domingo, março 06, 2011

No reino dos animais

Hoje, prime time na TV,  e a estranha sensação de que o mundo de facto enlouqueceu, melhor, animalizou-se. Sequência de notícias: "Aquele que ousou pôr as patas na política! O cão de Sócrates! A canção que ganhou o festival, 'A Luta é alegria' Então o que sentiu por ganhar este festival? - resposta do homem da luta: pois é!! a malta vai estar dia 12, pá!! contra a reacção!! ehehe, foi o povo que nos deu os votos, pá. (intervalo para publicidade - pingo doce, galinha do campo, criada ao ar livre e com cereais...)
Aqui estão 15 m de Notícias às 20h no Jornal da SIC. É TUDO VERDADE.Nada foi retirado ou inventado, assim foi a sequência.
A alarvisse deve ser consequência da época carnavalesca, ou não? As palavras dos apresentadores eram seguidas de sons de animais. Có có ró có có e ão ão (o cão), para entrar logo depois um tipo de megafone e com pêlos no peito...pá isto e aquilo, o tipo vai representar-nos, soube depois,  na Eurovisão...que se passa??? Serão as audiências? O telejornal transformou-se em Circo? Venha de lá a mulher barbada...

Helena Serrão

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Hume: A relação de Causa e Efeito.

Todos os raciocínios que se referem aos factos parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Apenas por meio desta relação ultrapassamos os dados da nossa memória e dos nossos sentidos. Se tivésseis que perguntar a alguém por que acredita na realidade de um facto que não constata efectivamente, por exemplo, que o seu amigo está no campo ou em França, ele vos daria uma razão, e esta razão seria um outro facto: uma carta que recebeu ou o conhecimento das suas resoluções e promessas anteriores. Um homem, ao encontrar um relógio ou qualquer outra máquina numa ilha deserta, concluiria que outrora havia homens na ilha. Todos os nossos raciocínios sobre os factos são da mesma natureza. E constantemente supõe-se que há uma conexão entre o facto presente e aquele que é inferido dele. Se não houvesse nada que os ligasse, a inferência seria inteiramente precária. A audição de uma voz articulada e de uma conversa racional na obscuridade  dá-nos segurança sobre a presença de alguma pessoa. Porquê? Porque estes sons são os efeitos da constituição e da estrutura do homem e estão estreitamente ligados a ela. Se analisamos todos os outros raciocínios desta natureza, verificaremos que se fundam na relação de causa e  efeito e que esta relação se acha próxima ou distante, directa ou colateral. O calor e a luz são os efeitos colaterais do fogo, e um dos efeitos pode ser inferido legitimamente do outro.

Portanto, se quisermos satisfazer-nos a respeito da natureza desta evidência que nos dá segurança acerca dos factos, deveremos investigar como chegamos ao conhecimento da causa e do efeito.

Ousarei afirmar, como proposição geral, que não admite excepção, que o conhecimento desta relação não se obtém, em nenhum caso, por raciocínios a priori, porém nasce inteiramente da experiência quando vemos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjugados entre si. Apresente-se um objecto a um homem dotado, por natureza, de razão e habilidades tão fortes quanto possível; se o objecto lhe é completamente novo, não será capaz, pelo  exame mais minucioso de suas qualidades sensíveis, de descobrir nenhuma de suas causas ou dos seus efeitos. Mesmo supondo que as faculdades racionais de Adão fossem inteiramente perfeitas desde o primeiro momento, ele não poderia ter inferido da fluidez e da transparência da água que ela o afogaria, ou da luz e do calor do fogo, que este o consumiria. Nenhum objecto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, tanto as causas que o produziram como os efeitos que surgirão dele; nem pode a nossa razão, sem o auxílio da experiência, jamais tirar uma inferência acerca da existência real de um facto.

(...) Apresentai dois pedaços de mármore polido a um homem sem nenhum conhecimento de filosofia natural; ele jamais descobrirá que eles  aderirão de tal maneira que se requer grande força para separá-los em linha recta, embora ofereçam menor resistência à pressão lateral. Considera-se também indiscutível que o conhecimento dos eventos que têm pouca analogia com o curso corrente da natureza se obtém por meio da experiência; assim, ninguém imagina que se teria descoberto a explosão da pólvora ou a atração da pedra-ímã por argumentos a priori. Da mesma maneira, quando se supõe que um efeito depende de um mecanismo complicado ou de elementos de estrutura desconhecida, não temos dificuldade em atribuir todo o nosso conhecimento à experiência. Quem será capaz de afirmar que pode dar a razão última por que o leite e o pão são alimentos apropriados ao homem e não a um leão ou a um tigre?

