terça-feira, julho 16, 2013
quinta-feira, junho 20, 2013
segunda-feira, junho 17, 2013
Reflexões sobre a greve de professores
Ao fim de largas horas de
indecisão optei por fazer greve. Estava, como sempre, dividida, e não estava
sozinha, havia muitos professores como eu, divididos. Ouvi depois o ministro
indiferente ao drama, sobranceiro, a convocar todos para vigiar os exames, como
se os professores fossem substituíveis até pelo merceeiro e percebi o desrespeito
pela classe e pelo diálogo, nesse momento houve valores antigos que se tornaram
importantes, a solidariedade de classe, a indignação por sermos colocados entre
a espada e a parede. Não nos restava nenhum outro modo de afirmar essa
indignação perante a política cega e imediatista que agrava o desemprego e
empobrece o ensino público. Ora, penso, o maior mal do nosso país é o
desemprego, a falta de trabalho. Muitos há que não fizeram greve por medo de o
perder, desses, muitos, têm mesmo o emprego ameaçado. O que se pretende afinal?
Se alargamos o horário de trabalho de alguns professores é óbvio que outros
ficarão sem trabalho, não é preciso ser muito perspicaz para retirar essa
conclusão. Quantos ordenados se economizam? Quantos subsídios de desemprego?
Quantas pessoas à toa? Poderia ser um assunto insignificante mas é todo o
assunto, uma política destas têm consequências, além do desemprego de muitos, temos
os outros, os que ficam a trabalhar em todo o tipo de tarefas para além de dar
aulas, substituições de professores que faltam, assessorias, tutorias,
apoios vários para suprir a falta de funcionários, trabalho administrativo para
poupar no pessoal de secretaria etc etc etc. Esse é o projecto, ser professor
será cada vez mais uma tarefa de funcionalismo. O professor do ensino público
será um funcionário, isto é, uma espécie polivalente capaz de manter a
instituição e os respectivos jovens ocupados em tarefas, atentos fiscais do seu
cumprimento mais do que do ensino e na avaliação reais, quando digo real digo,
uma avaliação honesta que separasse os alunos que aprendem dos que não o fazem
e exigindo que os que não aprendam voltem a tentar e a perceber que têm de o
fazer, pois isso não é indiferente para a sua permanência na instituição. O
problema surge aqui, na tendência para se desvalorizar a actividade do ensino e
do saber, de facto a sociedade liberal valoriza empreendedores, mas não sábios,
esses são até uma raça de gente a evitar. Quanto ao ensino “a sério” passaria a
estar a cargo de instituições privadas. Basta olhar para os resultados do
ensino Público e Privado nos exames do 12ºano para perceber a tendência. Se há
dez anos o Público rivalizava em resultados semelhantes, hoje a clivagem é
muito maior. Porquê? Porque o investimento na preparação para os exames, que
passa por um certo grau de exigência científica, está, no público, minimizado,
se um professor do ensino público quiser mantê-lo terá de se recusar a levar a
exame muitos alunos, ora, reprovar alunos hoje é sinónimo de mau ensino, logo
de mau professor e ninguém quer estar na margem desse "sucesso" de
conseguir os resultados mínimos (mesmo que esse mínimo seja muito pouco) para
os seus alunos.
Pela primeira vez a sociedade
está dividida, porque pela primeira vez há uma atitude que tem resultados
visíveis na sociedade, parece que consideramos normal que uma paralisação do
trabalho seja coisa privada de uma classe, prejudicando apenas aqueles que a
fazem ao reduzir-lhes o ordenado. Mas a responsabilidade deste caos é a massa
de silêncios e atropelos dos últimos anos reduzindo progressivamente a justiça
e o bom senso necessários para que todos possam exercer o seu trabalho com
segurança.
Helena Serrão
Etiquetas:
Greve
segunda-feira, junho 03, 2013
Greve às avaliações
Portugal tem um digno serviço público de
ensino. Tem fragilidades mas garante uma formação geral que, comparativamente
com outros países como a Inglaterra ou os Estados Unidos, é globalmente boa.
Portugal não tem uma economia que garanta emprego às pessoas, muitos não
arranjam trabalho, acima dos quarenta diria, pelos casos que conheço, é quase
impossível arranjar trabalho. Colocados estes dados, que, penso, são
consensuais, não há nenhum sistema de razões mais poderoso que aquele que nos
permite concluir o seguinte: Primeiro: aumentar as turmas e o horário de alguns
professores, os que estão há mais anos no ensino e, por isso, mais cansados,
para poder despedir com justa causa outros mais jovens mas não tão jovens que
possam arranjar aos trinta e tal anos outro trabalho, é, no mínimo inumano,
ilógico, insustentável.
Segundo: Se o Estado está falido e não tem
dinheiro para pagar aos seus funcionários, faça uma nova gestão do dinheiro que
tem para distribuir e não entre no absurdo capitalista de se considerar como
uma empresa de lucro, como tantas empresas capitalistas. As pessoas, a
educação, a saúde, não são elementos para o lucro capitalista. Não são.Ponto.
Há limites para o absurdo. Criar mais riqueza para criar outros empregos quando
isso implica despedir milhares de pessoas? Não tem sentido. Não tem sentido dar
mais trabalho a uns para tirar trabalho aos outros.Daí que esta greve às
avaliações seja o único instrumento da profissão que permite dar uma resposta a
este absurdo, é uma questão ética e política. Não contem comigo para ser cúmplice
desta pseudo-evidência de que se o barco se afunda, e os botes não chegam para
todos, salvem-se alguns. Corramos todos para os botes. Todos temos esse
direito. Se formos ao fundo, pelo menos vamos com dignidade. Não me quero "salvar" à custa da morte dos outros. A possiblidade deste pensamento dilemático já é um atentado à liberdade e à igualdade. Princípios nos quais acredito e defendo, seja qual for a circunstância.
