segunda-feira, abril 21, 2014
domingo, abril 20, 2014
Da origem da divisão entre soberano e súbdito
É certo que há algumas criaturas vivas, como as abelhas e as
formigas, que vivem sociavelmente umas com as outras (e por isso são contadas
por Aristóteles entre as criaturas políticas), sem outra direção senão seus
juízos e apetites particulares, nem linguagem através da qual possam indicar
umas às outras o que consideram adequado para o beneficio comum. Assim, talvez
haja alguém interessado em saber por que a humanidade não pode fazer o mesmo.
Ao que tenho a responder o seguinte. Primeiro, que os homens estão constantemente
envolvidos numa competição pela honra e pela dignidade, o que não ocorre no
caso dessas criaturas. E é devido a isso que surgem entre os homens a inveja e o
ódio, e finalmente a guerra, ao passo que entre aquelas criaturas tal não
acontece.Segundo, que entre essas criaturas não há diferença entre o bem comum
e o bem individual e, dado que por natureza tendem para o bem individual,
acabam por promover o bem comum. Mas o homem só encontra felicidade na
comparação com os outros homens, e só pode tirar prazer do que é eminente.
Terceiro, que, como essas criaturas não possuem (ao contrário do homem) o uso
da razão, elas não vêem nem julgam ver qualquer erro na administração de sua
existência comum. Ao passo que entre os homens são em grande número os que se
julgam mais sábios, e mais capacitados que os outros para o exercício do poder
público. E esses esforçam-se por empreender reformas e inovações, uns de uma
maneira e outros doutra, acabando assim por levar o país à desordem e à guerra
civil.Quarto, que essas criaturas, embora sejam capazes de um certo uso da voz,
para dar a conhecer umas às outras seus desejos e outras afecções, apesar
disso carecem daquela arte das palavras mediante a qual alguns homens são
capazes de apresentar aos outros o que é bom sob a aparência do mal, e o que é
mau sob a aparência do bem; ou então aumentando ou diminuindo a importância
visível do bem ou do mal, semeando o descontentamento entre os homens e
perturbando a seu bel-prazer a paz em que os outros vivem. Quinto, as criaturas
irracionais são incapazes de distinguir entre injúria e dano, e
consequentemente basta que estejam satisfeitas para nunca se ofenderem com os seus
semelhantes. Ao passo que o homem é tanto mais implicativo quanto mais
satisfeito se sente, pois é neste caso que tende mais para exibir a sua sabedoria
e para controlar as ações dos que governam o Estado. Por último, o acordo
vigente entre essas criaturas é natural, ao passo que o dos homens surge apenas
através de um pacto, isto é, artificialmente. Portanto não é de admirar que
seja necessária alguma coisa mais, além de um pacto, para tornar constante e
duradouro o seu acordo: ou seja, um poder comum que os mantenha em respeito, e
que dirija as suas ações no sentido do beneficio comum.
A única maneira de
instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros
e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente
para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam
alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem,
ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir as suas diversas vontades, por pluralidade
de votos, a uma só vontade. O que equivale a dizer: designar um homem ou uma
assembleia de homens como representante das suas pessoas, considerando-se e
reconhecendo-se cada um como autor de todos os actos que aquele que representa a
sua pessoa praticar ou levar a praticar, em tudo o que disser respeito à paz e
segurança comuns; todos submetendo assim as suas vontades à vontade do
representante, e as suas decisões à sua decisão. Isto é mais do que consentimento,
ou concórdia, é uma verdadeira unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa,
realizada por um pacto de cada homem com todos os homens, de um modo que é como
se cada homem dissesse a cada homem: Cedo e transfiro o meu direito de
governar-me a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a
condição de transferires a ele o teu direito, autorizando de maneira semelhante
todas as suas ações. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama
Estado, em latim civitas.
É esta a
geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes)
daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, a nossa paz e
defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no
Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim
inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da
paz no seu próprio país, e ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros. É
nele que consiste a essência do estado, a qual pode ser assim definida: Uma
pessoa de cujos actos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os
outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a poder usar a
força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para
assegurar a paz e a defesa comum. Àquele que é portador dessa pessoa se chama
soberano, e dele se diz que possui poder soberano.Todos os restantes são
súbditos.
Tradução de João Paulo Monteiro.
Thomas Hobbes, Leviatã, p.59,60, 61
Foto: Cartier Bresson
Etiquetas:
Filosofia política,
Hobbes
O materialismo histórico também é uma teoria objectivista- crítica a Popper
A Minha...
tese envolve a existência de dois sentidos diferentes do conhecimento ou do
pensamento: (1) o conhecimento ou pensamento
no sentido subjetivo, consistindo num estado mental,
ou de consciência ou de uma disposição para comportar-se ou agir, e (2) conhecimento ou pensamento num
sentido objetivo, consistindo em problemas, teorias e argumentos enquanto tal.
O conhecimento nesse sentido objetivo é completamente independente da afirmação
de qualquer pessoa de que sabe; é independente também da crença de qualquer um,
ou da disposição de assentir; ou de
afirmar, ou agir. O conhecimento no sentido objetivo é o conhecimento sem
conhecedor; é o conhecimento
sem um sujeito que sabe.( 1)
Num certo
sentido, o materialismo histórico, a teoria da sociedade e da mudança social
iniciada por Karl Marx é uma teoria objetivista na qual a abordagem objetivista
que descrevi em relação ao conhecimento está, aplicada à sociedade como um
todo. O objetivismo de Marx é evidente no seu conhecido comentário “não é a
consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, seu ser social
é que determina a sua consciência”.(2)
Do ponto
de vista materialista os indivíduos nascem em alguma parte de uma estrutura
social preexistente que não escolhem e a sua consciência é formada por aquilo
que eles fazem e experimentam naquela estrutura. Embora os indivíduos
possam vir a ter alguma compreensão da natureza da estrutura social em que
vivem, haverá sempre uma “separação entre a estrutura e a operação da sociedade,
e os seus reflexos distorcidos nas mentes individuais”. O resultado das ações
sociais de um indivíduo será determinado pelos detalhes desta situação e será
tipicamente bem diferente daquilo que era a intenção do indivíduo. Da mesma
forma que um físico que tenta contribuir para o desenvolvimento da física confronta-se
com uma situação objetiva, que delimita as suas possibilidades de escolha e de ação
e que influencia o resultado de sua ação, também, um indivíduo que espera
contribuir para a mudança social se confronta com uma situação objetiva, que
delimita as suas possibilidades de escolha e
ação e que influencia o resultado de tal escolha e ação. Uma análise da
situação objetiva é tão essencial para a compreensão da mudança social quanto o
é para a mudança científica.
A.F. Chalmers, O que é a Ciência afinal?,Tradução de Raul Filker, Editora Brasiliense, 1993, p.160,161
Etiquetas:
Chalmers.AF,
Epistemologia,
Popper
quarta-feira, abril 09, 2014
Sobre a teoria da justiça de Rawls
A teoria de Rawls constitui, em grande parte, uma reacção ao utilitarismo
clássico. De acordo com esta teoria, se uma acção maximiza a felicidade, não
importa se a felicidade é distribuída de maneira igual ou desigual. Grandes
desníveis entre ricos e pobres parecem em princípio justificados. Mas na
prática o utilitarismo prefere uma distribuição mais igual. Assim, se uma
família ganha 5 mil euros por mês e outra 500, o bem-estar da família rica não
diminuirá se 500 euros do seu rendimento forem transferidos para a família
pobre, mas o bem-estar desta última aumentará substancialmente. Isto
compreende-se porque, a partir de certa altura, a utilidade marginal do
dinheiro diminui à medida que este aumenta. (Chama-se "utilidade
marginal" ao benefício comparativo que se obtém de algo, por oposição ao
benefício bruto: achar uma nota de 100 euros representa menos benefício para
quem ganha 20 mil euros por mês do que para quem ganha apenas 500 euros por
mês.) Deste modo, uma determinada quantidade de riqueza produzirá mais
felicidade do que infelicidade se for retirada dos ricos para dar aos pobres.
