sábado, março 24, 2018
sábado, março 17, 2018
sexta-feira, março 16, 2018
Como há uma ténue linha entre a civilidade e a barbária.
sexta-feira, março 09, 2018
A sair do labirinto cético.
A Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental, vol.3,Gradiva, 2011, pp. 137, 138
sábado, março 03, 2018
Se duvido e, tenho de duvidar, então suspendo o meu juízo, não semeio opiniões quando desconheço a qualidade da semente
segunda-feira, fevereiro 05, 2018
Actual, apesar de ter mais de trezentos anos
terça-feira, janeiro 30, 2018
A parábola da açougueira e do filósofo analítico.
Parábola de Robert Paul Wolf.
Tradução: Felipe Kauai
quarta-feira, janeiro 17, 2018
Natureza e Ética
A Natureza, Sr Allnut, é aquilo que viemos a este mundo para ultrapassar"
Nature, Mr Allnut, is what we were put in the world to rise above.
Frase de Katherine Hepburn para Humprey Bogart na Rainha Africana (1951)
(...) Como decidimos o que é certo ou errado, bom ou mau? Muitos filósofos avisaram-nos de que nenhum facto sobre a natureza pode fornecer alguma base para discutir valores. No Tratado sobre a Natureza Humana (1739/40), David Hume formula um convincente argumento sobre o fosso intransponível entre facto e valor, entre “é” e “deve”. Numa tentativa de ultrapassar esse fosso comete-se a chamada “falácia naturalista”: nenhum argumento com premissas factuais pode fornecer-nos qualquer conclusão sobre o que tem valor, ou sobre o que devemos fazer.
Na obra Principia Ethica (1903), o filósofo G. E. Moore aduziu o que ele chamou de “argumento de pergunta aberta" para uma restrição semelhante em qualquer discurso sobre o valor. Moore alega que qualquer tentativa para definir “bom” em termos naturalistas – tal como prazer, utilidade, ou, como um mandamento divino – tem de falhar, porque permanece sempre a questão em aberto se o prazer, ou a utilidade ou aquele particular mandamento divino, são realmente bons. Se essa definição naturalista fosse boa, como a definição de triângulo enquanto uma figura plana com três ângulos, então a questão “É o triângulo realmente uma figura com três lados?”, não faria sentido, o que apenas assinala o falhanço da definição de “bom”. A formulação de Moore deu origem a um enorme debate. É razoável objetar que ficou por formular a seguinte questão: se uma dessas definições estiver correta então já esta questão não está em aberto. Mas teremos que admitir que nenhuma definição de “bom” em termos de propriedades naturais é muito plausível. O fosso original “é- deves” de Hume permanece.
Na prática é claro que seria impossível decidir o que é melhor sem referências a factos. Em medicina como nas políticas públicas, as decisões “baseadas em evidências” são os padrões por excelência a que até os políticos aspiram. Mas a evidência que esperamos só é relevante porque certos objetivos são considerados inquestionáveis: saúde, felicidade, vida. Estes são os valores que pressupomos mesmo que pareçam demasiado óbvios para serem articulados em qualquer argumento prático ou moral. Se o dinheiro compra a felicidade, então esforça-te para fazer dinheiro. Mas apenas se a felicidade for o tipo de coisas que deves perseguir. Se a comida sustém a vida, então come! Mas apenas se valorizas a vida.
Então onde poderemos encontrar a justificação das premissas gerais sobre os valores? Se ir dos factos para os valores é uma falácia, então não poderemos fundamentar os juízos de valor nos factos. Mas se não nos factos, então em quê? Não-factos? “Factos alternativos”, talvez? Um tipo de verdades que se distinguem dos factos vulgares da experiência são os factos lógicos. E alguns filósofos, nomeadamente, Immanuel Kant, no século XVIII, pensava que podemos extrair os princípios morais puramente da razão. Isto parece reduzir a imoralidade a um mero erro lógico matemático. E, face a isto, parece absurdo, apesar dos sucessivos esforços dos seguidores de Kant, para considerar que o absurdo só o é porque não somos espertos o suficiente para o compreender. Há muito tempo que este tem sido o estratagema de filósofos e teólogos: se discordares do seu dogma então deves ser estúpido ou fraco. Prefiro continuar a pensar que não percebo.
