O Som que os Versos Fazem ao Abrir de 27 Set 2017 - RTP Play - RTP
quinta-feira, junho 21, 2018
terça-feira, junho 19, 2018
domingo, junho 17, 2018
(Foto:Seymour)
Ok...vamos com calma… só vos quero dizer…
BOA SORTE PESSOAL!!
Que todos os querubins do mundo vos inspirem!!
sábado, junho 09, 2018
Plurais filosofias, plurais objetos.
Não devemos, pois, admirar-nos que uma utilização imediata
tão impura projete sombra sobre o empirismo claro e deforme o nosso perfil
epistemológico. Basta manejar um instrumento mal afiado para que se constate
esta deformação psicológica. Basta uma raiz a interromper o ritmo da enxada
para que se apague a alegria do jardineiro, para que o trabalhador, esquecendo
a clara racionalidade da sua tarefa, anime o instrumento de uma energia
vingadora. Seria interessante circunscrever bem este conceito de energia
triunfante; ver-se-ia que ele dá a determinados pensamentos uma segurança, uma
certeza, um sabor, que enganam acerca da sua verdade. O perfil epistemológico
da noção de energia em Nietzsche, por exemplo, bastaria talvez para explicar o
seu irracionalismo. Com uma noção falsa pode fazer-se uma grande doutrina. (…)
Um conhecimento particular pode expor-se numa
filosofia particular; mas não pode fundar-se
numa filosofia única; o seu progresso implica aspetos filosóficos
variados. (…)
Em resumo, a qualquer atitude filosófica geral, pode
opor-se, como objeção, uma noção particular cujo perfil epistemológico revela
um pluralismo filosófico. Uma só filosofia é, pois, insuficiente para dar conta
de um conhecimento preciso. Se então se quiser fazer, a diferentes espíritos,
exatamente a mesma pergunta a propósito de um mesmo conhecimento, ver-se-á
aumentar singularmente o pluralismo filosófico da noção. Se ao interrogar-se
sinceramente acerca de uma noção tão precisa como a noção de “massa” um
filósofo descobre em si cinco filosofias, quantas se obterão se interrogarem
vários filósofos a propósito de várias noções! Mas todo este caos pode
ordenar-se se considerarmos que uma só filosofia não pode explicar tudo e se
quisermos dar uma ordem às filosofias. Por outras palavras, cada filosofia
fornece apenas uma banda do espectro nocional, e é necessário agrupar todas as
filosofias para termos o espectro nocional completo de um conhecimento
particular. Naturalmente, nem todas as noções têm, em relação à filosofia, o
mesmo poder dispersivo. É raro que uma noção tenha um espectro completo.
Existem ciências em que o racionalismo quase não existe. Existem outras em que
o realismo está quase eliminado. Para formar as suas convicções, o filósofo tem
muitas vezes o hábito de procurar apoios numa ciência particular, ou no
pensamento pré-científico do senso comum. Ele pensa então que uma noção é o
substituto de uma coisa, em vez de pensar que uma noção é sempre um momento da
evolução de um pensamento. Só será, pois, possível descrever a vida filosófica
das noções estudando as noções filosóficas implicadas na evolução do pensamento
científico. As condições tanto experimentais como matemáticas do conhecimento
científico alteram-se com tanta rapidez que os problemas se colocam
diferentemente para o filósofo de dia para dia. Para acompanhar o pensamento
científico, é necessário reformar os quadros racionais e aceitar as novas
realidades.
Gaston Bachelard, A Filosofia do Não, Abril S.A Cultural, S.
Paulo, p.28,29,30
A questão do racionalismo e do empirismo deveria ser estudada de acordo com este princípio, ele dá-nos a dimensão do jogo de reflexos dos conceitos e como eles não correspondem ao mesmo objeto apesar de serem nomes idênticos.
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Bachelard,
Filosofia da Ciência
quarta-feira, maio 30, 2018
domingo, maio 13, 2018
História da Ciência
David Seymour
Os exemplos mais óbvios de revoluções científicas são
aqueles episódios famosos do desenvolvimento científico que, no passado, foram
frequentemente rotulados de revoluções. Por isso, nos Caps. 8 e 9, onde pela
primeira vez a natureza das revoluções científicas é diretamente examinada, nos
ocuparemos repetidamente com os momentos decisivos essenciais do desenvolvimento
científico associado aos nomes de Copérnico, Newton, Lavoisier e Einstein. Mais
claramente que muitos outros, esses episódios exibem aquilo que constitui todas
as revoluções científicas, pelo menos no que concerne à história das ciências
físicas. Cada um deles forçou a comunidade a rejeitar a teoria científica
anteriormente aceite em favor de uma outra incompatível com aquela. Como consequência,
cada um desses episódios produziu uma alteração nos problemas à disposição do
escrutínio científico e nos padrões pelos quais a profissão determinava o que
deveria ser considerado como um problema ou como uma solução de problema
legítimo. Precisaremos descrever as maneiras pelas quais cada um desses
episódios transformou a imaginação científica, apresentando-os como uma
transformação do mundo no interior do qual era realizado o trabalho científico.