Tudo isto parece muito sensato, mas deixa Rawls insatisfeito. Ainda que o
utilitarismo conduza a juízos correctos acerca da igualdade, Rawls pensa que o
utilitarismo comete o erro de não atribuir valor intrínseco à igualdade, mas
apenas valor instrumental. Isto quer dizer que a igualdade não é boa em si — é
boa apenas porque produz a maior felicidade total.
Por consequência, o ponto de partida de Rawls terá de ser bastante diferente.
Rawls parte então de uma concepção geral de justiça que se baseia na seguinte
ideia: todos os bens sociais primários — liberdades, oportunidades, riqueza,
rendimento e as bases sociais da auto-estima (um conceito impreciso) — devem
ser distribuídos de maneira igual a menos que uma distribuição desigual de
alguns ou de todos estes bens beneficie os menos favorecidos. A subtileza é que
tratar as pessoas como iguais não implica remover todas as desigualdades, mas
apenas aquelas que trazem desvantagens para alguém. Se dar mais dinheiro a uma
pessoa do que a outra promove mais os interesses de ambas do que simplesmente
dar-lhes a mesma quantidade de dinheiro, então uma consideração igualitária dos
interesses não proíbe essa desigualdade. Por exemplo, pode ser preciso pagar
mais dinheiro aos professores para os incentivar a estudar durante mais tempo,
diminuindo assim a taxa de reprovações. As desigualdades serão proibidas se
diminuírem a tua parte igual de bens sociais primários. Se aplicarmos este raciocínio
aos menos favorecidos, estes ficam com a possibilidade de vetar as
desigualdades que sacrificam e não promovem os seus interesses.
Mas esta concepção geral ainda não é uma teoria da justiça satisfatória. A
razão é que a ideia em que se baseia não impede a existência de conflitos entre
os vários bens sociais distribuídos. Por exemplo, se uma sociedade garantir um
determinado rendimento a desempregados que tenham uma escolaridade baixa,
criará uma desigualdade de oportunidades se ao mesmo tempo não permitir a essas
pessoas a possibilidade de completarem a escolaridade básica. Há neste caso um
conflito entre dois bens sociais, o rendimento e a igualdade de oportunidades.
Outro exemplo é este: se uma sociedade garantir o acesso a uma determinada
escolaridade a todos os seus cidadãos e ao mesmo tempo exigir que essa
escolaridade seja assegurada por uma escola da área de residência, no caso de
uma pessoa preferir uma escola fora da sua área de residência por ser mais
competente e estimulante, gera-se um conflito entre a igualdade de
oportunidades no acesso à educação e a liberdade de escolher a escola que cada
um acha melhor.
Faustino Vaz
Etiquetas:
Filosofia política,
Rawls
sexta-feira, abril 04, 2014
Como andei à procura de texto alegre para o início das férias mas, na Filosofia, nada!
(...) Volto a caminhar. O vento traz-me o grito de uma sirene. Estou
inteiramente sozinho, mas caminho como a tropa que irrompe numa
cidade. Neste momento, há navios ressonantes de música sobre o mar;
luzes acendem em todas as cidades da Europa; comunistas e nazis
trocam tiros nas ruas de Berlim; desempregados deambulam pelas ruas de
Nova York; num quarto aquecido, diante do toucador, mulheres
colocam rímel nas pestanas. E eu estou aqui, nessa rua deserta, e cada
tiro disparado de uma janela de Neukölln, cada soluço sangrento dos
feridos que são transportados, cada gesto preciso e diminuto das
mulheres que se enfeitam corresponde a cada um de meus passos, a cada
batida de meu coração (...)
Jean-Paul Sarte, A Náusea
Foto: Marilyn Silverstone, 1929
BOAS FÉRIAS
Etiquetas:
Existência,
Sartre
terça-feira, março 11, 2014
Os princípios da justiça para John Rawls
Como podes ver, a concepção geral de justiça de Rawls deixa estes problemas
por resolver. Será então indispensável um sistema de prioridades que justifique
a opção por um dos bens em conflito. E nesse caso, se escolhemos um bem em
detrimento de outro, é porque temos uma razão forte para considerar um dos bens
mais prioritário do que outro. Nesse sentido, Rawls divide a sua concepção
geral em três princípios:
Princípio da liberdade igual: A sociedade deve assegurar
a máxima liberdade para cada pessoa compatível com uma liberdade igual para
todos os outros.
Princípio da diferença: A sociedade deve promover a
distribuição igual da riqueza, excepto se a existência de desigualdades
económicas e sociais gerar o maior benefício para os menos favorecidos.
Princípio da oportunidade justa: As desigualdades
económicas e sociais devem estar ligadas a postos e posições acessíveis a todos
em condições de justa igualdade de oportunidades.
Estes três princípios formam a concepção de justiça de Rawls. Mas por si só
estes princípios não resolvem conflitos como os que viste. Se queres ter uma
espécie de guia nas tuas escolhas, é preciso ainda estabelecer uma ordem de
prioridades entre os princípios. Assim, o princípio da liberdade igual tem
prioridade sobre os outros dois e o princípio da oportunidade justa tem
prioridade sobre o princípio da diferença. Atingido um nível de bem-estar acima
da luta pela sobrevivência, a liberdade tem prioridade absoluta sobre o
bem-estar económico ou a igualdade de oportunidades, o que faz de Rawls um
liberal. A liberdade de expressão e de religião, assim como outras liberdades,
são direitos que não podem ser violados por considerações económicas. Por
exemplo, se já tens um rendimento mínimo que te permite viver, não podes
abdicar da tua liberdade e aceitar a restrição de não poderes sair de uma
exploração agrícola na condição de passares a ganhar mais. Outro exemplo que a
teoria de Rawls rejeita seria o de abdicares de gozar de liberdade de expressão
para um dia teres a vantagem económica de não te serem cobrados impostos.Em cada um dos princípios mantém-se a ideia de distribuição justa. Assim, uma desigualdade de liberdade, oportunidade ou rendimento será permitida se beneficiar os menos favorecidos. Isto faz de Rawls um liberal com preocupações igualitárias. Considera mais uma vez alguns exemplos. Um sistema de ensino pode permitir aos estudantes mais dotados o acesso a maiores apoios se, por exemplo, as empresas em dificuldade vierem a beneficiar mais tarde do seu contributo, aumentando os lucros e evitando despedimentos. Outro caso permitido é o de os médicos ganharem mais do que a maioria das pessoas desde que isso permita aos médicos ter acesso a tecnologia e investigação de ponta que tornem mais eficazes os tratamentos de certas doenças e desde que, claro, esses tratamentos estejam disponíveis para os menos favorecidos.
