Quando estudamos teorias científicas sobretudo na área que detém o maior impacto sobre a vida das pessoas, área médica, não podemos deixar de cruzar os desenvolvimentos do conhecimento com os interesses mercantis, pois o conhecimento científico ligado às ciências médicas, por ter um alcance prático fundamental aliado ao mito da verdade científica, conduz a uma área obscura em que conhecimento e manipulação deste para fins eminentemente comerciais pode gerar práticas e usos de medicamentos de forma abusiva e quiça prejudicial, contribuindo para que as melhorias na vida das pessoas sejam apenas aparentes e ligadas a interesses imediatistas que nada têm a ver com a real melhoria na saúde e hábitos sociais. Veja-se a polémica relativa ao uso da RITALINA, remédio usado para a (pretensa ou real?) doença catalogada pela OMS e que detém o pomposo nome de "Perturbação de hiperactividade com distúrbio de atenção". Como professora já tive alunos que tomavam diariamente este fármaco e sempre me perguntei, visto que as crianças que o usavam revelavam dificuldades na retenção e assimilação de conteúdos, como seriam estas crianças e adolescentes se não tivessem sob a influência desta droga.Este artigo vem confirmar algumas das minhas suspeitas.
segunda-feira, junho 06, 2016
domingo, maio 29, 2016
O Poder dos Mitos
Rubens, Prometeu agrilhoado, 1610
A lenda tenta explicar o que não se pode explicar; porque vem de um fundamento de verdade, tem que terminar no que não se pode explicar.
De Prometeu conhecemos quatro lendas. Diz a primeira que ele foi agrilhoado ao Cáucaso por ter traído os deuses aos homens e que os deuses enviaram águias que lhe devoraram o fígado que se renovava sem fim.
Diz a segunda que, com a dor das bicadas que o atormentavam, Prometeu se apertou cada vez mais contra o rochedo até se tornarem um.
Diz a terceira que passados milhares e milhares de anos a sua traição foi esquecida, os deuses esqueceram, as águias, ele próprio.
Diz a quarta que todos se cansaram do que já não tinha fundamento. Os deuses cansaram-se, as águias. A ferida fechou-se cansada. Restou o rochedo inexplicável.
Franz Kafka, Contos, 2005, Relógio D'Água, Lx, p.41
A virtude deste texto é a de produzir uma sensação de temporalidade que afecta não só os protagonistas, como as histórias e os seus leitores. A História passa a histórias e nenhum mito sobrevive no absoluto da sua tragédia. O tempo acaba por fazer desaparecer os seus contornos mais fortes e exemplares e desvanece a tragédia, ficando apenas a memória longínqua do que inventámos para explicar o inexplicável. É a derrota dos mitos e a permanência do inexplicável. Discordo de Kafka apesar de admirar a lassidão pessimista deste texto. Os mitos não fracassaram, pelo contrário, a sua força não é como a das teorias científicas, estas vão sendo substituídas sem deixarem rasto, pois prevalece a que gera mais resultados positivos no domínio sobre a natureza. A força dos mitos não se pode medir em termos de resultados positivos, ela está na eloquência, na imaginação, no poder de evocar imagens poderosas. Adaptados ou recriados os mitos não desaparecem nem são substituídos, vão apontando as condições através das quais compreendemos melhor a nossa humanidade e assim, através dessa vaga compreensão, nos aproximamos dela.
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quinta-feira, maio 19, 2016
Para uma Filosofia da Arte Conceptual
Sol LeWitt, EUA, 19228/2017 "Janelas" 1980
Embora seja enganador categorizar LeWitt como restrito "puro"
(por oposição a "primeiro") artista conceptual, ele não deixa de ser amplamente considerado muito influente na produção e recepção desta arte, através da publicação, no verão
1967 e em Janeiro de 1969, dos seus "Parágrafos" e"Sentenças"
sobre a Arte Conceptual. Apesar destes textos serem geralmente lembrados como reivindicações programáticas, por exemplo: " a ideia é a máquina que faz a arte "ou " as ideias sozinhas podem ser obras de arte", são também impressionantes quando
revistos à luz da anterior consideração da teoria de Kant sobre a arte como expressão de ideias estéticas.
