terça-feira, outubro 03, 2017

Os pré-socráticos


Joaquin Sorolla "Estudo sobre o mar", Valencia, 1904

Tales tentou compreender o mundo sem invocar a intervenção dos deuses. Como os babilónicos, acreditava que o mundo já tinha sido água. Para explicar a terra seca, os babilónicos diziam que Marduk tinha colocado uma esteira na face das águas e amontoado areia sobre ela. Sim, tudo tinha sido água, mas a Terra surgiu dos oceanos por um processo natural, similar, ele julgava, à obstrução que tinha observado no delta do Nilo. Pensava realmente que a água era um princípio comum subjacente a toda matéria, assim como hoje em dia dizemos o mesmo de eletrões, protões e neutrões, ou dos quarks. Se a conclusão de Tales estava ou não correta não importa, mas sim o seu lema: o mundo não era governado pelos deuses, mas sim pelo trabalho das forças materiais interagindo com a Natureza. Tales trouxe da Babilónia e do Egito as sementes das novas ciências, astronomia e geometria; ciências que germinaram e cresceram no solo fértil da Jónia. Muito pouco se sabe da vida pessoal de Tales, mas Aristóteles narra uma anedota reveladora na sua obra Política: [Tales] era censurado pela sua pobreza, que se supunha ser prova de que sua filosofia não tinha utilidade. De acordo com a história, sabia pela sua perícia [em interpretar os céus], enquanto ainda era inverno, que haveria uma grande colheita de azeitonas no ano seguinte, de modo que, tendo pouco dinheiro, fazia depósitos pelo uso das prensas de azeitonas em Quio e Mileto, as quais alugava a preços baixos porque ninguém lhe dava ouvidos. Quando chegava a colheita, e havia necessidade de muitas, cedia-as ao preço que lhe convinha e ganhava uma boa quantia de dinheiro. Assim provava que os filósofos do mundo podiam facilmente ficar ricos se quisessem, mas que a sua ambição era outra. Era famoso como sábio político, incitando com sucesso os Milesianos a resistir à assimilação por Creso, Rei da Lídia, mas não foi feliz ao apelar a uma federação de todos os estados insulares da Jónia contra os Lídios. Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, um dos primeiros, que se tem conhecimento, a fazer experiências. Examinando o movimento de uma sombra lançada por uma vareta vertical, determinou com precisão a duração do ano e das estações. Por anos os homens utilizaram varetas para lutar ou matar. Anaximandro utilizou-as para medir o tempo. Foi a primeira pessoa na Grécia a fazer um relógio de sol; um mapa do mundo conhecido e um globo celeste que mostrava os traços das constelações. Acreditava que o Sol, a Lua e as estrelas eram feitos de fogo vistos através de buracos que se moviam na abóbada do céu, provavelmente uma ideia bem mais antiga. Sustentou a opinião admirável de que a Terra não era suspensa ou sustentada mas, para ele, era o centro do universo; uma vez sendo equidistante de todos os pontos da "esfera celeste" não havia força capaz de movê-la. Argumentava que somos tão desamparados ao nascer, que se os primeiros bebés fossem colocados no mundo e deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí, Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros animais com recém-nascidos mais capazes. Propôs a geração espontânea da vida na lama, os primeiros animais tinham sido peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a terra seca, onde evoluíram para outros animais por transmutação de um tipo para outro. Acreditou num número infinito de mundos, todos habitados e sujeitos a ciclos de dissolução e regeneração. "Nem ele", queixou-se lamentavelmente Santo Agostinho, "nem Tales atribuíram a causa de toda esta atividade sem fim a uma mente divina."

                                                                                                                                                              Carl Sagan, Cosmos,

A história da Filosofia parece ser a história do tempo em que os professores, nas suas aulas, ainda se interessavam por este percurso de ensinar como a filosofia surgiu. A questão da origem foi progressiva e inexoravelmente substituída pela noção de causa. A questão histórica substituída pela questão estrutural da linguagem e assim se foi perdendo como displicente. O argumento era sempre o mesmo, o velhinho e gasto argumento de Kant de que se pode ensinar História da Filosofia mas que História não é Filosofia e que só se aprende Filosofia filosofando. Bom,  poderia, para rebater Kant, usar B. Russell como quem usa uma colher para comer esparguetti, diz ele, e desculpem-me se pareço subtilmente superficial em matérias tão sérias, diz ele, repito,  que sem História não há progresso na Filosofia pois os filósofos não saberiam de que modo os antigos filósofos argumentaram e resolveram as questões e cairiam facilmente nos erros já cometidos por eles.

sexta-feira, setembro 22, 2017

Um pintor a descobrir

                                                     
Sorolla, 1892, Otra Margarita


quarta-feira, setembro 13, 2017

Começam hoje as aulas.