Faustino Vaz
Etiquetas:
Filosofia política,
Rawls
terça-feira, março 04, 2014
Verdade e sentido
As questões levantadas pela nossa sede de conhecimento provêm da nossa curiosidade acerca do mundo, do nosso desejo de investigar tudo o que é dado ao nosso aparelho sensorial. A famosa primeira frase da Metafísica de Aristóteles, "Pantes anthrõpoi tou aidenai orengotai physei." - "Todos os homens desejam por natureza saber." -quando traduzida literalmente diz: "Todos os homens desejam ver e ter visto (ou seja, conhecer)", e Aristóteles acrescenta imediatamente: "Uma indicação disto é o seu amor pelos sentidos; porque eles são amados por si sós, completamente à parte do seu uso".As questões levantadas pelo desejo de saber são em princípio todas respondíveis pela experiência e raciocínio de senso comum; estão expostas a erro e ilusão corrigidas da mesma maneira que as percepções e experiências sensoriais. Mesmo a obstinação quanto ao progresso da ciência moderna que continuamente se corrige a si própria deitando fora as respostas e reformulando as perguntas, não contradiz o objecto basilar da ciência - ver e conhecer o mundo como é dado aos sentidos - e o seu conceito de verdade é derivado da experiência de senso comum da evidência irrefutável, a qual elimina o erro e a ilusão. Mas as questões levantadas pelo pensar são tais que é da própria natureza da razão levantá-las - questões de sentido - são todas irrespondíveis pelo senso comum e pelo refinamento deste a que chamamos ciência.(...) O intelecto, o órgão do conhecimento e da cognição, é ainda deste mundo; nas palavras de Duns Eccoto, cai debaixo da influência da natureza, cadit sub natura, e transporta com ele todas as necessidades às quais está sujeito um ser vivo, dotado de órgãos dos sentidos e capacidade cerebral. O contrário de necessidade não é contingência ou acidente mas sim liberdade. (...)
Por
outras palavras não existem verdade para além e acima das verdades factuais;
todas as verdades científicas são verdades factuais, não excluindo aquelas que
são geradas pela pura capacidade cerebral e expressas em uma linguagem de
signos especialmente concebida, e só as declarações factuais são empiricamente
verificáveis. Assim, a frase "Um triângulo ri" não é não verdadeira
mas sem sentido, ao passo que a velha demonstração ontológica da existência de
Deus, como a encontramos em Anselmo de Cantuária, não é válida e neste
sentido não é verdadeira, mas é plena de sentido. "
Hannah Arendt, A vida do espírito, Vol.I, Pensar,Instituto Piaget,2011, Lx
Foto: Siskind
Foto: Siskind
Etiquetas:
Ciência,
Senso comum
segunda-feira, março 03, 2014
Rawls:argumento intuitivo da igualdade de oportunidades
Este argumento apela à tua intuição de que o destino das pessoas deve
depender das suas escolhas, e não das circunstâncias em que por acaso se
encontram. Ninguém merece ver as suas escolhas e ambições negadas pela
circunstância de pertencer a uma certa classe social ou raça. Intuitivamente
não achamos plausível que uma mulher, pelo simples facto de ser mulher,
encontre resistências à possibilidade de liderar um banco. Estas são circunstâncias
que a igualdade de oportunidades deve eliminar. Ora, estando garantida a
igualdade de oportunidades, prevalece nas sociedades actuais a ideia de que as
desigualdades de rendimento são aceitáveis independentemente de os menos
favorecidos beneficiarem ou não dessas desigualdades. Como ninguém é
desfavorecido pelas suas circunstâncias sociais, o destino das pessoas está nas
suas próprias mãos. Os sucessos e os falhanços dependem do mérito de cada um,
ou da falta dele. É assim que a maioria pensa.
Mas será que esta visão dominante da igualdade de oportunidades respeita a
tua intuição de que o destino das pessoas deve ser determinado pelas suas
escolhas, e não pelas circunstâncias em que se encontram? Rawls pensa que não.
Por esta razão: reconhecendo apenas diferenças nas circunstâncias sociais e
ignorando as diferenças nos talentos naturais, a visão dominante terá de
aceitar que o destino de um deficiente seja determinado pela sua deficiência ou
que a infelicidade de um QI baixo dite o destino de uma pessoa. Isto impõe um
limite injustificado à tua intuição. Se é injusto que o destino de cada um seja
determinado por desigualdades sociais, também o será se for determinado por
desigualdades naturais. Afinal, a tua intuição vê a mesma injustiça neste último
caso. Logo, como as pessoas são moralmente iguais, o destino de cada um não
deve depender da arbitrariedade dos acasos sociais ou naturais. E neste caso
não poderás aceitar o destino do deficiente ou da pessoa com um QI baixo.
O que propõe Rawls em alternativa? Que a noção comum de igualdade de
oportunidades passe a reconhecer as desigualdades naturais. Como? Dispondo a
sociedade da seguinte maneira: quem ganha na "lotaria" social e
natural dá a quem perde. De acordo com Rawls, ninguém deve beneficiar de forma
exclusiva dos seus talentos naturais, mas não é injusto permitir tais
benefícios se eles trazem vantagens para aqueles que a "lotaria"
natural não favoreceu. E deste modo justificamos o princípio da diferença.
Concluindo, a noção dominante de igualdade de oportunidades parte da intuição
de que o destino de cada pessoa deve ser determinado pelas suas escolhas, e não
pelas suas circunstâncias; mas esta mesma intuição consistentemente considerada
obriga a que aquela noção passe a incluir as desigualdades naturais. O que daí
resulta é precisamente o princípio da diferença. Como ninguém parece querer
abdicar do pressuposto da igualdade moral entre todas as pessoas, Rawls defende
que o princípio que melhor dá conta desse pressuposto é o princípio da diferença.
Faustino Vaz
Etiquetas:
Filosofia política,
Rawls
sábado, março 01, 2014
O argumento do contrato social hipotético: John Rawls
Imagina que não conheces o teu lugar na sociedade, a tua classe e estatuto
social, os teus gostos pessoais e as tuas características psicológicas, a tua
sorte na distribuição dos talentos naturais (como a inteligência, a força e a
beleza) e que nem sequer conheces a tua concepção de bem, ignorando que coisas
fazem uma vida valer a pena. Mas não és o único que se encontra nesta posição
original; pelo contrário, todos estão envoltos neste véu de ignorância. Rawls
afirma que esta situação hipotética descreve uma posição inicial de igualdade e
nessa medida este argumento junta-se ao argumento intuitivo da igualdade de
oportunidades. Ambos procuram defender a concepção de igualdade que melhor dá
conta das nossas intuições de igualdade e justiça. De seguida, Rawls levanta a
questão central: Que princípios de justiça seriam escolhidos por detrás deste
véu de ignorância? Aqueles que as pessoas aceitariam contando que não teriam
maneira de saber se seriam ou não favorecidas pelas contingências sociais ou
naturais. Nessa medida, a posição original diz-nos que é razoável aceitar que
ninguém deve ser favorecido ou desfavorecido.
Apesar de não sabermos qual será a nossa posição na sociedade e que
objectivos teremos, há coisas que qualquer vida boa exige. Poderás ter uma vida
boa como arquitecto ou poderás ter uma vida boa como mecânico e parece óbvio
que estas vidas particulares serão bastante diferentes. Mas para serem ambas
vidas boas há coisas que terão de estar presentes em qualquer uma delas, assim
como em qualquer vida boa. A estas coisas Rawls chama bens primários. Há dois
tipos de bens primários, os sociais e os naturais. Os bens primários sociais
são directamente distribuídos pelas instituições sociais e incluem o rendimento
e a riqueza, as oportunidades e os poderes, e os direitos e as liberdades. Os
bens primários naturais são influenciados, mas não directamente distribuídos,
pelas instituições sociais e incluem a saúde, a inteligência, o vigor, a
imaginação e os talentos naturais. Podes achar estranho que as instituições
sociais distribuam directamente rendimento e riqueza, mas segundo Rawls as
empresas são instituições sociais.
Ora, sob o véu de ignorância, as pessoas querem princípios de justiça que
lhes permitam ter o melhor acesso possível aos bens sociais primários. E, como
não sabem que posição têm na sociedade, identificam-se com qualquer outra
pessoa e imaginam-se no lugar dela. Desse modo, o que promove o bem de uma
pessoa é o que promove o bem de todos e garante-se a imparcialidade. O véu de
ignorância é assim um teste intuitivo de justiça: se queremos assegurar uma
distribuição justa de peixe por três famílias, a pessoa que faz a distribuição
não pode saber que parte terá; se queremos assegurar um jogo de futebol justo,
a pessoa que estabelece as regras não pode saber se a sua equipa está a fazer
um bom campeonato ou não. Imagina os seguintes padrões de distribuição de bens
sociais primários em mundos só com três pessoas:
Mundo 1: 9, 8, 3;
Mundo 2: 10, 7, 2;
Mundo 3: 6, 5, 5.