Então devemos admitir que tudo o que diz respeito a valores, bondade ou correção é arbitrário? Não. (...)
Uma proposta de resposta é aquela que aponta para considerarmos as nossas vontades e desejos face ao valor. Querer qualquer coisa tem implícito que vejamos isso que queremos como valoroso. O nosso desejo é um facto sobre nós, mas parece apontar para um valor. Cuidamos do que desejamos, e, por definição, aquilo que cuidamos é o que valorizamos. Stuart Mill adota esta estratégia quando declara no Utilitarismo (1863) “a única evidência sobre o facto de algo ser desejável é porque alguém realmente o deseja.” Por tal, Mill foi acusado de cometer uma falácia naturalista por se ter equivocado em relação ao significado de “desejável”. Significa “o que merece ser desejado” ou “o que é capaz de ser desejado”? O facto de uma coisa ser desejada prova que ela pode sê-lo; mas não prova que deva ser desejada. Pois nem sempre o que desejamos merece ser desejado.
(...) Mas como poderemos saber qual dos nossos desejos devemos aprovar?
Uma abordagem outrora apreciada apela para ideia de que os nossos desejos são dignos desde que provenham da nossa autêntica natureza humana. Daoistas, Epicuristas e Aristotélicos, entre outros dignatários da antiga sabedoria sempre nos incentivaram a seguir a natureza. Mas o que quer isso dizer?
(...) O que a biologia nos ensina acerca da natureza humana é que, em sentido realista, não há tal coisa como a natureza humana. A única atitude coerente que podemos ter perante esse facto é a existencialista; se há algum ensinamento que podemos encontrar na natureza é a de que nada aí existe que possamos seguir. Logo, só podemos aspirar a criá-lo.”
Ronnie de Sousa "Nascemos existencialistas" in AEON, Ver artigo completo AQUI
Tradução de Helena Serrão
sábado, janeiro 06, 2018
Camus, o homem revoltado
“Se os homens não conseguem referir- se a um valor comum, reconhecido por todos em cada um deles, então o Homem torna-se incompreensível para o próprio homem. O rebelde exige que esse valor seja claramente reconhecido em si mesmo, porque suspeita ou sabe que, sem ele, a desordem e o crime reinariam no mundo. O movimento de revolta surge nele como uma reivindicação de clareza e de unidade. A mais elementar rebelião exprime, paradoxalmente, a aspiração a uma ordem. Linha por linha, essa descrição convém ao revoltado metafísico. Este insurge-se contra um mundo fragmentado para dele reclamar a unidade. Contrapõe o princípio de justiça que nele existe ao princípio de injustiça que vê no mundo. Primitivamente, nada mais quer senão resolver essa contradição, instaurar o reino unitário da justiça, se puder, ou o da injustiça, se a isso for compelido. Enquanto espera, denuncia a contradição. Ao protestar contra a condição naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso, pelo mal, a revolta metafísica é a reivindicação motivada de uma unidade feliz contra o sofrimento de viver e de morrer. Se a dor da morte generalizada define a condição humana, a revolta, de certa forma, é dela contemporânea. Ao mesmo tempo em que recusa a sua condição mortal, o revoltado recusa-se a reconhecer o poder que o faria viver nessa condição. O revoltado metafísico, portanto, certamente não é ateu, como se poderia pensar, e sim obrigatoriamente blasfemo. Ele blasfema, simplesmente em nome da ordem, denunciando Deus como o pai da morte e o supremo escândalo. Voltemos ao escravo revoltado para esclarecer a questão. No seu protesto, ele estabelecia a existência do senhor contra o qual se revoltava. No entanto, demonstrava simultaneamente que o poder do senhor dependia de sua própria subordinação e afirmava o seu próprio poder: o de questionar permanentemente a superioridade que até então o dominava. Nesse sentido, senhor e escravo estão realmente no mesmo barco: a realeza temporária de um é tão relativa quanto a submissão do outro. As duas forças afirmam-se alternativamente, no instante da rebelião, até o momento em que se confrontarão para se destruírem, e uma das duas então desaparecerá provisoriamente.
