialmente mais simples do que qualquer conhecimento de verdades, e é logicamente independente do conhecimento de verdades, mas seria precipitado pressupor que os seres humanos alguma vez estão, de facto, em contacto com coisas sem ao mesmo tempo saber alguma verdade sobre elas. 0 conhecimento de coisas por descrição, pelo contrário, envolve sempre, como veremos (…) algum conhecimento de verdades como sua fonte e fundamento. Mas primeiro que tudo temos de clarificar o queremos dizer por “contacto” e o que queremos dizer por “descrição”.

Diremos que temos contacto com seja o que for do qual estamos directamente cientes, sem ser por intermédio de quaisquer processos de inferência on qualquer conhecimento de verdades. Assim, na presença da minha mesa tenho contacto com os dados dos sentidos que constituem a aparência da minha mesa - a sua cor, forma, lisura, etc.; tudo isto são coisas das quais tenho consciência imediata quando estou a ver e a tocar a minha mesa. Do tom particular de cor que estou a ver muitas coisas se podem dizer - posso dizer que é castanho, bastante escuro, e assim por diante. Mas tais afirmações, apesar de me fazerem saber verdades sobre a cor, não me fazem conhecer a cor em si melhor do que conhecia antes: no que respeita ao conhecimento da cor em si, ao contrário do conhecimento de verdades sobre ela, conheço a cor perfeita e completamente quando a vejo, e mais nenhum conhecimento de si própria é sequer teoricamente possível. Assim, os dados dos sentidos que constituem a aparência da minha mesa são coisas com as quais tenho contacto, coisas imediatamente conhecidas por mim exactamente como são.

0 meu conhecimento da mesa enquanto objecto físico, ao contrário, não é conhecimento directo. Embora limitado, é obtido por contacto com os dados dos sentidos que constituem a aparência da mesa. Vimos que é possível, sem absurdo, duvidar de que há de todo em todo uma mesa, ao passo que não é possível duvidar dos dados dos sentidos. 0 meu conhecimento é do tipo a que iremos chamar “conhecimento por descrição”. A mesa é o “objecto fisico que causa tais e tais dados dos sentidos”. Isto descreve a mesa por meio dos dados dos sentidos. Para saber seja o que for da mesa, temos de conhecer verdades que a liguem a coisas com as quais temos contacto: temos de saber que “tais e tais dados dos sentidos são causados por um objecto físico”. Não há qualquer estado mental no qual estejamos directamente cientes da mesa; todo o nosso conhecimento da mesa é na realidade conhecimento de verdades e, estritamente falando, a própria coisa que a mesa é não é de modo nenhum conhecida por nós. Conhecemos uma descrição, e sabemos que há apenas um objecto ao qual a descrição se aplica, apesar de o próprio objecto não ser directamente conhecido por nós. Em tal caso, dizemos que o nosso conhecimento do objecto é conhecimento por descrição.
Bertrand Russell, Os problemas da filosofia (Edições 70, 2008, págs. 107-109).

sexta-feira, janeiro 02, 2009


"CONHECER" 1,2,3



Três sentidos de “conhece”

Na linguagem vulgar, quando dizemos que alguém conhece algo podemos querer dizer coisas diferentes com “conhece”. Há diferentes sentidos de “conhecimento” ou, digamos, diferentes tipos de conhecimento. De entre estes, os mais significativos são (1) o conhecimento proposicional, (2) o conhecimento por contacto e (3) o "saber-fazer”. Comecemos pelo conhecimento proposicional.
O conhecimento proposicional é o conhecimento de factos ou de proposições verdadeiras. Consideremos os exemplos seguintes de conhecimento proposicional:

(1) O João sabe que César foi assassinado.
(2) O João sabe que o céu é azul.