Mundo 2: 10, 7, 2;
Mundo 3: 6, 5, 5.
Qual destes mundos garante o melhor acesso possível aos bens em questão?
Lembra-te que te encontras envolto no véu de ignorância. Arriscas ou jogas pelo
seguro? Tentas maximizar o melhor resultado possível ou tentas maximizar o pior
resultado possível? Rawls responde que a tua intuição de justiça te conduzirá
ao mundo 3. A escolha racional será essa. A estratégia de Rawls é conhecida
como "maximin", dado que procura maximizar o mínimo.
Etiquetas:
Filosofia política,
Rawls
quinta-feira, fevereiro 27, 2014
Serão os valores morais universais?
Todos sabemos que há muitas maneiras de entender o que são direitos e vemos que variam de país para país e de cultura para cultura. Assim, propor direitos "humanos", "universais" ou "morais" não é fácil. No entanto, foi o que a Assembleia-Geral da ONU propôs em 1948: estabelecer direitos aceitáveis e obrigatórios em todos os países, qualquer que seja a sua história, orientação religiosa e filosófica e quaisquer que sejam as circunstâncias políticas e económicas. Uma vez que pretendem ser independentes das tradições e das práticas culturais particulares, estão, por isso, acima do que cada país possa estabelecer sobre eles. É nesse sentido que se dizem universais e inalienáveis. Isto quer dizer que nenhum ser humano pode ser "expropriado" destes direitos porque, se assim fosse, ficaria privado do que a Assembleia da ONU definiu : todos os seres humanos possuem igualmente dignidade.
David Stewart e Gene Blocker, Fundamentals of Philosophy, (adaptado)
Foto 1948, Cartier-Bresson
Foto 1948, Cartier-Bresson
Etiquetas:
David Stewart e Gene Blocker,
Ética,
Valores
quinta-feira, fevereiro 13, 2014
Outro sentido de bom
Assim, pois, vertidas em
origem para a parte passiva do bom, as investigações só mais tarde puderam
conduzir-se para a parte activa, a fim de estudar a conduta do homem
qualificado bom, não mais em relação aos outros, mas em relação a si
mesmo e sobretudo para dar-se conta, por um lado, do respeito objectivo que
inspira aos outros e da satisfação em si mesma especial, que atribui
evidentemente ao indivíduo, do momento em que a adquire com sacrifícios de toda
sorte; e por outro lado, da dor interna que acompanha o mau propósito, qualquer
que seja a vantagem externa que haja dado a quem o nutria. Ai tiveram origem os
sistemas de moral, tanto os que se apoiam na filosofia, quanto os que se fundam
nas religiões. Todos eles procuram reunir por algum modo a felicidade à
virtude. Os primeiros esforçam-se para chegar a esse ponto, ou por meio do
princípio de contradição, ou pelo da razão, isto é, identificando a felicidade
com a virtude, ou fazem a primeira derivar da ultima; mas não nos dão mais do
que sofismas. Os segundos crêem atingir o objectivo, admitindo outros mundos
além dos que a experiência nos pode fazer conhecer. (1) O
nosso estudo, entretanto, nos fará saber que a essência da virtude é uma
aspiração que possui efectivamente uma tendência contrária à da felicidade que
quer o bem-estar e a vida.
De quanto havemos exposto
resulta que, em virtude da sua noção, o bom é ( …) essencialmente relativo,
porque a sua natureza consiste na sua relação com uma vontade especial.
O bom absoluto é, portanto, uma contradição; o bem supremo, summum
bonum, significa a mesma coisa, isto é, uma satisfação final da vontade,
depois da qual não mais surgiriam novos desejos, motivo derradeiro cujo
cumprimento apagaria de maneira indestrutível o querer. Ora, segundo as
considerações contidas até aqui, neste quarto livro, semelhante coisa é
inadmissível. A vontade não pode encontrar uma satisfação que lhe permita não
mais recomeçar a querer, tanto quanto não poderia o tempo acabar ou começar.
Não existe para a vontade uma realização durável e para sempre satisfatória da
sua aspiração. A vontade é o tonel das Danaides. Para ela não há bem supremo,
absoluto, mas apenas um bem que é sempre provisório. Se, porém, nos
empenhássemos com o fim de dar um emprego honorário, de certa maneira a título
emérito, a uma antiga locução que não se quisesse pôr completamente fora de
uso, poder-se-ia, figuradamente e metaforicamente, denominar bem absoluto,
“summum bonum”, ao querer quando se suprime e se nega a si mesmo, à
verdadeira ausência de volição, única a apagar e sufocar para sempre a vontade,
única a dar tão grande satisfação que já não pode ser perturbada por coisa
alguma, única a redimir o mundo e disto trataremos dentro em pouco no fim deste
estudo. Pode-se considerá-la como o único remédio que cura radicalmente,
enquanto todos os outros não são mais que paliativos e anódinos. Neste sentido,
a palavra grega “(C. g.)” bem como a latina finis bonorum se aplicam
ainda melhor à coisa. Eis quanto tinha a dizer sobre as expressões bom e
mau. Agora, entremos na questão.
Quando um homem, apenas
se lhe ofereça a ocasião e nenhuma força extrema lho impeça, está sempre
disposto a agir injustamente, nós o chamamos mau. Isto significa,
segundo a nossa definição de injustiça, que esse homem não se limita a firmar o
seu querer-viver como se manifesta no seu corpo, mas estende essa afirmação até
negá-la nos outros indivíduos. Demonstra-o procurando empregar as forças desses
indivíduos ao serviço da sua vontade e destruir-lhes a existência quando se
tornam obstáculo às suas aspirações. Tudo isto resulta, em última análise,
daquele extremo egoísmo cuja natureza havemos definido anteriormente. Desde o
começo ressaltam aqui duas coisas: Em primeiro lugar, que a vivacidade
do querer-viver é excessiva em tal indivíduo e vai além da afirmação do seu
próprio corpo; em segundo lugar, que a sua consciência, submetida ao
princípio de razão e embebida do princípio de individuação, se atém
obstinadamente apegada à distinção que este último estabelece entre a sua
pessoa e todas as outras; por consequência, esse alguém não procurará senão o
próprio bem e permanecerá completamente indiferente ao dos outros; ou antes, o
próprio ser deles será estranho a seus olhos e separado deles por um largo
abismo; porque, a bem dizer, os considerará como simples fantasmas que nada têm
de real. Estes dois elementos formam a base fundamental dum carácter mau.
Foto: Rodney Smith
Etiquetas:
Ética,
Shopenhauer
segunda-feira, fevereiro 03, 2014
Rousseau: A piedade como sentimento moral
Toda a moralidade das
nossas acções está no julgamento que trazemos dentro de nós. Se é verdade que o
bem seja bem, ele deve estar no fundo dos nossos corações assim como nas nossas
obras, e o primeiro prémio da justiça é o de sentir que a praticamos. Se a
bondade moral é conforme à nossa natureza, o homem não poderia ser são de espírito
e bem constituído se não fosse bom. Se assim não for, se o homem é mau
naturalmente, ele não pode parar de o ser sem se corromper, e a bondade é nele,
não mais que um vício contra natura. Feito para lesar os teus semelhantes como
o lobo sacrifica a presa, um homem humano seria um animal tão depravado como um
miserável lobo; e só a virtude nos deixaria remorsos.
