segunda-feira, abril 24, 2017
domingo, abril 16, 2017
Cinema: a arte alargada às massas
Fotograma do filme "Aurora" F.W. Murnau, EUA, 1927
Porque
quanto mais o significado social de uma arte diminui, tanto mais se afastam, no
público, as atitudes, críticas e fruição. O convencional é apreciado
acriticamente e o que é verdadeiramente novo é criticado com aversão. No
cinema, coincidem as atitudes críticas e de fruição do público. Neste caso, a
circunstância decisiva é que em nenhum outro lugar, como no cinema, a reação
maciça do público, constituída pela soma das reações de cada de um dos
indivíduos, é condicionada à partida pela audiência em massa. À medida que
essas reações se manifestam, o público controla-as. A comparação com a pintura
continua a ser útil. A pintura sempre foi apresentada para ser vista por uma,
ou algumas pessoas. A observação simultânea de pinturas, por parte de um grande
público, como sucede no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura
que, não só através da fotografia, mas também de modo relativamente
independente dela, foi desencadeada pela pretensão da obra de arte, de
dirigir-se às massas.
A pintura
não está, pois, em condições de ser objeto de uma receção coletiva simultânea,
como sempre sucedeu com a arquitetura, outrora com a epopeia e atualmente com o
cinema. E, por pouco que esta circunstância, em si, nos permita tirar conclusões
sobre o papel social da pintura, é certo que isso institui uma séria limitação
num momento em que, devido a uma série de circunstâncias particulares, e de um
modo que até certo ponto contradiz a sua natureza, a pintura se vê diretamente
confrontada com as massas. Nas igrejas e mosteiros medievais e nas cortes da
nobreza, até finais do século XVIII, a receção coletiva da pintura não se terá
verificado simultaneamente, sendo transmitida de uma forma gradual e
hierárquica. Na mudança que entretanto se verificou, está contida a expressão
do conflito particular causado pelo envolvimento da pintura na
reprodutibilidade técnica da imagem. Mas, embora fosse exibida em público, em
galerias e salões, não houve meio que permitisse às massas organizar ou
controlar a sua receção. Assim, exatamente o mesmo público que reage com uma
atitude progressista a um filme grotesco, tem de reagir de forma reacionária
perante o surrealismo.(1) (...)
____________
De facto, o
cinema enriqueceu o nosso horizonte de perceção com métodos que podem ser
ilustrados pela teoria freudiana. Há cinquenta anos um lapso numa conversa passava,
mais ou menos, despercebido. Podia considerar-se uma exceção que tal lapso
abrisse perspetivas profundas, numa conversa que parecia decorrer
superficialmente. Desde “Psicopatologia da Vida Quotidiana”, esse facto
alterou-se. Esta obra isolou e, simultaneamente, tornou analisáveis coisas que,
anteriormente, fluíam na corrente do que era naturalmente percecionado. O cinema, em toda
a amplitude da perceção ótica, e agora também acústica, teve como consequência um
aprofundamento semelhante da perceção. (…)Uma das funções revolucionárias do
cinema será a de tornar reconhecíveis como idênticos os aproveitamentos
artístico e científico da fotografia, até agora divergentes, na maioria dos
casos. Isto porque o cinema, através de grandes planos, do realce de pormenores
escondidos em aspetos que nos são familiares, da exploração de ambientes banais
com uma direção genial objetiva, aumenta a compreensão das imposições que rege
nossa existência e consegue assegurar-nos um campo de ação imenso e
insuspeitado. As nossas tabernas, as ruas das grandes cidades, os nossos
escritórios e quartos mobilados, as nossas estações ferroviárias e as fábricas,
pareciam aprisionar-nos irremediavelmente. Chegou o cinema e fez explodir este
mundo de prisões com a dinamite do décimo de segundo, de forma tal que agora
viajamos calma e aventurosamente por entre os seus destroços espalhados. Com o
grande plano aumenta-se o espaço, com o ralenti o movimento adquire novas
dimensões. Uma ampliação não tem por única função tornar mais claro o que “sem
isso” teria permanecido confuso, o mais importante sendo a revelação de
estruturas de matéria inteiramente novas. Assim, também o ralenti não revela
apenas motivos conhecidos em movimento, antes descobrindo nestes movimentos
conhecidos outros, desconhecidos, “que longe de parecerem movimentos rápidos
retardados, atuam como peculiarmente deslizantes, aéreos e supraterrenos”.
Assim se torna compreensível que a natureza da linguagem da câmara seja
diferente da do olho humano. Diferente, principalmente, porque em vez de um
espaço preenchido conscientemente pelo homem, surge um outro preenchido
inconscientemente. Mesmo que seja comum observar, ainda que grosseiramente, o
andar das pessoas, nada se sabe da sua atitude na fração de segundo em que avançam
um passo. Em geral, o ato de pegar num isqueiro ou numa colher é-nos familiar,
mas mal sabemos o que se passa entre a mão e o metal ao efetuar esses gestos,
para não falar de como neles atua a nossa flutuação de humor. Aqui, a câmara
intervém com os seus meios auxiliares, os seus “mergulhos” e subidas, as suas
interrupções e isolamentos, os seus alongamentos e acelerações, as suas
ampliações e reduções. A câmara leva-nos ao inconsciente ótico, tal como a
psicanálise ao inconsciente das pulsões.
1. Esta
perspectiva pode parecer tosca, mas como mostra o grande teórico Leonardo,
perspectivas toscas podem, sem dúvida, ser utilizadas ao serviço da sua época.
Leonardo compara a pintura com a música, usando as seguintes palavras: “A
pintura é superior à música porque não tem que morrer logo que lhe é dada vida,
como sucede com a pobre música… A música que se esvai logo que surge é inferior
à pintura que se tornou eterna com o uso do verniz.” (Leonardo de Vinci:
Frammenti letterarii e filosofici, citado por Fernand Baldensperger: Le
raffermissement des tecniques dans Ia littérature occidentale de 1840, in:
Revue de Littérature Comparée, XV/I, Paris 1935, pág. 79 – nota 1 -)
Walter Benjamin " A Obra de Arte na era da reprodutibilidade técnica"
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Walter Benjamin
sexta-feira, março 24, 2017
A Ciência e as verdades discutíveis
Alex MacLean, EUA, n.1947
Bruno Latour em entrevista ao jornal brasileiro "Correio do Povo"12 de março de 2017
C
S – As ciências humanas podem produzir resultados indiscutíveis?