Henri Cartier-Bresson, Saravejo, Jugoslávia,1965


A Logosfera agradece a todos os que por aqui passam, espera que este espaço vos seja útil (e simpático) e deseja-vos um BOM ANO! Novinho em folha!


quarta-feira, setembro 06, 2017

Texto para resumo (Oriana 10ºB)


COMO USAM OS FILÓSOFOS AS CELULAZINHAS CINZENTAS

Raciocinar em filosofia é semelhante a raciocinar em outras áreas. Frequentemente raciocinamos acerca de questões como 'Quem cometeu o crime?', 'Que carro comprar?',  'Há um número primo maior do que todos?' ou 'Como curar o cancro?' Ao abordar estes temas, clarificamos as questões e colhemos informação de fundo. Consideramos o que outros disseram sobre o assunto. Consideramos perspectivas alternativas e as objecções a estas. Fazemos distinções e pesamos os prós e contras. O clímax do processo atinge-se quando tomamos posição e tentamos justificá-la. Explicamos que a resposta tem de ser tal e tal e apontamos para outros factos que justificam a nossa resposta. Isto é raciocínio lógico, no qual vamos de premissas para uma conclusão.
Raciocinar logicamente é concluir algo a partir de algo diferente. Por exemplo, concluir que foi o mordomo que cometeu o homicídio a partir das crenças (1) ou foi o mordomo ou a criada e (2) a criada não pode ter sido. Se colocamos o racicínio em palavras temos um argumento - uma série de proposições consistindo em premissas e uma conclusão:

Ou foi o mordomo ou a criada.
A criada não foi.
Logo, foi o mordomo.

[…] Este argumento é válido, o que significa que a conclusão se segue logicamente das premissas. Se as premissas são verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. Portanto, se podemos ter confiança nas premissas, podemos estar confiantes de que foi mordomo que cometeu o crime.
Dizer que um raciocínio é válido é dizer que a conclusão se segue das premissas e não que as premissas são verdadeiras. Para provar algo precisamos, além da validade do argumento, de premissas verdadeiras. Provamos a nossa conclusão se ela se segue logicamente de premissas claramente verdadeiras.  
A filosofia envolve muito raciocínio lógico. A forma mais comum de raciocínio lógico em filosofia consiste em atacar-se uma tese P argumentando que ela conduz ao absurdo Q:

Se P é verdadeiro, então Q também o será.
Q é falso.
Logo, P é falso.

Ao examinarmos uma tese, consideramos as suas implicações e vamos à procura das falhas. Se encontramos implicações claramente falsas, então mostrámos que a tese é falsa; se encontramos implicações altamente duvidosas, então a tese é duvidosa.
Na formação das nossas perspectivas filosóficas são igualmente importantes o raciocínio e o empenho pessoal. O raciocínio só por si não resolve todas as disputas. Uma vez considerados os argumentos de um lado e de outro, temos de tomar uma decisão. Se nos decidimos por uma perspectiva que levanta fortes objecções, temos de estar à altura de lhes responder.

Harry Gensler, Ethics - A Contemporary Introduction. (London & New York, 1998, p. 3). Tradução de Carlos Marques.
Tenha em conta as instruções para a realização do resumo (ver no link aulas 10ºAno -15 setembro)

sábado, agosto 12, 2017

As aprendizagens essenciais para Filosofia.

 Foto: Rita Araújo

Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória na disciplina de Filosofia

O Ministério da Educação traça, neste documento, o perfil do aluno do Secundário e as aprendizagens essenciais que este deve adquirir. Trabalho feito, perguntamos: O que adianta ao programa? Nada. A mesma linguagem abstrata que nada diz, objetivos reconhecíveis e generalistas sem conteúdo real, como exemplo, todos sabemos que o aluno deve ter espírito crítico, é já um lugar comum estafado, tão estafado que está vazio de gasto, sem sabermos nada sobre isso, senão mais generalizações gastas. A questão não é: “Criar espírito crítico” mas “como criar espírito crítico num aluno que não tem qualquer interesse por questões cognitivas, éticas ou outras”. Um documento com alternativas e estratégias práticas adequadas aos objetivos era muito mais desejável e necessário, não vos parece?