Entremos em nós próprios,
oh meu jovem amigo! Examinemos, sem qualquer interesse pessoal, aonde nos
conduzem as nossas inclinações. Qual é o espectáculo que mais nos anima, o dos
tormentos ou o da felicidade de alguém? O que nos é mais doce de fazer, e nos
deixa uma impressão mais agradável depois de o ter feito, um acto de bondade ou
um acto de mesquinhez? Por quem vos interessais nos vossos teatros? É a perversidade que vos dá prazer? É à punição
dos seus autores que dais as vossas lágrimas? Tudo nos é indiferente, dirão
eles, fora do nosso interesse: e, completamente ao contrário, as doçuras da
amizade, da humanidade, consolam-nos nas nossas dores; e, mesmo nos nossos
prazeres, seríamos demasiado solitários, demasiado miseráveis, se não tivéssemos
com quem os partilhar. Se não há nada moral no coração do homem, de onde lhe vêem
estes arrebatamentos de admiração pelas acções heróicas, estes encantamentos
amorosos pelas grandes almas? Este entusiasmo pela virtude, que relação terá
com o nosso interesse particular? Porque prefiro eu ser Catão que rasgou as
suas entranhas, a ser César triunfante?
Tirai dos nossos corações este amor do bem, tirareis todo o charme da
vida. Aqueles cujas vis paixões sufocaram a sua alma limitaram estes deliciosos
sentimentos; aquele que, à força de se concentrar dentro de si , acaba por só
se amar a si mesmo, não tem arrebatamentos, o seu coração gélido não palpita
mais de alegria; um doce enternecimento não humedece os seus olhos; não goza mais com nada; o infeliz não sente
mais, não vive mais; já está morto.
Jean- Jaccques Rousseau, Émile ou de L’Éducation,
Flammarion, 1966, pág.373,374
Tradução de Helena Serrão
Fotografia de Rodney Smith
A moral fundada na natureza humana, mais propriamente no sentimento (no coração) como o que nos aproxima do outro e desse modo encontrar nele aquilo que encontramos em nós, o que poderíamos chamar de empatia ou numa linguagem herdeira das virtudes cristãs, a piedade como inclinação para sentir os outros como iguais, na sua humanidade de dores e alegrias. Contrariamente aos princípios do sistema moral de Kant, esta proposta de Rousseau parece-me mais enriquecedora e essencial porque, podendo correr mais riscos uma vez que o sentimento tem atrás de si toda uma tradição filosófica negativa, a suspeita de ser volátil e nos tornar vulneráveis, é por outro lado o que nos impele para o outro, num sentido amoroso e o que nos impede de o molestar.
domingo, janeiro 12, 2014
Arte, filosofia e ciência. Pensamento e cognição.
A fonte imediata da obra de arte é a capacidade
humana de pensar, da mesma forma que a “propensão
para a troca e o comércio” é a fonte dos objectos de uso. Tratam-se de
capacidades do homem, e não de meros atributos do animal humano, como
sentimentos, desejos e necessidades, aos quais estão ligados e que muitas vezes
constituem um só conteúdo. Esses atributos humanos são tão alheios ao mundo que
o homem cria como seu lugar na terra, como os atributos correspondentes de outras
espécies animais; se tivessem de constituir um ambiente fabricado pelo homem
para o animal humano, esse ambiente seria um não-mundo, resultado de emanação e
não de uma criação. A capacidade de pensar relaciona-se com o sentimento,
transformando a sua dor muda e inarticulada, do mesmo modo que a troca
transforma a ganância crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado da
necessidade — até que todos se tornem dignos de entrar no mundo transformados
em coisas, reificados (coisificados). Em cada caso, uma capacidade humana que, por sua própria
natureza, é comunicativa e voltada para o mundo, transcende e transfere para o
mundo algo muito intenso e veemente que estava aprisionado no ser. (…)
O pensamento difere da cognição. Fonte das obras de
arte, o pensamento manifesta-se, sem transformação ou transfiguração, em todas
as grandes filosofias, ao passo que a principal manifestação dos processos
cognitivos, através dos quais adquirimos e armazenamos conhecimento, são as ciências.
A cognição tem sempre um fim definido, que pode resultar de considerações práticas
ou de “mera curiosidade”; mas, uma vez atingido esse fim, o processo cognitivo
termina. O pensamento, ao contrário, não tem outro fim ou propósito além de si
mesmo, e não chega sequer a produzir resultados; não só a filosofia utilitária
do homo faber, mas os homens de acção e os cientistas que procuram
resultados, nunca se cansaram de dizer quão “inútil” é o pensamento –
realmente, tão inútil como as obras de arte que inspira. O pensamento não pode
sequer alegar que fez estas obras de arte, pois elas, como os grandes sistemas
filosóficos, não podem ser propriamente chamadas resultado do pensamento puro,
estritamente falando, uma vez que é precisamente o processo de pensar que o artista
ou o filósofo que escreve deve interromper e transformar para reificar a sua
obra. A actividade de pensar é tão incessante e repetitiva coo a própria vida;
perguntar se o pensamento tem algum significado equivale a recair no mesmo
enigma irrespondível do significado da vida; os processos do pensamento
impregnam tão intimamente toda a existência humana que o seu começo e o seu fim
coincidem com o começo e o fim da própria existência humana. Assim, embora o
pensamento inspire a mais alta produtividade mundana do hommo faber, não
é de modo algum uma sua prerrogativa; começa a afirmar-se como fonte de
inspiração do hommo faber apenas quando este se ultrapassa, por assim
dizer, e se põe a produzir coisas inúteis, objectos que não têm qualquer relação
com as necessidades materiais ou intelectuais, com as necessidades físicas do
homem ou com a sua sede de conhecimento. Por outro lado, a cognição é
pertinente a todos os processos, não apenas intelectuais ou artísticos como a
própria fabricação, ela é um processo que tem um começo e um fim, cuja
utilidade pode ser posta à prova e que, se não produzir resultados , terá
fracassado, como fracassa a arte do carpinteiro quando ele fabrica uma mesa de
duas pernas. Os processos cognitivos das ciências não diferem basicamente da
função da cognição na fabricação; os resultados produzidos através da cognição
são acrescentados ao artifício humano como todas as outras coisas.
Hannah Arendt, A condição Humana, Relógio D´Agua,
Lx,2001, pag. 208,212.
Foto: Josef Koudelka, 1938
O pensamento como mais vasto que a actividade de cognição e ao contrário desta como improdutivo, no seu labor incessante é basicamente inútil, do ponto de vista da produção de coisas mas, por outro lado, é a origem das coisas perenes como arte e filosofia que se juntam aos artefactos humanos quando se materializam mas que se distinguem destes (objectos de utilidade)por serem mais duráveis ou por instaurarem no mundo algo único, semelhante ao imortal no mundo produzido onde a transformação e a destruição são constantes.
Etiquetas:
Arendt,
Arte,
Conhecimento,
Epistemologia
sexta-feira, dezembro 27, 2013
O homem moderno e a descrença na Filosofia
A inversão de que trato aqui, a consequência das descobertas de Galileu, embora tenha sido muitas vezes interpretada em termos de inversões tradicionais (1) e, portanto, como integrando a história ocidental das ideias, é de natureza completamente diferente. A convicção de que a verdade objectiva não é dada ao homem e que ele só pode conhecer aquilo que ele mesmo faz não advém do cepticismo, mas de uma descoberta demonstrável e, portanto não leva à resignação, mas a uma actividade redobrada ou ao desespero. A perda do mundo na filosofia moderna, cuja introspecção descobriu a consciência como sentido interior com o qual o indivíduo sente os seus sentidos, e verificou que ela era a única segurança da realidade, difere não só em grau da antiga suspeita dos filósofos em relação ao mundo e aos outros seres que com ele compartilhavam o mundo; agora, o filósofo já não volta as costas a um mundo de enganosa perecibilidade para encarar outro mundo de verdade eterna mas volta as costas a ambos e recolhe-se dentro de si mesmo. O que descobre na região do ser interior, é, novamente, não uma imagem cuja permanência pode ser observada e contemplada, mas, pelo contrário, o constante movimento da percepções sensoriais e a actividade mental, em movimento não menos constante. Desde o século XVII, a filosofia produziu os seus melhores e menos discutidos resultados quando investigava, num supremo esforço de auto-inspecção, os processos dos sentidos e da mente. Sob este aspecto grande parte da filosofia moderna é, realmente uma teoria da cognição e da psicologia; e nos poucos casos em que as potencialidades do método cartesiano de introspecção foram plenamente realizadas por homens como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche, somos tentados a dizer que os filósofos experimentaram com o próprio ser não menos radicalmente e talvez mais afoitamente que os cientistas experimentaram com a natureza.