Latour – O objetivo da ciência não é produzir verdades indiscutíveis, mas discutíveis. Nem as ciências naturais e exatas produzem verdades indiscutíveis. As ciências sociais realizam perfeitamente o trabalho de gerar verdades que possam ser discutidas. Elas são como as demais ciências e em certos aspectos até mais exigentes. A antropologia é muito mais exigente que muitos ramos da psicologia, da economia e da geografia. O objetivo é produzir discussões públicas normatizadas.
CS – Quando se pensa na ciência em relação à religião, à fé, parece pertinente. A fé é indiscutível. O conhecimento racional, não. Mas como fazer quando uma corrente das ciências sociais sustenta uma coisa e outra corrente sustenta o contrário. Quem terá razão?
Latour – A “discutabilidade” dos argumentos faz parte do trabalho científico. Isso vale para astrônomos, biólogos ou químicos. Talvez isso seja menos verdadeiro na filosofia, que já é outra coisa. As ciências sociais aceitam muito bem a discussão como parte do trabalho. Que Pierre Bourdieu discorde de mim não impede que integremos o mesmo campo, a mesma disciplina, a sociologia.
CS – Jean Baudrillard, de quem estive próximo, ironizava um pouco dizendo que a sociologia pode ser considerada uma espécie de astrologia, tão capaz como esta de produzir alguma verdade. Li num texto seu que as ciências sociais se baseiam num sistema de crença.
Latour – A astrologia foi ciência durante muito tempo. Ela organizou o conhecimento durante séculos. Não é destituída de interesse. As ciências sociais, diferentemente da astrologia, devem produzir enunciados discutíveis, como ser diz, passiveis de refutação. Por outro lado, Baudrillard nunca foi um modelo de cientificidade.
(...)
CS – Máquinas substituem cada vez mais pessoas em trabalhos de todos os tipos. É possível fazer quase tudo nos aeroportos automaticamente e até se instalar num hotel sem falar com pessoas. Na França, caixas de supermercado estão sendo substituídas rapidamente por máquinas. Para que servirão os humanos no futuro? Para algo melhor?
Latour – Para que um robô seja automático é preciso muita gente por trás dele. Insisto nisso. Trata-se de uma rede de sustentação entre o humano e a máquina. Eliminar o trabalho de caixa de supermercado é uma bendição, pois se trata de uma atividade desagradável. Não?
CS – Em geral, as atividades não são muito agradáveis, mas criam empregos e garantem o sustento das pessoas. Como elas sobreviverão?
Latour – Fundamental é que as máquinas não vão substituir os seres humanos. Isso é uma utopia completa. Mas as máquinas vão liberar as pessoas de muitas tarefas. Por exemplo, de dirigir automóveis e de trabalhar como motorista de táxi. O futuro dos humanos ou os empregos que terão é outro problema. Isso não elimina o fato de que sempre haverá seres humanos por trás das máquinas. Os economistas estão divididos quanto aos números, mais ou menos empregos. Certo é que os novos empregos não são geralmente para as mesmas pessoas desempregadas pela tecnologia. As transições são duras e penosas. Nos laboratórios japoneses, por trás de cada robotzinho, há muitos engenheiros. Só tempo nos dirá como as coisas se resolverão.
CS – Muitos o acusam de ser relativista. Isso o incomoda?
Latour – O relativismo não pode ser visto como uma crítica. É uma virtude. Quem critica o relativismo é absolutista. Isso é pior. O relativismo é virtuoso moral, política, religiosa e cientificamente. A verdade científica não precisa de absolutismo, mas de relativismo. O importante é estabelecer relações em todas as direções possíveis. Voltamos ao tema da “discutibilidade”. Não faz sentido que um cientista não seja relativista. Já faz alguns anos que não escuto essa crítica. É algo superado, ultrapassado, ingênuo, anacrônico. A defesa da verdade científica hoje passa justamente pelo relativismo. Talvez os filósofos ainda se interessem por esse debate, mas não os cientistas, que já mudaram seus procedimentos e parâmetros. Relativismo significa capacidade de estabelecer relações entre pontos de vista diferentes. A filosofia da ciência antigamente era simplista, ingênua e boba. Isso tudo foi importante nos anos 1950. Atacados, os cientistas buscam atualmente aliados fora do absolutismo. Paul Feyerabend foi ultrapassado pelo lado esquerdo.
(...)
CS – Uma corrente científica diz que o aquecimento global é resultado da ação humana. Outra, sustenta o contrário. Quem tem razão?
Latour – É questão resolvida, dois mil a dois. Conseguimos encontrar dois cientistas que negam o papel humano no aquecimento global. Não é mais questão de maioria, mas de unanimidade. É um caso raro em que não há discordância. Todo mundo sustenta a mesma posição. As pessoas pensam que há discordância por que a Esso gastou milhões de dólares para difundir uma ideia errada sobre o fenômeno. Foi uma campanha de desinformação e de produção de ignorância em escala mundial.
CS – Complô ou hipótese?
Latour – Fato. Verificado. Foi possível fazer a demonstração.
CS – As ciências políticas transformam opinião em verdade?
Latour – A palavra ciência, neste caso, é acima de tudo uma maneira de falar. Não penso que seja de fato uma ciência. São artes políticas. A sociologia é diferente por não ter, por exemplo, a obrigação de indicar a melhor maneira de governar ou algo desse tipo. Voltamos ao começo. Não conheço ciência aplicada que não se veja às voltas com opiniões diferentes. É incontornável. Sempre foi assim.
CS – Visto que sempre há pontos de vista diferentes, o que leva alguém a escolher este ou aquele? Qual o critério? A crença?
Latour – As razões que levam alguém a optar, a tomar partido, a escolher, são muitas, políticas, sociais, psicológicas…
CS – Não necessariamente racionais?
Latour – Elas não são necessariamente irracionais, mas não são racionais tampouco no sentido de basear-se em provas indiscutíveis.
VER Entrevista AQUI
VER TAMBÉM AQUI
S – As ciências humanas podem produzir resultados indiscutíveis?
Latour – O objetivo da ciência não é produzir verdades indiscutíveis, mas discutíveis. Nem as ciências naturais e exatas produzem verdades indiscutíveis. As ciências sociais realizam perfeitamente o trabalho de gerar verdades que possam ser discutidas. Elas são como as demais ciências e em certos aspectos até mais exigentes. A antropologia é muito mais exigente que muitos ramos da psicologia, da economia e da geografia. O objetivo é produzir discussões públicas normatizadas.