Helena Serrão
domingo, maio 12, 2013
Quando é arte?
Claes Oldenburg, Clothespin, 1976
A literatura da estética
está atafulhada com tentativas desesperadas para responder à questão “O que é a
arte?” Esta questão, é muitas vezes irremediavelmente confundida com a questão “O
que é a boa arte?”, é crucial no caso da arte encontrada - a pedra apanhada na entrada da garagem e
exposta num museu – e agrava-se ainda mais pela promoção das chamadas arte
ambiental e arte conceptual. O pára-lamas amachucado de um carro numa galeria
de arte, é uma obra de arte? E como considerar algo que não é sequer um
objecto, e não está exposto numa galeria de arte nem num museu – por exemplo, o
escavar e encher um buraco no Central Park como prescrito por Oldenburg? Se estas
são obras de arte, então todas as pedras nas entradas das garagens, todos os
objectos e acontecimentos são obras de arte? Se não o são, o que distingue
aquilo que é daquilo que não é uma obra de arte? O facto de um artista lhe
chamar uma obra de arte? O facto de estar exposto num museu ou numa galeria?
Nenhuma destas respostas faz prevalecer qualquer convicção.
Como observei no início,
parte da dificuldade reside em perguntar a questão errada – em não conseguir
reconhecer que uma coisa pode funcionar como obra de arte em certos momentos e
não noutros. Nos casos cruciais, a verdadeira questão não é “Quais os objectos
que são (permanentemente) obras de arte?” mas “ Quando é que um objecto é uma
obra de arte?” – ou mais brevemente como no meu título, “Quando é arte?”
A minha resposta é que
exactamente como um objecto pode ser um símbolo – por exemplo, uma amostra –em certos
momentos e em certas circunstâncias e não noutras, assim um objecto pode ser
uma obra de arte em certos momentos e não noutros. Na realidade, exactamente
por funcionar, e enquanto funcionar, de determinado modo como um símbolo, um
objecto torna-se uma obra de arte.
(…)
Bem longe de especificar
as características particulares que diferenciam a estética de outra simbolização,
a resposta à questão “Quando é Arte?” parece-me assim claramente estar posta
em termos da função simbólica. (…) A pintura de Rembrandt permanece uma obra de
arte, como permanece uma pintura, quando funciona apenas como coberta; a pedra
da entrada da garagem pode não se tornar estritamente arte pelo facto de
funcionar como arte[1].
Similarmente, uma cadeira permanece uma cadeira mesmo que nunca se tenham
sentado nela, e um caixote permanece um caixote mesmo que nunca tenha sido
usado a não ser para servir de assento. Dizer o que a arte faz não é dizer o
que a arte é; mas eu sugiro que o primeiro é assunto de primordial e especial
preocupação. A questão posterior de definir a propriedade estável em termos da
função efémera, “o quê” em termos do “quando” não está confinada às artes mas é
inteiramente geral, e é a mesma para definir cadeiras como para definir
objectos de arte.(…) que o facto de um objecto ser arte – ou uma cadeira –
depende do intento ou de ele, por vezes, habitualmente, sempre ou
exclusivamente funcionar como tal.(…) Uma característica saliente da simbolização,
aleguei enfaticamente, é que ela pode ir e vir. Um objecto pode simbolizar
coisas diferentes em ocasiões diferentes, e nada noutras ocasiões. Um objecto
inerte ou puramente utilitário pode chegar a funcionar como arte, e uma obra de
arte pode chegar a funcionar como um objecto inerte ou puramente utilitário.
Talvez que, em vez de a arte ter uma existência longa e a vida uma existência
curta, ambas sejam transitórias.(…) A maneira como um objecto ou acontecimento
funciona como obra explica como, através de determinados modos de referência,
aquilo que assim funciona pode contribuir para uma visão – e para a feitura –
de um mundo.
Nelson Goodman, Modos de
fazer mundos, Ed. Asa, Porto, 1995, pág. 113, 116,117 e 118
[1] Exactamente como aquilo que não é vermelho pode
parecer ou ser dito vermelho em certos momentos, assim o que não é arte pode
funcionar como arte, ou dizer-se que é arte, em certos momentos. O facto de um
objecto funcionar como arte num dado momento, de ele ter o estatuto de arte,
nesse momento, e de ele ser arte nesse momento podem ser assumidos como dizendo
a mesma coisa desde que não assumamos nenhum deles como atribuindo ao objecto
nenhum estatuto estável.
quinta-feira, abril 18, 2013
Prova intermédia de Filosofia
PROVA INTERMÉDIA DE FILOSOFIA
CRITÉRIOS DE CORRECÇÃO DA PROVA INTERMÉDIA DE FILOSOFIA
Prova demasiado extensa para 90 minutos. A escolha múltipla implicava a leitura de muitas variáveis o que exigia concentração e tempo. No geral era fácil pois os conhecimentos exigidos eram básicos.
domingo, abril 07, 2013
Popper contra a psicanálise e o marxismo: razões
A crítica de Popper:
Naquela época, não estava preocupado com as questões _Quando é verdadeira uma teoria? Ou: Quando é aceitável uma teoria? O Meu problema era outro. Desejava traçar uma distinção entre a ciência e a pseudociência, pois sabia muito bem que a ciência frequentemente comete erros, ao passo que a pseudociência pode encontrar acidentalmente a verdade.