Da mesma forma, se o revoltado metafísico se volta contra um poder, cuja existência simultaneamente afirma, ele só reconhece a sua existência no próprio instante em que a contesta. Arrasta então esse ser superior para a mesma aventura humilhante do homem, com o seu vão poder equivalendo à nossa vã condição. Submete-o a essa força de recusa, inclina-o por sua vez diante da parte do homem que não se inclina, integra-o à força numa existência para nós absurda, retirando-o, enfim, do seu refúgio intemporal para compromete-lo na história, muito longe de uma estabilidade eterna (que só poderia encontrar no consentimento unânime dos homens). A revolta afirma desse modo que, no seu nível, qualquer existência superior é, pelo menos, contraditória.”
sábado, dezembro 23, 2017
Bom Natal para todos! Fiquem com o Houellebecq.
Michell Houellebecq, O mapa e o território"p.170, 171
A curiosidade deste texto é o recurso de Houellebecq à posição de narrador e de personagem do que narra, assim como é também Jed Martin , o artista sobre o qual Houellebecq comentador, fala. Esta estratégia do artista comentador de si próprio e criador de vários alter egos que são assumidamente mais do mesmo, isto é, a mesma filosofia do Gates, a venda do produto como objetivo principal e para isso vale tudo, inclusive, estas roupagens aparentemente diferentes. A venda, o sucesso, é por si, o maior bem. Depois, este Gates de braços abertos e o Jobs evangelista, e o Jed artista, são a trindade do capitalismo como religião, duas santíssimas trindades, os autores e os empresários unidos pela nova religião. Cínico, iconoclasta, mas lúcido.
sexta-feira, novembro 24, 2017
Porque precisamos da Retórica
Ainda se pode objetar que a retórica só é útil para aqueles que querem enganar o público e ocultar os seus objetivos reais, já que alguém que apenas quer comunicar a verdade pode ser directo e não precisará de ferramentas retóricas. Isso, no entanto, não é o ponto de vista de Aristóteles: mesmo aqueles que apenas tentam estabelecer o que é justo e verdadeiro precisam da ajuda da retórica quando enfrentam uma audiência pública. Aristóteles diz-nos que é impossível ensinar essa audiência, mesmo que o falante tenha o conhecimento exato do assunto. Obviamente, Aristóteles considera que a audiência de um discurso público consiste em pessoas comuns que não conseguem seguir uma prova exata baseada nos princípios de uma ciência. Além disso, essa audiência pode ser facilmente distraída por fatores que não pertencem ao assunto; às vezes são recetivos a lisonjas ou apenas tentam estar em vantagem. Esta situação torna-se ainda pior se a constituição, as leis e os hábitos retóricos de uma cidade forem maus. Finalmente, a maioria dos tópicos que geralmente são discutidos em discursos públicos não permitem conhecimento exato, mas deixam espaço para dúvidas; especialmente em tais casos, é importante que o orador pareça ser uma pessoa credível e que o público esteja num clima de simpatia. Por todas essas razões, afetar as decisões de jurados e assembleias é uma questão de persuasão e não de conhecimento. É verdade que algumas pessoas conseguem ser persuasivas, seja ao acaso ou por hábito, mas é a retórica que nos dá um método para descobrir todos os meios de persuasão em qualquer assunto.
Aristotle's Rhetoric Article First published Thu May 2, 2002; substantive revision Mon Feb 1, 2010
Stanford Encyclopedia of Philosophy
sábado, novembro 18, 2017
sexta-feira, novembro 17, 2017
A técnica adequa-se ao objetivo. Uma técnica adequada é bom, independentemente do que se diz ou conclui?
"Para convencer alguém de uma verdade ou desviá-lo de um erro (...), a primeira regra a seguir é fácil e natural: apresentar primeiro as premissas e em seguida a conclusão. E, contudo, esta regra raramente é respeitada, procedendo-se exatamente ao contrário. Um zelo impaciente e a necessidade de ter razão pressionam-nos a gritar bem alto a conclusão a quem erradamente defende o oposto. Este procedimento torna o nosso oponente respingão, e a partir daí a sua vontade mostra-se rebelde aos argumentos e às premissas de que ele, antecipadamente, conhece a conclusão.