David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Sessão IV

domingo, janeiro 30, 2011

sábado, janeiro 29, 2011

concordar

Como a razão nada exige que seja contrário à natureza, exige, por conseguinte, que cada qual se ame a si mesmo, busque a sua própria utilidade – o que realmente lhe seja útil -, apeteça tudo aquilo que conduz realmente o homem a uma perfeição maior e, em termos absolutos, que cada qual se esforce quando estiver na sua mão conservar o seu ser (...) E assim, nada mais do que o homem é útil ao homem; quero dizer que nada podem os homens desejar que seja melhor para a conservação do seu ser do que concordarem todos em todas as coisas, de maneira a que as almas de todos formem como que uma só alma, e os seus corpos como que um só corpo, esforçando-se todos à uma, tanto quanto possam, por conservar o seu ser, e buscando todos ao mesmo tempo a utilidade sob a condução da razão, quer dizer, os homens que buscam a sua utilidade sob a condução da razão, não apetecem para si nada que não desejem para os demais homens e, por isso são justos, dignos de confiança e honestos.”


Espinosa, Ética (Ver página e tradução)

Conservar o seu ser, tal como o mecanismo biológico de qualquer ser vivo, o mesmo propósito para humanos e outros seres. Compreendê-lo, no ser humano é compreender a utilidade particular de cada um para a conservação de todos e de si próprio. O todos e o si próprio encontram-se, têm a mesma natureza. Se estivermos de acordo nisso, é possível uma Ética comum.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Para uma definição de beleza

sábado, janeiro 22, 2011

Este é um artigo retirado do Magazine Littéraire dedicado a Wittgenstein, em Março de 97. A autoria é de Paul Audi e as citações que ocorrem de trechos de Wittgenstein são retiradas de edições francesas Gallimard. T remete para o Tractatus .
Esta interpretação é certamente discutível  mas  não há espaço neste post para a confirmar ou refutar, e nem é esse o seu objectivo, o principal interesse  que retemos é a frescura da ideia: A ética é do domínio indizível e traduz-se em acções e paixões que nos fazem felizes.


" O Indizível próprio da esfera da Ética não se dá todavia a ver como reflexo ou indicação, como no caso da 'forma lógica'  na linguagem. Mostra-se na forma de "uma mudança de vida", essa mudança do 'sofrer' no  'regozijar' que o Tractatus  assegura que é a unica forma capaz de afectar a teneur própria do mundo enquanto totalidade limitada, ou dito de outro modo, as suas 'fronteiras'. O que Wittgenstein enuncia nestes termos: 'O mundo do homem feliz é um outro mundo que o do homem infeliz.' (T, 6.43)
É essa mudança efectiva das fronteiras do mundo - o crescimento do mundo no seu conjunto, devido ao bem-estar, a diminuição do mundo que acarreta o mal-estar - é isso que temos de cumprir, mais nada.Tudo o resto escapa-nos."

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Devem as árvores ter estatuto jurídico?

Em 1970, o Serviço de Águas e Florestas (O US Forest Service) resgata às empresas Walt Disney uma licença que as autorizava a “desenvolver” um vale selvagem, “Mineral King” , situado na Serra Nevada. Um orçamento de trinta e cinco milhões de dólares estava previsto para a construção de hotéis, restaurantes e os habituais equipamentos de jogos, calcados  da Disneyland. A poderosa “ Sierra Club”, sem dúvida uma das mais eficazes associações ecologistas do mundo, fez queixa alegando que o projecto ameaçava destruir a estética e o equilíbrio natural do Mineral King. Queixa rejeitada pelo tribunal, não por causa do procedimento do Serviço de Florestas ao resgatar a licença, mas porque o "Sierra Club" não tinha, a nenhum título, qualquer forma de tornar legítima a sua queixa – os seus interesses não eram directamente lesados pelo projecto em questão ( não esqueçamos que o direito americano repousa sobre o princípio de que todo sistema jurídico existe para proteger interesses, sejam eles quais forem, e não valores abstractos).