Conhecia, evidentemente, a resposta mais comum dada ao problema: a ciência distingue-se da pseudociência - ou _metafísica_ - pelo uso do método empírico, essencialmente indutivo, que decorre da observação ou da experimentação. Mas essa resposta não me satisfazia. Pelo contrário, formulei muitas vezes o meu problema como a procura de uma distinção entre o método genuinamente empírico e o não empírico ou mesmo pseudo-empírico - isto é, o método que, embora se utilize da observação e da experimentação, não atinge o padrão cientifico. Um exemplo deste método seria a astrologia, que tem um grande acervo de evidências empíricas baseadas na observação: horóscopos e biografias.
Mas, como não foi o exemplo citado que me levou ao meu problema, creio que seria oportuno descrever brevemente o clima em que ele surgiu e os exemplos que o estimularam. Após o colapso do Império Austríaco, a Áustria havia passado por uma revolução: a atmosfera estava carregada de slogans e ideias revolucionárias; circulavam teorias novas e frequentemente extravagantes. Dentre
as que me interessavam, a teoria da relatividade de Einstein era sem dúvida a mais importante; outras três eram a teoria da história de Marx, a psicanálise de Freud e a _psicologia individual_ de Alfred Adler. (…)
Durante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez mais insatisfeito com essas três teorias - a teoria marxista da história, a psicanálise e a psicologia individual; passei a ter dúvidas sobre o seu estatuto cientifico. O meu problema assumiu, primeiramente, uma forma simples: _O que estará errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual? Por que serão tão diferentes da teoria de Newton e especialmente da teoria da relatividade?_
Para tornar claro esse contraste, devo explicar que, naquela época, poucos afirmariam acreditar na verdade contida na teoria da gravitação de Einstein. O que me incomodava, portanto, não era o facto de duvidar da veracidade daquelas três teorias; também não era o facto de que considerava a física matemática mais exacta do que as teorias de natureza psicológica ou sociológica. O que me preocupava, portanto, não era, pelo menos naquele estágio, o problema da veracidade, da exactidão ou da mensurabilidade. Sentia que as três teorias, embora se apresentassem como ramos da ciência, tinham de facto mais em comum com os mitos primitivos do que com a própria ciência, que se aproximavam mais da astrologia do que da astronomia.
Percebi que meus amigos admiradores de Marx, Freud e Adler, impressionavam-se com uma série de pontos comuns às três teorias, e sobretudo com sua aparente capacidade de explicação. Essas teorias pareciam poder explicar praticamente tudo nos seus respectivos campos. O estudo de qualquer uma delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação intelectual, abrindo os olhos para uma nova verdade, escondida dos ainda não iniciados. Uma vez abertos os olhos,
podia-se ver exemplos confirmadores em toda parte: o mundo estava repleto de verificações da teoria. Qualquer coisa que acontecesse vinha confirmar isso. A verdade contida nessas teorias, portanto, parecia evidente; os descrentes eram nitidamente aqueles que não queriam vê-la: recusavam-se a isso para não entrar em conflito com seus interesses de classe ou por causa de repressões ainda não analisadas, que precisavam urgentemente de tratamento. o mais característico da situação parecia ser o fluxo incessante de confirmações, de observações que verificavam as teorias em questão, ponto que era enfatizado (salientado) constantemente: um marxista não abria um jornal sem encontrar em cada página evidência a confirmar sua interpretação da história. Essa evidência era detectada não só nas noticias, mas também na forma como eram apresentadas pelo jornal - que revelava seu preconceito de classe - e sobretudo, é claro,
naquilo que o jornal não mencionava. Os analistas freudianos afirmavam que suas teorias eram constantemente verificadas por observações clínicas. Quanto a Adler, fiquei muito impressionado por uma experiência pessoal. Certa vez, em 1919, informei-o de um caso que não me parecia ser particularmente adleriano, mas que ele não teve qualquer dificuldade em analisar nos termos da sua teoria do sentimento de inferioridade, embora nem mesmo tivesse visto a criança em questão. Ligeiramente chocado, perguntei como podia ter tanta certeza. _Porque já tive mil experiências desse tipo_ - respondeu; ao que não pude deixar de retrucar: _Com este novo caso, o número passará então a mil e um…
O que queria dizer era que suas observações anteriores podiam não merecer muito mais certeza do que a última; que cada observação havia sido examinada à luz da experiência anterio, somando-se ao mesmo tempo às outras como confirmação adicional. Mas, perguntei a mim mesmo, que é que confirmava cada nova observação? Simplesmente o facto de que cada caso podia ser examinado
à luz da teoria.
Reflecti, contudo, que isso significava muito pouco, pois todo e qualquer caso concebível pode ser examinado à luz da teoria de Freud e de Adler. Posso ilustrar esse ponto com dois exemplos muito diferentes de comportamento humano: o do homem que joga uma criança na água com a intenção de afogá-la e o de quem sacrifica sua vida na tentativa de salvar a criança. Ambos os casos podem ser explicados com igual facilidade, tanto em termos freudianos como adlerianos. Segundo Freud, o primeiro homem sofria de repressão (digamos, algum componente do seu complexo de Édipo) enquanto o segundo alcançara a sublimação. Segundo Adler, o primeiro sofria de sentimento de inferioridade (gerando, provavelmente, a necessidade de provar a si mesmo ser capaz de cometer
um crime), e o mesmo havia acontecido com o segundo (cuja necessidade era provar a si mesmo ser capaz de salvar a criança). Não conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas as teorias fossem incapazes de explicar. Era precisamente esse facto - elas serviam sempre e eram sempre confirmadas - que constituía o mais forte argumento em seu favor. Comecei a perceber aos poucos que essa força aparente era, na verdade, uma fraqueza.