Nestes exemplos, os objectos do conhecimento, ou aquilo que é conhecido, são, respectivamente, as proposições verdadeiras César foi assassinado e o céu é azul.
É importante distinguir entre frases e proposições. Considerem-se duas pessoas, o Paulo e o Pedro. Suponhamos que cada um deles está convencido de que o céu é azul. Só que o Paulo apenas sabe falar Português e o Pedro apenas Francês. Ao expressar a sua crença, o Paulo diria “O céu é azul.” e o Pedro “Le ciel est bleu.” Embora cada um deles expresse a sua crença através de uma frase diferente, acreditam ambos na mesma proposição. Do mesmo modo, uma vez que ambos sabem que o céu é azul, conhecem a mesma proposição.
Podemos pensar a crença como uma relação entre um sujeito e uma proposição. Se a proposição de que estamos convencidos é verdadeira, então a nossa crença é verdadeira e se a proposição de que estamos convencidos é falsa, então a nossa crença é falsa. Podemos também pensar o conhecimento proposicional como uma relação entre um sujeito e uma proposição. Mais precisamente, o conhecimento proposicional é uma relação entre um sujeito e uma proposição verdadeira.
O conhecimento proposicional não é a única espécie de conhecimento. Suponhamos, por exemplo, que alguém faz as afirmações seguintes:

(3) O João conhece o presidente dos Estados Unidos.
(4) O João conhece o Papa.

Podemos naturalmente pensar que estas afirmações implicam que o João conhece pessoalmente, quer o presidente dos Estados Unidos, quer o Papa. Podemos naturalmente pensar que (3) e (4) implicam que o João esteve na presença deles. Se realmente entendemos (3) e (4) deste modo, então estamos a atribuir ao João um conhecimento por contacto. Dizer que o João conhece alguém por contacto implica que o conhece pessoalmente ou que esteve na sua presença.
É necessário distinguir o conhecimento por contacto do conhecimento proposicional. É óbvio que podemos ter bastante conhecimento proposicional sobre alguém sem ter conhecimento por contacto dessa pessoa. Posso, por exemplo, ter bastante conhecimento proposicional sobre o presidente. Posso saber que ele nasceu nesta ou naquela data e que ele frequentou tal ou tal universidade. Posso saber muitas mais proposições verdadeiras semelhantes acerca dele. Porém, do facto de ter bastante conhecimento proposicional sobre o presidente não se segue que tenho dele conhecimento por contacto, visto que não o conheço pessoalmente nem estive alguma vez na sua presença.
Na linguagem vulgar, quando dizemos “A conhece B”, estamos por vezes a usar “conhece” no sentido proposicional, outras vezes no sentido do conhecimento por contacto. Suponha-se, por exemplo, que um detective diz estas palavras sinistras “Conheço este assassino. Ele vai matar outra vez - e brevemente.” O nosso detective não tem de ser entendido como querendo dizer que esteve realmente na presença do assassino ou que o conhece pessoalmente. Pode querer dizer simplesmente que sabe que o assassino é do tipo que brevemente atacará outra vez. Detém uma certa espécie de conhecimento proposicional acerca do assassino. Da mesma forma, se eu estou impressionado com o vasto conhecimento que o João tem sobre César, posso dizer “O João conhece realmente César.” É claro que estou a dar a entender que o João tem muito conhecimento proposicional sobre César e não que o João esteve na sua presença.
Além de pessoas, podemos conhecer coisas por contacto. Podemos, por exemplo, conhecer Paris ou o sabor da manga por contacto. Se temos esse tipo de conhecimento de Paris é porque lá estivémos; e se temos esse tipo de conhecimento do sabor da manga é porque provámos manga. Mais uma vez, é necessário distinguir o conhecimento deste tipo do conhecimento proposicional. Podemos ter muito conhecimeno proposicional acerca de Paris, sabendo quais são os principais boulevards, quando foi fundada a cidade, sabendo onde se localizam vários pontos marcantes da cidade, sem ter o tipo de conhecimento que decorre de ter lá estado.
Consideremos ainda o "saber-fazer.” Por vezes, quando dizemos “A sabe fazer X” queremos dizer ou dar a entender que A tem aptidão para X. Noutros casos, porém, quando dizemos que “A sabe fazer X” não queremos dizer que A tem aptidão para X. Assim, há um sentido em que “saber fazer X” sugere termos aptidão para X e outro que não o sugere. De acordo com o primeiro sentido de "saber-fazer”

(5) O João sabe tocar uma sonata para piano.

implica

(6) O João tem aptidão para tocar uma sonata para piano.