Consideremos as seguintes generalizações
empíricas que LeWitt faz sobre a nova arte, em 1967:
• Este tipo de arte não é teórica ou ilustrativa de teorias;
é intuitiva, ela está envolvida com todos os tipos de processos mentais e é
inútil.
• Arte Conceptual não é necessariamente lógica [...] As
ideias são descobertas por intuição.
• A Arte Conceptual não tem na realidade muito a ver com a
matemática, a filosofia, ou qualquer outra disciplina mental.
• A Arte Conceptual é feita para envolver a mente do
espectador, ao invés da sua visão ou emoções.
• A Arte Conceptual só é boa quando a ideia é boa.
(...)
Estas preocupações são ainda mais pronunciadas nos "Sentenças
sobre Arte Conceptual” publicadas um ano e meio mais tarde:
• Os artistas conceptuais são místicos ao invés de
racionalistas. Saltam para conclusões que a lógica não pode alcançar.
• Os julgamentos racionais repetem julgamentos racionais. Os
juízos ilógicos conduzem a novas experiências.
• As Ideias não procedem necessariamente por ordem
lógica.
• Uma vez que a ideia da peça tenha sido estabelecida na mente do artista e a sua forma
final decidida, o processo é realizado de forma cega.
• O processo é mecânico e não deve ser interrompido
(adulterado). Deve executar o seu curso.
• A vontade do artista é secundária em relação ao processo que inicia desde a ideia até à conclusão. A sua obstinação só pode ser ego."
Nota: A ordem das frases aqui reproduzida não é a original do texto de LeWitt.
Diarmuid Costello, Kant after LeWitt: Towards an Aesthetics of Conceptual Art, in Philosophy and Conceptual Art, Claredon Press, Oxford, 2007, p.104, 105
Tradução de Helena Serrão
quinta-feira, maio 12, 2016
domingo, maio 08, 2016
O dramatismo da escrita de Nietzsche
Fotografia da série "The III Nietzsche", de Hans Olde, Junho e Agosto de 1899.
Vede o homem pequeno, especialmente o poeta… O ardor com que as suas palavras acusam a vida! Escutai-o, mas não vos esqueçais de ouvir o prazer que há em toda a acusação. A estes acusadores da vida deixa a vida atados num abrir e fechar de olhos. “Amas-me? – diz a impertinente. Espera um bocado, ainda não tenho tempo para ti”. O homem é o animal mais cruel para consigo; e sempre que ouvirdes alguém chamar-se “pecador” ou “penitente”, ou falar da “sua cruz”, não vos esqueçais de ouvir a voluptuosidade que respiram essas queixas e essas acusações. E até eu… acaso quererei ser com isto acusador do homem? Ai, animais meus! O maior mal é necessário para o maior bem do homem; é a única coisa que até agora tenho aprendido. O maior mal é a melhor força do homem, a pedra mais dura para o mais alto criador; é mister que o homem se torne melhor e mais mau. Eu não só me não vi cravado nesta cruz – saber que o homem é mau – mas também gritei como ninguém gritou ainda: “Ah! como é pequeno o pior dele! Ah! como é pequeno o melhor dele.” O que me afogava e se me atravessava na garganta era o grande tédio do homem; e também o que predissera o adivinho: “Tudo é igual; nada merece a pena; o saber asfixia”. Na minha frente arrastava-se um longo crepúsculo, uma mortal tristeza ébria e fatigada que falava bocejando. “O homem de que estás enfastiado torna eternamente, o homem pequeno”. Assim bocejava a minha tristeza.
Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche Tradução de José Mendes de Souza, 2002
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segunda-feira, abril 25, 2016
25 de Abril
Hoje comemora-se um feriado político, não religioso. Comemora-se a mudança do regime político: de uma ditadura autista para a vontade popular. Mudámos para um regime que, sobretudo, tinha em conta a vontade popular. Era essa a sua intenção, diminuir as desigualdades. 42 anos depois o balanço é positivo mas longe do modelo que gostaríamos de viver, assente na verdadeira igualdade de oportunidades e num acordo social entre todos os membros da sociedade no sentido de um bem comum. Apesar de sermos uma pequena comunidade de 10 milhões, as desigualdades destroem a possibilidade de nos pensarmos como comunidade. Os ricos e os pobres vivem em comunidades diferentes, cruzam-se apenas na prestação de serviços, mas nada os liga, nem o facto de serem humanos parece ter relevância. Claro que temos de pensar Portugal e as comunidades democráticas como aquelas onde as desigualdades são menos evidentes e chocantes, basta pensar em Angola ou no Brasil, só para mencionar dois países de língua portuguesa, para nos lembrarmos das proporções que podem atingir as desigualdades. Não estamos a defender os pobres só por serem pobres,ser pobre não é, por si só, um estatuto, o que interessa é a falta de uma ideia de comunidade que as desigualdades acentuam. Tanto nos pobres como nos ricos não existe a ideia de bem comum, mas nos ricos é mais grave porque eles podem contribuir significativamente para a diminuição da desigualdade, e, não o fazem, acrescento, alguns praticam uma definitiva não cidadania quando fogem aos impostos. Falta às democracias uma capacidade exemplar de punir estes "não cidadãos", de os punir com a pena que poderemos dar a quem corrompe os princípios da democracia. A pena que lhes daremos é proporcional à importância política da democracia, à importância que damos ao 25 de Abril e à liberdade.
Helena Serrão
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domingo, abril 24, 2016
Será que a psicanálise não é é científica?
Em resposta a Karl Popper para quem a teoria psicanalítica não poderia ser considerada científica pois não supunha a possibilidade de poder ser falsificável. Um artigo a ver AQUI
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segunda-feira, abril 18, 2016
Será que uma comunidade política tem o direito de excluir os destituídos, os perseguidos e os apátridas só porque são estrangeiros?
Refugiados Sírios em Viena, Setembro 2015
Foto de Josh Zakary
Será que uma comunidade política tem o direito de excluir os destituídos, os perseguidos e os apátridas só porque são estrangeiros? Na perspectiva de Walzer(1), a comunidade encontra-se obrigada por um princípio de ajuda mútua e assinala justamente que este princípio pode ter efeitos mais vastos quando aplicado a uma comunidade do que quando aplicado a um indivíduo, porque muitos actos benevolentes estão ao alcance de uma comunidade, só afectando marginalmente os seus membros. Aceitar um estranho numa família é algo que podemos considerar que está para além das exigências da ajuda mútua; mas aceitar um estranho ou mesmo muitos numa comunidade é muito menos oneroso. Na perspectiva de Walzer, um país com vastas terras desocupadas -- Walzer toma a Austrália como exemplo, embora o faça como uma suposição, e não com base num estudo dos recursos hídricos e do solo australianos -- pode de facto ter uma obrigação decorrente da ajuda mútua de aceitar pessoas de terras densamente povoadas do Sudeste asiático atingidas pela fome. A escolha da comunidade australiana seria então a de desistir da homogeneidade que a sua sociedade possa ter ou de se retirar para a pequena porção do território que ocupa, cedendo o restante àqueles que dele tivessem necessidade. Embora não aceite qualquer obrigação geral das nações abastadas de admitir refugiados, Walzer defende o princípio popular do asilo. De acordo com este princípio, qualquer refugiado que consiga chegar às fronteiras de outro país pode reclamar asilo e não pode ser deportado de volta ao país onde é possível que seja perseguido por motivos de raça, religião, nacionalidade ou :, opinião política. _é interessante que este princípio seja tão amplamente aceite enquanto a obrigação de aceitar refugiados não o é. A distinção traçada pode reflectir alguns dos princípios analisados nos capítulos anteriores deste livro. O princípio da proximidade desempenha claramente um papel -- a pessoa que procura asilo está apenas fisicamente mais próxima de nós do que de outros países. Talvez o nosso maior apoio ao asilo assente em parte na distinção entre um acto (deportar um refugiado que chegou aqui) e uma omissão (não oferecer um lugar a um refugiado que está num campo distante). Poderia constituir também um exemplo da diferença entre fazer algo a um indivíduo identificável e fazer algo que sabemos terá o mesmo efeito em alguém, nunca chegando a saber realmente em quem teve esse efeito. Um factor adicional é provavelmente o pequeno número de pessoas que são capazes de chegar para pedir asilo, em contraste com o número muito maior de refugiados de cuja existência temos conhecimento, embora estejam distantes de nós. Trata-se do argumento da "gota no oceano", que estudámos em relação à ajuda internacional. Talvez possamos corresponder a todos os pedidos de asilo, mas, por muitos refugiados que possamos admitir, o problema continua a existir.