Com a teoria de Einstein, a situação era extraordinariamente diferente. Tomemos um exemplo típico - a predição de Einstein, confirmada havia pouco por Eddington. A teoria gravitacional de Einstein havia levado à conclusão de que a luz devia ser atraída pelos corpos pesados (como o Sol), exactamente como ocorria com os corpos materiais. Calculou-se portanto que a luz proveniente de
uma estrela distante, cuja posição aparente estivesse próxima ao Sol, alcançaria a Terra de uma direcção tal que a estrela pareceria estar ligeiramente deslocada para longe do Sol. Em outras palavras, as estrelas próximas do Sol pareceriam ter-se afastado um pouco dele e entre si. Isso não pode ser normalmente observado, pois as estrelas tornam-se invisíveis durante o dia, ofuscadas pelo brilho irresistível do Sol; durante um eclipse, porém, é possível fotografá-las. Se a mesma constelação é fotografada durante um eclipse, de dia e à noite, pode-se medir as distâncias em ambas as fotografias e verificar o efeito previsto. o mais impressionante neste caso é o risco envolvido numa predição desse tipo. Se a observação mostrar que o efeito previsto definitivamente não ocorreu, a teoria é simplesmente refutada: ela é incompatível com certos resultados passíveis da observação; de facto, resultados que todos esperariam antes de Einstein.
Essa situação é bastante diferente da que descrevi anteriormente, pois tornou-se evidente que as teorias em questão eram compatíveis com o comportamento humano extremamente divergente, de modo que era praticamente impossível descrever um tipo de comportamento que não servisse para verificá-las. Durante o Inverno de 1919-1920, essas considerações levaram-me a conclusões
que posso agora reformular da seguinte maneira.
(1) É fácil obter confirmações ou verificações para quase toda teoria – desde que as procuremos.
(2) As confirmações só devem ser consideradas se resultarem de predições arriscadas; isto é, se, não esclarecidos pela teoria em questão, esperarmos um acontecimento incompatível com a teoria e que a teria refutado.
(3) Toda teoria científica boa é uma proibição: ela proíbe certas coisas de acontecer. Quanto mais uma teoria proíbe, melhor ela é.
(4) A teoria que não for refutada por qualquer acontecimento concebível não é científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, como frequentemente se pensa, mas um vício.
(5) Todo teste genuíno de uma teoria é uma tentativa de refutá-la. A possibilidade de testar uma teoria implica igual possibilidade de demonstrar que é falsa. Há, porém, diferentes graus na capacidade de se testar uma teoria: algumas são mais testáveis, mais expostas à refutação do que outras; correm, por assim dizer, maiores riscos.
(6) A evidência confirmadora não deve ser considerada se não resultar de um teste genuíno da teoria; o teste pode-se apresentar como uma tentativa séria porém malograda de refutar a teoria. (Refiro-me a casos como o da evidência corroborativa).
(7) Algumas teorias genuinamente testáveis, quando se revelam falsas, continuam a ser sustentadas por admiradores, que introduzem, por exemplo, alguma suposição auxiliar ad hoc, ou reinterpretam a teoria ad hoc de tal maneira que ela escapa à refutação. Tal procedimento é sempre possível, mas salva a teoria da refutação apenas ao preço de destruir (ou pelo menos aviltar) o seu padrão científico. (Mais tarde passei a descrever essa operação de salvamento como uma distorção convencionalista ou um estratagema convencionalista)
Pode-se dizer, resumidamente, que o critério que define o estatuto científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada.
Karl R. Popper, Conjecturas e Refutações
Brasília: Editora da UnB. 1980.
Conferência feita em Peterhouse, Cambridge, no verão de 1953, como parte do curso
sobre a evolução e as tendências da Filosofia inglesa contemporânea, organizado pelo British
Counci1; publicado originalmente sob o título Philosophy of Science: a Personal Report,
in British Philosophy in Mid-Century, edit. C. A. Mace 1957.
A pergunta que nos surge imediatamente é: Poderemos investigar com o mesmo método e com o mesmo critério de exigência empírica, objectos tão diferentes como as estrelas e o comportamento humano? Ao colocar o critério de falsificabilidade não estamos a exigir que seja ciência apenas o conhecimento dedutivo?
Etiquetas:
Ciência,
Karl Popper
quarta-feira, abril 03, 2013
Provas
Este ano há prova intermédia de Filosofia. Dia 17 de Abril. Para mais informações consulte o seguinte"link":
Provas intermédias de Filosofia
(A propósito de palavras estranhas como "link". Não encontro a correspondente em português, será que não existe? )
Etiquetas:
Exame de Filosofia-Informação
domingo, março 24, 2013
ou, ou
James Nachtwey
Soren Kierkegaard,
Tradução do Dinamarquês de Elisabete M. de Sousa
Relógio D’Água, 2013 Pág.57
Não percebo dinamarquês de
modo a confrontar este texto traduzido, com o original, se assim fosse poderia esclarecer as dúvidas sobre certas expressões cujo sentido é enigmático. As outras traduções não
são fidedignas, ou melhor, enfermam do mesmo problema, não há como ter uma referência se não se conhece o original. Por exemplo, a expressão: "desbastar uma migalhinha
da moeda" quererá significar que gastam pouco mas mesmo assim gastam;
gastam mais do que têm direito apesar de parecer que não? Mais à frente
: " embora Nosso Senhor mantenha as contas em ordem, é certamente possível
escapar aldrabando-o um pouco". Aldraba-se? Como? Resta saber se é o autor que utiliza estas expressões metafóricas, se são expressões idiomáticas, seja como for, o significado é vago, fica-se com uma impressão de incompletude, uma irritação enfim!!
Helena Serrão
Etiquetas:
Kierkegaard,
O sentido da existência
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
A Existência é inexplicável.