Assim, devemos dissimular a conclusão e apresentar as premissas com clareza, e sob todos os seus aspetos. Se possível, não devemos sequer anunciar a conclusão. Ela acabará por se impor inevitavelmente, em virtude de leis necessárias, à razão dos auditores e a convicção que nasce assim espontaneamente neles, será mais sincera; além disso, em vez de os encher de confusão, ela será acompanhada de um sentimento de mérito pessoal.
Em casos difíceis, podemos mesmo fingir querer chegar a conclusões diferentes daquelas que realmente temos em mente (...)
Não devemos produzir argumentos excessivos. Por isso os chineses enunciam a seguinte máxima: "aquele que é eloquente e que tem a língua afiada só deverá enunciar metade de uma proposição; e aquele que tem a razão do seu lado pode voluntariamente sacrificar três décimas do seu discurso."
Shopenhauer, O mundo como vontade e representação
terça-feira, novembro 07, 2017
RETÓRICA, PROPAGANDA E MANIPULAÇÃO
quinta-feira, novembro 02, 2017
Como os filósofos são corporativistas.
quinta-feira, outubro 26, 2017
A Lógica e a História
Helena Serrão
sexta-feira, outubro 20, 2017
Reflexão sobre as"Aprendizagens essenciais" de Filosofia propostas para o 10ºAno.
Pensar, falar, fazer. O trinómio parece viciado pelo juízo ético e o desperdício. Passo a explicar: há multiplicação de "Falares"e desta multiplicação fica o apagamento da força. Falar era forte quando não se podia dizer, agora ao poder dizer-se, falar parece estratégia de "mais do mesmo" perdendo a sua eficácia, tornando-se coisa para nada. Mas atenção, estou a falar do "falar crítico" que analisa, do falar que se vocaciona para a exceção, para a recusa, é do falar que recusa que estamos fartos. Não do falar pró-activo, que apresenta soluções, que fala do que faz. Esse desejamo-lo. Ora esse falar que faz ou fez e que vai fazer, apresenta-se sob a forma de "grupinhos de influência" os únicos que têm forma de sair do anonimato e, pelos seus discursos, nos fazerem crer que as coisas são como eles fazem e pouco importa o que digam, pois não parece figurar-se no horizonte alternativa credível. Neste caso, o que parece é: Não há alternativa. Não há outros grupos a fazerem e a dizerem diferente, não existem ou não aparecem. Neste caso o que parece não é. Há de factos muitos a fazerem e a pensar diferente mas não têm visibilidade mediática, logo, não existem.
Certos figurões que pertencem a "grupinhos de influência", ganham visibilidade pela sua azáfama de pequenas formiguinhas obreiras dessas mesmas forças de influência. A metáfora do insecto não é pura coincidência. Trata-se de um reino bem composto de seres minúsculos mas de grande persistência de Fazer. Seja. Se o pensar é uma incógnita, o que pelo falar se dá do pensar é um discurso de circunstância e de interesse, nada de novo. Assim ficamos limpos para encarar o FAZER como inequivocamente objetivo e transformador. À incógnita do pensar resta a supremacia do fazer.
Este preâmbulo introduz o meu ceticismo em relação ao que estou a escrever neste momento, não acredito que tenha consequências senão servir de desabafo a uma anónima mas esforçada professora de filosofia do Ensino Secundário.
Tudo isto por causa das "Aprendizagens essenciais de Filosofia" que duas ou três formigas "iluminadas", das que estão presentes em todos os eventos dignos desse nome e que - por razão obviamente desconhecida - representam a classe dos professores, visualizaram, propuseram, fizeram e lançaram como LEI geral para todos. Esta lei não representa nada senão os interesses daquele quintal, o que as formiguinhas obreiras possuem e estimam.Ora o que é válido para esse quintal não é válido para todos os quintais porque há muitos e diferentes quintais. Pensar que sim é uma falácia e a pior de todas. É uma generalização apressada. Pois bem, é do que se trata quando vemos que entre todas as aprendizagens possíveis de seleccionar para o 10ºAno, foram seleccionadas as aprendizagens relativas à "Lógica proposicional" que não constam do programa em vigor (embora este não tenha sido oficialmente alterado) e que apenas são essenciais para um quintal determinado vergando-se o termo "essencial" até ao absurdo do " que nos dá jeito". E meu Deus, que afazer frenético, queridas formiguinhas obreiras, a seguir monta-se esquema de Ações de Formação para os desgraçados dos professores para quem a "Lógica proposicional" não é essencial, mas que têm de a aprender mesmo assim, porque sim. É bonito, jeitoso, verdadeiramente plural e bastante rentável.