Por
mais que possamos admitir a coragem e respeitar a extraordinária engenhosidade
dos filósofos no decurso de toda a era moderna, não se pode negar que a sua
influência e a sua importância diminuíram como nunca antes ocorrera. Não foi no
pensamento da Idade Média, mas no da era moderna, que a filosofia passou a
segundo ou mesmo a terceiro plano. Depois de Descartes ter baseado a sua
filosofia nas descobertas de Galileu, a filosofia parece condenada a seguir
sempre um passo atrás dos cientistas e das suas descobertas, ainda mais
espantosas que as de Galileu cujos princípios tenta arduamente descobrir ex post facto e ajustar a alguma interpretação geral
da natureza do conhecimento humano. Como tal, porém a filosofia não era
necessária aos cientistas que - pelo menos até ao nosso tempo – acreditavam não
precisar de uma serva, e muito menos de uma que pretendesse “carregar o archote
à frente da sua preciosa ama” (Kant). Os filósofos tornaram-se
epistemologistas, preocupados com uma teoria geral da ciência da qual os
cientistas não necessitavam, ou tornaram-se realmente aquilo que Hegel queria
que fossem: os órgãos do Zeitgeist,
os porta-vozes através dos quais o estado de espírito geral da época era
expresso com clareza conceptual. Em ambos os casos quer pesquisassem a natureza
ou a história, tentavam compreender e fazer face ao que estava a acontecer sem
a sua ajuda. Obviamente a filosofia sofreu mais com a modernidade que qualquer
outro campo de ocupação humana; e é difícil dizer que sofreu mais em
decorrência da quase automática elevação da actividade a uma dignidade
completamente inesperada e sem precedentes ou da perda da verdade tradicional,
ou seja, do conceito de verdade que havia por trás de toda a nossa tradição.
Hannah
Arendt, A condição Humana, Relógio D’Água, Lisboa 2001, pág. 359, 360, 361
(1) A
inversão operada por Platão coloca-se em relação aos conceitos Homéricos; assim
a vida em comum é a caverna quando para Homero seria a luz, pelo contrário para Platão a luz é
a da alma fora da convivência com os outros homens. O que em Homero era sombra,
a alma, é em Platão o inverso, é o corpo que é a sombra da alma. Exemplo que,
para Arendt, pretende demonstrar a inversão operada pela filosofia em relação
aos conceitos de acção e contemplação tradicionais. A vida activa dos filósofos
é a vida do pensamento que pressupõe o prévio afastamento e a distanciação da
vida mundana da polis mas que não prescinde dela, pelo contrário, deverá querer
modelá-la e transformá-la de acordo com o seu lugar privilegiado, ou
compreendê-la conceptualmente e impor-lhe limites éticos.
Essa
inversão operada por Platão da vida activa para a vida contemplativa, na
hierarquia das actividades consideradas superiores, vai ter como consequência o
afastamento progressivo da
filosofia dos assuntos mundanos e consequentemente da sua capacidade para
intervir no mundo real, no mundo dos acontecimentos. Com a introdução do
conhecimento moderno esta hierarquia vai viver um novo estatuto, a vida activa
e a vida contemplativa ganham um novo significado; a vida activa é condicionada
pela produção, o homem da polis, destinado segundo a tradição grega, aos
grandes feitos e grandes palavras, dá lugar ao homem fazedor, aquele que produz
os instrumentos que permitem transformar o mundo, o que é o mesmo que produzir
um outro mundo não acessível aos sentidos, (uma vez que o mundo que é dado a ver por estes novos instrumentos não é o mundo que se vê em comum)o mundo científico/tecnológico. A
Filosofia ficará remetida para o exame da consciência, afastamento do comum na
medida em que o produto da consciência é algo que não pode ser partilhado
enquanto fluxo incessante de representações. Marca de uma outra inversão em relação ao projecto
filosófico da tradição antiga que exigia distanciação em relação ao comum de
modo a compreendê-lo, o novo projecto busca a compreensão do sujeito
enquanto singularidade, o comum passa a ser, não o espaço sensível dos
acontecimentos mas o espaço universal da linguagem racional, a matemática,
concebido como o único espaço onde os humanos se podem entender. Deste
modo a linguagem da Filosofia passa a ser algo fora da linguagem comum, algo
sobre o qual os homens não se entendem, um espaço de ideias que não versam o
mundo exterior ao homem e também não versam o que é comum aos homens.
Helena Serrão
Etiquetas:
Arendt,
História da Filosofia
quinta-feira, dezembro 05, 2013
Sartre:a liberdade
A existência humana é
irredutível a qualquer tentativa de explicação objectiva,
porque o homem não é uma coisa, não é um objecto, mas um
sujeito, uma subjectividade que é constantemente
desafiada a determinar-se
livremente.
É por isso que Sartre defende a liberdade do homem, ou seja, a sua
transcendência, em filosofia,
"Transcendência"
opõe-se a "imanência"; Isto significa que a lei do objeto é imanente,
uma vez que não é nada mais do que um
conjunto de leis físicas que o explicam.
O homem, pelo contrário,
não é nada por si só, mas ao contrário, é movimento de se transcender constantemente a si mesmo, de se projectar para fora de si, (…)O que significa em francês o Verbo "ex-sister" "existir; sair de si.
Dizer que o homem é livre, é afirmar que ele não nada "em si" (só a coisa é em si), mas que se define pela forma como existe. A existência é assim o movimento de ultrapassagem, de
Dizer que o homem é livre, é afirmar que ele não nada "em si" (só a coisa é em si), mas que se define pela forma como existe. A existência é assim o movimento de ultrapassagem, de
negação do dado imediato e do momento presente.
A coisa é o que ela é, enquanto o homem, diz Sartre, não é nada, o que não significa que não existe, mas que existe de um certo modo que consiste em mover-se sempre para a frente, nunca se contentar com o que tem ou o que é. O homem é projecto, negação ininterrupta de tudo, a começar por si mesmo (o homem é desejo, isto é, insatisfação permanente, uma vez que o desejo,
ao contrário da
necessidade, nunca encontra objecto à sua medida).
Conférence-débat avec Philippe FONTAINE,Sèvres, 2008
Tradução de Helena Serrão
Foto: Bruce Gilden
Tradução de Helena Serrão
Foto: Bruce Gilden
Etiquetas:
Liberdade,
Metafísica,
Sartre
quinta-feira, novembro 14, 2013
Como distinguir acção e acontecimento?
Encontramos uma conexão ainda mais directa entre o conceito de acção e conceitos como responsabilidade, culpa, bem e mal. Se há algo pelo qual somos responsáveis, então deve haver alguma coisa que depende de nós, algo que podemos fazer ou que podíamos ter feito. Se estas palavras têm sentido, então nem tudo pode depender das circunstâncias ou dos meros acontecimentos. Queremos que tenham sentido, por isso queremos que existam acções.
