terça-feira, janeiro 13, 2009

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, parte 1: o Jaime e a realidade virtual

O jogo do Jaime 
(...) O Jaime está a jogar um jogo no computador. 0 nome do jogo é Monstros e calabouços. Para vencer, é preciso percorrer um labirinto de calabouços, matar todos os monstros e ficar com todos os tesouros. (...) O Jaime adora este jogo. Especialmente matar monstros. É bom avisar: uma coisa terrível vai acontecer ao Jaime. Mas isso fica para mais tarde. Primeiro, quero explicar o que é a realidade virtual.

Realidade virtual
Os calabouços, os tesouros, os monstros e as armas do jogo do Jaime não são verdadeiras, é claro. Eles constituem o que é conhecido como realidade virtual, um mundo criado por computador. Uma realidade virtual é composta por um ambiente virtual dentro do qual se podem encontrar objectos virtuais. No jogo do Jaime, os calabouços e os labirintos são o ambiente virtual. As armas, os monstros e os tesouros são os objectos virtuais.
Já deve ter tido provavelmente alguma experiência com a realidade virtual. Talvez já tenha jogado um jogo de computador no qual pilotou um carro de corrida numa pista ou um avião pelo céu. Os carros, as pistas, os aviões, etc. que vê nesses jogos são todos virtuais. Eles não existem na realidade.

Usando um capacete para entrar em contacto com a realidade virtual
Normalmente, quando se brinca com este tipo de jogo, assiste-se à acção numa espécie de ecrã. Mas já existem outras maneiras de experimentar a realidade virtual. De facto, os especialistas em computadores desenvolveram capacetes de realidade virtual.
O capacete funciona assim: quando o colocamos, vemos um pequeno ecrã. Este ecrã mostra o ambiente virtual. E o importante no ecrã é que, quando movimentamos a cabeça de um lado para o outro, o que vemos muda, como se estivéssemos de facto nesse ambiente. Se olharmos, por exemplo, para a esquerda, vemos o que está à nossa esquerda no ambiente virtual. Olhamos para baixo e vemos o que há no chão do ambiente virtual. Viramo-nos e vemos o que está atrás de nós, e assim por diante.
0 capacete também é equipado com pequenos altifalantes - um para cada ouvido - de modo a que possamos ouvir tudo o que se passa dentro da realidade virtual. Mais uma vez, os sons também se modificam de acordo com o lado para o qual se está voltado. Portanto, com o capacete virtual, tudo parece e soa como se o ambiente virtual estivesse de facto à nossa volta.

Mãos e pernas virtuais
Também já é possível alcançar e apanhar objectos virtuais. Desenvolveram-se luvas electrónicas que controlam mãos virtuais. Basta calçá-las, e podemos mover as mãos virtuais que vemos à nossa frente quando usamos o capacete de realidade virtual. Com essas mãos virtuais, podemos pilotar um carro virtual ou disparar uma arma virtual a laser contra um extra-terrestre virtual.
De facto, podemos até caminhar dentro da realidade virtual. É até possível ligar o computador que gera a realidade virtual às nossas pernas e pés por meio de sensores especiais. Se andamos para a frente, o computador detecta o movimento e modifica o que vemos e ouve. Parece que caminhamos para dentro do ambiente virtual.
Suponha que damos ao Jaime um desses equipamentos de realidade virtual - capacete, luvas e sensores para pernas - e o ligamos a um poderoso computador passando uma versão do seu favorito Monstros e calabouços. O Jaime pode iniciar então o seu jogo, só que desta vez este lhe pareceria muito mais real, iria ter a sensação de que o calabouço virtual estava mesmo ali. Desta vez, sentiria que podia alcançar e tocar as paredes do calabouço com as mãos.