O caso devia correr como apelo, e o professor Stone (1), que até aí tinha defendido pacatamente as teses da ecologia radical no seu curso na Universidade, tomou a seu cargo redigir, com toda a celeridade, um artigo, propondo, segundo os seus próprios termos, “ da forma mais séria, a atribuição de direitos legais às florestas, oceanos, rios e a todos os objectos a que chamamos “naturais” no ambiente, e ao ambiente como um todo”. Tinha que se agir rápido a fim de que os juízes pudessem dispor pelo menos de um precedente teórico, na falta de uma jurisprudência real.

“ Se pudesse conseguir que o Tribunal considerasse o Parque, enquanto tal, como personagem jurídica – no mesmo sentido em que podemos dizer que as empresas o são – a noção de uma natureza com direitos poderia fazer uma considerável diferença operativa...” Conclusão: Dos nove juízes, quatro votaram contra o argumento de Stone, dois abstiveram-se, mas quatro votaram a favor, de modo que podemos dizer que as árvores perderam o seu processo por uma voz…

A argumentação de Stone a favor dos direitos dos objectos não deixa de ter interesse. Num primeiro momento, consiste em recordar o raciocínio, usual na literatura ecologista, segundo o qual chegou o tempo dos direitos da natureza, depois dos direitos das crianças, das mulheres, dos negros, dos índios, dos prisioneiros, dos loucos ou dos embriões (no quadro da pesquisa médica e não no quadro da legislação sobre o aborto)". Trata-se de sugerir que, o que se julgava impensável numa determinada época, muitas vezes próxima da nossa, tornou-se hoje uma evidência.

(1) Sobre o Artigo de Christopher D. Stone: “Should trees have standing? Towards legal rights for natural objects.

(Devem as árvores ter estatuto jurídico? Para os direitos legais dos objectos naturais.)

Ver aqui o artigo:



Luc Ferry, Le nouvel ordre écologique, Grasset, Paris, 1992

Trdução Helena Serrão



sexta-feira, janeiro 07, 2011

Uma suposição errada

Por exemplo, a questão do livre-arbítrio e do destino, na sua forma mais simples, despida de qualquer palavreado, é a seguinte: Fiz algo de que agora me envergonho; poderia eu, com o esforço da minha vontade, ter resistido à tentação, ter procedido de outro modo? A resposta filosófica é de que isto não é uma questão de facto, mas unicamente de um arranjo de factos. Arranjando-os de modo a mostrar o que é particularmente importante para a minha questão nomeadamente, que deveria censurar-me por ter procedido mal , então é perfeitamente verdade se disser que, se tivesse querido proceder de outro modo que aquele como procedi, deveria ter procedido de outro modo.
Por outro lado, arranjando os factos de modo a mostrar outra consideração importante, é igualmente verdade se disser que, quando se cede a uma tentação, ela irá, caso tenha alguma força, produzir os seus efeitos, por mais que eu lute contra isso. Não há objecção a fazer a uma contradição que resulta de uma suposição errada.
A reductio ad absurdum consiste em mostrar que resultados contraditórios seguir-se-iam de uma hipótese, que consequentemente se considera ser errada. Muitas questões estão envolvidas na discussão do livre-arbítrio, e longe de mim dizer que ambas as partes têm igual razão. Pelo contrário, sou da opinião de que um dos lados nega factos importantes, o que não acontece com o outro lado. Mas o que afirmo é que a questão singular acima levantada foi a origem de toda a dúvida; e que se não fosse esta questão nunca teria surgido a
controvérsia; e que esta questão se resolve perfeitamente da maneira que indiquei.

Charles S Peirce, Como tornar as nossas ideias claras, p.15

Tradução de António Fidalgo

Fotografia de Eisenstardt



quinta-feira, dezembro 30, 2010

O académico.(sem desprimor dos valorosos académicos; apenas uma chalaça para animar o fim de ano!)