Como no caso do argumento análogo contra a concessão de auxílio internacional, este argumento ignora o facto de, ao admitirmos refugiados, permitir que certos indivíduos vivam uma vida decente -- e portanto estamos a fazer algo que tem valor, por muitos outros refugiados que continuem a existir e que não somos capazes de ajudar. Os governos moderadamente progressistas, sensíveis pelo menos a alguns sentimentos humanitários, agem mais ou menos da forma preconizada por Walzer. Defendem que as comunidades têm o direito de decidir quem admitem; os pedidos de reunião de famílias vêem em primeiro lugar e, em seguida, as pessoas do exterior que pertencem ao mesmo grupo étnico nacional, quando o estado tem identidade étnica. A admissão daqueles que se encontram em estado de necessidade é um acto "ex gratia". O direito de asilo é normalmente respeitado, desde que os efectivos sejam relativamente pequenos. Os refugiados, a não ser que possam apelar para algum sentido de afinidade política :, não têm qualquer direito de admissão e vêem-se forçados a recorrer à caridade do país de acolhimento. Tudo isto concorda com os termos gerais da política de imigração das democracias ocidentais. No que diz respeito aos refugiados, a abordagem "ex gratia" constitui a ortodoxia actual. A falácia da abordagem actual A ortodoxia actual assenta em pressupostos vagos e normalmente não fundamentados sobre o direito de a comunidade determinar quem são os seus membros.
(1) Michael Walzer.
Peter Singer, Ética Prática, Cap.9
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sábado, abril 16, 2016
Lenda do santo inquisidor contada por Ivan Karamazov em "Os Irmãos Karamazov" de Dostoievski
- Vai ressuscitar a tua filha - gritam da multidão para a mãe cheia de lágrimas.
O padre que viera ao encontro do caixão olha com ar perplexo e franze o sobrolho. De repente, ouve-se um grito e a mãe lança-se-Lhe aos pés: «Se és Tu, ressuscita-me a filha! - e estende-Lhe os braços. O préstito pára, pousam o caixão nas lajes. Ele contempla-o com piedade e a Sua boca profere suavemente, uma vez mais: Talitha kum, e a rapariga levantou-se. Soergue-se a morta, senta-se e olha em torno, sorridente, com um ar de espanto; segura nas mãos o ramo de rosas brancas que lhe tinham posto no caixão. Na gente que assiste, há perturbação, gritos e choros. Neste instante, passa pela praça o cardeal grande inquisidor. É um velho alto, quase nonagenário, alto, com uma face seca e olhos cavados, onde ainda brilha, porém, uma centelha. Não tem o vestuário pomposo com que no dia anterior se pavoneava diante do povo, enquanto se queimavam os inimigos da Igreja romana; voltou ao grosseiro burel. Os taciturnos ajudantes e a guarda do Santo Ofício seguem-no a respeitosa distância. Pára diante da multidão e observa-a de longe. Viu tudo, o caixão pousado perante Ele, a ressurreição da criança - e a face tornou-se-lhe sombria. Franze as espessas sobrancelhas e os olhos brilham-lhe com sinistro clarão. Aponta-O com o dedo e ordena aos guardas que O prendam. Tão grande é o seu poder e tão habituado está o povo a submeter-se, a obedecer-lhe, tremendo, que a multidão se afasta diante dos esbirros; estes, no meio de um silêncio de morte, seguram-n'O e levam-n'O. Como um só homem, o povo inclina-se até o chão diante do velho inquisidor que o abençoa sem dizer palavra e prossegue o seu caminho. Conduzem o Preso ao velho e sombrio edifício da Inquisição, metem-n'O em estreita cela abobadada. Termina o dia e chega a noite, uma noite de Sevilha, quente e sufocante. O ar está todo perfumado de loureiros e limoeiros. De súbito, nas trevas, abre-se a porta de ferro do calabouço e o grande inquisidor aparece, com um archote na mão. Está só e a porta se fecha por trás dele. Pára no limiar, considera longamente a Face Sagrada. Por fim, aproxima-se, pousa o archote na mesa e diz-Lhe:
- És Tu, és Tu? - E, como não recebe resposta, acrescenta rapidamente: - Não digas nada, cala-Te. De resto, que poderias Tu dizer? Já o sei de mais. Não tens o direito de juntar uma palavra ao que disseste outrora. Porque vieste incomodar-nos? Bem sabes que nos incomodas. Mas, sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem és e nem quero sabê-lo: és Tu ou somente a Sua aparência? Mas amanhã hei-de condenar-Te e serás queimado como o pior dos heréticos e o mesmo povo que hoje Te beijava os pés se precipitará amanhã, a um sinal meu, para deitar lenha na fogueira. Sabes tudo isso? Talvez - diz ainda o velho, pensativo, com os olhos sempre fixos no Preso. (...)