CS – Quando se pensa na ciência em relação à religião, à fé, parece pertinente. A fé é indiscutível. O conhecimento racional, não. Mas como fazer quando uma corrente das ciências sociais sustenta uma coisa e outra corrente sustenta o contrário. Quem terá razão?
Latour – A “discutabilidade” dos argumentos faz parte do trabalho científico. Isso vale para astrônomos, biólogos ou químicos. Talvez isso seja menos verdadeiro na filosofia, que já é outra coisa. As ciências sociais aceitam muito bem a discussão como parte do trabalho. Que Pierre Bourdieu discorde de mim não impede que integremos o mesmo campo, a mesma disciplina, a sociologia.
CS – Jean Baudrillard, de quem estive próximo, ironizava um pouco dizendo que a sociologia pode ser considerada uma espécie de astrologia, tão capaz como esta de produzir alguma verdade. Li num texto seu que as ciências sociais se baseiam num sistema de crença.
Latour – A astrologia foi ciência durante muito tempo. Ela organizou o conhecimento durante séculos. Não é destituída de interesse. As ciências sociais, diferentemente da astrologia, devem produzir enunciados discutíveis, como ser diz, passiveis de refutação. Por outro lado, Baudrillard nunca foi um modelo de cientificidade.
(...)
CS – Máquinas substituem cada vez mais pessoas em trabalhos de todos os tipos. É possível fazer quase tudo nos aeroportos automaticamente e até se instalar num hotel sem falar com pessoas. Na França, caixas de supermercado estão sendo substituídas rapidamente por máquinas. Para que servirão os humanos no futuro? Para algo melhor?
Latour – Para que um robô seja automático é preciso muita gente por trás dele. Insisto nisso. Trata-se de uma rede de sustentação entre o humano e a máquina. Eliminar o trabalho de caixa de supermercado é uma bendição, pois se trata de uma atividade desagradável. Não?
CS – Em geral, as atividades não são muito agradáveis, mas criam empregos e garantem o sustento das pessoas. Como elas sobreviverão?
Latour – Fundamental é que as máquinas não vão substituir os seres humanos. Isso é uma utopia completa. Mas as máquinas vão liberar as pessoas de muitas tarefas. Por exemplo, de dirigir automóveis e de trabalhar como motorista de táxi. O futuro dos humanos ou os empregos que terão é outro problema. Isso não elimina o fato de que sempre haverá seres humanos por trás das máquinas. Os economistas estão divididos quanto aos números, mais ou menos empregos. Certo é que os novos empregos não são geralmente para as mesmas pessoas desempregadas pela tecnologia. As transições são duras e penosas. Nos laboratórios japoneses, por trás de cada robotzinho, há muitos engenheiros. Só tempo nos dirá como as coisas se resolverão.
CS – Muitos o acusam de ser relativista. Isso o incomoda?
Latour – O relativismo não pode ser visto como uma crítica. É uma virtude. Quem critica o relativismo é absolutista. Isso é pior. O relativismo é virtuoso moral, política, religiosa e cientificamente. A verdade científica não precisa de absolutismo, mas de relativismo. O importante é estabelecer relações em todas as direções possíveis. Voltamos ao tema da “discutibilidade”. Não faz sentido que um cientista não seja relativista. Já faz alguns anos que não escuto essa crítica. É algo superado, ultrapassado, ingênuo, anacrônico. A defesa da verdade científica hoje passa justamente pelo relativismo. Talvez os filósofos ainda se interessem por esse debate, mas não os cientistas, que já mudaram seus procedimentos e parâmetros. Relativismo significa capacidade de estabelecer relações entre pontos de vista diferentes. A filosofia da ciência antigamente era simplista, ingênua e boba. Isso tudo foi importante nos anos 1950. Atacados, os cientistas buscam atualmente aliados fora do absolutismo. Paul Feyerabend foi ultrapassado pelo lado esquerdo.
(...)
CS – Uma corrente científica diz que o aquecimento global é resultado da ação humana. Outra, sustenta o contrário. Quem tem razão?
Latour – É questão resolvida, dois mil a dois. Conseguimos encontrar dois cientistas que negam o papel humano no aquecimento global. Não é mais questão de maioria, mas de unanimidade. É um caso raro em que não há discordância. Todo mundo sustenta a mesma posição. As pessoas pensam que há discordância por que a Esso gastou milhões de dólares para difundir uma ideia errada sobre o fenômeno. Foi uma campanha de desinformação e de produção de ignorância em escala mundial.
CS – Complô ou hipótese?
Latour – Fato. Verificado. Foi possível fazer a demonstração.
CS – As ciências políticas transformam opinião em verdade?
Latour – A palavra ciência, neste caso, é acima de tudo uma maneira de falar. Não penso que seja de fato uma ciência. São artes políticas. A sociologia é diferente por não ter, por exemplo, a obrigação de indicar a melhor maneira de governar ou algo desse tipo. Voltamos ao começo. Não conheço ciência aplicada que não se veja às voltas com opiniões diferentes. É incontornável. Sempre foi assim.
CS – Visto que sempre há pontos de vista diferentes, o que leva alguém a escolher este ou aquele? Qual o critério? A crença?
Latour – As razões que levam alguém a optar, a tomar partido, a escolher, são muitas, políticas, sociais, psicológicas…
CS – Não necessariamente racionais?
Latour – Elas não são necessariamente irracionais, mas não são racionais tampouco no sentido de basear-se em provas indiscutíveis.
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quarta-feira, março 22, 2017
Para comemorar a poesia, calhou-me ontem este, na escola, lemos, ficámos emocionados.
Velazquez Juarez
Sabedoria
Não me basta ser:
eu quero transbordar de tudo,
o desassombro
que toda a margem desconhece.
Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.
Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.
No final, saberás:
o que se ama não regressa.
O que se vive
não começa.
E o sonho
nunca tem pressa.