O primeiro académico que encontrei pareceu-me muito magro. Tinha a cara e as mãos cobertas de porcaria, a barba e os cabelos compridos, e o fato e a camisola da mesma cor da pele. Havia oito anos que estudava um projecto curioso, e que, segundo disse, consistia em juntar os raios de sol para os engarrafar nuns frascos rolhados hermeticamente, de forma que pudessem servir para aquecer o ar quando os estios fossem poucos quentes. Disse-me que, no prazo de oito anos, estaria habilitado a fornecer, aos jardins dos homens de finança, raios de sol por preços razoáveis. Queixou-se do pouco dinheiro que possuía e pediu-me que lhe desse alguma coisinha para ajudar.

Jonathan Swift As viagens de Gulliver, p.176, Portugália, Lx, s.d

BOM ANO DE 2011 PARA TODOS OS QUE POR AQUI PASSAM!!

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Serão os juízos morais universais?


Ara Guler, Istambul, 1966
... o certo e o errado serão o mesmo para todas as pessoas?
A moral é pensada muitas vezes como universal. se uma acção é errada, deve sê-lo para toda a gente; por exemplo, se é errado matar alguém para lhe roubar a carteira, então isso é errado, quer te preocupes com essa pessoa, ou não. Mas, se o facto de uma acção estar errada é uma razão para não ser realizada e as tuas razões para fazeres coisas dependem das tuas motivações, uma vez que as motivações das pessoas podem variar muito, então parece que não pode haver um conceito único de certo e errado, porque se as motivações básicas das pessoas diferem, não haverá um único padrão básico de comportamento que todas as pessoas tenham motivos para seguir.
Há três maneiras de lidar com este problema, nenhuma delas muito satisfatória.
Em primeiro lugar, podíamos dizer que as mesmas acções estão certas ou erradas para toda a gente, mas nem toda a gente tem razões para fazer aquilo que está certo e evitar o errado: só as pessoas com o género certo de motivações morais - particularmente a preocupação com os outros - fazem o que está certo em função de mais nadaa não ser a própria moral. Isto torna a moral universal, mas à custa de lhe extrair a sua força.
Em segundo lugar, podíamos dizer que toda a gente tem uma razão qualquer para fazer o que está certo e evitar o que está errado, mas que essa razão não depende das motivações que as pessoas têm de facto. É antes uma razão para alterarmos as nossas motivações, se não forem certas. esta resposta oferece uma conexão entre a moral e as razões para agir, mas não diz de forma clara que razões universais serão essas que não dependem das motivações que as pessoas têm de facto.(...)
Em terceiro lugar, podíamos dizer que a moral não é universal  e que só é moralmente exigida a uma pessoa aquela acção em relação à qual ela tem um certo tipo de razões para executar, dependendo estas razões do quanto ela , de facto, se preocupa com os outros em geral. Se tem fortes motivações morais, produzirão fortes motivações morais, (...) se as motivações morais forem fracas ou inexistentes, os requisitos morais serão fracos ou inexistentes.

Thomas Nagel,Que quer dizer tudo isto? Gradiva, Lx,1997, p.66,67

sábado, novembro 20, 2010

Exame de Filosofia no Secundário

No Público de ontem, sexta-feira, dia 19 de Novembro a notícia: "O Exame de Filosofia vai ser reposto no Secundário" . o aumento da procura dos cursos de Filosofia  em 2009 e 2010 justifica esta medida. Congratulamo-nos por isso e não podemos deixar de pensar em todos os professores de Filosofia que contribuíram para  esta renovada atenção no estudo e importância da Filosofia. A notícia acrescenta que, segundo relatório da ONU, a Filosofia "enquanto possibilidade de partilha de questões universais sobre a existência humana" pode "ajudar a construir pontes entre povos "e "abrir canais de comunicação entre culturas". Nada mais justo e adequado. Em França parece que estas palvras tiveram eco, a Filosofia vai passar a integrar os currículos  do Ensino Secundário, talvez por causa dos  conflitos culturais que enfrenta, ou por querer retirar as consequências práticas desta opinião das Nações Unidas. Há longos anos (não poderei precisar quantos) que a Filosofia não fazia parte dos curriculos do Secundário em França. Notícias animadoras para comemorar o dia Mundial da Filosofia, ontem, 18 de Novembro.  Será o primeiro passo para integrar a disciplina no 12ºAno dos Cursos de Humanidades? Talvez tenha chegado a altura de perceber que foi um erro retirar a Filosofia como disciplina específica obrigatória no 12ºAno. Esperemos que se reponha a justiça.