Lembremos, porém, que há outro sentido de saber fazer X que não implica que se tenha aptidão para X. Para ter uma ideia deste segundo sentido, suponhamos que o João é um violinista talentoso que lê bem música, mas não é capaz de tocar piano. Imaginemos que ele tem um profundo conhecimento sobre como tocar uma certa sonata para piano; pode saber, por exemplo, que o indicador direito deve tocar tal nota e que o polegar direito uma outra, e assim por diante. Na verdade, o João seria capaz de descrever precisamente como tocar a peça, mesmo não sendo capaz, ele mesmo, de a tocar. Neste caso, podemos dizer que o João sabe tocar a sonata, embora não tenha aptidão para tocá-la. Neste sentido de “saber-fazer”, (5) não implica (6). Há, pois, um sentido de “saber fazer" algo que se resume simplesmente a ter conhecimento proposicional sobre como fazê-lo. O violinista João, por exemplo, tem bastante conhecimento proposicional sobre como tocar uma sonata para piano, mas noutro sentido de “saber-fazer” não sabe tocar uma sonata para piano, pois falta-lhe a aptidão para tal.
Como se ilustra pelos casos anteriores, podemos ter muito conhecimento proposicional sobre como fazer algo sem ter a aptidão para o fazer. Inversamente, podemos ter a aptidão para fazer algo sem ter muito conhecimento proposicional sobre o assunto. Para perceber esta situação, imaginemos um fisiólogo que tem muito conhecimento proposicional sobre como andar. Estudou o modo como precisamos de transferir peso de um pé para outro, como os joelhos se devem dobrar, que músculos trabalham, etc. O nosso perito pode ter um grande conhecimento proposicional sobre como andar. Consideremos agora a jovem Maria. A Maria tem dez meses e acabou de aprender a andar. Ela sabe andar, mas podemos facilmente imaginar que lhe falta o conhecimento proposicional do perito sobre o assunto. O conhecimento proposicional da Maria sobre como andar é provavelmente bastante fraco, se é que é algum.
Distinguimos o conhecimento proposicional, quer do conhecimento por contacto, quer do saber fazer algo. Tradicionalmente, os filósofos preocuparam-se mais com o conhecimento proposicional. Uma das razões disto é que os filósofos se preocupam tipicamente com o que é verdadeiro. Querem saber o que é verdadeiro e avaliar e apreciar as suas próprias pretensões de conhecimento da verdade, bem como as dos outros. Quando, por exemplo, os filósofos se interrogam sobre a extensão do nosso conhecimento, preocupam-se tipicamente com a extensão do nosso conhecimento proposicional, com o número de verdades que conhecemos. Quando um filósofo diz que sabe que há objectos externos e outro o nega, há um desacordo sobre a existência de um certo tipo de conhecimento proposicional; há desacordo sobre o conhecimento de um certo tipo de verdades . O conhecimento por contacto e o "saber-fazer” não estão “focados na verdade” como o conhecimento proposicional.

Noah Lemos, An Introduction to the Theory of Knowledge (Cambridge, 2007, pp. 2-5). Tradução de Carlos Marques.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Bom Natal e boas leituras!


O LOGOSFERA deseja aos que honraram este espaço lendo os seus textos!


Aos que aqui discutiram as suas ideias!


A todos:



UM ÓPTIMO NATAL
E
UM EXCELENTE ANO NOVO!


ATÉ PARA O ANO!

domingo, dezembro 07, 2008

FAZ SENTIDO ARGUMENTAR ACERCA DO PROBLEMA DA EXISTÊNCIA DE DEUS?


O texto abaixo foi retirado e traduzido do site http://www.askphilosophers.org/ (vale a pena visitar!) no qual os cibernautas podem colocar perguntas a um vasto painel de filósofos e obter resposta. O livro de Alexander George, Que Diria Sócrates?
Filósofos Respondem Às Suas Perguntas Sobre O Amor, O Nada E Tudo O Resto, recentemente publicado pela editora Gradiva, baseia-se em perguntas que foram seleccionadas de entre as muitas enviadas para este popular site.