Tais mudanças, juntamente com as controvérsias que quase sempre as acompanham,
são características definidoras das revoluções científicas.(…)
Teoria e fato científicos não são categoricamente
separáveis, exceto talvez no interior de uma única tradição da prática
científica normal. É por isso que uma descoberta inesperada não possui uma
importância simplesmente fatual. O mundo do cientista é tanto qualitativamente
transformado como quantitativamente enriquecido pelas novidades fundamentais de
fatos ou teorias. Esta conceção ampliada da natureza das revoluções científicas
é delineada nas páginas seguintes. Não há dúvida de que esta ampliação força o
sentido costumeiro da conceção. Não obstante, continuarei a falar até mesmo de
descobertas como sendo revolucionárias. Para mim, o que faz a conceção ampliada
tão importante é precisamente a possibilidade de relacionar a estrutura de tais
descobertas com, por exemplo, aquela da revolução copernicana. A discussão
precedente indica como serão desenvolvidas as noções complementares de ciência
normal e revolução científica nos nove capítulos imediatamente seguintes. O
resto do ensaio tenta equacionar as três questões centrais que sobram. Ao
discutir a tradição do manual, o Cap. 10 examina por que as revoluções
científicas têm sido tão dificilmente reconhecidas como tais. O Cap. 11
descreve a competição revolucionária entre os defensores da velha tradição
científica normal e os partidários da nova. Desse modo o capítulo examina o
processo que, numa teoria da investigação científica, deveria substituir de
algum modo os procedimentos de falsificação ou confirmação que a nossa imagem
usual de ciência tornou familiares. A competição entre segmentos da comunidade
científica é o único processo histórico que realmente resulta na rejeição de uma
teoria ou na adoção de outra. Finalmente, o Cap. 12 perguntará como o desenvolvimento
através de revoluções pode ser compatível com o caráter aparentemente ímpar do
progresso científico. Todavia, este ensaio não fornecerá mais do que os
contornos principais de uma resposta a essa questão. Tal resposta depende das
características da comunidade científica, assunto que requer muita exploração e
estudo adicionais. Sem dúvida alguns leitores já se terão perguntado se um estudo
histórico poderá produzir o tipo de transformação concetual que é visado aqui.
Um arsenal inteiro de dicotomias está disponível, sugerindo que isso não pode
ser adequadamente realizado dessa maneira. Dizemos muito frequentemente que a
História é uma disciplina puramente descritiva. Contudo, as teses sugeridas acima
são frequentemente interpretativas e, algumas vezes, normativas. Além disso,
muitas das minhas generalizações dizem respeito à sociologia ou à psicologia
social dos cientistas. Ainda assim, pelo menos algumas das minhas conclusões
pertencem tradicionalmente à Lógica ou à Epistemologia. Pode até mesmo parecer
que, no parágrafo anterior, eu tenha violado a muito influente distinção
contemporânea entre o “contexto da descoberta” e o “contexto da justificação”.
Pode algo mais do que profunda confusão estar indicado nesta mescla de diversas
áreas e interesses? Tendo-me formado intelectualmente a partir dessas e de
outras distinções semelhantes, dificilmente poderia estar mais consciente de
sua importância e força. Por muitos anos tomei-as como sendo a própria natureza
do conhecimento. Ainda suponho que, adequadamente reelaboradas, tenham algo
importante a nos dizer. Todavia, muitas das minhas tentativas de aplica-las,
mesmo grosso modo, às situações reais nas quais o conhecimento é obtido, aceite
e assimilado, fê-las parecer extraordinariamente problemáticas. Em vez de serem
distinções lógicas ou metodológicas elementares, que seriam anteriores à
análise do conhecimento científico, elas parecem agora ser partes de um
conjunto tradicional de respostas substantivas às próprias questões a partir
das quais elas foram elaboradas. Essa circularidade não as invalida de forma
alguma. Mas torna-as parte de uma teoria e, ao fazer isso, sujeita-as ao mesmo
escrutínio que é regularmente aplicado a teorias em outros campos. Para que
elas tenham como conteúdo mais do que puras abstrações, esse conteúdo precisa
ser descoberto através da observação. Examinar-se-ia então a aplicação dessas
distinções aos dados que elas pretendem elucidar. Como poderia a História da
Ciência deixar de ser uma fonte de fenómenos, aos quais podemos exigir a
aplicação das teorias sobre o conhecimento?
Thomas Khn, A estrutura das revoluções científicas, p.26 a
28
terça-feira, maio 01, 2018
A questão de saber que normas morais devem reger as sociedades multiculturais.
Paul D'Amato, EUA, 1989
Durante muito tempo os EUA foram conhecidos como um Melting Pot, querendo com isso dizer-se que havia lugar para
todos viessem donde viessem, que todos eram bem recebidos e que a pouco e
pouco as diferenças culturais se iriam esbatendo a favor da «nova realidade
cultural». Muitos americanos ainda acarinham essa ideia mas para muitos outros ela
é uma ilusão e até um insulto. (…) Hodiernamente, mesmo entrea queles que
pertencem à cultura dominante existe a consciência de que esta situação causa
danos ao conceito de cultura americana. A questão é o que fazer para a
resolver. Alguns defensores do multiculturalismo (teoria que advoga a
necessidade de assegurar representação no espaço público – universidades, meios
de comunicação, política – aos diversos grupos culturais) propõem que devemos
começar por nos ouvir uns aos outros. A esta versão do multiculturalismo
chamarei multiculturalismo inclusivo.