Helena Serrão

sábado, novembro 13, 2010

A discussão sobre a existência de Deus

" Não seria possível que eu tivesse em mim a ideia de Deus se Deus não existisse realmente."


René Descartes, Meditações



Esta frase está escrita no livro de Stephen Law, FILOSOFIA. Curioso que os livros remetam uns para os outros. Não fui conferir a citação de Descartes, até porque não refere a página, o que é uma imprecisão para um livro como este de iniciação aos problemas e história da Filosofia, mas sem dúvida que a elegância da frase e, sobretudo, o seu claro desafio, não deixam ninguém indiferente. A ideia é cartesiana, sem dúvida, é consistente com outras ideias cartesianas, mas hoje esta frase, afirmada como verdade evidente, não faria qualquer sentido e, no entando, o seu poder provocador é actual. Contrariamente ao que pensava Descartes, hoje a subjectividade não é um reduto de unanimidade, pelo contrário,  pensar algo, de modo nenhum pressupõe que esse algo exista, nem que exista do mesmo modo em todas as mentes, nem que exista fora da mente. Todavia é também possível de equacionar a questão de existir como algo que pela simples possibilidade de ser pensado com clareza, existe. Mas que ideia clara existe no nosso pensamento sobre Deus? Omnisciente, omnipotente, perfeito, eterno? A discussão sobre a existência de Deus continua a entusiasmar os adolescentes, mais que a droga, o terrorismo ou a tolerância racial. Porquê? Talvez porque ainda seja a imagem da última autoridade que não foi destruída por razões históricas, a que por não ser histórica permanece incorruptível.

O livro está muito bem organizado e apresentado, vamos colhendo informação sem grande esforço, não deixando de ser interpelados pela forma como os problemas aparecem.Podemos ficar a conhecer a história da Filosofia de uma forma lúdica como se estivessemos a ler um folheto informativo.

Helena Serrão

sábado, novembro 06, 2010

Discussão sobre a necessidade da existência de Deus.

Caravaggio, A Ceia em Emaús, 1601

Por vezes a literatura encontra a sua fonte de inspiração na Filosofia e nos grandes debates metafísicos. Coloca essas discussões no centro da relação entre as pessoas e o conflito que é gerado pela discussão tem consequências no modo como cada um vai viver a sua vida, como se as ideias  uma vez adoptadas se tornassem doravante verdadeiros pilares de entendimento do mundo e medelassem os comportamentos. 

 " Em primeiro lugar, na natureza nada se move, a não ser que seja movido por qualquer outra coisa - foram as palavras com que Beneditx abriu a discussão. (...) - Em segundo lugar - prosseguiu Beneditx -, no mundo sensível que nos rodeia apercebemo-nos que há elos de causalidade. Uma coisa causa outra e é, por sua vez, o efeito de uma outra causa.Não há nada que possa ser a sua própria causa, pois, para isso, teria de ser anterior a si mesma, o que é impossível. Mas esse elo de causalidade não pode recuar até ao infinito, senão não haveria uma primeira causa e, logo, um primeiro efeito, porquanto afastar a causa implica afastar o efeito. Por isso, a percepção pelos nossos sentidos de causas e efeitos obriga-nos a aceitar uma causa sem causa, uma primeira causa eficiente, a que toda a gente chama Deus. Em terceiro lugar, há coisas na natureza que podem existir ou não existir pois são criadas e consumidas, nascem e morrem. É impossível que essas coisas tenham existido sempre, pois tudo aquilo que a certa altura pode deixar de existir tem necessariamente  de não ter existido em determinado momento. Por isso, se tudo pudesse deixar de existir, teria de haver um momento em que podia não ter existido nada. se isto fosse verdade, ainda hoje não existiria nada, porque aquilo que não existe surge a partir de algo que já existe. Ou seja, se num determinado momento não existisse nada, nada poderia ter começado a existir e nada existiria no momento presente, o que é um absurdo. Por isso, tudo aquilo que existe não é meramente possível; tem de existir algo cuja existência é necessária. Mas a necessidade de uma coisa necessária é causada por outra coisa qualquer e não podemos ir até ao infinito numa cadeia de necessidades, como já vimos em relação aos moventes e às causalidades, pelo que não podemos deixar de postular a existência de um ser, cuja necessidade adveio de si próprio, e não só não resulta de um outro ser como é causa da necessidade de outros seres. Para todos os homens este ser é Deus.
Houve um silêncio enquanto Palinor meditava sobre estas palavras. Chegaram ao fim do caminho que se abria sobre o vale, permitindo uma visão abrangente e suavemente descendente dos laranjais e do verde prateado dos olivais (...)
-esses argumentos vão todos dar ao mesmo - disse Palinor - Tudo aquilo que se move é movido por outra coisa; por isso, há algo que faz mover tudo aquilo que se move. Todos os efeitos têm uma causa: por isso, há uma causa de onde resultam todos os efeitos. Continuando, todas as estradas vão dar a um lado qualquer, por isso há um lado qualquer onde todas as estradas vão dar (... )
O problema, Beneditx, é que afirmas que as coisas que existem no mundo à nossa volta têm de ter uma explicação e apresentas Deus como a explicação. Mas, para mim, o mundo que está à nossa volta não me suscita quaisquer dúvidas nem necessita qualquer explicação. Para mim, tudo aquilo que existe aos nossos olhos, ao nosso tacto, ao nosso paladar e ao nosso olfacto, é possível, e o que é impossível não é impossível. Daí que eu não veja a necessidade de Deus.
- Mas hás-de ver - disse Beneditx, num assomo de paixão - Apresentarte-ei as provas do grau e do desígnio. Hás-de ver!"