Mas haverá alguma acção? Esta questão pode parecer bizarra, até porque haverá algo mais evidente do que isto? A filosofia, no entanto, não se permite ficar satisfeita com esse nível da evidência. Seria seguramente falso negar que desenhamos uma linha ténue entre acontecimentos e aquilo que pensamos serem acções. Mas isto não é uma prova nem da validade desta distinção nem da existência de acções. Podemos estar enganados. A filosofia da acção começa quando paramos de atribuir valor a essas pressuposições diárias.
Se existem ou não acções não é algo que possamos responder através da observação directa. Aqueles que duvidam da existência de acções não estão a questionar aquilo que todos percebem. Estão a questionar o facto de saber se os conceitos que habitualmente usamos para descrever e interpretar essas observações são apropriados ou até consistentes. Se não são, leva-nos a uma resposta negativa à nossa questão: se acção é um conceito inconsistente, não pode haver acções, do mesmo modo que não pode haver círculos quadrados. Logo, a própria análise do conceito de acção é um tópico central da filosofia da acção.
Suspeitas acerca da própria consistência do conceito de acção, bem como acerca da distinção entre acções e acontecimentos, podem aparecer mesmo ao nível das perspectivas científicas. Se levamos a ciência a sério, então somos obrigados a reflectir sobre a possibilidade de reconciliar a visão científica com a concepção comum da realidade, já que elas parecem ser, se não contraditórias, pelo menos altamente díspares. As perspectivas científicas congratulam-se com acontecimentos explicados por outros acontecimentos anteriores ou por outros acontecimentos simultâneos com a ajuda de leis. Mas se pensarmos em nós como agentes, concebemo-nos como seres capazes de iniciar alterações no mundo independentemente da sua história prévia. Agentes e acções, então, enfrentarão dificuldades se procurarem um lugar no plano científico.
A atitude de suspeição ou de cepticismo relativamente à acção apresenta-se de formas diversas, desde propostas eliminativistas até propostas mais ou menos reducionistas. Para que o leitor fique com uma ideia do que possa ser uma atitude reducionista, comecemos com um episódio que ninguém hesitaria classificar como acção: beber um copo de água. Que direito temos de chamar isto de acção e não apenas de acontecimento? Onde reside o carácter adicional deste episódio? O que fiz eu? A água entra na minha boca como efeito da gravidade. Este movimento, por sua vez, foi provocado pelo movimento do copo. Onde está a acção aqui? Bem, alguém pode sempre dizer que se causei o acontecimento, então agi. Mas pense que este movimento pode ser exactamente causado pelo movimento da minha mão e do meu braço, que por sua vez foram causados por alguns movimentos de contracção dos músculos, que por sua vez foram provocados por alguns disparos neuronais, e assim sucessivamente. Uma acção assim parece dissolver-se e reduzir-se a uma sequência de acontecimentos. A nossa distinção vulgar entre acções e acontecimentos começa a desvanecer-se; parece que chamamos "acção" ao que na realidade não é mais do que uma série de eventos causalmente relacionados. Apelar para desejos não resolve a questão, já que o nosso desejo por água é provavelmente um estado causado por privação orgânica. A cadeia de eventos estende-se cada vez mais no passado e parece nada haver que nós, como agentes, tenhamos iniciado, nenhuma acção, só sempre mais e mais acontecimentos. Então as acções parecem não ser outra coisa senão sequências específicas de acontecimentos.
Carlos J. Moya
O conceito de acção parece multiplicar-se em justificações na proporção directa em que nenhuma definição satisfaz, são todas incompletas, mais que incompletas, insatisfatórias. Os próprios alunos já colocaram a questão: "Estou a mastigar". É um acontecimento um movimento que altera o mundo, isto é que é visível. A noção de que aquele movimento não é um acontecimento mas uma acção, reside na suposição de que aquele que está a mastigar não é uma máquina mas um ser dotado de uma consciência intencional, esse dado pode levar-nos a distinguir a acção de um acontecimento através das razões e intenções que residem no agente. Todavia em nada pode alterar este acontecimento: "Mastigar" o facto do agente dar a este mastigar o significado de estar a tomar o pequeno almoço. A sua acção continua a ser mastigar, ou o acontecimento que está a ocorrer e que nenhuma descrição intencional pode alterar é a de que " Estou a mastigar"
Helena Serrão
Fotografia de Ara Guler
Helena Serrão
Fotografia de Ara Guler
Etiquetas:
Acção,
Carlos Moya
quarta-feira, outubro 23, 2013
O sentido da política
A pergunta
sobre o sentido da política e a desconfiança em relação à política são muito
antigas, tão antigas quanto a tradição da filosofia política. Elas remontam a
Platão e talvez até mesmo a Parménides e nasceram de experiências muito reais
de filósofos com a polis: significa a forma de organização do
convívio humano, que determinou, de forma tão exemplar e decisiva, aquilo que
entendemos hoje por política que até mesmo a nossa palavra para isso, em todos os
idiomas europeus, deriva daí.
Tão antigas
quanto a pergunta sobre o sentido da política são as respostas que justificam a
política; quase todas as classificações ou definições da coisa política que
encontramos na nossa tradição são, quanto ao seu conteúdo original, justificações.
Falando de maneira bastante geral, todas essas justificações ou definições
têm como objectivo classificar a política como um meio para um fim mais elevado,
sendo a determinação dessa finalidade bem diferente ao longo dos séculos.
Contudo, essa diferença também pode ser reduzida a algumas poucas respostas
básicas, e o facto de assim ser indica a simplicidade elementar das coisas com
as quais temos de lidar aqui.
A política,
assim aprendemos, é algo como uma necessidade imperiosa para a vida humana e,
na verdade, tanto para a
vida do indivíduo como da sociedade. Como o homem não é autárquico, porém
depende de outros na sua existência, precisa haver um provimento da vida
relativo a todos, sem o qual não seria possível justamente o convívio. Tarefa e
objectivo da política é a garantia da vida no sentido mais amplo. Ela
possibilita ao indivíduo procurar os seus objectivos, em paz e tranquilidade, ou
seja, sem ser incomodado pela política — sendo antes de mais nada indiferente em
quais esferas da vida se situam esses objectivos garantidos pela política, quer
se trate, no sentido da Antiguidade, de possibilitar a poucos a ocupação com a
filosofia, quer se trate, no sentido moderno, de assegurar a muitos a vida, o
ganha-pão e um mínimo de felicidade. Como além disso, conforme Madison observou
um dia, trata-se nesse convívio de homens e não de anjos,5 o provimento da vida só pode realizar-se através de
um Estado, que possui o monopólio do poder e impede a guerra de todos contra
todos.
Comum a
essas respostas é o fato de elas se julgarem naturais, de que a política existe
e existiu sempre e em toda parte, onde os homens convivem num sentido
histórico-civilizacional. Para esse carácter natural, costuma-se recorrer à
definição aristotélica do homem enquanto ser político, e esse recurso não é
indiferente porque a polis determinou de maneira decisiva, tanto em
termos de idioma como de conteúdo, a concepção europeia do que seria política
originalmente e que sentido ela tem. Tampouco é indiferente porque a citação de Aristóteles baseia-se num equívoco também bastante antigo, embora pós-clássico.
Aristóteles, para quem a palavra politikon era de fato um adjectivo da
organização da polis e não uma designação qualquer para o convívio
humano, não achava, de maneira nenhuma, que todos os homens fossem políticos ou
que a política, ou seja, a polis, houvesse em toda parte onde viviam
homens. Da sua definição estavam excluídos não apenas os escravos, mas também
os bárbaros asiáticos, os reinos de governo despótico, de cuja qualidade humana
não duvidava, de maneira alguma. Ele julgava ser apenas uma característica do
homem o facto de poder viver numa polis e que essa organização da polis
representava a forma mais elevada do convívio humano; por conseguinte, é
humana num sentido específico, tão distante do divino que pode existir apenas
para si em plena liberdade e independência, e do animal cujo estar junto, onde
existe, é uma forma da vida na sua necessidade. Portanto, a política na acepção
de Aristóteles — e Aristóteles não reproduz aqui, como em muitos outros pontos
dos seus escritos políticos, a sua opinião sobre a coisa, mas sim a opinião
compartilhada por todos os gregos da época, embora em geral não articulada —
não é, de maneira nenhuma, algo natural e não se encontra, de modo algum, em
toda parte onde os homens convivem. Ela existiu, segundo a opinião dos gregos,
apenas na Grécia e mesmo ali num espaço de tempo relativamente curto.