![]() |
| André kertész, Vert galant ao cair da tarde, 1963 |
A palavra Absurdidade acabou-me de nascer na caneta; ainda
agora, no jardim, não a consegui encontrar, mas também não a procurava, é
verdade, não era preciso: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as
coisas. A Absurdidade não era uma ideia na minha cabeça, não era um sussurro, mas
esta longa serpente morta aos meus pés, esta serpente de madeira. Serpente ou garra
ou raiz ou estufa de abutre, não é importante. E sem nada formular com clareza,
encontrei a chave da existência, a chave das minhas náuseas, da minha própria
vida. De facto tudo o que, em seguida, pudesse apreender conduzia-me de volta a
esta absurdidade fundamental.
Absurdidade: uma palavra ainda; debato-me contra as palavras;
ali em baixo, toquei a coisa. Mas quero fixar aqui o carácter absoluto desta
absurdidade. Um gesto, um acontecimento, no pequeno mundo colorido dos homens,
só é absurdo relativamente: em relação às circunstâncias que o acompanham. Os discursos de um louco, por exemplo, são
absurdos em relação à situação em que se encontra mas não em relação ao seu delírio..
Mas eu, ainda há pouco tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o
absurdo.Esta raíz não há nada em relação ao qual ela não seja absurda. Oh! Como
posso eu fixar isto em palavras?
Absurdo: em relação aos calhaus, aos tufos de erva amarela, à
boca seca, à árvore, ao céu, aos bancos verdes. Absurdo, irredutível; nada –
nem mesmo um delírio profundo e secreto da natureza –o pode explicar. Eu não
sabia tudo, evidentemente, não vi o germe desenvolver-se nem a árvore brotar.
Mas diante essa pata gorda e rugosa, nem o saber nem a ignorância têm importância:
o mundo das explicações e das razões não é o mesmo da existência. Um círculo não
é absurdo, explica-se muito bem pela rotação de um segmento de recta à volta de
uma das suas extremidades. Mas também um círculo não existe. Esta raiz, ao
contrário, existia na medida em que eu não podia explicá-la. Nodular, inerte,
sem nome, fascinava-me, enchia-me os olhos, reconduzia-me incessantemente à sua própria
existência. Poderia repetir: “ É uma raíz” – não tinha efeito. Via bem que não
podia passar da sua função de raiz, de bomba aspirante, a isto, a esta pele
dura e compacta de foca. A este aspecto oleoso, calejado e entretelado. A função
não explicava nada: permitia compreender grosseiramente o que era uma raiz, mas
não esta. Esta raiz, com esta cor, esta forma, o seu movimento de fisga, estava…para
lá de toda a explicação.”
Tradução helena serrão
Jean-Paul Sartre “
La Nausée” gallimard, Barcelona 2009, pp.184, 185
1ª edição 1938
Etiquetas:
O sentido da existência,
Sartre
sábado, janeiro 19, 2013
Curiosidades
Namora uma rapariga que lê
"Namora uma rapariga que lê.
Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela
tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga
que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca
desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
ais declarar-te num balão de ar
quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela
estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás
por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o
peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com
nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos
filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos
os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu
sacodes a neve das tuas botas.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga
que escreve."
dia mundial da leitura
Etiquetas:
Cultura,
Rosemary Urquico
domingo, janeiro 06, 2013
As dificuldades das ciências humanas e sociais
O
grande matemático Lagrange disse há já muito tempo que a Natureza
simplesmente não faz caso das dificuldades que coloca aos
cientistas, cuja missão – como declarou noutra ocasião –
consiste na procura da simplicidade, mas também em desconfiar dela.
Quer isto dizer que o melhor – e porventura o único – meio de
alcançar uma simplicidade congruente com os factos é lidar de
frente com as maiores complexidades, mediante o recurso extremamente
prático de tratar a dificuldade per se como
um dato fundamental, que não deve ser evitado, mas aproveitado
ao máximo – não deve ser explicado, mas utilizado para explicar
dados aparentemente mais simples.
Os
primeiros capítulos deste livro, que destacam a angústia causada
pelos dados da ciência do comportamento, podem dar a impressão
errónea de que a objectividade é impossível a
priori
na
investigação da ciência do comportamento e que para reduzir ao
mínimo as deformações devidas à subjectividade devemos interpor
mais e mais filtros
– testes, técnicas de entrevista, acessórios e outros artifícios
heurísticos – entre
nós e os nossos objectos.
Inclusive, poderia parecer que o melhor “observador” é uma
máquina e que o observador humano deveria aspirar a uma espécie de
invisibilidade que – caso fosse bem sucedido – eliminaria o
observador da situação observacional.(...)
Não
se faz boa ciência ignorando os seus dados mais fundamentais e mais
característicos que constituem, de forma muito específica,
dificuldades que lhe são inerentes.
O especialista do comportamento não pode ignorar a interacção
do sujeito e do observador,
esperando que, se fingir durante bastante tempo que ela não existe,
esta acabe por desaparecer completamente.
A
recusa em tirar partido de maneira criativa dessas dificuldades mais
não faz do que conduzir à recolha de dados cada vez menos
pertinentes, cada vez mais segmentários, periféricos e mesmo
triviais, que não lançam qualquer luz sobre o que há de vivo no
organismo ou de humano no homem. Por isso, o cientista deve deixar de
destacar exclusivamente a sua manipulação do sujeito e deve, ao
mesmo tempo – e por vezes principalmente –, esforçar-se por se
compreender a si mesmo enquanto observador. Nesse sentido, toda a
experiência praticada sobre um rato
é
também uma experiência praticada sobre o observador, cujas
angústias e manobras de diversão, tal como a sua estratégia de
investigação, percepção de dados e tomada de decisões
(interpretações dos dados),
podem
lançar mais luz sobre a natureza do comportamento em geral do que a
observação dos ratos – e até de outros seres humanos – poderia
fazer.