Mia Couto in "Vagas e Lumes"
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Poesia
domingo, março 19, 2017
Stanley Milgram
Ver artigo AQUI
segunda-feira, março 13, 2017
A origem da consciência moral
Vladimir Lagrange, n.1939, URSS
Em tudo o
que se segue, adoto, portanto, o ponto de vista de que a inclinação para a
agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e
auto-subsistente, e retorno à minha opinião, de que ela é o maior impedimento à
civilização. Em determinado ponto do decorrer dessa investigação , fui
conduzido à ideia de que a civilização constituía um processo especial que a
humanidade experimenta, e ainda me acho sob a influência dela. Posso agora
acrescentar que a civilização constitui um processo ao serviço de Eros, cujo
propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois
ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade.
Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros é precisamente
este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às
outras. A necessidade, as vantagens do trabalho em comum, por si sós, não as
manterão unidas. Mas o natural instinto agressivo do homem, a hostilidade de
cada um contra todos e a de todos contra cada um, opõe-se a esse programa da
civilização. Esse instinto agressivo é derivado e principal
representante do instinto de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que
com este divide o domínio do mundo. Agora, penso eu, o significado da evolução
da civilização não nos é mais obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e
a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal como ela se elabora
na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto,
a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie
humana pela vida. E é essa batalha de gigantes que as nossas amas tentam
apaziguar com a sua cantiga de ninar sobre o Céu.
Outra
questão nos interessa mais de perto. Quais os meios que a civilização utiliza
para inibir a agressividade que se lhe opõe, torná-la inócua ou, talvez,
livrar-se dela? Já nos familiarizamos com alguns desses métodos, mas ainda não
com aquele que parece ser o mais importante. Podemos estudá-lo na história do
desenvolvimento do indivíduo. O que acontece neste para tornar inofensivo o seu
desejo de agressão? Algo notável, que jamais teríamos adivinhado e que, não
obstante, é bastante óbvio. A agressividade é introjetada, internalizada; ela
é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é,
dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do ego,
que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de
‘consciência’, está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade
rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele
estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito,
é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de
punição. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de
agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu
interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade
conquistada.
Sigmund
Freud, O mal estar na civilização, p.35, 36
Texto copiado integralmente da edição eletrónica das obras
de Freud, versão 2.0 por TupyKurumin
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domingo, fevereiro 26, 2017
Arendt: REFUGIADA
Leonard Freed
Ettienne Jules
Em primeiro lugar, não gostamos de ser chamados “refugiados”. Chamamo-nos uns aos outros “recém-chegados” ou “imigrantes”. Os nossos jornais são jornais para “americanos de língua alemã”; e, tanto quanto sei, não há e nunca houve qualquer clube fundado pelos perseguidos por Hitler cujo nome indicasse que os seus membros são refugiados. Um refugiado costuma ser uma pessoa obrigada a procurar refúgio devido a algum acto cometido ou por tomar alguma opinião política. Bom, é verdade que tivemos que procurar refúgio; mas não cometemos nenhum acto e a maioria de nós nunca sonhou em ter qualquer opinião política radical. O sentido do termo “refugiado” mudou connosco. Agora“refugiados” são aqueles de nós que chegaram à infelicidade de chegar a um novo país sem meios e tiveram que ser ajudados por comités de refugiados. Antes desta guerra começar eramos ainda mais sensíveis quanto ao sermos chamados refugiados. Demos o nosso melhor para provar aos outros que eramos apenas imigrantes comuns. Afirmávamos que tínhamos partido pela nossa própria vontade para países da nossa escolha e negávamos que a nossa situação tivesse algo a ver com “supostos problemas judaicos”. Sim,erámos“imigrantes”ou“recém-chegados”que tínhamos deixado o nosso país porque, num belo dia, não nos convinha mais ficar, ou puramente por razões económicas. Queríamos reconstruir as nossas vidas, isso era tudo. De modo a reconstruir a vida tem que se ser forte e optimista. Portanto, erámos bastante optimistas. Com efeito, o nosso optimismo é admirável, mesmo que sejamos nós a dizê-lo. A história da nossa luta finalmente tornou-se conhecida. Perdemos a nossa casa o que significa a familiaridade da vida quotidiana. Perdemos a nossa ocupação o que significa a confiança de que tínhamos algum uso neste mundo. Perdemos a nossa língua o que significa a naturalidade das reacções, a simplicidade dos gestos, a expressão impassível dos sentimentos. Deixámos os nossos familiares nos guetos polacos e os nossos melhores amigos foram mortos em campos de concentração e tal significa a ruptura das nossas vidas privadas. Não obstante, logo que fomos salvos – e a maioria de nós teve que ser salvo várias vezes – começámos a nossas novas vidas e tentávamos seguir tão próximo quanto possível todos os bons conselhos que os nossos salvadores nos transmitiram. Foi-nos dito; e esquecemos mais rápido do que alguém poderia imaginar. De um modo amigável foi-nos lembrado que o novo país tornar-se-ia uma nova casa; e depois de quatro semanas em França ou seis semanas na América, fingiríamos ser franceses ou americanos. Os mais optimistas entre nós teriam mesmo acrescentado que toda a sua vida anterior teria sido passada numa espécie de exílio inconsciente e apenas o seu novo país lhes ensinaria agora com o que se parece uma casa. É verdade que por vezes levantámos objecções quando nos disseram para esquecer o nosso trabalho anterior; e logo que o nosso estatuto social está em jogo é-nos extremamente difícil desembaraçarmo-nos dos nossos ideais. Com a língua, contudo, não encontramos dificuldades: depois de um único ano os optimistas estavam convencidos que falavam inglês tão bem quanto a sua língua materna; e depois de dois anos juravam solenemente que falavam inglês melhor do que qualquer outra língua – o seu alemão é uma língua que dificilmente lembram.
Hannah Arendt, Nós os refugiados
Tradução Ricardo Santos, Universidade da Beira Interior, Covilhã
sábado, fevereiro 04, 2017
Arendt: Pensar apazigua e alerta.
O movimento totalitário leva realmente a sério a sua propaganda, e essa seriedade expressa-se muito mais assustadoramente na organização dos seus adeptos do que na liquidação física dos seus oponentes. A organização e a propaganda, e não o terror e a propaganda, são duas faces da mesma moeda. O mais surpreendentemente novo expediente organizacional dos movimentos na fase que antecede a tomada do poder é a criação de organizações de vanguarda, ou seja, a definição da diferença entre os membros do partido e os seus simpatizantes.