Mais tolerância e compreensão entre os vários grupos culturais é o que parece pretender-se, maior igualdade de oportunidades
e um trabalho conjunto que combata a ideia de que uma tradição cultural domina
o país e aqueles que não a partilham deve ser marginalizados. Este trabalho
deve começar nas escolas onde as crianças devem aprender o máximo possível
sobre as heranças culturais do maior número possível de grupos étnicos e
sociais. (…)Muitos dos proponentes do multiculturalismo adotam o relativismo
moral. Contudo, para surpresa de alguns, o relativismo não garante
necessariamente o multiculturalismo.
O relativismo ético afirma que não há um código moral
universal –que cada cultura escolhe o que é correto para si e nenhuma outra cultura
tem o direito de interferir. Esta ideia, ainda que com várias limitações, pode
funcionar quando as culturas estão separadas e isoladas porque nesse caso o
código moral é definido como o código da população dominante. Porém, numa
sociedade pluralista como a americana, é difícil funcionar porque a cultura
dominante (a sociedade branca) é cada vez mais acusada de insensibilidade à
diversidade cultural. Pode o relativismo moral funcionar num país em que nos
deparamos frequentemente com valores opostos (Roubar é errado e Roubar é
moralmente correto para os desfavorecidos) no mesmo bairro? Dado que o relativismo
exige que rejeitemos a ideia de um padrão cultural dominante, alguns poderão
optar por uma atitude de niilismo moral: nenhum valor é melhor do que outro dado que nenhum
valor é objetivamente correcto. Tal niilismo pode conduzir à desagregação do todo social e,
possivelmente, a uma maior coesão no interior de cada grupo cultural,
acentuando-se o conflito entre eles. Podemos descrever este conflito como balkanização: os grupos culturais têm pouco ou nada
em comum exceto o ódio pelo que outros grupos representam. Parece que o
relativismo moral não é a resposta aos novos problemas do multiculturalismo.
E se procurarmos a resposta no universalismo moderado? Se formos
universalistas moderados o que podemos esperar? O acordo com os outros grupos
acerca de certas questões, mas não em todas as questões. No caso do multiculturalismo podemos concordar com a promoção
da igualdade, da tolerância e da coesão da nação. Se não chegarmos a um cordo nisto, o
multiculturalismo (inclusivo) é uma causa perdida, assim como a ideia de
Estados Unidos. Segundo o universalismo moderado – proposto entre outros por
Rachels não podemos permitir uma diferença
acentuada nos valores e princípios que regem a convivência social. Não podemos admitir que matar membros de
uma família por uma questão de honra seja inaceitável num bairro e aceitável noutro.
O problema da possibilidade de um núcleo de valores comuns no interior de uma
sociedade multicultural é particularmente urgente e escaldante. Sem
valores comuns muito simplesmente não há sociedade.
Nina Rosenstand, The Moral of the
Story – An introduction to questions of ethics and human nature,(1993),
Mayfield,pp 80-81(Traduzido e adaptado por Joana Inês Pontes)
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sexta-feira, abril 20, 2018
A visão ética tende a procurar o universal
David Seymour, 1911/1956 Varsóvia
“O que significa emitir um juízo moral, discutir uma questão
ética ou viver de acordo com padrões éticos? Como diferem os juízos morais de
outros juízos práticos? Por que razão achamos que a decisão de uma mulher de
fazer um aborto levanta uma questão ética, o mesmo não acontecendo com a sua
decisão de mudar de emprego? Qual é a diferença entre uma pessoa que vive de
acordo com padrões éticos e outra que não procede assim?
(…) quem segue convicções éticas não convencionais vive,
mesmo assim, de acordo com padrões éticos, *se pensar, por qualquer motivo, que
o que faz é um bem*. A condição em itálico dá-nos uma pista para a resposta que
procuramos. A noção de viver de acordo com padrões éticos está ligada à noção
da defesa da forma como se vive, de dar uma razão para tal, de a justificar.