Jill Paton Walsh, O conhecimento dos anjos, Gradiva, Lx, 1996, p.119,120

quarta-feira, outubro 27, 2010

CRIARTE

Em Novembro deste ANO - 2010, vai começar aqui na Freitas Branco, um Atelier de Escrita Criativa e Ilustração.
O Projecto chama-se CRIARTE e está aberto a todos os alunos de todas as idades. Para quem goste de escrever histórias. Todo o tipo de histórias: policiais, de terror, fantásticas, de amor ou guerra, absurdas ou reais, curtas ou nem por isso. Depois de escrever, ilustrar, com desenho, colagem, pintura,  o que se quiser. Os trabalhos são publicados on-line e na Escola.


TERÇA - FEIRA DAS 16h ÀS 17.30h. INSCREVE-TE ATÉ AO FIM DO MÊS NA PAPELARIA DA ESCOLA! 

SALA B12


segunda-feira, outubro 25, 2010

AKRASIA e Ilusões perceptivas

Esclarecimento:  Akrasia é a designação dada ao fenómeno vulgar que consiste na não obediência da vontade do agente ao que racionalmente considera correcto e deseja fazer. Sabendo e querendo o que deve fazer, o agente, no entanto, não realiza a acção. Exemplo: Acredito que fumar faz mal à saúde, quero deixar de fumar, mas continuo a fumar.

Resumo: No De Anima III.10 Aristóteles caracteriza a akrasia como um conflito entre, por um lado, a fantasia ("imaginação") e, por outro lado, o conhecimento racional: o agente akratico é rasgado por um apetite pelo que parece bom na sua fantasia e um desejo racional para o que seu intelecto considera bom. Isto implica que a akrasia seja paralela a determinados casos de ilusão perceptiva. Com base na discussão de Aristóteles sobre tais casos no De Anima e no de Insomniis, eu uso esse paralelo para iluminar a difícil discussão sobre a akrasia presente na Ética a Nicómaco VII.3, argumentando que esta perspectiva da akrasia como envolvendo a ignorância, é compatível com, e de facto um crucial suplemento, da perspectiva mais simples que encontramos em outras partes do corpo da obra: da akrasia como uma luta entre os desejos.