Isto
implica que as dificuldades tradicionais da ciência do comportamento
não se devem apenas
a uma determinação pouco ponderada do lugar e natureza da
demarcação entre dados “reais” e produtos “incidentais” ou
epifenomenais da estratégia de investigação. Indica que o sujeito
mais apto a manifestar um comportamento cientificamente utilizável é
o próprio observador. Isto significa que uma experiência praticada
sobre ratos, uma expedição antropológica, ou uma psicanálise,
contribuem mais para a compreensão do comportamento se forem
encaradas como fonte de informação acerca do psicólogo dos
animais, do antropólogo e do psicanalista, do que se forem
consideradas tão-somente como uma fonte de informação acerca dos
ratos, dos primitivos ou dos pacientes. Numa verdadeira ciência do
comportamento, os primeiros dados são básicos; os outros são
epifenomenais… ou seja, falando com clareza, subprodutos que,
naturalmente, também merecem
ser
explorados.
Não
é o estudo do sujeito,
mas
do observador,
que
nos faculta o acesso à essência
da
situação observacional.
Os
dados da ciência do comportamento são então triplos:
1]
O comportamento do sujeito.
2]
As “perturbações” produzidas pela existência do observador e
pelas suas actividades no quadro da observação.
3]
O comportamento do observador: as suas angústias, as suas manobras
defensivas, a sua estratégia de investigação, as suas “decisões”
(=atribuição de significado às suas observações).
Tradução de Ana Rita Araújo
Etiquetas:
Ciência,
Epistemologia
quinta-feira, dezembro 27, 2012
A fundamentação do conhecimento
Quem
quiser seriamente tornar-se filósofo deve, uma vez
na vida, retirar-se para dentro de si mesmo e em si tentar o derrube e
todas as ciências existentes e a sua reconstrução. A filosofia é
um assunto inteiramente pessoal de quem filosofa. Trata-se da
sua sapientia universalis, isto é, do seu
saber
em busca do universal –
mas de um saber científico genuíno, pelo qual ele desde início
e em cada passo se responsabiliza absolutamente em virtude das
suas razões absolutamente evidentes. Só
posso tornar-me verdadeiro filósofo
pela minha livre decisão de querer viver para este objectivo.
Se a tal me decidi, se, portanto, optei pelo começo em absoluta
pobreza e pelo derrube, então a primeira coisa a fazer é, decerto,
reflectir como é que poderei encontrar o começo absolutamente seguro
e o método da progressão, sem qualquer apoio da ciência
existente. As meditações cartesianas não pretendem, pois, ser
apenas um assunto privado do filósofo Descartes, mas o protótipo das
meditações necessárias a todo o principiante em geral da filosofia.
Se
atendermos ao conteúdo das meditações, hoje para nós tão estranho,
bem depressa se leva a cabo um retrocesso ao ego filosofante num
segundo e mais profundo sentido. É o conhecido retrocesso,originador
da epoché, ao ego das
puras cogitationes. É o ego
que
a si se encontra como o único ente apodicticamente certo, enquanto
põe fora de vigência a existência do mundo, como não garantida
frente à dúvida possível.
Ora
este ego realiza, antes de mais, um filosofar
seriamente solipsista.
Procura caminhos apodicticamente certos pelos quais he
seja patente uma exterioridade objectiva na pura interioridade.
Isto
acontece em Descartes do modo que sabemos, ou seja, deduz-se primeiro
a existência e a veracitas de
Deus; e, em seguida, por seu
intermédio, a natureza objectiva, o dualismo das substâncias, em
suma, o terreno objectivo das ciências positivas e estas mesmas.
Todos
os modos de inferência ocorrem à luz de princípios que são imanentes,
inatos ao ego. Até
aqui Descartes. Agora perguntamos: vale realmente a pena rastrear
de forma crítica o significado eterno destes pensamentos? São
eles adequados para insuflar forças vivas ao nosso tempo? É
de ponderar, em todo o caso, que as ciências positivas, que everiam
obter mediante estas meditações uma fundamentação absolutamente racional,
se tenham tão pouco interessado por ela. Na nossa
época, e não obstante o desenvolvimento fulgurante dos três séculos,
sentem-se decerto inibidas pela falta de claridade dos seus fundamentos.
Mas não lhes ocorre na remodelação dos seus conceitos básicos
recorrer às meditações cartesianas. Por
outro lado, é de monta que as meditações tenham feito época
na filosofia num sentido muito singular e, sem dúvida, precisamente devido
à sua retrocessão ao ego. Descartes
inaugura, de facto,
uma filosofia de tipo inteiramente novo. Esta, ao modificar todo
o seu estilo, empreende uma viragem radical do objectivismo ingénuo
para um subjectivismo transcendental,
que em tentativas novas
e, no entanto, sempre insuficientes, aspira a uma forma final
pura.
Não
deveria, porventura, esta tendência contínua trazer em si um
sentido eterno, para nós uma tarefa ingente, a nós imposta pela própria
história, e na qual somos todos chamados a colaborar?
A
fragmentação da filosofia contemporânea no seu afã desnorteado dá-nos
que pensar. Não há que atribuí-la ao facto de as forças provenientes
das Meditações de Descartes terem perdido a sua vivacidade originária?
Não deveria o único renascimento fecundo, que
estas meditações despertam, consistir não em retomá-las, mas em
descobrir primeiro na retrocessão ao ego o sentido mais
profundo do
seu radicalismo e os valores eternos que daí brotam? De todas
as maneiras indica-se assim o caminho que levou à fenomenologia transcendental.