Esqueceste que o homem prefere a paz, e até a morte, à liberdade de discernir o Bem e o Mal? Nada há de mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas nada há também de mais doloroso. E, em vez de princípios sólidos que tivessem tranquilizado para sempre a consciência humana, escolheste noções vagas, estranhas, enigmáticas, tudo o que ultrapassa a força dos homens; agiste, portanto, como se os não amasses, Tu, que tinhas vindo para dar a vida por eles! Aumentaste a liberdade humana em lugar de a confiscares e impuseste assim, para sempre, ao ser moral as agonias dessa liberdade. Querias ser livremente amado, voluntariamente seguido pelos homens que tivesses encantado. Em vez da dura lei antiga, o homem devia, daí por diante, discernir, de coração livre, o Bem e o Mal, não tendo para o guiar senão a Tua imagem; mas não previas que por fim repeliria e contestaria mesmo a Tua imagem e a Tua verdade, porque estava esmagado pelo fardo terrível da liberdade de escolher? Hão-de gritar que a verdade não estava em Ti; de outro modo, não os terias deixado em tão angustiosa incerteza, com tantos cuidados e tantos problemas insolúveis. Preparaste assim a ruína do Teu reino; não deves, portanto, acusar ninguém dessa ruína. Era isto, contudo, o que Te propunham? Há três forças, as únicas que podem subjugar para sempre a consciência destes fracos revoltados: são o milagre, o mistério, a autoridade! A todas três afastaste, dando assim um exemplo.
O inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio oprime-o. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: «Vai e nunca mais voltes... nunca mais.» E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai.
Excerto dos Irmãos Karamazov, Dostoievski
Fala-se da "morte de Deus" que Dostoievski em 1879 teria descrito neste conto colocando-o na boca do irmão "intelectual" Ivan para confrontar Aliocha o irmão "religioso". Trata-se de uma história ficcionada mas cujos contornos de verosimilhança sustentam uma imensa perplexidade perante a evidência que a autoridade terrena suplantaria pela sua força qualquer autoridade espiritual e que esta evocando a liberdade moral do homem seria sempre maximamente perigosa porque o homem proclama a sua liberdade intelectualmente mas não a pratica e não a quer, prefere a submissão pois não tem nem saber nem vontade para decidir por um bem que não tem nenhuma contrapartida.