Olhos artificiais
Agora vamos examinar um tipo de tecnologia diferente: olhos artificiais. Ao contrário da realidade virtual, este avanço ainda não ocorreu. Mas não vejo razão para que não possam ser inventados.
Erga uma de suas mãos diante do seu rosto e olhe bem para ela. 0 que acontece quando vê a sua mão? Em primeiro lugar, a luz reflecte-se da sua mão nos seus olhos. Uma lente na parte da frente do olho foca essa luz numa superfície na parte de trás do olho, produzindo uma imagem. Essa superfície na parte de trás do seu olho é formada por muitos milhares de células sensíveis à luz. Quando a
luz atinge uma dessas células, emite um leve impulso eléctrico. 0 padrão de impulsos eléctricos causados pela imagem da sua mão atingindo as células passa então por um feixe de nervos (chamado nervo óptico), que vai do seu olho até ao seu cérebro. E é assim que vê a sua mão. Mas será que só um olho humano normal teria capacidade para enviar os impulsos eléctricos pelo seu nervo óptico para o cérebro? Não vejo porquê. Por é que os seus olhos humanos normais não poderiam ser substituídos por pequenas câmaras de vídeo? Essas câmaras fariam o trabalho que o olho humano faz, enviando pelos nervos ópticos
os mesmos padrões de estímulos eléctricos que os seus olhos normais hoje enviam. 0 que para si daria no mesmo. 0 mundo visto pelos olhos artificiais parecer-lhe-ia o mesmo que com
os olhos normais.

Com um olho na ponta da varinha
De facto, seria uma grande vantagem ter olhos de pequenas câmaras de vídeo. Imagine se tivesse olhos artificiais. Eles poderiam ser ligados aos seus nervos ópticos por cordas super-compridas. Poderia tirar um olho da cara e andar com ele na mão.
Poderia fixá-lo atrás da cabeça: muito útil se quisesse saber se há alguém a segui-lo.
Também poderia amarrar um olho na ponta de uma varinha - inestimável para achar a moeda que deixou cair debaixo do sofá.

Um corpo de robô
É possível que um dia os cientistas desenvolvam não só olhos artificiais, como também ouvidos artificiais: pequenos microfones electrónicos capazes de ocupar o lugar dos ouvidos humanos normais. Esses microfones estimulariam os nervos que ligam os nossos ouvidos aos nossos cérebros exactamente da mesma maneira que os nossos ouvidos normais. Os sinos de uma igreja soariam exactamente da mesma maneira para alguém com ouvidos artificiais.
Na verdade, quando se pensa no assunto, parece não haver, em princípio, razão alguma para que o nosso corpo inteiro não possa ser substituído por um corpo artificial. Poderíamos ter um corpo de robô. Vejamos como.
O nosso cérebro está ligado ao resto do nosso corpo por um sistema nervoso. Alguns desses caminhos de nervos emitem impulsos eléctricos. Outros captam-nos. Os nervos que emitem impulsos eléctricos enviam muitos deles aos músculos que possibilitam que o seu corpo se movimente. Ao virar esta página, por exemplo, as suas mãos movem-se porque o seu cérebro envia um padrão de impulsos eléctricos a determinados músculos do seu braço. Esses impulsos fazem os músculos moverem-se. E o movimento desses músculos move a sua mão.
Os caminhos nervosos que captam impulsos eléctricos recebem muitos deles dos nossos cinco sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. É isso que faz com que tenhamos experiência do mundo à nossa volta.
Agora imagine isto: o seu cérebro é removido do seu antigo corpo humano e transferido para um corpo novo de robô. O seu antigo corpo humano é então destruído. Mas tudo bem, porque o seu novo corpo de robô mantém o seu cérebro vivo. Também estimula os nervos que vão até ao seu cérebro exactamente do mesmo modo como eram estimulados pelo seu antigo corpo. De modo que o seu novo corpo de robô lhe transmite experiências rigorosamente como o seu antigo corpo humano. Com o seu novo corpo de robô, pode deliciar-se com um gelado de chocolate, ouvir uma música, sentir o cheiro das flores. Tudo parece exactamente como dantes.
E os padrões dos impulsos eléctricos emitidos pelo seu cérebro ainda conseguem fazer com que o seu novo corpo de robô se movimente exactamente da mesma maneira que o seu corpo normal (só que agora não move músculos: move pequenos motores eléctricos). De modo que pode andar e falar exactamente como dantes.