Comparadas a essa invenção, outras características tipicamente totalitárias, como a nomeação de funcionários por uma cúpula ideológica e a monopolização final das nomeações por um homem só, são de menor importância. O chamado "princípio de liderança" não é totalitário em si; algumas de suas características derivam do autoritarismo e da ditadura militar, que muito contribuíram para obscurecer e subestimar o fenómeno essencialmente totalitário. Se os funcionários nomeados por alguém de cima tivessem verdadeira autoridade e responsabilidade, estaríamos lidando com uma estrutura hierárquica na qual a autoridade e o poder são delegados e regulados por lei. O mesmo também se aplica à organização de um exército e à ditadura estabelecida segundo o modelo militar; neste caso, o poder absoluto de comando, de cima para baixo, e a obediência absoluta, de baixo para cima, correspondem a uma situação de extrema emergência em combate, e é precisamente por isso que não são totalitárias. Uma escala de comando hierarquicamente organizada significa que o poder do comandante depende de todo o sistema hierárquico dentro do qual atua. Toda hierarquia, por mais autoritária que seja o seu funcionamento, e toda escala de comando, por mais arbitrário e ditatorial que seja o conteúdo das ordens, tende a estabilizar-se e constituiria um obstáculo ao poder total do líder de um movimento totalitário.(1 )Na linguagem dos nazis, é o "desejo do Führer", dinâmico e sempre em movimento — e não as suas ordens, expressão que poderia indicar uma autoridade fixa e
circunscrita —, que são a "lei suprema" num Estado totalitário.(2 )
O caráter totalitário do princípio de liderança advém unicamente da posição em que o movimento totalitário, graças à sua peculiar organização, coloca o líder, ou seja, da importância funcional do líder para o movimento. Comprova essa asserção o fato de que, tanto no caso de Hitler como no de Stálin, o verdadeiro princípio de liderança só se cristalizou lentamente, em paralelo com a gradual
"totalitarização" do movimento.
"totalitarização" do movimento.
(1). Exemplo disso é o pedido de Himmler, veementemente urgente, para que "não se emitisse nenhum decreto referente à definição do termo 'judeu'"; porque, "com todos esses compromissos idiotas, estaremos atando as nossas próprias mãos" (Documento de Nurembergue n? 626, carta a Berger datada de 28 de julho de 1942, Centre de Documentation Juive).
(2). A fórmula "O desejo do Führer é a lei suprema" encontra-se em todas as normas e regulamentações oficiais sobre a conduta do Partido e da SS. A melhor fonte nesse assunto é Otto Gauweiler, Rechtseinrichtungen und Rechtaufgaben der Bewegung [Disposições e tarefas jurídicas do movimento], 1939.
Hannah Arendt, A Origem do totalitarismo, 1951
Edição... Não está identificada a tradução usada, obra digitalizada, tradução brasileira de 1973
Arendt surge com urgência um pouco por todo o lado. Teses de mestrado e doutoramento, televisão, cinema, literatura, jornais. A sua obra parece apaziguar-nos e, ao mesmo tempo, alertar-nos contra as incertezas do que se vislumbra no horizonte: radicalismos, extremismos imbecis e muito totalitarismo encapotado. Parece haver uma contradição - apazigua e alerta - mas essa contradição parece-me o irrecusável da leitura de uma obra como "A Origem do Totalitarismo". Compreendemos o mecanismo, isso apazigua-nos, mas compreendemos também a facilidade de ação com que esse mecanismo se impôs a milhões de pessoas vulgares e isso... alerta-nos. Note-se como as palavras de Arendt tocam na fronteira entre as ciências sociais e a Filosofia situando-se numa área de liberdade reflexiva que é para alguns, os ortodoxos do pensamento, superficialidade e irresponsabilidade. Atrevo-me a pensar nas disciplinas onde querem ordenar e classificar a investigação, um pouco como as gavetinhas dos quartos dos bébés, as mobílias em miniatura. Alguns continuam a querer o sítio entediante das abstrações que não nos ajudam a interpretar o real/histórico, antes nos alheiam do mundo, numa pretensa ortodoxia filosófica. Mas a força e pertinência do pensamento de Arendt vem exatamente na familiaridade com que o horripilante se pode travestir. A proximidade viral com que o mal se pode estabelecer com a nossa indiferença ou cumplicidade. Esse olhar captou, por todo o mundo, leitores fiéis que a entendem, desta ou doutra maneira, a discutem, a divulgam e ainda a utilizam para poder olhar com preocupação o caldo de acontecimentos agigantados e frenéticos com que a comunicação social nos brinda diariamente e onde cada vez é mais difícil distinguir factos de opiniões, acontecimentos de invenções.
Helena Serrão
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Arendt,
Filosofia política
domingo, janeiro 22, 2017
Acerca do realismo e do idealismo
Thomas Hoepker (Alemanha, 1936) Brookling, 11 de Setembro de 2001
Colin McGinn, Como se faz um filósofo, p.117,118
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Colin McGinn,
Metafísica
quarta-feira, janeiro 04, 2017
O IMPÉRIO ATENIENSE - Sócrates e os Sofistas
" Os dias mais gloriosos da Grécia Antiga tiveram lugar no século V
a. C., ao longo de 50 anos de paz entre dois períodos de guerra. O
século começara com guerras entre a Grécia e a Pérsia e terminaria
com uma guerra entre as cidades-estado da própria Grécia. No período
intermédio, floresceu a grandiosa civilização de Atenas.
A Jónia, onde tinham surgido os primeiros filósofos, estivera sob o
domínio persa desde meados do século VI. Em 499, os gregos da Jónia
rebelaram-se contra o rei persa, Dario. Depois de esmagar a revolta,
Dario invadiu a Grécia para castigar os que tinham ajudado os rebeldes
a partir da metrópole. Uma força militar constituída sobretudo por
atenienses derrotou o exército invasor em Maratona, em 490. Xerxes,
filho de Dario, enviou uma expedição mais numerosa em 484, derrotando
um corajoso batalhão de espartanos nas Termópilas e forçando
os atenienses a fugir da sua cidade. Mas a sua armada foi derrotada
perto da ilha de Salamina por uma marinha grega unificada, e uma
vitória grega em terra, em Plateias, em 479, pôs fim à invasão.
Depois das invasões, Atenas assumiu a liderança dos aliados gregos.
Foram os atenienses que libertaram os gregos da Jónia, e era
Atenas, apoiada por contribuições de outras cidades, que controlava a
armada que assegurava a liberdade dos mares Egeu e Jónio. Aquilo
que começara como uma federação deu origem a um Império Ateniense.