Assim, uma pessoa pode fazer todo o tipo de coisas que consideramos um mal e,
mesmo assim, continuar a viver de acordo com padrões éticos, se for capaz de
defender e justificar o que faz. Podemos achar a justificação pouco adequada e
continuar a pensar que as ações são um mal, mas a tentativa de justificação,
bem sucedida ou não, é suficiente para trazer o comportamento dessa pessoa para
o domínio do ético, em oposição ao não ético. Quando, por outro lado, uma pessoa
não consegue encontrar uma justificação para aquilo que faz, podemos rejeitar a
sua pretensão de que vive de acordo com padrões éticos, mesmo que aquilo que
faz respeite princípios morais convencionais. Podemos ir mais longe. Se
aceitarmos que uma determinada pessoa vive de acordo com padrões éticos, a
justificação deve ser de determinado tipo. Uma justificação exclusivamente em
termos de interesse pessoal, por exemplo, não serve. Quando Macbeth,
contemplando o assassínio de Duncan, admite que apenas a "ambição
desmedida" o leva a cometê-lo, está a admitir que a ação não pode
justificar-se eticamente. "Para eu poder ser rei em seu lugar" não é
uma tentativa frágil de justificação ética para o assassínio; não é o tipo de
razão que conta como justificação ética. É necessário mostrar que as ações
motivadas pelo interesse pessoal são compatíveis com princípios éticos de base
mais ampla para serem defensáveis, porque a noção de ética traz consigo a ideia
de algo mais vasto do que o individual. Se eu quiser defender o meu
comportamento com fundamentos éticos, não posso assinalar apenas os benefícios
que tal comportamento me traz a mim. Tenho de me preocupar com um grupo mais
vasto. Desde a antiguidade que os filósofos e os moralistas têm expressado a
ideia de que o comportamento ético é aceitável de um ponto de vista que é, de
alguma forma, universal. A "regra de ouro" atribuída a Moisés, que se
encontra no livro do Levítico e foi subsequentemente repetida por Jesus, diz
que devemos ir para além do nosso interesse pessoal e "amar o nosso
semelhante como a nós mesmos" ou, por outras palavras, atribuir aos
interesses alheios a mesma importância que damos aos nossos. A ideia de nos
pormos no lugar dos outros está associada à outra formulação cristã do mandamento,
segundo a qual devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles nos
fizessem. Os Estóicos defendiam que a ética decorre de uma lei natural
universal. Kant desenvolveu esta ideia na sua famosa fórmula: "Age apenas
segundo as máximas que possas ao mesmo tempo querer que se tornem leis
universais." A teoria de Kant, por sua vez, foi modificada e desenvolvida
por R. M. Hare, que vê a universalizabilidade como uma característica lógica
dos juízos morais. Hutcheson, Hume e Adam Smith, filósofos ingleses do século
__XVIII, apelaram para um "espectador imparcial" imaginário como
pedra-de-toque do juízo moral; a sua versão moderna é a teoria do observador
ideal. Os utilitaristas, de Jeremy Bentham a J. J. Smart, consideram axiomático
que, ao decidir sobre questões morais, "cada qual vale por um e ninguém
por mais de um", enquanto John Rawls, um importante crítico contemporâneo
do utilitarismo, incorpora essencialmente o mesmo axioma na sua própria teoria,
deduzindo princípios éticos fundamentais de uma escolha imaginária, na qual
aqueles que escolhem não sabem se serão beneficiados ou prejudicados pelos
princípios que escolhem. Até mesmo filósofos do continente europeu, como o
existencialista Jean-Paul Sartre e o especialista em teoria critica Jürgen Habermas,
que diferem em muitos aspetos dos seus colegas de expressão inglesa - e também
entre si -, concordam que, em certo sentido, a ética é universal.”
Peter Singer, Ética Prática, Prefácio, Gradiva, 1993
Tradução Álvaro Augusto Fernandes
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segunda-feira, abril 16, 2018
quinta-feira, abril 05, 2018
Bem absoluto e bem instrumental
Carolyn Drake, Vallejo, Califórnia
“Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que
desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é
verdade que nem
toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o
processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar),
evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem. (…)
Ora, nós chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo
mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado com vistas em outra coisa, e
aquilo que nunca é desejável no interesse de outra coisa mais absoluto do que
as coisas desejáveis tanto em si mesmas como no interesse de uma terceira; por
isso chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si
mesmo e nunca no interesse de outra coisa.
Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da
felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra
coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de
fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí,
continuaríamos a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse
da felicidade, pensando que a posse deles nos tornará felizes. A felicidade,
todavia, ninguém a escolhe tendo em vista algum destes, nem, em geral, qualquer
coisa que não seja ela própria.”
(…)
“Porque pode existir o estado de ânimo sem produzir nenhum
bom resultado, como no homem que dorme ou que permanece inativo; mas a
atividade virtuosa, não: essa deve necessariamente agir, e agir bem. E, assim
como nos Jogos Olímpicos não são os mais belos e os mais fortes que conquistam
a coroa, mas os que competem (pois é dentre estes que hão de surgir os
vencedores), também as coisas nobres e boas da vida só são alcançadas pelos que
agem retamente. Sua própria vida é aprazível por si mesma. Com efeito, o prazer
é um estado da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama: não só
um cavalo ao amigo de cavalos e um espetáculo ao amador de espetáculos, mas
também os atos justos ao amante da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos
amantes da virtude. Ora, na maioria dos homens os prazeres estão em conflito
uns com os outros porque não são aprazíveis por natureza, mas os amantes do que
é nobre se comprazem em coisas que têm aquela qualidade; tal é o caso dos atos
virtuosos, que não apenas são aprazíveis a esses homens, mas em si mesmos e por
sua própria natureza. Em consequência, a vida deles não necessita do prazer
como uma espécie de encanto adventício, mas possui o prazer em si mesma. Pois
que, além do que já
dissemos, o homem que não se regozija com as ações nobres
não é sequer bom; e ninguém chamaria de justo o que não se compraz em agir com
justiça, nem liberal o que não experimenta prazer nas ações liberais; e do
mesmo modo em todos os outros casos. Sendo assim, as ações virtuosas devem ser
aprazíveis em si mesmas. Mas são, além disso, boas e nobres, e possuem no mais
alto grau cada um destes atributos, porquanto o homem bom sabe aquilatá-los
bem; sua capacidade de julgar é tal como a descrevemos. A felicidade é, pois, a
melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não
se acham separados como na inscrição de Delos:
Das coisas a mais nobre é a mais justa, e a
melhor é a saúde; Mas a mais doce é alcançar o que amamos.