segunda-feira, julho 31, 2017

Amor-de-si versus Amor-próprio


Burt Glinn, Chicago 1968



As nossas paixões naturais estão muito bem delineadas; elas são o instrumento da nossa liberdade, elas tendem a conservar-nos. Todas aquelas paixões que nos subjugam e nos destroem vêm-nos de fora; não é a natureza que as dá mas apropriamo-nos delas para seu prejuízo.
A fonte das nossas paixões, a origem e princípio de todas as outras paixões, a única que nasce com o homem e que nunca o abandona enquanto ele viver, é o amor-de-si: paixão primitiva, inata, anterior a qualquer outra, e da qual todas as outras são, num certo sentido, suas modificações. Neste sentido, todas são, se quisermos, naturais. Mas a maior parte destas paixões tem causas estrangeiras sem as quais nunca existiriam: e estas modificações longe de nos serem vantajosas, são-nos prejudiciais; alteram o primeiro objeto e vão contra o seu princípio: é assim que o homem se descobre fora da natureza, e inicia a contradição consigo mesmo.
O amor de si é sempre bom, e sempre conforme com à ordem. Cada um estando encarregue especialmente da sua própria conservação, tem e deve ter como primeiro e mais importante dos seus cuidados vigiá-la constantemente: e como a poderia vigiar deste modo se não a tomasse como o seu maior interesse?
Devemos portanto amar-nos para nos conservarmos, devemos amar-nos mais que a qualquer outra coisa; e, na sucessão imediata do mesmo sentimento, amamos o que nos conserva. A criança liga-se ao seu alimento: Rómulo devia-se ligar à loba que o aleitou. No princípio essa ligação é puramente maquinal. O que promove o bem-estar de um indivíduo atrai-o. O que lhe causa dano causa-lhe repulsa. O que transforma esse instinto em sentimento, a ligação em amor, a aversão em ódio, é a intenção manifestada de nos alimentarem e de nos serem úteis. Não nos apaixonamos por seres insensíveis que apenas seguem o impulso que lhes dão: mas aqueles do qual esperamos o bem ou mal pela sua disposição interior, pela sua vontade, aqueles que vemos agir livremente a favor ou contra, inspiram-nos sentimentos semelhantes aos que nos demonstram. O que nos serve, procuramo-lo, mas o que nos quer servir, amamo-lo. Fugimos do que nos causa dano: mas daquele que nos quer causar mal, odiamo-lo.
O primeiro sentimento de uma criança é de se amar a si mesma; e o segundo que deriva do primeiro, é amar aqueles que dela se aproximam; dado que no estado de fraqueza em que se encontra reconhece as pessoas pelos cuidados que lhe proporcionam. (…)
Uma criança é naturalmente dada à bondade porque vê que todos os que se aproximam são prestáveis, a partir dessa observação habitua-se a ter um sentimento favorável aos da sua espécie; mas à medida que alarga as suas relações, as suas necessidades, as suas dependências ativas ou passivas, o sentimento das suas relações com os outros, desperta, e produz sentimentos de dever e preferência. Então a criança torna-se dominadora, invejosa, falsa, reivindicativa. Se a vergamos à obediência, não vendo nenhuma utilidade no que lhe ordenamos, atribui ao capricho a intenção de a atormentar, e amotina-se. Mas se lhe obedecemos, quando qualquer coisa lhe resiste, vê nesse gesto uma rebelião, uma intenção de lhe resistir, bate na mesa ou na cadeira por lhe terem desobedecido. O amor-de -si , que tem apenas a ver connosco, fica contente quando as nossas verdadeiras necessidades são satisfeitas; mas o amor-próprio, que se compara, não está nunca contente e nunca estará, porque este sentimento de nos preferirmos aos outros exige que os outros nos prefiram a si próprios; o que é impossível. Vemos então como paixões doces e afetuosas nascem do amor-de-si, e como as paixões odiosas e irascíveis nascem do amor-próprio.

Jean- Jacques Rousseau, Émile ou de L'Education, Flammarion, Paris,1966, p. 275,276,277


Tradução Helena Serrão

quinta-feira, junho 29, 2017

Textos essenciais


 
Lewis Hine, (EUA 1874/1940)