Internamente, Atenas era uma democracia, o primeiro exemplo
fidedigno dessa forma de organização política. «Democracia» é, em
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grego, a palavra que significa o governo do povo; e a democracia ateniense
era um exemplo muito fiel de um tal regime. Atenas não era
como uma democracia moderna, na qual os cidadãos elegem representantes
que formam um governo. Em vez disso, cada cidadão tinha
o direito de participar em pessoa no governo, comparecendo numa
assembleia geral onde podia ouvir os discursos dos líderes políticos e
depois dar o seu voto. Para se ver o que isto significaria em termos
actuais, imagine-se que os membros do governo e da oposição falavam
na televisão durante duas horas, após o que era apresentada uma
moção e tomada uma decisão com base nos votos fornecidos por cada
espectador ao premir ou o botão do «sim», ou o botão do «não» no
televisor. Para tornar o paralelo rigoroso, teria de acrescentar-se que
apenas aos cidadãos do sexo masculino com mais de 20 anos seria
permitido premir o botão — mas não às mulheres, nem às crianças,
escravos ou estrangeiros.
Os poderes judicial e legislativo eram, em Atenas, atribuídos por sorteio
a membros da assembleia com mais de 30 anos; as leis eram aprovadas
por um painel de mil cidadãos, escolhidos apenas por um dia; e os julgamentos
mais importantes realizavam-se perante um júri de 501 cidadãos.
Até os magistrados — aqueles a quem cabia executar as decisões do governo,
quer fossem judiciais, financeiras ou militares — eram maioritariamente
escolhidos por sorteio; apenas cerca de 100 eram eleitos.
Nunca antes ou desde então os cidadãos comuns de um Estado
participaram tão activamente no seu governo. É importante ter isto
presente quando lemos o que os filósofos gregos diziam acerca dos
méritos e deméritos das instituições democráticas. Os atenienses afirmavam
que a sua constituição era contemporânea das reformas de
Clístenes de 508 a. C., e esse ano é muitas vezes considerado o do
nascimento da democracia.
A democracia ateniense não era incompatível com a liderança aristocrática.
No seu período imperial Atenas foi, por escolha popular,
governada por Péricles, sobrinho -neto de Clístenes. Péricles instituiu
um ambicioso programa de reconstrução dos templos da cidade que
tinham sido destruídos por Xerxes; ainda nos dias de hoje vêm visitantes
dos quatro cantos do mundo para ver as ruínas dos edifícios que
Péricles erigiu na Acrópole, a fortaleza de Atenas. As esculturas com as
quais estes templos foram decorados encontram-se entre os objectos
mais preciosos dos museus pelos quais estão hoje espalhadas. O Parténon,
o templo em honra da deusa virgem Atena, foi construído como
oferenda pelas vitórias nas guerras pérsicas. Os mármores Elgin que
estão no Museu Britânico, trazidos das ruínas desse templo por Lorde
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Elgin em 1803, representam um grandioso festival ateniense, o das
Panateneias, que Parménides e Zenão tinham presenciado na época
em que se iniciavam as obras de construção. Quando o programa de
Péricles se completou, Atenas não tinha rival no mundo inteiro no que
dizia respeito à arquitectura e à escultura.
Atenas também tinha a primazia no teatro e na literatura. Ésquilo,
que tinha combatido nas guerras pérsicas, foi o grande autor na área
da tragédia; trouxe para o palco os heróis e heroínas da épica homérica,
e a sua reconstituição do regresso e assassinato de Agaménon ainda
nos fascina e horroriza. Ésquilo levou também à cena as catástrofes
mais recentes de que o rei Xerxes tinha sido vítima. Dramaturgos mais
novos, como o conservador e piedoso Sófocles e o mais radical e céptico
Eurípedes, estabeleceram os padrões do teatro trágico. As peças de
Sófocles acerca do rei Édipo, assassino de seu pai e esposo de sua mãe,
e o retrato que Eurípedes faz de Medeia, assassina de crianç as, não só
fazem parte do reportório do século XX, como ainda perturbam a mentalidade
contemporânea. A historiografia propriamente dita começou
também neste século, tendo as Crónicas das Guerras Pérsicas, de
Heródoto, sido redigidas nos primeiros anos do século, e a narração
que Tucídides faz da guerra entre os gregos, nos últimos. "
Anthony Kenny "História concisa da filosofia ocidental" p.45,46 e 47
quinta-feira, dezembro 01, 2016
O cérebro não toma decisões antes de pensarmos tomá-las.
Fotografia:Lewis Hine
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Livre-arbítrio
quarta-feira, novembro 30, 2016
terça-feira, novembro 29, 2016
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Exame de Filosofia-Informação
quinta-feira, novembro 17, 2016
Estamos condenados a ser livres?
Fotografia: Robert Capa
Jean- Paul Sartre, O ser e o nada, Ed.Vozes, p.678,679
Tradução de Paulo Perdigão
domingo, novembro 06, 2016
O significado de cultural
Em virtude da sua grande capacidade de adaptação e do seu
engenho notável, o homem pode aperfeiçoar de muitíssimos modos a forma pela qual
satisfaz as suas necessidades. Possui capacidade de criar o próprio meio, em
vez de ser obrigado, como no caso de outros animais, a sujeitar-se ao meio em
que se encontra. Dentro de cada sociedade existem maneiras especiais de
satisfação das necessidades. As origens dessas maneiras, regra geral, estão “perdidas na névoa dos tempos”
ou, como dizem os aborígenes australianos, “pertencem ao tempo do sonho”. Com
efeito, uma das coisas mais difíceis em Antropologia é traçar a origem de um
costume. De ordinário, não existe ninguém com idade suficiente para se lembrar da
sua origem porque, por via de regra, ele surgiu há muito tempo, muito antes da
tradição oral ou da história escrita.
A cultura representa a resposta do homem às suas
necessidades básicas. É o seu modo de se colocar à vontade no mundo. É o
comportamento que aprendeu como membro da sociedade. Podemos defini-la como o
modo de vida de um povo, o meio, em formas de ideias, instituições, língua,
instrumentos, serviços e pensamentos, criado por um grupo de seres humanos que
ocupam um território comum.
É esse meio feito pelo homem, a cultura, que todas as
sociedades humanas impõem ao meio físico e no qual todos os seres humanos são
adestrados. De tal forma se identifica a cultura com a própria vida que se pode
dizer perfeitamente não ser ela tanto sobreposta à vida quanto uma extensão da
mesma vida. Assim como o instrumento amplia e estende as capacidades da mão,
assim a cultura acentua e estende as capacidades da vida.