Sobrevivendo à morte do seu corpo humano
É claro que sozinhos ainda não podemos construir corpos de robôs. A tecnologia ainda não progrediu tanto. Mas, sem dúvida, parece possível que um dia se construam esses corpos de robô, talvez daqui a poucas centenas de anos.
Caso se construam corpos de robôs, seremos capazes de sobreviver à morte dos nossos corpos de carne e osso. Suponha que o seu corpo humano é atropelado por um camião. Seria possível remover o seu cérebro e transferi-lo para um novo corpo de robô. Neste caso, apesar do seu corpo de carne e osso ter morrido, continuaria vivo. Seria parte homem, parte máquina. Provavelmente os corpos de robô também poderiam ser construídos para ser mais fortes, mais duráveis e de várias maneiras melhores do que nossos corpos comuns de carne e osso. Poderia ter uma força sobre-humana, uma audição incrivelmente mais sensível e até visão de raios X. Quem sabe se um dia, talvez daqui a mil anos, todos seremos super-seres robotizados. Talvez a única parte humana que restará no nosso corpo seja o nosso cérebro.

Um corpo virtual
Tão plausível quanto ter um corpo de robô é a possibilidade de termos um corpo virtual.
Imagine a seguinte situação: uma pequena tomada eléctrica é ligada à sua nuca. Esta tomada é ligada ao lugar em que os nervos que entram e saem do seu cérebro se ligam ao resto do seu corpo. A tomada permite-lhe ligar o seu cérebro a um super-computador incrivelmente potente. Só seria preciso ligar um fio do computador à sua tomada e accionar um pequeno interruptor fixado na sua nuca.
Quando accionasse o interruptor, todos os impulsos eléctricos emitidos pelo seu cérebro para movimentar o seu corpo seriam desviados. Seriam enviados para o super-computador. E, em vez de receber sinais eléctricos dos seus olhos, dos seus ouvidos, do seu nariz, da sua língua e da sua pele, o seu cérebro recebê-lo-ia do super-computador.
Agora, imagine que esse computador está a passar um programa de realidade virtual. Funcionaria assim: uma pessoa deita-se numa cama ao lado do computador e liga-se a si mesmo a ele. Em seguida, acciona o interruptor na sua nuca. Claro que no momento em que acciona o interruptor, o seu corpo fica sem energia: desligou o seu corpo do seu cérebro.
Mas não é assim que o sentiria. Teria a nítida sensação de que ainda consegue mexer o corpo. Imagine que tentava agitar os seus dedos à frente do seu rosto. 0 computador registaria os impulsos eléctricos para agitar os seus dedos vindos do seu cérebro e transmitiria de volta ao cérebro exactamente o mesmo tipo de sinais que receberia dos seus olhos e mãos se estivesse a sacudir os dedos diante do rosto. Portanto, isso é o que vê. Só que os dedos que veria a agitar-se à sua frente não seriam os seus dedos verdadeiros – as suas mãos verdadeiras continuariam ali, deitadas quietinhas na cama -, mas sim dedos virtuais.
Na verdade, se o computador fosse mesmo potente, poderia gerar todo um ambiente virtual. Poderia, por exemplo, dar-lhe a impressão de que está deitado numa floresta habitada por pássaros canoros fabulosos e cheia de belas flores. Poderia levantar-se e passear por essa floresta. Claro que as árvores que viu, os pássaros que ouviu e as flores que cheirou não seriam reais. Seriam virtuais. E o corpo que lhe pareceu ser o seu seria um corpo virtual, não um corpo verdadeiro. 0 seu corpo verdadeiro continuaria imóvel na cama.
Transferir-se para um corpo virtual pode ser uma maneira agradável de passar a noite. Após um dia de trabalho exaustivo, relaxaríamos transferindo-nos para um corpo virtual, explorando um ambiente virtual. Poderíamos inventar qualquer mundo novo estranho para nos ocuparmos por algumas horas. Poderíamos, por exemplo, escolher a aparência do seu corpo virtual. Poderíamos, quem sabe, escolher a aparência de Elvis Presley e visitar um planeta inteiramente feito de marshmallow.
Bem, agora que viu como seria ter um corpo virtual num ambiente virtual, façamos um intervalo. Vou contar o que aconteceu ao Jaime.
A história continua. Não perca o próximo episódio na parte 2.  

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 41-52). Adaptação da tradução brasileira. O título principal não se encontra no original.