Com efeito, todos
eles pertencem às mais excelentes atividades; e estas, ou então, uma delas — a
melhor —, nós a identificamos com a felicidade. E no entanto, como dissemos13,
ela necessita igualmente dos bens exteriores; pois é impossível, ou pelo menos
não é fácil, realizar atos nobres sem os devidos meios."
Aristóteles, Ética a Nicómaco,1073-1098
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quarta-feira, abril 04, 2018
A verdadeira origem do bem: Compaixão ou fingimento?
Antonio Rotta, 1828/1903, Venezia,
L’ortolanella
Aliás, há outro princípio que Hobbes não percebeu e que,
tendo sido dado ao homem para suavizar em certas ocasiões a ferocidade de seu amor
próprio ou o desejo de se conservar antes do nascimento desse amor, tempera o
ardor que ele tem pelo seu bem-estar com uma repugnância inata de ver sofrer o
seu semelhante. Não creio temer contradição alguma concedendo ao homem a única
virtude natural que o detrator mais extremado das virtudes humanas é forçado a
reconhecer. Refiro-me à piedade (compaixão), disposição conveniente a seres tão
fracos e sujeitos a tantos males como nós; virtude tanto mais universal quanto
mais útil ao homem que precede o uso de toda reflexão, e tão natural que os
próprios animais dão, às vezes, sinais sensíveis dela; sem falar da ternura das
mães pelos filhos e dos perigos que afrontam para defendê-los, observamos todos
os dias a repugnância que têm os cavalos em pisar um corpo vivo. Um animal não
passa sem inquietação perto de um animal morto da sua espécie: alguns lhes dão
mesmo uma espécie de sepultura; e os tristes mugidos do gado, ao entrar no
matadouro, anunciam a impressão que ele recebe do horrível espetáculo que o
comove. (…) Tal é o puro movimento da
natureza, anterior a toda reflexão; tal é a força da piedade natural, que os
costumes mais depravados ainda têm dificuldade em destruir, pois vemos todos os
dias, nos espetáculos, toda a gente se enternecer e chorar pelas desgraças de
um infeliz, como se estivesse cada qual no lugar do tirano e agravasse ainda
mais os tormentos do seu inimigo: como o sanguinário Sila, tão sensível aos
males que não causara, ou Alexandre, que não ousava assistir à representação de
nenhuma tragédia, com medo de que o vissem gemer com Andrómaca e Príamo,
enquanto escutava sem emoção os gritos de tantos cidadãos que se degolavam
todos os dias por sua ordem.
Mandeville sentiu bem que, com toda a sua moral, os homens
nunca teriam passado de monstros, se a natureza não lhes desse a piedade em
apoio da razão: mas não viu que dessa única qualidade decorrem todas as
virtudes sociais que quer disputar aos homens. Efetivamente, que é a
generosidade, a demência, a humanidade, senão a piedade aplicada aos fracos,
aos culpados, ou à espécie humana em geral? Mesmo a amizade e a benevolência
são, afinal de contas, produções de uma piedade constante, fixada sobre um
objeto particular: com efeito, desejar que alguém não sofra, que outra coisa é
senão desejar que seja feliz? Mesmo que fosse verdade que a comiseração não
passa de um sentimento que nos põe no lugar daquele que sofre, sentimento
obscuro e vivo no homem selvagem, desenvolvido mas fraco no homem civilizado,
que importaria essa ideia à verdade do que digo, a não ser para lhe dar mais
força? Efetivamente, a comiseração será tanto mais enérgica quanto o animal
espectador se identificar mais intimamente com o animal sofredor. Ora, é
evidente que essa identificação teve de ser infinitamente mais estreita no
estado de natureza que no estado de raciocínio. É a razão que engendra o amor
próprio, e é a reflexão que o fortifica; é ela que faz o homem cair em si; é
ela que o separa de tudo que o incomoda e o aflige. É a filosofia que o isola;
é por ela que ele diz em segredo, ao ver um homem que sofre: "Morre, se
queres; estou em segurança". Só os perigos da sociedade inteira perturbam
o sono tranquilo do filósofo e o fazem levantar-se do leito. Pode-se
impunemente degolar o semelhante debaixo da janela; é só tapar os ouvidos e
argumentar um pouco, para impedir que a natureza, revoltando-se nele, o
identifique com aquele que se assassina. O homem selvagem não tem esse
admirável talento, e, por falta de sabedoria e de razão, vemo-lo sempre
entregar-se, aturdido, ao primeiro sentimento de humanidade. Nos motins, nas
brigas de rua, a populaça aglomera-se, e o homem prudente afasta-se; é a
canalha, são as mulheres dos mercados que separam os combatentes e impedem a
gente honesta de se degolar mutuamente.