Fotografia de Raymond Depardon

As discussões do ponto de vista de Aristóteles sobre a akrasia (incontinência, fraqueza de vontade, falta de auto-controle) estão normalmente centradas no Livro VII da Ética a Nicómaco, e, em particular no notoriamente difícil terceiro capítulo deste livro. Aqui Aristóteles afirma que Sócrates, em certa medida, estava certo, quando sustentava que a Akrasia envolve ignorância. Isto é muito claro. Quanto aos detalhes, no entanto, o texto é tão denso e tão espinhoso que não deixa a visão de Aristóteles livre de qualquer dúvida. De que é o agente akrático ignorante: da premissa menor do silogismo prático proibindo a sua acção, ou somente da conclusão? E qual é a natureza da sua ignorância? Será que lhe falta o conhecimento relevante do conjunto, ou simplesmente falta-lhe combiná-lo com as suas outras crenças ? Ou será que ele sabe em algum sentido mas não no essencial de modo a integrá-lo na sua personalidade?

Subjacente a estas questões há uma preocupação muito mais ampla sobre a Ética a Nicómaco VII.3. que é a seguinte: como é que uma perspectiva da Akrasia envolvendo qualquer tipo de ignorância, se ajusta com a perspectiva mais simples que encontramos noutras partes do corpus, nas quais a Akrasia envolve uma luta entre desejos opostos?

(…)

Quero mostrar que Aristóteles fornece uma outra perspectiva da akrasia,em De Anima III.10. que não foi devidamente apreciada. Esta perspectiva é filosoficamente interessante por seu próprio direito, e também é muito útil para iluminar as discussões da akrasia nas obras de ética. Apresenta-se a akrasia como envolvendo um conflito no agente entre o julgamento racional por um lado, e a fantasia por outro, a faculdade de receber aparições (aparências) (?).
Isto implica algo surpreendente: que a akrasia é o equivalente prático de certos casos em que o agente é tomado por uma ilusão perceptiva.
Ao seguir as semelhanças entre akrasia e ilusão perceptiva através das obras psicológicas, vamos descobrir uma interpretação que compara o agente akratico com a pessoa louca, bêbada, ou adormecida (1147a12-15), e, assim, somos guiados à perspectiva de Aristóteles da Akrasia como ignorância, uma vez que nos são ditadas respostas para os seus principais quebra- cabeças.
Esta visão  permite-nos obter resultados que vão reconciliar a perspectiva da akrasia como  ignorância com a perspectiva da akrasia como uma luta entre os desejos, pois irá mostrar que o desejo não-racional ganha, não por avassalar o desejo racional numa batalha directa de força, mas por minar a base cognitiva desse desejo. Ou seja, o desejo não-racional acaba por expulsar o agente do conhecimento do que deve ser feito ou evitado, e com ele a motivação racional que depende desse conhecimento.
Finalmente, a visão paralela entre akrasia e ilusão perceptiva indicará por que Aristóteles poderá ter pensado que tal explicação da akrasia era necessária, em primeiro lugar - porque  pode ter pensado que era impossível o apetite dominar directamente o desejo racional e, por isso, procurou explicar a akrasia em termos de ignorância.

Jessica Moss
in Archiv Fur Geschicte der Philosophie, p.119, 120,121
Tradução de Helena Serrão

Este artigo foi eleito pelo site The Philosopher's Annual www.pgrim.org/philosophersannual/index.html  como um dos dez melhores artigos de Filosofia de 2009. Pode consultá-lo na origem da sua publicação on-line em http://www.reference-global.com/loi/agph.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A liberdade constrói-se com os outros

Nós começamos a tomar consciência da liberdade ou do seu oposto na nossa relação com os outros, não na relação com nós próprios. Antes de se ter tornado um atributo do pensamento ou uma característica da vontade, a liberdade era entendida como a situação do homem livre, que lhe permitia mover-se, sair de casa, dirigir-se para o mundo e reunir-se com outras pessoas, falar com elas. Esta situação da liberdade era claramente precedida por uma libertação: para ser livre, o homem tinha primeiro de se libertar das necessidades da vida. Mas a situação de liberdade não decorria automaticamente desse acto de libertação. A liberdade requeria, para além da mera libertação, a companhia de outros homens que estivessem no mesmo estado, e requeria também um  espaço público comum onde estes pudessem ser encontrados - ou seja, um mundo politicamente organizado, no qual os homens livres se pudessem integrar através da acção e da palavra.