Etiquetas:
Arendt
domingo, setembro 15, 2013
"Depois, quando souber já muitas coisas, quero ainda
da sua mutação se introduza nas minhas
articulações; quero ter uma existência breve
nos seus olhos que me seguram
e lentamente me soltam, serenamente, sem me julgarem."
Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno, pág 121
BOM ANO PARA TODOS!
sábado, agosto 24, 2013
Albert Camus: As doutrinas messiânicas
O
messianismo científico de Marx, esse é de origem burguesa. O progresso, o futuro
da ciência, o culto da técnica e da produção são mitos burgueses que se constituíram
como dogmas no século XIX. Note-se que o “Manifesto Comunista” aparece no mesmo
ano de “ O Futuro da Ciência” de Renan. Esta última profissão de fé,
consternante aos olhos do leitor contemporâneo, dá ao mesmo tempo a ideia justa
das esperanças quase místicas provocadas no século XIX pelo desenvolvimento
da industria e do progresso surpreendentes da ciência. Essa esperança é a
da sociedade burguesa por si mesma, a única beneficiária do progresso técnico.
A noção de progresso é
contemporânea da época das luzes e da revolução burguesa. Podemos, sem dúvida,
encontrar os seus inspiradores no século XVII; já a disputa entre Antigos e Modernos
introduzia, na ideologia europeia, a noção perfeitamente absurda de um progresso
artístico. De forma mais séria podemos também retirar do cartesianismo a ideia
de uma ciência que vai crescendo sempre. Mas é Turgot quem primeiramente
dá, em 1750, uma definição clara da nova fé. O seu discurso sobre o progresso
do espírito humano retoma, no fundo, a história universal de Bossuet. Substitui-se
apenas a Vontade divina, pela ideia de progresso. “ A massa total do género
humano, através das alternativas da calma e da agitação, do bem e do mal,
caminha sempre, embora a passo lento, para uma perfeição maior.” (v.Les Illusions du Progrès.)
Optimismo é o que
fornece de essencial as considerações retóricas de Condorcet, doutrinário
oficial do progresso que ligava ao progresso do Estado e do qual foi,
também ,a vítima oficial, pois o Estado das luzes forçá-lo-ia envenenar-se.
Sorel tinha toda a razão em dizer que a filosofia do progresso era precisamente
aquela que convinha a uma sociedade ávida para gozar a prosperidade material
devida aos progressos técnicos. A partir do momento que asseguramos que amanhã,
dentro da ordem mesma do mundo, será melhor que hoje, podemos divertir-nos em
paz.”
Albert Camus, L´homme revolté, Gallimard, 1951, pág.
Tradução de Helena Serrão
Apesar de Marx ter negado a verdade à doutrina cristã, a concepção de uma história onde se cumpre um fim, o advento do proletariado como classe dominante, entronca sem contradição ou conflito na noção mais vasta de um progresso constante, que pode ter retrocessos, mas que se cumprirá seja qual for a vontade dos homens. A complementaridade com uma visão cristã defensora de um fim último: o reino de Deus, é notória. Cristianismo e marxismo convergem nessa ideia de um progresso inevitável inscrito numa ordem do mundo que é a ordem da história que se faz ao arrepio das vontades individuais e, nesse aspecto, asseguram ambos, porque o justificam, as atrocidades e injustiças da própria marcha da história que sendo feita pelos homens e não segundo uma qualquer ordem que os transcende, se repete sem remissão.
Helena Serrão
Etiquetas:
Albert Camus,
Ética,
História da Filosofia
quarta-feira, julho 24, 2013
Shopenhauer: A necessidade de consolo e fuga
Fotograma de um filme de Tarkovski " A infância de Ivan"
Quem sofre se oculta sempre; ao contrário,
cada qual põe em evidência aquilo que pode adquirir em fausto e magnificência,
e, quanto mais lhe falta a satisfação interna, tanto mais deseja passar por
feliz na opinião alheia; a estultice dos homens é de tal modo feita que a
opinião alheia é um dos escopos principais da sua existência, ainda que a
nulidade desse escopo esteja expressa perfeitamente bem em quase todos os
idiomas, em que a palavra vaidade, vanitas, significa em origem,
vacuidade, nada. Mas também sob esse esplendor cintilante, os tormentos da vida
podem facilmente assumir proporções tamanhas, como sucede quotidianamente, que
nos façam recorrer com ansiedade a essa mesma morte, que em outras
circunstâncias tanto se teme. E mais ainda: quando a sorte quer explicar toda a
sua perfídia, pode tolher a quem sofre também este refúgio derradeiro,
deixando-o à mercê de inimigos cruéis, destinado, sem salvação possível, a
lentas torturas. Em vão o infeliz chama, então, por seus deuses em socorro:
Fica inexoravelmente abandonado ao seu destino. Mas esta impossibilidade de
salvação não é mais que o espelho da natureza indomável da sua vontade, de que
sua pessoa constitui a objetividade. Tanto quanto uma força externa é impotente
para mudar ou suprimir a vontade, na mesma razão nenhuma força estranha pode
libertar o homem das dores inerentes à vida, a qual é o fenómeno de tal
vontade. O homem está sempre constrito às próprias forças em qualquer caso, sem
excetuar o mais importante. Em vão cria deuses para obter-lhes com súplicas ou
adulações aquilo que somente a sua força de querer pode dar-lhe. Se o Velho Testamento
fez do mundo e dos homens uma obra de Deus, o Novo, em compensação, para ensinar-nos
que a salvação e a redenção da miséria do mundo não podem vir senão do mundo mesmo,
viu-se constrangido a incarnar esse Deus. A vontade do homem é e será sempre aquilo
de que tudo depende para ele. Maníacos, mártires, santos, qualquer que haja
sido seu credo ou o seu nome, livre e voluntariamente submeteram-se a todos os
suplícios, porque neles o querer-viver tinha cessado; e então a lenta
destruição do seu fenómeno se lhes tornava em verdade desejável. Mas não quero
antecipar-me sobre o objeto das considerações próximas. Demais, devo declarar
que o otimismo, se não é um simples despropósito de gente cujo cérebro
vulgar não encerra mais do que palavras, parece-me opinião não apenas absurda como
também ímpia, porquanto constitui uma decisão amarga em face às inumeráveis
dores da humanidade. Não é preciso crer que a doutrina de Cristo seja favorável
ao otimismo, porque efetivamente, em sentido contrário, nos Evangelhos o mundo
e o mal são termos empregados mais ou menos como sinónimos.
Arthur Schopenhauer, O Mundo como
vontade e representação, página 40
Tradução: Heraldo Barbuy
Texto digitalizado pelo grupo Acrópolis (Filosofia)
Publicação, aqui na Logosfera, em tempo de praia e Verão, dos autores da Suspeita, todos eles emancipadores da vontade do homem, única e descontrolada força ao serviço dos mais confusos ideais ou bens, tangíveis objetivos, quase sempre manietada e manipulada por vontades coletivas ou por ilusões. Possivelmente, hoje, faz todo o sentido.
Etiquetas:
Determinismo,
Livre-arbítrio,
Shopenhauer
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