É, pois, bem
certo que a piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a
atividade do amor de si mesmo, concorre para a conservação mútua de toda a
espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer;
é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude,
com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que
impede todo selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho
enfermo sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder
encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça
raciocinada, Faz aos outros o que queres
que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade
natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: Faz o teu bem com o menor mal possível ao
outro. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em
argumentos sutis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo homem
experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação.
Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a
virtude pela razão, há muito tempo que o género humano não mais existiria se a
sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios.
file:///C|/site/livros_gratis/origem_desigualdades.htm (64 of 64) [11/10/2001 19:05:32]
terça-feira, abril 03, 2018
O valor da moral: fingimento
Camilo José Vergara,1970, NY
Este problema do valor da compaixão e da moral da compaixão
(- eu sou um adversário do amolecimento moderno dos sentimentos -) à primeira
vista parece ser algo isolado, uma interrogação à parte; mas quem neste ponto
se detém, quem aqui aprende a questionar, a este sucederá o mesmo que ocorreu a
mim - uma perspectiva imensa se abre para ele, uma nova possibilidade dele se
apodera como uma vertigem, toda espécie de desconfiança, suspeita e temor salta
adiante, cambaleia a crença na moral, em toda moral - por fim, uma nova
exigência se faz ouvir, Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma
crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado
em questão - para isto é necessário um conhecimento das condições e
circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram (moral como conseqüência,
como sintoma, máscara, tartufice, doença, mal-entendido; mas também moral como
causa, medicamento, estimulante, inibição, veneno), um conhecimento tal como
até hoje nunca existiu nem foi desejado. Tomava-se o valor desses
"valores" como dado, como efetivo, como além de qualquer
questionamento; até hoje não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao
"bom" valor mais elevado que ao "mau", mais elevado no
sentido da promoção, utilidade, influência fecunda para o homem (não esquecendo
o futuro do homem), E se o contrário fosse a verdade? E se no "bom"
houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um
narcótico, mediante o qual o presente vivesse como que às expensas do futuro?
Talvez de maneira mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor,
mais baixo?... De modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se
alcançasse o supremo brilho e potência do tipo homem? De modo que precisamente
a moral seria o perigo entre os perigos?
(…)
"Originalmente" - assim eles decretam - "as
ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais
eram feitas, aqueles aos quais eram úteis; mais tarde foi esquecida essa origem
do louvor, e as ações não egoístas, pelo simples fato de terem sido
costumeiramente tidas como boas, foram também sentidas como boas como se em si
fossem algo bom." Logo se percebe: esta primeira dedução já contém todos
os traços típicos da idiossincrasia dos psicólogos ingleses - temos aí "a
utilidade", "o esquecimento", "o hábito" e por fim
"o erro", tudo servindo de base a uma valoração da qual o homem
superior até agora teve orgulho, como se fosse um privilégio do próprio homem.
Este orgulho deve ser humilhado, e esta valoração desvalorizada: isso foi
feito?... Para mim é claro, antes de tudo, que essa teoria busca e estabelece a
fonte do conceito "bom" no lugar errado: o juízo "bom" não
provém daqueles aos quais se fez o "bem"! Foram os "bons"
mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que
sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira
ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e
plebeu. Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar
valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade! Esse
ponto de vista da utilidade é o mais estranho e inadequado, em vista de tal
ardente manancial de juízos de valor supremos, estabelece dores e definidores
de hierarquias: aí o sentimento alcançou bem o oposto daquele baixo grau de
calor que toda prudência calculadora, todo cálculo de utilidade pressupõe - e
não por uma vez, não por uma hora de exceção, mas permanentemente. O pathos da
nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global
de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um
"sob" – eis a origem da oposição "bom" e "ruim".
(O direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber
a própria origem da linguagem como expressão de poder dos senhores: eles dizem
"isto é isto", marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que
apropriando-se assim das coisas.) Devido a essa providência, já em princípio a
palavra "bom" não é ligada necessariamente a ações "não
egoístas", como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É
somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que essa oposição
"egoísta" e "não egoísta" se impõe mais e mais à
consciência humana - é, para utilizar minha linguagem, o instinto de rebanho,
que com ela toma finalmente a palavra (e as palavras). E mesmo então demora
muito, até que esse instinto se torne senhor de maneira tal que a valoração
moral fique presa e imobilizada nessa oposição (como ocorre, por exemplo, na
Europa de hoje: nela, o preconceito que vê equivalência entre "moral",
"não egoísta" e "désinteréssé" já predomina com a violência
de uma "idéia fixa" ou doença do cérebro).