É claro que a liberdade não caracteriza todas as formas de relacionamento humano nem todos os tipos de comunidade. Onde os homens vivem em conjunto sem formarem um corpo político - como acontece, por exemplo, nas sociedades tribais ou na privacidade do lar - os factores que regem a sua acção e a sua conduta são, não a liberdade, mas as necessidades da vida e as dificuldades relacionadas com a sua preservação. Além disso, onde o mundo feito-pelo-homem não se converte em cenário para o discurso e para a acção - como nas comunidades governadas de um modo despótico, que expulsam os seus súbditos para a estreiteza do lar e assim impedem a formação de uma esfera pública - a liberdade carece de realidade mundana. sem uma esfera pública politicamente garantida, a liberdade fica sem espaço onde emergir. Claro que pode sempre habitar no coração dos homens como desejo ou vontade ou esperança ou anseio; mas o coração humano, como todos sabemos,  é um local bastante escuro, e o que quer que aconteça na sua obscuridade dificilmente pode ser considerado um facto demonstrável.  A liberdade como facto demonstrável coincide com a política, e as duas estão intimamente relacionadas.

Hannah Arendt, O que é a liberdade, in Entre o Passado e o Futuro, Relógio d´Água, Lx, 2006

sábado, outubro 09, 2010

Ponto da situação


Fotografia de Henri Lartigue



Aos estimados leitores da/o "Logosfera"

 

O/A "Logosfera" foi de férias. O edifício ainda com andaimes mas já com alguma envergadura para a idade - tem quase quatro anos - cresceu também para os lados,  sim, barra direita, links para outros sites e blogues associados, no que poderíamos apelidar de “crescimento sustentado”, expressão muito recorrente nos dias de hoje.

Não nos alarmemos então com a paragem. Parar é morrer se for parar para sempre. Ora, era mesmo sobre isso que urgia reflectir, por duas razões: primeiro porque a Escola não pretende considerar este ano, o espaço “Logosfera”como projecto de valor pedagógico, facto que teria como consequência contemplar os seus autores com horas extra-lectivas, como fez desde há três anos a esta parte.Esse precioso tempo é agora gasto no meritório funcionamento das substituições, essa máquina que de tão emperrada está a gastar as energias do pessoal do burgo, vulgo professores, já há uns tempos confundidos com tanta medida contra/medida, regulação/contra regulação, progressão/congelamento e o rol dos fracassos colossais dos últimos três anos no que respeita a medidas sobre educação.

Segundo, porque há inúmeros e diversificados espaços de qualidade sobre Filosofia na Internet, sinal de que a dita ainda empolga os espíritos e está à altura dos desafios mediáticos, congratulamo-nos por isso e daqui enviamos uma saudação a todos (atenção a dois novos espaços recentemente abertos, o do professor Aires de Almeida e "A Filosofia vai ao Cinema", ambos prometem). A escolha é, portanto, difícil, assim como escassa a possibilidade de fazermos algo de novo. Seria então razoável e um provável bem para a humanidade se nos retirássemos de manso, deixando o andaime e a janela escancarada e fossemos a outras vidas, até porque estamos em escolas diferentes. Mas nenhuma destas razões parece determinante para deixar o edifício por acabar, até porque nenhuma delas o foi para  começar, logo, o caminho é para a frente. Isto é: mais textos, mais reflexões, mais traduções, mais actualizações. Contamos com a presença de todos e com sugestões, se as tiverem,  serão bem-vindas.

Helena Serrão


P.S: Ao fim de quase quatro anos de edições ainda hesito entre considerar "A" ou "O""Logosfera" isto porque sendo blogue é masculino mas, por outro lado, o substantivo é feminino, “A” “Logosfera”. São bem- -vindas sugestões.

 

quarta-feira, julho 14, 2010

segunda-feira, julho 12, 2010

Fragmento

186. O homem é como uma cana, a mais frágil da natureza; mas é uma cana pensante. Não é necessário que o Universo se arme para o quebrar; um vapor, uma gota de água são suficientes para o matar. Mas quando o Universo o quebra, o homem será ainda mais nobre que aquilo que o mata pois  sabe que morre e a vantagem que o Universo tem sobre ele, o Universo não sabe nada.
A nossa dignidade está toda no pensamento. É daí que é preciso ressurgir e não do espaço ou da duração, que nunca saberíamos completar.
Trabalhemos então para pensar bem: eis o princípio da moral.


Blaise Pascal, Pensées, Gallimard,2004, Saint-Amand, p.161

Tradução de Helena Serrão