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, parte 2: o Jaime não passa de um cérebro a boiar e os filósofos interessam-se por ele

Uma história de terror
Um dia, dois marcianos – o Blib e o Blob - chegaram à Terra. A sua missão era estudar os seres humanos. Decidiram escolher o Jaime como objecto de estudo e começaram, às escondidas, a observar o seu comportamento.
O Blib e o Blob ficaram fascinados com a verdadeira adoração do Jaime pelo seu jogo Monstros e calabouços. Observaram que ele dedicava cada segundo de seu tempo livre a esse jogo. 
0 pai do Jaime preparou-lhe um chá. "Vem beber o chá, Jaime!", gritou para chamá-lo. Os marcianos perceberam que ele teve de chamar o filho pelo menos seis vezes. Também observaram que o Jaime engoliu a comida à pressa e subiu as escadas a correr até ao seu quarto para continuar o jogo.
O Blib e o Blob também não deixaram de notar que, a cada versão que saía de Monstros e calabouços, o Jaime ficava desesperado para obtê-Ia. Nos dois meses antes do Natal, a única frase do Jaime era:
- Pai, mãe, por favor, vão dar-me o último Monstros e calabouços de presente de Natal, não é?
Depois de observar tudo aquilo, o Blib e o Blob concluíram que o Jaime seria a mais feliz das criaturas se ficasse para sempre a jogar a versão mais realista possível de Monstros e calabouços. E decidiram tornar o Jaime feliz.
Na manhã de Natal, o Jaime, ao começar a acordar, a primeira coisa que notou foi que a sua cama parecia dura e fria como pedra. E tinha também um cheiro um pouco estranho. Uma mistura de humidade e mofo. Como os cogumelos. E ouvia também um ruído de gotas a pingar.
O Jaime abriu os olhos devagar. Viu-se num longo corredor de pedras, iluminado por pequenas tochas penduradas em suportes enferrujados de metal. Havia passagens fechadas à esquerda e à direita. Virou-se para trás. Viu que o corredor se estendia, igual, até desaparecer nas trevas.
Este corredor pareceu-lhe vagamente familiar. Então lembrou-se: era o mesmo corredor do Monstros e calabouços. Só que agora parecia real. O Jaime podia alcançar e tocar com os seus dedos suas as paredes gélidas e viscosas. Então, ouviu um uivo e sentiu gelar-se-lhe o sangue. Era um uivo que o Jaime ouvira milhares de vezes antes. Só que agora o uivo não vinha das pequenas colunas de som ao lado do seu computador. Desta vez, o uivo vinha das trevas do fundo do corredor. Desta vez, era um uivo real, como eram reais aqueles passos arrastados. Jaime sabia quem estava para chegar. Com o coração a sair-lhe pela boca, as suas pernas cambalearam. Começou a correr.
Os pais do Jaime ficaram intrigados. Haviam comprado ao Jaime um novo computador programado com a última versão de Monstros e calabouços. Por que não descera o rapaz correndo escadas abaixo para abrir o seu presente como de costume? Subiram as escadas e abriram a porta do seu quarto devagar. Espreitaram.
- Jaime, estás acordado?
0 silêncio reinava no quarto. As cortinas estavam fechadas. E a cama do Jaime, vazia. 0 quarto estava iluminado por uma luz sinistra. Os pais do Jaime viraram-se para constatar que a luz saía do monitor de um computador no cão. Mas aquele não era o computador do Jaime. Quando os seus olhos se acostumaram à escuridão, compreenderam que o ecrã bruxuleante estava ligado a uma grande caixa cinzenta.
Na verdade, essa caixa cinzenta era um super-computador marciano. O Blib e o Blob tiveram muito trabalho para construir aquele computador capaz de passar a versão mais realista de Monstros e calabouços que se podia imaginar. Haviam montado aquele computador especialmente para o Jaime.
- MEU DEUS!!! - gritaram os pais do Jaime, horrorizados. Quando a imagem no ecrã se tornou mais clara por um instante, enchendo o quarto de luz, viram que, nas trevas atrás do computador, havia um cérebro humano a flutuar numa cuba de vidro.
Era o cérebro vivo do Jaime. E completamente consciente. Durante a noite, o Blib e o Blob tinham removido o cérebro do rapaz. Destruíram o resto do seu corpo e colocaram o seu cérebro dentro de uma cuba com um líquido capaz de manter o orgão vivo. Então ligaram o seu cérebro ao computador. O Jaime agora é um corpo virtual num ambiente virtual: o ambiente de Monstros e calabouços. Está agora a jogar a versão mais realista imaginável de Monstros e calabouços. Só que nunca mais pode parar, nem deixar de senti-la como real.
Os pais do Jaime olham para a imagem no ecrã do monitor do computador. É o Jaime. Vêem o filho a ser perseguido por um monstro enorme no corredor estreito.
- Pobre Jaime! - grita a mãe.
Mas claro que gritar não adianta. Tudo o que o Jaime consegue ouvir são os uivos do monstro a correr mesmo atrás dos seus calcanhares. O Jaime jamais ouvirá novamente a voz da sua mãe.
Chocados, os pais do Jaime assistem às peripécias do filho para enganar o monstro. Às vezes, ele tenta desesperadamente esconder-se na escuridão. Fica agachado, quietinho, sem sequer ousar respirar. 0 monstro pára, fareja o ar húmido. Então desaparece. Mas por pouco tempo. 
Os pais do Jaime não aguentam assistir mais e viram-se de costas para o monitor. Só então, vêem um cartãozinho colado ao computador com uma fita vermelha. Tremendo, aproximam-se. Afinal, sob a luz dos clarões tremeluzentes do monitor conseguem ler os gatafunhos compridos e finos da mensagem no cartão, que diz: 