Os estudos servem para passatempo, ornamento e habilitação. A sua principal utilidade para passatempo, é dada na solidão e no retiro; para ornamento,  no discurso; para habilitação, no juízo; porque os homens peritos podem executar, mas os instruídos são mais aptos para julgar e censurar. Despender demasiado tempo com eles é indolência; usá-los demasiado no ornamento é afetação; formular sentenças unicamente de acordo com as suas regras é defeito de escolar. Os estudos aperfeiçoam a natureza mas são, por sua vez  aperfeiçoados pela experiência. Os homens ladinos os condenam, os sábios os utilizam, os simples os admiram; porque tais homens não ensinam a estudar, apenas dizem que há uma sabedoria sem estudos e outra para além dos estudos, ganha por observação. Lede, não para contraditar nem para acreditar, mas para ponderar e para considerar. Livros há que são para gostar, outros que são para engolir, e só alguns para mastigar e digerir; quer dizer, há alguns que são só para ler em parte, outros por mera curiosidade, e só alguns merecem ser lidos inteiramente com diligência e atenção. Ler amadurece o espírito, conversar adestra-o, escrever torna-o exato; portanto, se o homem escreve pouco, necessita de grande memória; se conversa pouco, de muita astúcia para simular que conhece o que não conhece. A história faz o homem sábio; a poesia engenhoso; a matemática subtil; a física profundo; a moral grave; a lógica e a retórica apto a discutir.
Francis Bacon, Ensaios, Guimarães Editores, Lx, p.17,18
Tradução de Álvaro Ribeiro

terça-feira, maio 30, 2017

Spice Girls explicam Foucault - Verdade & Poder




Vídeo realizado por um grupo de alunas de uma Universidade Brasileira. Como usar imagens e desconstruí-las para lhes dar novos e insuspeitos significados. Veja-se AQUI

domingo, maio 28, 2017

Relatório -Debra 11A


PORQUE É A EXISTÊNCIA HUMANA PREFERÍVEL À DE UM SEIXO?

No século dezanove, Shopenhauer, conhecido como o 'filósofo do pessimismo', chamou a atenção para o sofrimento da vida humana: queremos algo que nos falta ou temos aquilo que queremos; mas sofremos de um modo ou de outro - quer com a falta do que queremos, quer com o tédio resultante da falta de querer quando alcançamos o que queremos. (…) Se Shopenhauer tem razão, não será melhor ser um simples seixo, que é imune a estas experiências? Se fôssemos apenas um seixo de uma praia, todas as ondas e agitações da vida (atrevo-me ao gracejo?) seriam levadas pela maré.
Shopenhauer está errado, pelo menos nos pormenores. Em muitas coisas apreciamos simplesmente o prazer da actividade que nos faz esquecer as insatisfações. Como é costume dizer, é melhor a viagem com esperança do que a chegada ao destino.
É um erro pensar que quando mobilizamos os meios para atingir um fim só o fim nos importa, sendo os meios irrelevantes e sem qualquer valor em si mesmos. O nosso objectivo pode ser atingir o topo do monte Evereste, mas isso não significa que o queiramos atingir de qualquer maneira. Queremos escalar a montanha, combater as tempestades de neve, lutar escalada acima. Quando (no meu caso, é melhor dizer 'se') queremos atingir o topo, queremos atingir o nosso objectivo como deve ser. Os feitos medem-se não somente pelos resultados, mas também pelo modo como são conseguidos. Vermo-nos no cume do Evereste largados por um helicóptero ou por ter carregado num botão não teria interesse, a não ser que o feito a atingir fosse ser capaz de pilotar um helicóptero ou construir uma máquina que pudesse levar pessoas do local A para o B premindo apenas um botão.
Shopenhauer terá alguma razão no seu pessimismo, no sentido em que na maior parte das vidas humanas há mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para aqueles que vencem na vida. Perdemos familiares, amigos e amantes; temos consciência da crescente decadência que acompanha a velhice; com toda a probabilidade, viremos um dia a ter, durante anos, experiência directa dessa decadência - e, por fim, do sofrimento de morrer. Temos consciência de que milhões de outras pessoas sofrem, no passado, no presente e no futuro e também do sofrimento dos animais. Além disso, alguns de nós sentem-se apegados a certos objectos - um livro, um vestido, um carro muito amado - chegando por vezes a atribuir-lhes uma vida própria e sofrendo também quando eles entram em colapso. Estas reflexões podem bem levar-nos a concluir que os mais felizes são, por assim dizer, aqueles que nunca chegam a nascer.
* * *
Qual o sentido de tudo isto? Muitos não resistem a fazer esta pergunta. Há fins e propósitos na minha vida - mas qual o fim ou propósito da minha vida?
Alguns respondem explicando que as suas vidas ganham sentido ao ajudarem os seus filhos, ao trabalharem para melhorar a vida dos pobres ou ao abraçarem uma causa política. Mas isto é jogar ao jogo do empurra: qual o sentido de ajudar as crianças ou de abraçar uma causa política? Qualquer que seja a resposta dada, podemos sempre continuar a fazer perguntas similares. Alguns voltam-se para a esperança de uma vida eterna no além, mas também ela não tem mais sentido do que uma vida finita. Se temos motivo para nos questionarmos genuinamente sobre o sentido de uma vida finita, também o teremos para nos questionarmos sobre o sentido de uma vida de duração infinita. Se optarmos pela resposta 'servir a Deus' ou por algo semelhante, devemos perceber que se pode perguntar: e qual o sentido de tal serviço ou da existência de Deus?
Talvez seja melhor começar a pensar que para uma coisa ter valor não precisa de ter um sentido. (…)
As vidas humanas podem ter valor especialmente porque são vidas de seres capazes de atribuir valor e que valorizam certos aspectos do universo, a vida e o viver. É verdade que as vidas acabam; mas será que poderíamos sequer enfrentar a vida eterna? A consciência da morte faz com que muitos de nós se sintam emparedados pela triste e obsessiva melancolia do 'Para quê?' Mas recordemos que pode não haver um sentido acima de todos os sentidos. Tal como as explicações, os propósitos têm de parar algures.
Todas as coisas a que damos valor e que dão sentido às nossas vidas, por mais raras ou pequenas que sejam - as amizades, os amores e as coisas absurdas; as memórias de paixões e olhares correspondidos, mescladas com sons de fundo, que por magia nos cercam e armadilham; as intoxicações dos vinhos e das palavras, os pensamentos e as músicas que teimosamente nos acompanham pelas noites enevoadas e sonolentas; os nossos sentidos revitalizados por águas cintilantes, tão necessárias ao amanhecer; o espectáculo do mar enfurecido pelas ondas, os luares e imagens de mistério e os céus que se alargam obrigando os olhos a acompanhá-los - acabam realmente por deixar de existir. E, curiosamente, as mais encantadoras destas coisas são muitas vezes aquelas em que nos perdemos e deixamos também de ser - no entanto, que elas existem, assim como nós, numa certa fracção de tempo, é uma verdade perene, fora do tempo. Isto é o melhor a que os amantes da eternidade podem aspirar.