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quinta-feira, abril 07, 2016
A propósito da recente morte de Imre Kertész
Excerto da obra "Sem destino" de Imre Kertész
" Em todo o caso, parecia-me que tinha ficado muito tempo
deitado, e estava bem, tranquilo, sereno, sem curiosidade, paciente, aí onde me
tinham colocado. Não sentia frio, nem dor, e só pela razão, não através da
pele, eu percebia as gotas picantes, entre neve e chuva, que me molhavam o
rosto. Devaneava, olhava um pouco o que tinha à frente dos olhos, simplesmente,
sem nenhum movimento supérfluo, nem fadiga: por exemplo, lá em cima, o céu
baixo, cinzento e opaco, mais precisamente, as nuvens invernais de chumbo que deslizavam
preguiçosamente e o escondiam aos meus olhos. Ao mesmo tempo, ele dilacerava-se
algures, fendas imprevistas, buracos mais claros apareciam aqui e ali por um
breve instante, e foi como o súbito mistério de um abismo, de cujo cimo caía
sobre mim uma espécie de raio, um rápido perscrutador olhar cor indefinida, mas
de olhos sem dúvida nenhuma claros, um pouco semelhantes ao do médico a que me
apresentara antigamente em Auschwitz. Instantaneamente, ao meu lado, um objecto
disforme entrou no meu campo de visão: um tamanco, e, do outro lado, uma gorra
de diabo semelhante à minha, dois acessórios pontiagudos – o nariz e o queixo –
no meio, uma depressão cavernosa – um rosto. E, depois, ainda outras cabeças,
objectos corpos – eu compreendi que eram os restos da mudança, os resíduos, diria,
para usar um termo mais preciso, que, sem dúvida, ali tinham sido postos,
entretanto. Algum tempo depois, uma hora, um dia ou um ano, não sei, percebi,
por fim, vozes, ruídos, rumores de trabalho e de organização. A cabeça que
estava ao meu lado levantou-se de repente e, mais abaixo, aos ombros, vi braços
em farrapos de prisioneiro que procuravam levantar o corpo para um espécie de
carroça ou de carreta, sobre outros que aí já se acumulavam.”
Imre Kertész, (1975) Sem
destino, Presença, Lx, pp131, 132
A descrição de um não sentimento, de uma espécie de letargia, onde as capacidades e funções humanas estão suspensas para que a dor a a extrema violência não possam causar um dano irreparável, é a tentativa de passar em palavras uma experiência vivida pelo autor, jovem prisioneiro de vários campos de concentração na Polónia e na Checoslováquia. Compreendemos que o corpo tem uma espécie de mecanismo de baixa manutenção, onde só funciona o que é absolutamente vital para continuar a sobreviver. Esta situação onde, historicamente, foi arredada qualquer autonomia, respeito, ou cuidado pelo indivíduo, assim como suspenso o julgamento individual que pode separar criminosos e inocentes, é também ela, na sua estranheza, monstruosa, uma situação de pré-humanidade que seria apenas cruel e desumana se não fosse legalizada, isto é, criada como lei por pessoas com responsabilidade política e executada minuciosamente por outras pessoas, algumas apenas servis para com a lei, outras, normais cidadãos, cuja oportunidade para serem excelentes cidadãos cometendo toda a espécie de crimes era levada com grande entusiasmo.
terça-feira, março 15, 2016
Escola
Os jovens portugueses não gostam muito de Escola, consideram as aulas aborrecidas. Tal é a conclusão de um estudo sobre a adolescência da OMS (VEJA-SE AQUI). Parece-me haver um nó neste estudo, uma contradição natural e prolongada, na reflexão sobre a Escola e as aulas. Consiste esse nó em, por um lado, considerarmos que se tem de gostar para aprender e, por outro, em considerar que aprender requer esforço e nem todos gostam, aliás só alguns (poucos) gostam, a maioria não gosta. A questão parece-me que aponta para dois tipos de ensino: aquele que deve agradar à maioria que não gosta muito de se esforçar nem tem capacidade ou quer aprender coisas complicadas, e tem portanto de ser seduzida de uma forma lúdica para aprender; e um outro ensino para aqueles que são capazes de se esforçar e de estudar mesmo que as matérias não lhes agradem porque querem progredir, querem conhecer, querem ultrapassar obstáculos. Não há volta a dar, um ensino exigente não é compatível como um ensino lúdico, não pode agradar à maioria dos alunos, mas isso não quer necessariamente dizer que se tenha de abandonar a exigência em prol do gosto da maioria, esse é, penso, o perigo que corre a escola pública. Vejo então este estudo como uma insinuação (pouco clara) de que aqui em Portugal estejamos no "mau caminho" quando, na minha opinião, este estudo indica antes que mantemos um certo rigor, que se vai perdendo no ensino público onde está a larga maioria dos adolescentes portugueses. Concluindo. Apesar do que se diz na Suécia e no modelo nórdico idolatrado, nós aqui no sul não somos comparáveis, os adolescentes acharem as aulas aborrecidas não é uma descoberta, como o estudo quer fazer passar, mas um sintoma da própria adolescência no confronto com a exigência do estudo, perder essa exigência e esse confronto é, parece-me, desistir de educar.