FELIZ NATAL, JAIME
BLIB & BLOB

Será que não somos cérebros em cubas?
(...) Os filósofos acham muito interessantes as histórias sobre cérebros em cubas. São particularmente interessantes para os filósofos interessados na pergunta: o que é possível, se é que é possível, conhecer o mundo à nossa volta? Esta é a questão que vamos examinar agora.
Tomemos um tipo diferente de história sobre cérebros em cubas: uma história sobre si. Suponha que ontem à noite o Blib e o Blob passaram pela sua casa enquanto estava a dormir. Doparam-no e levaram-no para Marte no seu disco voador. Nesse planeta removeram o seu cérebro do seu corpo, colocaram-no numa cuba de vidro com um líquido especial para preservar a vida e ligaram-no a um super-computador. E então destruíram o seu corpo. Agora é o super-computador que controla todas as suas experiências. 
Estale os dedos. Ao estalar seus dedos, o computador controla os impulsos que saem do seu cérebro: os mesmos impulsos que chegariam aos seus dedos caso ainda os tivesse. Então, o computador estimula as extremidades nervosas que estavam antes ligadas aos seus olhos, pontas dos dedos, ouvidos, etc., de modo que fica com a impressão de ver, sentir e ouvir seus dedos a estalar. Mas, na verdade, nem tem já dedos verdadeiros. Só tem dedos virtuais gerados por computador.
0 computador que gera essas experiências é tão incrivelmente avançado que copia o seu ambiente real até aos ínfimos detalhes. De modo que tudo o que experimenta parece real. A sua cama virtual parece-se perfeitamente com a sua cama real. O seu quarto virtual é igualzinho ao seu quarto verdadeiro. Os seus pais virtuais agem exactamente como os seus pais verdadeiros. A sua rua virtual parece-se exactamente com a sua rua verdadeira. 
A grande questão filosófica que se pode extrair desta história é: como sabe que não é um cérebro numa cuba? Como pode saber que o mundo que o cerca não é virtual? Talvez os marcianos realmente lhe tenham feito uma visita a noite passada. Talvez tenham realmente extraído o seu cérebro e o tenham ligado a um super-computador. Se fizeram isso, será que podia sabê-lo? Parece que não, porque tudo para si continuaria a parecer exactamente igual.

Talvez tenha sido SEMPRE um cérebro numa cuba
Eis uma ideia ainda mais inquietante. Talvez tenha sido sempre um cérebro numa cuba, desde o dia em que nasceu.
Talvez o planeta Terra nem exista. Talvez as coisas que lhe parecem tão familiares – a sua casa, os seus vizinhos, os seus amigos, a sua família, não sejam mais "reais" do que os lugares e os personagens do jogo Monstros e calabouços do Jaime. Talvez não passem de uma criação de programadores de computador marcianos. Talvez esses marcianos estejam a estudar o seu cérebro para ver como ele reage ao mundo que eles inventaram.
Por outras palavras, talvez a única realidade que jamais conheceu seja uma realidade virtual. Como pode ter certeza que não? Não, parece que não pode.