São os seguintes critérios pelos quais se reconhece a
cultura: (1) precisa ser inventada, (2) precisa ser transmitida de uma geração
a outra, e (3) precisa ser perpetuada na sua forma original ou duma forma
modificada. Ao passo que outros animais são capazes de um restrito comportamento
cultural, só o homem parece possuir uma capacidade virtualmente ilimitada de
cultura. O processo de criar, transmitir e manter o passado no presente é
cultura – a capacidade que o linguista norte-americano Alfred Korybski denominou vinculadora do
tempo. As plantas vinculam as substâncias químicas, os animais vinculam o
espaço, mas só o homem é capaz de vincular o tempo.
A cultura é a criação conjunta do indivíduo e da sociedade,
que interagem mútua e reciprocamente, para se servirem, manterem, sustentarem e
desenvolverem um ao outro.
A cultura, portanto, é o complexo de configurações mentais
que, em forma de produtos de comportamento e produtos materiais, constitui de
modo principal que tem o homem de adaptar-se ao meio total, controlando-o, mudando-o
e transmitindo e perpetuando os modos acumulados de fazê-lo.
A mudança evolutiva processa-se em todos os animais por
mutação e pelo armazenamento, nos genes, das mutações mais valiosas resultantes da adaptação. No homem, a mudança evolutiva também se processou dessa maneira, mas a adição
de um sem-número de mudanças não genéticas, que também representam mudanças
evolutivas sociais. Essas mudanças culturais ou de comportamento, não
genéticas, não estão armazenadas nos genes, porém na parte do meio feita pelo
homem, na parte aprendida, na cultura, nos instrumentos, nos costumes, nas
instituições, nas baladas, etc., nas lembranças dos homens, assim como em
outros dispositivos não genéticos de armazenamento e recuperação de
informações.
A natureza humana é o que se aprende do meio feito pelo
homem; não é alguma coisa com que se nasce. O ser humano nasce, isso sim, com
as possibilidades de aprendizagem, que, mediante o ensino adequado, podem ser
transformadas em capacidades unicamente humanas.
ASHLEY MONTAGU - As necesidades humanas e o significado da cultura
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sábado, outubro 29, 2016
Intencionalidade
Para explicar a estrutura do comportamento humano, preciso de introduzir um ou dois termos técnicos. A noção nuclear da estrutura do comportamento é a noção de intencionalidade. Dizer que temos intencionalidade significa que esperamos que uma coisa aconteça (temos essa crença), ou pretendemos que uma coisa aconteça, (temos um desejo). Um estado intencional pode ser querer, desejar, esperar ou ter uma intenção. Assim podemos ter o mesmo resultado para diversos estados intencionais: posso querer sair da sala, julgar que irei sair da sala ou tencionar sair da sala.Em cada caso temos o mesmo conteúdo para diferentes modos psicológicos: crença, deseja e intenção, respectivamente.
Por comportamento (...) entendo o comportamento humano voluntário e intencional. Entendo coisas como caminhar, correr, comer, fazer amor, votar nas eleições, casar-se, comprar e vender, ir de férias, trabalhar no emprego. Não entendo coisas como digerir, envelhecer ou ressonar. Mas, mesmo restringindo-nos ao comportamento intencional, as actividades humanas apresentam-nos uma desconcertante variedade de tipos. Precisaremos distinguir entre comportamento individual e comportamento social; entre comportamento social colectivo e comportamento individual dentro de um colectivo social; entre fazer alguma coisa por mor de outra coisa e fazer alguma coisa por mor de si mesma. E, talvez o mais difícil de tudo, precisamos de explicar as consequências melódicas do comportamento ao longo da passagem do tempo. As actividades humanas, ao fim e ao cabo, não se assemelham a uma série de instantâneos parados, mas sim ao filme da nossa vida.
John Searle, Mente , cérebro e Ciência, Edições 70
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quarta-feira, outubro 12, 2016
Da existência do livre- arbítrio - Santo Agostinho
Robert Frank, NY,1947
Mas, também ainda, embora dissesse e
acreditasse firmemente que és incontaminável e inalterável e sob nenhum aspecto
mutável, tu, nosso Deus, Deus verdadeiro, que criaste não só as nossas almas,
mas também os nossos corpos, e não apenas as nossas almas e os nossos corpos,
mas também todos nós e todas as coisas, não tinha por explicada e esclarecida a
causa do mal. Fosse ela qual fosse, porém, via que era preciso procurá-la de
modo a que, graças a ela, não fosse obrigado a acreditar que é mutável o Deus
imutável, ou que eu próprio me convertesse naquilo que eu procurava. E assim,
procurava-a em segurança e certo de que não era verdade o que diziam aqueles
que eu evitava com toda a minha alma, porque os via, procurando donde provinha
o mal, cheios de maldade, em virtude da qual eram de opinião que é mais a tua
substância que está sujeita a sofrer o mal, do que a deles a fazê-lo. E
esforçava-me por compreender o que ouvia: que o livre arbítrio da vontade é a
causa de praticarmos o mal e o teu recto juízo a de o sofrermos, mas não
conseguia compreender essa causa com clareza. E assim, tentando arrancar do
abismo o olhar do meu espírito, afundava-me de novo, e muitas vezes tentava e
me afundava uma e outra vez. Na verdade, elevava-me para a tua luz o facto tanto
de saber que tinha uma vontade como o de saber que vivia. Por isso, quando
queria ou não queria alguma coisa, tinha absoluta certeza de que quem queria ou
não queria não era outro senão eu. E via, cada vez mais, que aí estava a causa
do meu pecado. E aquilo que fazia contra vontade via que era mais padecer do
que fazer, e julgava que isso não era culpa, mas castigo, pelo qual, como eu
logo confessava, considerando-te justo, era castigado não injustamente. Mas de
novo dizia: ‘Quem me fez? Porventura não foi o meu Deus, que é não apenas bom,
mas o próprio bem? Donde me vem então o querer o mal e o não querer o bem? Será
para haver um motivo para que eu seja castigado justamente? Quem colocou isto
em mim, e plantou em mim este viveiro de amargura , embora todo eu tenha sido
feito por um Deus tão doce? Se o autor é o diabo, donde veio o mesmo diabo? Mas
se também ele, por uma vontade perversa, de anjo bom se tornou diabo, donde lhe
veio, também a ele, a má vontade pela qual se tornaria diabo, quando o anjo, na
sua totalidade, tinha sido criado por um criador sumamente bom?’ De novo me
deixava abater e sufocar com estes pensamentos, mas não me deixava arrastar até
àquele inferno do erro, onde ninguém te confessa quando se julga que és tu a
padecer o mal, e não o homem que o pratica.