Edmund Husserl, Conferências de Paris,
Tradução Artur Morão
Tradução Artur Morão
Etiquetas:
Conhecimento,
Filosofia,
Husserl
quarta-feira, dezembro 12, 2012
quarta-feira, novembro 14, 2012
Dia mundial da Filosofia
Amanhã é dia mundial da Filosofia. Não é que os dias mundiais de "isto" ou "aquilo"tenham especial interesse, porque, na verdade, nenhuma autoridade superior nos pode lembrar do que é importante, mas vamos utilizar este dia como um pretexto para desafiar os leitores deste blogue.
Aqui está Sísifo (figura mítica) ao modo animado. Veja e dê-nos a sua interpretação do mito.
Helena Serrão
Etiquetas:
dia mundial da Filosofia
segunda-feira, outubro 08, 2012
"Poderá o homem pensar correctamente sem conhecer as regras e as leis exactas da lógica, utilizando-as apenas intuitivamente? Claro que há músicos que tocam um ou outro instrumento sem saberem a arte musical (em particular as notas). Mas a sua criação é limitada: não podem executar uma obra pautada nem anotar uma melodia por eles composta. Quem aprende lógica pensa de um modo mais preciso, sendo os seus argumentos mais exactos e ponderados. Comete menos erros e equivoca-se menos. O pensamento lógico não é inato, pode e deve ser desenvolvido de diferentes modos. O estudo sistemático da lógica é uma das vias mais eficientes de desenvolvimento do pensamento abstracto lógico.
A solução de problemas lógicos é um modo interessante de desenvolver o pensamento. Raymond Smulyan, matemático norte-americano, compôs numerosos problemas lógicos interessantes. Eis um exemplo: um indivíduo foi julgado por participação num roubo. Na audiência intervieram o advogado de acusação e de defesa. O primeiro disse: " Se o réu é culpado, então teve um cúmplice". O segundo objectou: " Não é verdade." e não podia ter dito coisa pior.
Deste modo, não só reconheceu a cumplicidade do seu cliente, mas tornou-o totalmente responsável pelo delito, agravando a sua futura sentença. O defensor equivocou-se porque não soube formular correctamente a sua ideia. (...).
O pensamento e a linguagem condicionam-se reciprocamente. (...) A lógica ensina a pensar clara, concisa e correctamente.(...)O conhecimento da lógica eleva a cultura do pensamento, contribui para a precisão, coerência e demonstratividade do raciocinio, aumenta a eficácia e o carácter convincente de um discurso (...).Ajuda a detectar erros lógicos na linguagem falada e nas obras escritas por outras pessoas, a encontrar vias mais breves e correctas para refutar e evitar semelhantes erros."
Alexandra Guetmanova, Lógica, Ed. Progresso, 1989, pp 4-5
Helena Serrão
Etiquetas:
Logica
quarta-feira, junho 06, 2012
Direitos dos animais e validade da argumentação
(…) Muitos
filósofos advogaram a igualdade na consideração de interesses, de uma forma ou
de outra, como um princípio moral fundamental. Só alguns reconheceram que o princípio tem aplicações para além da
nossa espécie - sendo Jeremy Bentham, o pai do moderno utilitarismo, um desses filósofos.
Numa passagem visionária, redigida numa altura em que os escravos africanos nas
possessões britânicas ainda eram tratados de uma forma muito semelhante àquela
como tratamos hoje os animais não humanos, Bentham escreveu: “Talvez chegue o
dia em que a restante criação animal venha a adquirir os direitos de que só
puderam ser privados pela mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o
negro da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos
de um torcionário. É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a
pilosidade da pele ou a terminação do *osso sacrum* (Osso situado entre o
cóccix e as vértebras lombares, a terminação do sacro é, precisamente, o
cóccix, que nos animais não humanos corresponde à cauda) são razões igualmente
insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa
poderia traçar uma linha insuperável? Será a faculdade da razão ou, talvez, a
faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um
animal mais racional, assim como mais sociável, que um recém-nascido de um dia,
de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que
serviria? A questão não está em saber se podem pensar ou falar, mas sim se
podem sofrer. (…)Bentham aponta a capacidade para sofrer como a característica vital
que confere a um ser o direito à consideração igualitária. A capacidade para sofrer
ou, mais estritamente, para sofrer e/ou para a fruição ou para ser feliz não é
apenas mais uma característica, como a capacidade para a linguagem ou para a
matemática avançada. Bentham não diz que aqueles que tentam traçar a "linha
insuperável" (que determina se os interesses de um ser devem ser considerados)
escolheram, por mero acaso, a característica errada. A capacidade de sofrer e
de gozar as coisas constitui um pré requisito para ter quaisquer interesses, uma condição que tem de ser
satisfeita antes de podermos falar de interesses com algum sentido. Seria
descabido dizer que não é do interesse de uma pedra levar um pontapé de uma
criança na rua. Uma pedra não possui interesses porque não sofre. Nada do que
lhe possamos fazer tem qualquer importância para o seu bem-estar. Um rato, pelo
contrário, tem de facto um interesse em não ser molestado, porque os ratos
sofrem se forem tratados desse modo. Se um ser sofre, não pode haver
justificação moral para a recusa de tomar esse sofrimento em consideração.