Como sabe que não é um cérebro numa cuba?
Mas convenhamos, não acredita realmente que é um cérebro numa cuba. Acho que, como eu, acredita que não é um cérebro numa cuba. Mas a pergunta é: sabe que não é um cérebro numa cuba? Sabe que o mundo que parece ver em seu redor é real?
A resposta, ao que parece, é: não, não sabe. Pode acreditar que o mundo que vê é real. E talvez seja verdade que o mundo que vê seja mesmo real. Mas, ainda que seja real, parece que não sabe se é real. Para saber se ele é real ou não, decerto precisaria de uma razão para acreditar que é real. E não há razão alguma para acreditar que o mundo que vê é real e não virtual, pois tudo lhe pareceria exactamente igual mesmo se ele fosse virtual. De modo que, assombrosamente, ao que parece, não sabe que não é um cérebro numa cuba.
Na verdade, parece que não sabe coisa alguma do mundo que nos cerca. Porque tudo o que vê - a mão que vê diante dos olhos, esta folha que aparentemente segura nas suas mãos, a árvore que parece ver ali fora, e até o planeta Terra - poderia ser virtual.
A história continua. Não perca o próximo, e último, episódio na parte 3.

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 52-60). Adaptação da tradução brasileira. O título principal não se encontra no original.

AS AVENTURAS ASSOMBROSAS DE UM FANÁTICO DE JOGOS DE COMPUTADOR, PARTE 3: o Jaime põe os filósofos às aranhas


O que é o cepticismo?
0 argumento que acabamos de examinar - o de que não conhecemos nada sobre o mundo que nos cerca - chama-se argumento céptico. Os cépticos sustentam que, na verdade, não sabemos o que pensamos que sabemos. E a afirmação de que não sabemos nada sobre o mundo que nos cerca chama-se cepticismo sobre o mundo exterior.

Cepticismo "versus" senso comum
A visão do senso comum, é claro, sustenta que de factconhecemos o mundo exterior. Na verdade, se resolvesse dizer, "não sei se as árvores existem", especialmente se estivesse a olhar para uma árvore em plena luz do dia, os outros achariam que tinha enlouquecido.
Mas os cépticos achariam que estava certo. Não sabemos se árvores existem. 0 senso comum está enganado.

Outros exemplos de enganos do senso comum
Os argumentos dos cépticos podem deixar algumas pessoas muito irritadas. Sabermos que as árvores existem é uma das nossas crenças mais básicas - como costumo dizer, sentimos que é isso é apenas senso comum. Existem muitas crenças que abandonaríamos com muita satisfação, caso alguém conseguisse demonstrar que estamos errados. Mas, quando se trata das crenças mais arraigadas do nosso senso comum - como a crença de que sabemos que as árvores existem -, não ficamos nada satisfeitos por abandoná-las.
Na verdade, ter as nossas crenças mais elementares ameaçadas pode ser uma experiência bem desconfortável, especialmente quando não vemos como defendê-las. Nessas ocasiões muitos ficam enraivecidos. Dizem que é um disparate o que o filósofo está a dizer. "Isso é uma completa estupidez", gritam. "Claro que eu sei que as árvores existem." E retiram-se, ofendidos.
Mas o filósofo pode apontar que em muitos outros casos se comprovou que o senso comum estava errado. Por exemplo, noutros tempos, o senso comum afirmava que a Terra era plana. As pessoas simplesmente achavam que era óbvio que a Terra fosse plana. Afinal, parece plana, não parece? Os marinheiros até tinham medo de chegar ao fim da Terra e cair. Também nessa época algumas pessoas ficavam muito irritadas quando a  sua crença comum era desafiada. "Não seja ridículo", gritavam. "É claro que a Terra é plana." E saíam a bater os pés. Hoje, porém, sabemos que a Terra não é plana. 0 senso comum estava enganado.
(...)
O que os cépticos NÃO afirmam
Vale a pena deixar claro o que os cépticos não afirmam, para não ficarmos confusos. Em primeiro lugar, os cépticos não afirmam saber que nós ou eles somos cérebros numa cuba. Só afirmam que ninguém pode saber de maneira alguma se alguém é um cérebro numa cuba.
Em segundo lugar, eles não afirmam apenas que não podemos ter a certeza absoluta de que o mundo que vemos é real ou virtual. Afirmam muito mais do que isso. Afirmam que não temos razão alguma para acreditar que o mundo que vemos é real e não virtual.
Em terceiro lugar, eles não vão tão longe a ponto de afirmar que ninguém pode saber nada. Afinal, eles próprios reivindicam saber uma coisa: que ninguém pode conhecer o mundo exterior.