Peter Cave, Can A Robot Be Human? 33 Perplexing Philosophy Puzzles (Oxford, 2007, pp. 193-196). Tradução Carlos Marques.

domingo, maio 14, 2017

Mistificação e facto.



 Alex McLean


Lá fora ouvem-se foguetes e as buzinas não páram de tocar. Hoje treze de Maio parece-me que foi mesmo o dia do milagre, os Pastorinhos tiveram a sua confirmação de santidade, e a prova está à vista, ganhámos o festival eurovisão da canção depois de cinquenta anos sempre nos últimos lugares!  Enchem-se praças de futebol e fé,  estamos em plena exacerbação emocional nacionalista. Ninguém se moveria assim por um presidente ou um chefe de Estado, nosso, eleito. A política está sentada numa cadeira pequenina, no trono parece estar o futebol e a religião. Lembro-me de Marx, mas não ouso...ouso, sim, aqui vai Marx, para encontrar um equilíbrio entre a mistificação e a realidade dos factos.



"É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião; a religião não faz o homem. E a religião é, de facto, a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou ainda não se conquistou ou voltou a perder-se. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantasmal da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é indiretamente a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.

A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o âmago de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que eles deixem as ilusões a respeito da sua situação é o apelo para abandonarem uma situação que precisa de ilusões . A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. A crítica colheu nas cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem fantasia ou sem consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que ele pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e recuperou o entendimento, a fim de que ele gire à volta de si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não gira à volta de si mesmo.

Por isso, a tarefa da história , depois que o além da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade do aquém. A imediata Tarefa da filosofia , que está ao serviço da história, é desmascarar a autoalienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma- se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, a crítica da teologia em crítica da política."



Se a luta política e a sociedade ideal revelou-se, quando experimentada, tirânica e profundamente injusta, a sociedade cristã católica nunca poderá ser testada na história porque abdicou há muito de ser histórica, é como uma esperança infinita, nunca desilude pois a sua forma não pode ser testada. Esta esperança infinita pode coexistir com a miséria dos factos e ser por eles alimentada num procedimento natural de fuga que por ser de algum modo maniqueísta é condescendente com a miséria dos factos. Alimenta-se essa esperança infinita de foclore e demagogia que se vai metamorfoseando para falar a linguagem do seu tempo. É certo que precisamos de foclore e demagogia para que as desigualdades e injustiças não sejam tão aquilo que verdadeiramente são, um filme de terror difícil de aguentar.


Karl Marx, Para a crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 
Tradução de Artur Mourão


terça-feira, abril 25, 2017


Lisboa, 25 de Abril de 1974

A democracia exige que todos participemos, para a melhorar, para entusiasmar também a classe dirigente ou expugná-la do seu reduto se esta for corrupta ou negligente.