Santo Agostinho, Confissões, Livro VII, p.21, Casa da Moeda,2001
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segunda-feira, outubro 03, 2016
ARGUMENTOS & SALSICHAS
A máquina de salsichas da razão
Aquilo que é maravilhoso num argumento sólido é o seu poder de preservar a verdade. Tomemos, por exemplo, o argumento seguinte:
1. Francisco é um homem.
2. Todos os homens vivem na terra.
Conclusão: Francisco vive na terra.
1. Francisco é um homem.
2. Todos os homens vivem na terra.
Conclusão: Francisco vive na terra.
Este argumento forma-se de duas afirmações, ou premissas, e de uma conclusão. Num argumento dedutivo, como este, as premissas implicam supostamente a conclusão. O argumento, se válido, fornece-nos uma garantia lógica: se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o é. Neste caso, o argumento é válido. As premissas implicam realmente a conclusão.
É claro que se introduzirmos num argumento dedutivamente válido uma ou mais falsidades, não há qualquer garantia quanto ao que obteremos. A conclusão pode, ainda assim, ser verdadeira. Mas pode ser falsa. (Suponhamos, por exemplo, que a primeira premissa do nosso argumento é falsa: o Francisco não é um homem – é um extra-terrestre que vive no planeta Plutão; então a nossa conclusão é falsa.)
Portanto, um argumento dedutivo válido preserva a verdade. Se introduzirmos premissas verdadeiras, temos a garantia lógica de que sai uma conclusão verdadeira. Se estivermos interessados em ter convicções que sejam realmente verdadeiras, trata-se de um belo resultado.
Para aqueles que gostam de analogias, podemos dizer que as formas válidas de argumentos dedutivos funcionam um pouco como as máquinas de salsichas. A única diferença é que em vez de introduzirmos carne de salsicha e de saírem do outro lado salsichas, é-nos dada a garantia de que se introduzirmos premissas verdadeiras, sairão conclusões verdadeiras.
A máquina de salsichas indutiva
A argumentação dedutiva não é a única forma de argumentação sólida. Há também os raciocínios indutivos. Eis um exemplo de um argumento indutivo:
1. A maçã um tem sementes.
2. 2. A maçã dois tem sementes.
3. A maçã três tem sementes.
3. A maçã três tem sementes.
[...]
1000. A maçã mil tem sementes.
Conclusão: Todas as maçãs têm sementes.
1000. A maçã mil tem sementes.
Conclusão: Todas as maçãs têm sementes.
Este argumento tem mil premissas (embora eu não me tenha dado ao trabalho de listar mais do que quatro). Num argumento indutivo, as premissas apoiam supostamente a conclusão. Aqui, a palavra-chave é apoiam. É claro que estes argumentos não são (e não pretendem ser) dedutivamente válidos. As premissas não implicam dedutivamente a conclusão. Não há garantia lógica de que a maçã seguinte não terá sementes, apesar das muitas maçãs que examinámos até agora. Apesar disso, supomos que o facto de todas as maçãs que examinámos até agora terem sementes torna extremamente razoável que concluamos que todas têm. As premissas, supomos, tornam a verdade da conclusão bastante provável. Se isto é correcto, os argumentos indutivos sólidos também têm a qualidade de preservar a verdade à maneira da máquina das salsichas. Introduzam-se premissas verdadeiras num argumento indutivo sólido e sai provavelmente uma conclusão verdadeira do outro lado.
Uma vez mais, se é a verdade que buscamos, trata-se de um belo resultado.
Stephen Law, The War for Children’s Minds (Londres & Nova Iorque, 2006). Trad. Carlos Marques.
1. Qual o problema tratado no texto?
2. Que comparação é feita?
3. O que se pretende mostrar com essa comparação?
1. Qual o problema tratado no texto?
2. Que comparação é feita?
3. O que se pretende mostrar com essa comparação?
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Argumentos sólidos,
Lógica,
Stephen Law
domingo, outubro 02, 2016
O que é a Filosofia. Resposta 4
Ara Guler, 1987, Idade
A Filosofia, como entenderei a palavra, é algo intermédio entre a
teologia e a ciência. Como a teologia consiste em especulações sobre matérias
inacessíveis até agora ao conhecimento definido, mas como a ciência apela para
a razão de preferência à autoridade, quer da tradição, quer da revelação. Todo
o conhecimento definido (…) pertence à ciência; todo o dogma como o que excede
o conhecimento definido pertence à teologia. Mas entre teologia e ciência há
uma terra sem dono exposta aos ataques de ambos os lados: é a filosofia. As
questões de maior interesse para os espíritos especulativos raro têm resposta
científica e as respostas confiantes dos teólogos já não parecem tão confiantes
como nos séculos anteriores. Estará o mundo dividido entre espírito e matéria?
e, sendo assim, que é espírito e que é matéria? Está a alma sujeita à matéria
ou tem energias independentes? Tem o universo unidade ou fim? Evolui para algum
objetivo? Há realmente leis da natureza ou cremos nelas devido ao nosso inato
amor da ordem? É o homem o que aparece ao astrónomo, um pequeno conjunto de
carvão impuro e água, a arrastar-se impotente sobre um pequeno planeta sem
importância? Ou é o que pensava Hamlet? Será as duas coisas? Há um tipo nobre e
um tipo baixo de vida ou são todos meramente fúteis? Se um deles é nobre, em
que consiste e como realizá-lo? Deve o bem ser eterno para poder ser apreciado
ou merece procurar-se ainda quando o universo caminha inexoravelmente para a
morte? Existe de fato a sabedoria ou não passa de derradeiro requinte de
loucura? Não há resposta em laboratório para tais questões. Pretenderam as
teologias dar respostas, todas demasiado definidas, o que as torna suspeitas a
espíritos modernos. Estudar essas questões, senão responder-lhes, é a tarefa da
filosofia.
Bertrand Russell em
‘História da Filosofia Ocidental’
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O que é a Filosofia,
Russell
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