Nietzsche, Para uma genealogia da moral, 1887, w w w . s a b o t a g e m . n e t
terça-feira, março 27, 2018
Os psicopatas não reconhecem
Foto; Dora Maar
Este Blogue foi criado em 16 de Março de 2007; tem exatamente 11 anos e 11 dias. Esta é uma efeméride para assegurar o acordo insuspeito, mas demasiado inverosímil, entre nós, os que por aqui andamos a dar testemunho de uma certa beleza e os do Teatro que comemoram hoje o seu dia, em protesto, por terem tão pouco dinheiro e tantas ideias. Confesso, que é, antes de mais, isso que me move - não ouso dizer - Beleza - porque parece que foram abolidas as maiúsculas, sinal de um desaparecimento mais substancial; o da BELEZA, DO MAL, DO BEM etc etc.; a propósito, veja-se este artigo para quem, como eu, ainda considera o determinismo para as ações humanas uma mera hipótese ficcional, repare-se na focalização no cognitivismo para explicar os comportamentos:
«Quando se discursa perante uma plateia, será impossível
ignorar as pistas dos ouvintes, seja um bocejo ou um olhar atento. Este é um
processo de reconhecimento automático da perspetiva dos outros e uma
característica típica da cognição humana. O exemplo é dado por Arielle
Baskin-Sommers, investigadora da Universidade de Yale (EUA) e uma das autoras
de um artigo científico publicado recentemente na revista norte-americana Proceedings
of the National Academy of
Sciences (PNAS) em que se concluiu, após testes realizados em 106 homens
detidos numa prisão de alta segurança no Connecticut (EUA) que os psicopatas
têm uma “diminuição da propensão automática para assumir a perspetiva dos
outros”.
Há muito tempo que os investigadores se intrigam com o
facto de os psicopatas – que se caracterizam por um comportamento anti - social
e fracas emoções interpessoais – conseguirem um desempenho normal em testes
clássicos para avaliar a capacidade de ter a perspetiva dos outros”, começa por
explicar ao PÚBLICO Arielle Baskin-Sommers.Esse terá sido o gatilho para o estudo que incluiu a avaliação de 106 homens detidos entre os 21 e os 67 anos. Desta vez, os testes psicológicos – com tarefas especialmente orientadas para a análise desta característica cognitiva – revelaram que “psicopatas e não psicopatas são capazes de ter a perspetiva dos outros quando isso lhes é explicitamente solicitado, mas os psicopatas são menos capazes de se envolver automaticamente neste processo”. Os resultados, diz a investigadora, sugerem que “estes indivíduos não possuem um aspeto típico da cognição humana, o que poderá contribuir para o seu comportamento anti-social implacável”.
O título do artigo publicado na PNAS (“Psicopatas falham em
perceber automaticamente a perspetiva de outros”) faz claramente a distinção
entre esta perceção automática do outro e um outro processo controlado e
deliberado. Apesar de notar que estes indivíduos exibem um desrespeito “crónico
e notório” pelo bem-estar de outros com um comportamento insensível e
manipulador, os autores lembram que este perfil dos psicopatas tem sido
associado a défices nos processos sociais e afetivos. “No entanto, com este
estudo mostramos que alguns dos comportamentos psicopáticos podem ser
originados num défice cognitivo, especificamente uma incapacidade de automaticamente
reconhecer a perspetiva do outro.”
Os estudos anteriores, adiantam os cientistas, basearam-se
apenas em testes numa vertente controlada da teoria da mente (ToM, na sigla em
inglês) e que também é conhecida como perspetiva cognitiva, consistindo
precisamente na capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e,
dessa forma, prever o seu comportamento.
Neste caso, os investigadores quiseram testar o processo de
ToM automático e perceber se os psicopatas mantinham o bom desempenho normal
observado em estudos anteriores com o processo controlado e deliberado. “Com os
processos de ToM automáticos, um indivíduo representa os pensamentos ou sentimentos
de outra pessoa sem pretender fazê-lo, mesmo nos casos em que tal processamento
seja irrelevante para a tarefa em questão”, descreve o artigo na PNAS. E,
conclui-se, os psicopatas falham nesta ação imediata.
“É como falar numa aula: a atenção não deve estar na
audiência, mas é impossível ignorar as pistas sociais, como um bocejo. Posso
adaptar o que estou a dizer ou a forma como estou a falar para reagir a essas
dicas. Isso reflete o nosso processo automático de considerar os pensamentos
dos que nos rodeiam. Não preciso deliberadamente de ter a perspetiva dos meus
alunos, isso simplesmente acontece automaticamente”, exemplifica Arielle
Baskin-Sommers.
Os limites da cogniçãoEsta perspetiva automática e aparentemente involuntária, que os psicopatas parecem não conseguir alcançar, e a perspetiva controlada e deliberada são uma parte fundamental da cognição humana. Os investigadores também demonstram neste artigo que a magnitude desta interferência no processo automático de ter a perspetiva dos outros “está correlacionada com os comportamentos insensíveis no mundo real”, como, por exemplo, o número de ataques de que são acusados. No caso das tarefas que exigiam uma ToM controlada, os psicopatas responderam com um desempenho normal.