PERGUNTA
Têm sido propostos muitos argumentos que visam dar suporte à proposição que afirma que Deus existe. Até agora, parece que nenhum deles foi convincente. Pensa que é possível que um argumento que conclua com ‘Deus existe’ venha a ser alguma vez convincente? Se um tal argumento não puder ser convincente, não podemos inferir que não é convincente nenhum argumento que procure estabelecer a existência de Deus? Ou pensa que podemos vir a encontrar um argumento que seja convincente?

RESPOSTA (de Allen Stairs)
Se por “convincente” quer dizer algo como “acima de qualquer dúvida”, a resposta é quase de certeza não. No entanto, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. A tese que afirma que Deus existe tem pelo menos em comum com as teses filosóficas em geral o facto de haver bastante margem de manobra para se argumentar a favor ou contra.
Por outro lado, se a questão é saber se existem argumentos para acreditar em Deus que alguém possa achar convincentes sem cair na irracionalidade, a resposta é quase de certeza sim. Mas, uma vez mais, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. Pense no que quer que seja em que os filósofos estejam em desacordo e verificará que alguns filósofos no seu perfeito juízo se deixam convencer por argumentos que outros não consideram persuasivos. 
Pode alguém, razoavelmente, considerar um argumento persuasivo, mesmo tendo consciência de que este dá azo a objecções que ainda não obtiveram resposta? Se um padrão de razoabilidade é alcançável pelos seres humanos, a resposta também é sim. Em parte, isto deve-se ao facto de haver duas maneiras de encarar objecções. Uma, é pensar nelas como refutações; outra, como problemas a resolver: ‘se calhar esta questão que me atormenta vai ser fatal para as minhas convicções’; ou ‘se calhar, com algum jeito, eu ou outra pessoa, acabaremos por descobrir uma resposta convincente’. Pessoas razoáveis podem diferir, e diferem, sobre como encarar cada caso. Na verdade, o facto de os filósofos e outro género de teorizadores diferirem quanto a isto é uma das coisas que os vai mantendo ocupados!
Tradução Carlos Marques.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A ÉTICA E A SUA RAZÃO DE SER

FILOSOFIA MORAL
Fazer filosofia moral (ou Ética) é raciocinar sobre as questões fundamentais da moralidade. [Há] duas questões principais:

Metaética
Qual é a natureza dos juízos morais e qual a metodologia que lhes está subjacente?

Ética normativa
Quais os princípios segundo os quais devemos viver?




Consigo lembrar-me de três razões para estudar filosfia moral – para além do facto de muitos de nós a acharem muito interessante.

Harry J. Gensler, Ethics. A Contemporary Introduction (London and New York, 1998, pp. 4-6). Tradução Carlos Marques.

Primeiro, a filosofia moral pode tornar mais profunda a nossa reflexão sobre as questões mais fundamentais da vida. Isto tem valor em si mesmo, independentemente dos seus benefícios práticos. Quem ainda não enfrentou algumas das mais profundas questões da vida não é uma pessoa bem formada.
Segundo, a filosofia moral pode ajudar-nos a pensar melhor sobre a moralidade. Quando fazemos juízos morais estamos implicitamente a pressupor uma certa visão da moralidade ou uma mistura confusa de visões. A nossa visão, boa ou má, defensável ou não, oferece-nos uma perspectiva a partir do qual pensamos e agimos. A filosofia moral pode melhorar a nossa perspectiva, tornando-a mais reflectida e melhor pensada. Pode também melhorar os nossos pensamentos acerca de questões específicas.
À medida que crescemos é-nos dito constantemente o que é bom e o que é mau, o que devemos e o que não devemos fazer. Os nossos pais dizem-no, assim como os nossos professores, amigos e sociedade em geral. Chega um dia em que temos de escolher de entre estes valores e formar as nossas próprias convicções. Mas como podemos fazê-lo da melhor maneira e do modo mais prudente? Esta é a questão central da filosofia moral.
Um terceiro objectivo da filosofia moral é o de aguçar os nossos processos mentais em geral. Quando fazemos filosofia adquirimos aptidões intelectuais importantes. Aprendemos a pensar com rigor sobre questões fundamentais – a compreender e a avaliar pontos de vista em conflito – a expressar as ideias com clareza e a raciocinar cuidadosamente. Estas aptidões são de grande valor para a vida real e a filosofia, como nenhuma outra coisa, pode ajudar ao desenvolvimento destas aptidões.