Um enigma antigo
Estamos então diante de um enigma difiícil. Por um lado, a visão do senso comum é que sabemos que as árvores existem. Nós não queremos de facto abrir mão dessa visão do senso comum (na verdade, nem estou certo de que poderíamos abrir mão dela mesmo que quiséssemos). Por outro, o céptico tem um argumento que parece mostrar que a nossa visão do senso comum está errada: nós não sabemos que as árvores existem. Qual das visões está certa?
Apesar da roupagem moderna que eu lhe dei, este enigma é na verdade bem antigo. É de facto um dos enigmas filosóficos melhor conhecidos. Ainda hoje, nas universidades do mundo inteiro, os filósofos se debruçam sobre ele. E ainda não conseguiram decidir se os cépticos têm razão. Eu devo admitir: não sei se os cépticos têm ou não razão. Ao longo dos séculos, muitos filósofos tentaram lidar com o cepticismo. Procuraram demonstrar que o senso comum está certo: nós conhecemos efectivamente afinal o mundo que nos cerca. Algumas das suas tentativas para derrotar os cépticos são muito perspicazes. Mas será que alguma delas funciona mesmo? Examinemos agora uma dessas tentativas.

A navalha de Ockham
0 céptico apresenta-nos duas teorias on hipóteses. A primeira hipótese - a hipótese do senso comum – é a de que não somos um cérebro numa cuba: o mundo à nossa volta é real. A segunda é a de que somos um cérebro numa cuba: o mundo que vemos é meramente virtual. 0 céptico diz não haver razão para acreditar na primeira ou na segunda hipótese. Ambas são igualmente bem sustentadas pelo testemunho dos nossos sentidos. De um ou de outro modo, tudo pareceria igual para nos. Então, não se pode saber se a primeira hipótese é verdadeira e a segunda falsa.
Mas temos de convir com os cépticos que a maneira como as coisas se nos apresentam está de acordo com as duas hipóteses. Porém, como explicarei a seguir, daqui não se conclui que a maneira como as coisas se apresentam sustenta igualmente as duas hipóteses. Existe um famoso princípio filosófico que diz que, diante de duas hip6teses, ambas igualmente sustentadas por provas, é sempre razoável acreditar na hipótese mais simples. Esse princípio chama-se navalha de Ockbam. Parece um princípio bastante plausível.