Helena Serrão
quinta-feira, outubro 05, 2017
Um fenómeno ocorrido a milhares de Anos Luz afecta o nosso quintal! Magnífico! Queremos mais descobertas destas, mais cientistas convictos e apaixonados, mais dinheiro para investir nestes projectos! Queremos mais ciência!!
Einstein não parou as suas investigações sobre a força da gravidade depois de ter chegado às equações da relatividade geral. Num artigo de 1916 conjeturou que existiam ondas gravitacionais, semelhantes às ondas eletromagnéticas (ou radiação ou luz), conhecidas desde meados do século XIX. Uma oscilação de uma massa deveria abanar a geometria do espaço e do tempo propagando-se a grandes distâncias, tal como uma oscilação de uma carga espalha luz em redor. Para o efeito ser apreciável era preciso que a massa em vibração fosse muito maior do que a do Sol. De início, Einstein não acreditou totalmente na realidade das suas ondas gravitacionais, pois receou tratar-se de um artifício matemático. Faleceu em 1955 sem ter a certeza da existência das ondas que tinha previsto.
As ondas gravitacionais manifestaram-se indiretamente com a descoberta, em 1974, de um sistema binário formado por estrelas pesadas, chamadas estrelas de neutrões, pelos americanos Russel Hulse e Joseph Taylor Jr., que ganharam o Nobel da Física de 1993. Uma parte da energia escapava das estrelas provavelmente sob a forma de ondas gravitacionais. Mas, faltando uma observação direta, foram propostas engenhosas experiências.
Verificou-se que as ondas gravitacionais eram mesmo reais precisamente cem anos após a ideia de Einstein. A 11 de Fevereiro de 2016, os media de todo o mundo anunciavam a extraordinária descoberta, fazendo eco de um artigo da equipa da experiência LIGO, com cerca de mil autores, que relatava a recolha das ondas em duas instalações gémeas no noroeste e no sul dos Estados Unidos, separadas por mais de 3000 quilómetros. Era precisa uma observação simultânea nos dois lados já que, como os sinais eram extremamente ténues, tinham se ser excluídas perturbações com uma origem terrestre e não extraterrestre. Cada instalação possui "antenas", em forma de L, com braços de quatro quilómetros, onde se pode medir através de um feixe laser o afastamento entre pares de espelhos. Ora esses espelhos abanaram um bocadinho durante uma fração de segundo, no dia 14 de Setembro de 2015. Ou melhor, o espaço entre eles oscilou. O sinal, que já foi comparado a um chilrear, foi o mesmo nos dois sítios: só um match perfeito permitiria concluir que a emissão era remota. Simulações computacionais indicaram que as ondas em causa eram devidas à fusão de dois buracos negros, cada um deles com cerca de 30 vezes a massa do Sol, à distância de mais de mil milhões de anos-luz de nós. Buracos negros, descritos pela teoria da relatividade geral, são as estrelas mais pesadas que se conhecem. A observação das ondas gravitacionais na Terra, revelando um acordo bastante bom entre teoria e experiência, é uma das proezas mais notáveis da física contemporânea. A Academia Sueca acaba de distinguir com o Nobel da Física os responsáveis maiores por essa observação pioneira, que já foi repetida por mais três vezes (uma das quais há poucos dias, com a participação de um observatório em Itália). O prémio foi para os americanos Brian Weiss, Barry Barish e Kip Thorne (o físico que ajudou no filme Interstellar). Até agora só víamos o céu através de luz, visível ou invisível. Mas agora passámos a recolher as vibrações do próprio espaço. Se antes só tínhamos olhos para o céu, passámos a ter também "ouvidos”.
Carlos Fiolhais in Público, dia 4 de Outubro de 2017