Helena Serrão
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domingo, março 13, 2016
Porquê a Filosofia?
Os Ingleses têm um especial apreço pelo estudo da Filosofia. Na Faculdade, consideram-na uma disciplina essencial para todos os níveis e cursos. A razão que apontam é o seu ecletismo, a sua transversalidade,o que o estudo da Filosofia possibilita; exercício da reflexão, da argumentação, da autonomia do pensamento e da expressão, é transversal e necessário para todas as áreas de estudo e de qualificação individual, se estivermos a pensar em trabalho. Agora, os resultados de uma análise feita ao desempenho dos alunos que estudam Filosofia na escola primária veio sedimentar objectivamente esta crença: Estudar Filosofia pode ajudar a melhorar o desempenho escolar dos alunos, já na primária. Ver artigo AQUI
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Filosofia
terça-feira, março 01, 2016
Engraçado. Mas factos usados como explicação e ao mesmo tempo a exigirem explicação...?
https://www.facebook.com/RefutandoOAteismo/videos/1284978771517714/
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domingo, fevereiro 21, 2016
domingo, fevereiro 14, 2016
V Olimpíadas Nacionais Filosofia
Para todos os alunos que queiram participar na V Olímpiada da Filosofia. Podem consultar o Regulamento AQUI
domingo, janeiro 31, 2016
Vamos descobrir o que é o saber, sem saber...
Gordon Parks, Nova Iorque, 1943
S. — Pois, nesta minha arte de dar à luz, coexistem as outras todas que há na outra arte, diferindo não só no facto de serem homens a dar à luz e não mulheres, mas também no de tomar conta das almas e não dos corpos dos que estão a parir. E o mais importante desta fc] nossa arte está em poder verificar completamente se o pensamento do jovem pariu uma fantasia ou mentira, ou se foi capaz de gerar também uma autêntica verdade. Pois isto é o que justamente a minha arte partilha com a das parteiras: sou incapaz de produzir saberes. Mas disso já muitos me criticaram, pois faço perguntas aos outros, enquanto eu próprio não presto declarações sobre nada, porque nada tenho de sábio; e o que criticam é verdade. A causa disso é a seguinte: o deus que me obriga a fazer nascer, impediu-me de produzir, [d] Não sou, portanto, absolutamente nada sábio, nem tenho nenhuma descoberta que venha de mim, nascida da minha alma; mas aqueles que convivem comigo, a princípio alguns parecem de todo incapazes de aprender, mas, com o avanço do convívio, todos aqueles a quem o deus permite, é espantoso o quanto produzem, como eles próprios e os outros acham; sendo claro que nunca aprenderam nada disto por mim, mas descobriram por si próprios e deram à luz muitas e belas coisas. No entanto, o deus e eu é que fomos a causa do parto, [e] E isto é evidente; já muitos que o ignoram e atribuem a causa a si próprios, me olharam com desprezo, e, quer por convicção própria, quer persuadidos por outros, afastaram-se mais cedo do que deviam. Depois de se afastarem, fizeram abortar as coisas que ainda restavam, por causa das más companhias e, alimentando-as mal, destruíram as que eu tinha feito nascer, preferindo a mentira e as fantasias à verdade, acabando por parecer ignorantes, tanto a si próprios, como aos outros. (…)
Então, comecemos de novo, desde o início, Teeteto. Tenta
definir o que pode ser o saber: do que não fores capaz, não digas nada. Mas
decerto serás, se o deus quiser e te fizer homem.
Platão Teeteto, 150,c,d
As aporias do pensamento Socrático parecem-nos comuns porque nos habituámos a elas mas não deixam de ser estranhas se quisermos perceber o que são, descurando o fim, percebemos o fim, mas não percebemos o meio. Como pode alguém fazer nascer a verdade em alguém se não sabe em que consiste a verdade? Não é trabalho de parteira pois esta reconhece aquilo que vai ajudar a nascer, pois Sócrates não...
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