Os autores lembram ainda que os psicopatas têm sido
descritos como “almas esvaziadas” e sem escrúpulos e que alguns clínicos
consideram a psicopatia como uma síndrome de insanidade moral. Isso quer dizer
que estas “almas esvaziadas” podem ter a perspetiva de outros (não mostrando
défice nas capacidades de ToM em processos controlados), mas que, simplesmente,
não se importam? “Não penso que seja justo dizer que não se importam. Eles
mostram uma diminuição da propensão automática para assumir a perspetiva dos
outros, que é um processo cognitivo. Não é necessariamente consciente. Quando
são convidados a entender explicitamente a perspetiva dos outros, conseguem
fazê-lo”, responde Arielle Baskin-Sommers, adiantando que o seu laboratório
está a realizar “vários estudos sobre a identificação e especificação dos
limites da cognição em indivíduos psicopatas”.
Etiquetas:
Ciência,
Determinismo,
Psicologia
segunda-feira, março 26, 2018
O certo e o errado.
Foto Eve Arnold
Supõe que trabalhas numa biblioteca, verificando os livros
que as pessoas requisitam, e um amigo te pede para o deixares roubar uma obra
de referência difícil de encontrar que quer possuir.Podes hesitar em concordar por diversas razões. Podes recear
que ele seja apanhado e que, assim, tanto ele como tu arranjem problemas. Ou
podes querer que o livro fique na biblioteca para que tu próprio possas
consultá-lo.
Mas também podes pensar que aquilo que ele propõe está
errado – que ele não deve fazê-lo e que tu não deves ajudá-lo. Se pensas assim,
o que quer isso dizer, o que torna isso verdadeiro, se é que há algo que o
torne verdadeiro?
Dizer que isso está errado não é dizer apenas que vai contra
as regras. Pode haver más regras que proíbam aquilo que não está errado — tal
como uma lei contra criticar o governo. Uma regra também pode ser má por exigir
algo que é errado — tal como uma lei que exige a segregação racial em hotéis e restaurantes. As ideias de certo e errado são diferentes das
ideias daquilo que vai ou não contra as regras. Caso contrário, não podiam ser
usadas na avaliação das regras, bem como na avaliação das ações.Se pensas que seria errado ajudares o teu amigo a roubar o
livro, então sentes-te desconfortável com a ideia de o fazeres: de algum modo,
não queres fazê-lo, mesmo que também estejas relutante em recusares ajudar um
amigo. Donde vem o desejo de não o fazer? Qual é o seu motivo, a razão por
detrás dele?
Há várias maneiras pelas quais algo pode estar errado, mas
neste caso, se tivesses de explicá-lo, provavelmente, dirias que seria injusto
[unfair no original] para os restantes utentes da biblioteca, que podem estar
tão interessados no livro como o teu amigo, mas que o consultam na sala das
obras de referência, onde qualquer pessoa que precise dele pode encontrá-lo.
Podes também sentir que deixar o teu amigo levar o livro trairia aqueles que te
empregam, que te pagam precisamente para prevenir que coisas como estas
aconteçam.
Estas ideias relacionam-se com os efeitos sobre outras
pessoas — não necessariamente com efeitos sobre os seus sentimentos, uma vez
que podem nunca vir a descobri-lo, mas, ainda assim, com algum tipo de dano. Em
geral, a ideia de que algo é errado depende do seu impacto não só na pessoa que
o pratica, mas também noutras pessoas. Se o descobrissem, não gostariam e
opor-se-iam. Mas supõe que tentas explicar tudo isto ao teu amigo e ele
diz: «Eu sei que o bibliotecário não havia de gostar se viesse a dar pela falta
do livro e que, provavelmente, alguns dos restantes utentes da biblioteca
ficariam aborrecidos se descobrissem que o livro tinha desaparecido, mas que
mal faz? Eu quero o livro; por que razão hei-de preocupar-me com os outros?»
Espera-se que o argumento de que tal seria errado lhe dê uma
razão qualquer para não o fazer. Mas que razão poderá ter alguém que, pura e
simplesmente, não se preocupa com as outras pessoas e que pode escapar
impunemente para se coibir de fazer qualquer coisa que, normalmente, é
considerada errada? Que razão pode ter para não matar, roubar, mentir ou magoar
outras pessoas? Se conseguir aquilo que quer ao fazer essas coisas, por que
razão não há-de fazê-las? E, se não há nenhuma razão para não as fazer, em que
sentido será isso errado'?
É claro que a maioria das pessoas se preocupam em certa
medida umas com as outras. Mas, se alguém não se preocupa, a maior parte de nós
não conclui que a moral não se aplica a essa pessoa. A moral não deixa de se
aplicar automaticamente a uma pessoa que mata alguém apenas para lhe roubar a
carteira, sem se preocupar com a vítima. O facto de ela não se preocupar não
torna a sua atitude correta: devia preocupar-se. Mas por que razão deveria ela
preocupar-se? Tem havido muitas
tentativas para responder a esta questão. Um tipo de resposta consiste em
tentar encontrar algo com que a pessoa já se preocupe para depois identificar a
moral com isso.
Thomas Nagel, Que quer
dizer tudo isto? 1987, 1995, Gradiva, p56,57
Etiquetas:
Ética,
Thomas Nagel
sábado, março 24, 2018
sábado, março 17, 2018
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