Independentemente da natureza do ser, o princípio da
igualdade exige que o sofrimento seja levado em linha de conta em termos igualitários
relativamente a um sofrimento semelhante de qualquer outro ser, tanto quanto é
possível fazer comparações aproximadas. Se um determinado ser não é capaz de
sofrer nem de sentir satisfação nem felicidade, não há nada a tomar em consideração
É por isso que o limite da senciência (para usar o termo como uma abreviatura
conveniente, ainda que não estritamente precisa, da capacidade de sofrer ou de
sentir prazer ou felicidade) é a única fronteira defensável da preocupação pelo
interesse alheio. Marcar esta fronteira com características como a inteligência
ou a racionalidade seria marcá-la de modo arbitrário. Por que motivo não
escolher uma outra característica qualquer, como, por exemplo, a cor da pele? Os
racistas violam o princípio da igualdade atribuindo maior peso aos interesses de
membros da sua própria raça quando há um confronto entre os seus interesses e
os de outra raça. Os racistas de ascendência europeia não aceitavam geralmente
que a dor contasse tanto quando sentida pelos Africanos, por exemplo, como
quando sentida pelos Europeus. Do mesmo modo, aqueles a quem
chamo"especistas" atribuem maior peso aos interesses dos membros da
sua própria espécie quando há um conflito entre esses interesses e os das
outras espécies. Os “especistas” humanos não aceitam que a dor sentida por
porcos ou ratos seja tão má como a dor sentida por seres humanos. (…), é claro
que a dor sentida por um rato não é tão má como a dor sentida por um ser
humano. Os seres humanos têm maior consciência do que lhes está a acontecer e
este facto torna o seu sofrimento mais intenso. Não se pode comparar a dor de
uma pessoa, digamos, que morre de cancro numa agonia prolongada com a de um
rato de laboratório que sofre o mesmo destino."Aceito perfeitamente que,
no caso descrito, a vítima humana de cancro sofre mais que a vítima não humana.
Este facto não põe em causa a igualdade na consideração de interesses dos não
humanos. Significa antes que temos de ter cuidado quando comparamos os
interesses de diferentes espécies. Em algumas situações, um membro de uma
espécie sofrerá mais do que o de outra. Neste caso devemos continuar a aplicar
o princípio da igualdade na consideração de interesses, mas o resultado dessa
atitude consiste, é claro, em dar prioridade ao alívio do maior sofrimento.
Peter Singer, Ética Prática
Fundamentar a moral na razão, ao modo de Kant, a partir de uma forma que é universal, uma vez que somos todos dotados de razão independentemente da raça, circunstância etc, parece-me sólido. Podemos compreender a moral como tendo inquestionável validade num quadro deste género. Mas quando utilizamos a razão na justificação de certos actos, tentando explicar porque é que são correctos ou incorrectos, através de argumentos, fica-nos aquela estranha sensação de que o contrário é igualmente argumentável, logo, igualmente moral, é o que acontece com estes argumentos de Peter Singer. Traçar uma fronteira entre quem/o quê merece ter dignidade moral e quem/o quê não a merece ter e, por isso, está ausente do quadro de direitos e deveres, é sempre um acto à partida arbitrário e cuja justificação é tão aceitável como outra que estabeleça outros critérios para demarcar a fronteira; se sofre, se tem linguagem, se tem inteligência, se é capaz de comunicação etc. Qualquer destes critérios tem um número de contra exemplos suficiente para o enfraquecer e, sendo assim, não há mesmo qualquer argumentação, no campo moral, que tenha a força de uma evidência ou implique uma plataforma comum, racionalmente aceitável por todos os sujeitos morais, ora isto enfraquece também a moral, tornando-a campo de disputa infindável e sem consenso. Por outro lado, este tipo de argumentação parece-me inútil uma vez que se utiliza para concluir algo que é evidente, isto é que os animais sofrem e como tal não devemos inflingir-lhe sofrimento. É como explicar a alguém que tem de viajar de avião que este gasta muito combustível e é poluente. A verdade é que quem viaja de avião já o sabe, por isso argumentar acerca de algo que já se sabe, não me parece um bom caminho.
Helena Serrão
Helena Serrão
Etiquetas:
Direitos dos animais,
Ética,
Peter Singer
domingo, maio 13, 2012
POSITIVISMO LÓGICO
O positivismo
lógico (...) foi a filosofia introduzida por um grupo de
filósofos europeus, chamado Círculo de Viena, no começo dos anos vinte do
século passado, e que A. J. Ayer tornou popular no mundo anglófono com o seu
livro Linguagem, Verdade e Lógica de
1936. De acordo com os positivistas lógicos, as únicas afirmações com sentido
são aquelas que podem ser verificadas através da experiência sensorial ou aquelas
que são verdadeiras apenas em virtude da sua forma e do significado das
palavras usadas. Assim, uma afirmação tem sentido se a sua verdade ou falsidade
puder ser verificada pela observação empírica (por exemplo, a investigação
científica). As afirmações da lógica ou da matemática pura são tautologias;
quer dizer, são verdadeiras por definição, simples modos de usar símbolos sem
que se expresse qualquer verdade sobre o mundo. Nada mais há que possa ser
conhecido ou discutido coerentemente. No coração do positivismo estava o
princípio da verificação, que estabelece que o sentido de uma proposição
consiste na sua verificação. Como resultado, as únicas afirmações com sentido
são as usadas na ciência, na lógica ou na matemática. Afirmações nas áreas da metafísica, da religião, da estética
e da ética são literalmente sem sentido, pois não podem ser verificadas por
métodos empíricos. Não são válidas ou inválidas. Ayer disse que ser um ateu ou
um crente é algo absurdo, uma vez que a afirmação «Deus existe» é pura e
simplesmente destituída de sentido.
Antony Flew, Deus Existe. Como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção. Lisboa, 2010.
Etiquetas:
positivismo lógico
quarta-feira, maio 02, 2012
2ª FASE 13 de JULHO
Pressione com o "rato" sobre os tópicos para saber mais pormenores.
Etiquetas:
Exames de Filosofia-Provas
Subscrever:
Mensagens (Atom)