O exemplo das duas caixas
Aqui está um exemplo de como a navalha de Ockham funciona. Imagine que lhe apresentam uma caixa com um botão de lado e uma lâmpada em cima. Constata que, de todas as vezes que aperta o botão, a lâmpada se acende. Se não aperta, a lâmpada fica apagada.
Agora examinemos duas hipóteses opostas que explicam como isso acontece. A primeira hipótese é que o botão e a lâmpada estão ligados por um circuito a uma bateria dentro da caixa. Quando aperta o botão, o circuito completa-se, e a lâmpada acende-se. A segunda hipótese é mais complicada. Diz que o botão é preso a um circuito eléctrico que liga a bateria a uma segunda lâmpada dentro da caixa. Quando se aperta o botão, essa lâmpada interna acende-se. Nessa altura, um sensor de luz dentro da caixa detecta que a lâmpada se acende acciona um segundo circuito eléctrico que liga uma segunda bateria à lâmpada que vê fora da caixa. Isso faz com que a lâmpada de fora se acenda.
Qual das hipóteses acha mais razoável? Sem dúvida, ambas estão de acordo com o que viu: nos dois casos, a lâmpada acende-se quando e só quando carrega no botão. Mas parece errado dizer que as duas hipóteses são igualmente razoáveis. Sem dúvida, é mais razoável acreditar na primeira do que na segunda hipótese, porque a segunda hipótese é menos simples: ela sustenta que há dois circuitos eléctricos na caixa, e não um só.
Podemos usar a navalha de Ockham para vencer o céptico? Talvez. Poderíamos sempre dizer que das nossas duas hipóteses a de que o mundo que estamos a ver é real e a de que é meramente virtual - a primeira é mais simples; porque, enquanto a primeira hipótese diz que só há um mundo, a segunda de facto diz que há dois: há um mundo real, com marcianos, um super-computador, uma cuba e seu o seu cérebro, dentro do qual é criado um segundo mundo virtual que contém árvores, casas, pessoas virtuais, etc. Portanto, dado que a primeira hipótese é mais simples, significa que é a mais razoável.
Por isso, o céptico está errado: é mais razoável acreditar que o mundo que vemos é um mundo real e não virtual, apesar do fato de o modo como as coisas aparecem estar de acordo com as duas hip6teses.

Uma dúvida
0 que acha desta resposta ao argumento céptico? Eu tenho algumas dúvidas quanto a ela. Uma dessas dúvidas é: será que a hip6tese de que o mundo que n6s vemos 6 um mundo real 6 de fato a hip6tese mais simples? Depende do que se entende por mais simples. Na verdade se, de alguns pontos de vista, a primeira hipótese é mais simples, existem aspectos em que é menos simples. Por exemplo: alguém poderia dizer que a segunda hipótese é mais simples, pois ela precisa de muito menos objectos físicos: só dos marcianos, do seu cérebro numa cuba e de um super-computador. Não haveria necessidade alguma de supor que um planeta Terra com todas as suas árvores, casas, cães, gatos, montanhas, carros, etc. realmente existe. 
E alguém ainda poderia dizer que a segunda hipótese é mais simples porque precisa de um número bem menor de mentes. Se toda a sua família, os seus amigos, os seus vizinhos, etc. são meramente virtuais, também as suas mentes seriam virtuais. As únicas mentes reais de que a segunda hipótese necessita são a sua e as dos programadores de computador. Assim, seria de facto mais razoável acreditar que é um cérebro em uma cuba.

Sou uma ilha?
Se o céptico está certo (e não estou a dizer que está), cada um de nós é de uma maneira significativa isolado do mundo que nos cerca. Não sabe nada do mundo exterior, nem tem nenhum motivo para acreditar que habita num mundo com árvores, casas, cães, gatos, montanhas e carros. E também não tem motivo algum para supor que está cercado de outras pessoas. Pois tudo o que sabe, o seu mundo inteiro - incluindo todas as pessoas que há nele (incluindo-me a mim) – é meramente virtual.
É um pensamento bem assustador. Obriga-o a pensar em si de uma maneira bem diferente. Alguém disse um dia: "Nenhum homem é uma ilha." Mas, se o céptico estiver certo, há um sentido em que isso seria falso. Cada um de nós seria um náufrago na sua própria ilha deserta, incapaz de saber alguma coisa do mundo para além do horizonte das nossas próprias experiênclas sensoriais. Estaríamos fechados para o mundo exterior e isolados uns dos outros. Seríamos prisioneiros das nossas próprias mentes. 0 céptico pinta um quadro multo solitário.
Num outro sentido, porém, o cepticismo pouco importa. Não altera em nada nossa vida quotidiana. Mesmo os cépticos continuam a viver sua rotina diária. Alimentam os seus gatos. Lavam as suas roupas. Vão trabalhar. Encontram um amigo para tomar café. Nem mesmo o céptico consegue realmente evitar acreditar que o mundo que vê é real, apesar de não encontrar razão para acreditar que é real. Parece que nascemos naturalmente crentes: não podemos fugir a isso.
Mas tem o céptico razão? Eu não tenho a certeza. 0 que acha?

Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos (São Paulo, 2003, págs. 60-69). Adaptação da tradução brasileira. O título principais não está no original.