PORQUÊ ESTUDAR ÉTICA?

A filosofia moral tem assim dois ramos principais.
A metaética estuda a natureza dos juízos morais e a metodologia a estes subjacente. Faz perguntas como: O que significam ‘bem’ e ‘dever’? Há verdades morais? Como podemos justificar e defender racionalmente o que pensamos sobre o que é moral ou imoral?
Uma perspectiva metaética contém normalmente duas partes. Uma delas diz respeito à natureza dos juízos morais e traduz-se habitualmente numa definição de “bem”. A outra parte tem a ver com metodologia, com o modo como os princípios morais são escolhidos. Por exemplo, o relativismo cultural diz:

 “Bom” significa “socialmente aceite.”
 Escolhe os teus princípios morais de acordo com o que é socialmente aceite.

O relativismo cultural baseia a moralidade nas convenções sociais. Outras perspectivas baseiam-na, por exemplo, em sentimentos pessoais, na vontade divina ou em verdades auto-evidentes.
A ética normativa estuda os princípios segundo os quais devemos viver. Faz perguntas como: Quais os princípios básicos do moral e do imoral? Que coisas valem a pena nesta vida? Como deve ser a sociedade justa? O que faz de alguém uma boa pessoa? Quais são os direitos humanos básicos? O aborto é moral ou imoral? A ética normativa tem dois níveis. A teoria normativa procura princípios morais muito gerais, como “Devemos sempre fazer o que maximiza o prazer para o maior número de pessoas.” A ética normativa aplicada estuda questões morais em áreas específicas, como o aborto ou a mentira. Ambos os níveis formulam e defendem princípios morais. Dizem coisas como “Devemos fazer isto e aquilo…”
A metaética é o ramo mais básico da filosofia moral, pois estuda o método que permite determinar quer os princípios morais, quer a ética normativa. (…)


A Sociedade do Espectáculo

Guy Debord, Paris, 1931 -1994
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A sociedade que repousa sobre a moderna indústria não é fortuitamente espectacular ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente "espectalista". No espectáculo, imagem da economia reinante, a finalidade não é nada, o desenvolvimento tudo. O espectáculo não quer vir a ser outra coisa senão ele mesmo.

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Enquanto adereço indispensável dos objectos produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, enquanto sector económico que forma directamente uma multidão de imagens/objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade.

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O espectáculo submete os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Não há mais nada senão economia desenvolvendo-se a si mesma. O espectáculo é o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

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A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou na definição de toda a realização humana uma degradação evidente, degradação do ser no haver. A presente fase da ocupação total da vida social através dos resultados acumulados da economia, conduz a um deslizamento generalizado do haver no parecer, do qual todo o haver efectivo dele tira o seu prestígio imediato e a sua última função. Ao mesmo tempo, toda a realização individual tornou-se social, directamente dependente da força social, formada por ela. Aqui, quando nada é, permitem-lhe aparecer.


Guy Debord, La société du Spectacle (Gallimard, Paris 1992). Publicado pela primeira vez em 1967.
Tradução de Helena Serrão.

Retirando o tom apologético e datado na forma como simplifica as relações sociais e económicas de modo a obter um produto discursivo inflamante , a leitura de Debord não deixa de fazer todo o sentido e obrigar-nos a pensar de novo este produto imagem/espectáculo onde as verdadeiras motivações do sistema são apagadas ou elididas. Um sistema que se mostra e autopromove a todo o momento numa espécie de máquina histórica que submete as relações individuais e sociais, mesmo aquelas que supostamente se queriam marginais, a um efeito promocional; de facto à luz desta leitura nenhum discurso parece poder escapar a este efeito de globalização.