sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Haverá um método científico universal?

 


Bieke Deporter, Agata, Paris, 2017

“Um método científico é um conjunto de regras que os cientistas deveriam seguir para descobrir e testar leis e teorias. Se tais regras existem e, assim sendo, qual é a sua formulação, se são universais para todas as ciências ou dentro de uma dada ciência, se mudam de uma época para a outra, são questões calorosamente disputadas.

De acordo com uma perspetiva, existem regras destinadas a testar as teorias científicas que se aplicam a toda a ciência em todas as épocas. Esta perspetiva foi abraçada por Descartes, que propôs vinte e uma dessas regras; foi também defendida por Newton (1687), que propôs quatro “Regras de pensamento para a filosofia [natural]”, consistindo em duas para inferir causas de coisas, e duas para produzir generalizações indutivas a partir de fenómenos observados.

As duas mais importantes posições empiristas empenhadas num método científico universal são o hipotético-dedutivismo e o indutivismo. Perante os dados e os problemas o cientista começa por propor uma hipótese, a qual não é indutiva ou dedutivamente inferida a partir dos dados ou de qualquer outra coisa, mas simplesmente apresentada como uma conjetura. Partindo dela e, possivelmente, de outras suposições, são deduzidas conclusões observáveis, geradas por via dedutiva, utilizando a lógica e, frequentemente, a matemática. Se as conclusões são confirmadas pela observação, a hipótese é provisoriamente aceite. Se se descobrir que são falsas, a hipótese é rejeitada e é proposta outra nova hipótese. Esta é a perspetiva de Popper.

Contrastando com ela, os indutivistas exigem mais um passo: um argumento indutivo que dê um apoio independente à hipótese ou à teoria. Este consiste em aplicar aquilo que se observou num número limitado de casos a todos os casos abrangidos por uma dada lei, ou em procurar causas semelhantes para efeitos semelhantes. (...) A existência de um método científico universal tem sido contestada por vários autores do Século XX, especialmente a partir dos anos 60. Thomas Kuhn (1962), defendendo uma abordagem histórica e relativista, afirma que numa dada época os cientistas trabalham dentro de um “paradigma”, o qual consiste num conjunto de conceitos, práticas, parâmetros de avaliação, regras de pensamento e métodos de observação que variam consideravelmente de uma ciência e de uma época para outra. O paradigma define os problemas que têm que ser resolvidos e os métodos para o fazer. Não há um método científico comum a todos os paradigmas.”


Peter Achinstein, Encyclopedia of Philosophy, Londres, trad. de Paulo Sousa, 1998,


domingo, fevereiro 15, 2026

A ciência é um assunto sobre a verdade do mundo

 


ciência é uma atividade crítica. Nós testamos criticamente as nossas hipóteses. Criticamo- las com propósito de detetar erros na esperança de, ao eliminarmos os erros, nos aproximarmos da verdade. Consideramos uma dada hipótese – por exemplo, uma hipótese nova – preferível uma outra quando satisfaz os três requisitos seguintes: em primeiro lugar, nova hipótese deve explicar todos aqueles aspetos que hipótese anterior havia conseguido explicar com êxito. Este constitui primeiro ponto mais importante. Em segundo lugar, deve evitar ao menos algumas das falhas da hipótese anterior. Ou seja, deve, se possível, resistir alguns dos exames críticos que outra hipótese não resistiu. Em terceiro lugar, deve explicar, se possível, os aspetos que antiga hipótese não pôde esclarecer ou prever. É este, pois, critério do progresso científico. […] Este critério evolutivo pode ser considerado simultaneamente um critério de aproximação da verdade. Isto porque se uma hipótese satisfaz critério do progresso e, consequentemente, suporta as verificações críticas pelo menos tão eficazmente quanto hipótese que precedeu, não consideramos tal facto como fortuito; se resistir ao exame crítico de forma ainda mais eficaz, admitimos então que se aproxima mais da verdade do que sua predecessora. objetivo da ciência é, por conseguinte, verdade: ciência é busca da verdade. muito embora nunca possamos saber […] se alcançámos esse objetivo, podemos mesmo assim dispor de razões válidas que nos permitam supor estarmos mais próximos do nosso objetivo, da verdade. Ou, como diz Einstein, que nos encontramos no bom caminho.» 

Karl Popper (1992), Em Busca de Um Mundo Melhor, Lisboa, Editorial Fragmentos, pp. 48-49

 gmentos, pp. 48-49

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

As consequências de um conhecimento científico sem controle dos próprios cientistas.



Bruce Davidson, Circus


O desenvolvimento científico comporta um certo número
de traços "negativos" que são bem conhecidos, mas que, muitas vezes, só aparecem como inconvenientes secundários ou subprodutos menores.

O desenvolvimento disciplinar das ciências não traz unicamente as vantagens da divisão do trabalho (isto é, a contribuição das partes especializadas para a coerência de um todo organizador), mas também os inconvenientes da superespecialização: enclausuramento ou fragmentação do saber.

Constituiu-se um desligamento das ciências da natureza daquilo a que se chama prematuramente de “ciências do homem”. De facto, o ponto de vista das ciências da natureza exclui o espírito e a cultura que produzem essas mesmas ciências, e não chegamos a pensar o estatuto social e histórico das ciências naturais. Do ponto de vista das ciências do homem, somos incapazes de nos pensar, nós, seres humanos dotados de espírito e de consciência, enquanto seres vivos biologicamente constituídos.

As ciências antroposociais adquirem todos os vícios da especialização sem nenhuma das suas vantagens. Os conceitos estruturais de homem, de indivíduo, de sociedade, que perpassam várias disciplinas, são de facto triturados ou dilacerados entre elas, sem poder ser reconstituídos pelas tentativas interdisciplinares. Alguns Diafoirus (Thomas Diafoirus é um médico da peça Le Malade imaginaire, de Molière (1673)), chegaram a acreditar que a sua impotência em dar algum sentido a esses conceitos provava que as ideias de homem, de indivíduo e de sociedade eram ingénuas, ilusórias ou mistificadoras.

A tendência para a fragmentação, para a disjunção, para a esoterização do saber científico tem como consequência a tendência para o anonimato. Parece que nos aproximamos de uma temível revolução na história do saber, em que ele, deixando de ser pensado, meditado, refletido e discutido por seres humanos, integrado na investigação individual do conhecimento e da sabedoria, se destina cada vez mais a ser acumulado em bancos de dados, para ser, depois, computado por instâncias manipuladoras.

Não devemos eliminar a hipótese de um neo-obscurantismo generalizado, produzido pelo mesmo movimento das especializações, no qual o próprio especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua disciplina e o não-especialista renuncia prematuramente a toda possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida, a sociedade, deixando esse cuidado aos cientistas, que não têm nem tempo, nem meios conceptuais para tanto. Situação paradoxal, em que o desenvolvimento do conhecimento instaura a resignação à ignorância e o da ciência significa o crescimento da inconsciência.

Enfim, sabemos cada vez mais que o progresso científico produz potencialidades tanto subjugadoras ou mortais quanto benéficas. Desde a já longínqua Hiroxima, sabemos que a energia atómica significa potencialidades suicidas para a humanidade; sabemos que, mesmo pacífica, ela comporta perigos não só biológicos, mas, também e sobretudo, sociais e políticos. Pressentimos que a engenharia genética tanto pode industrializar a vida como biologizar a indústria. Adivinhamos que a elucidação dos processos bioquímicos do cérebro permitirá intervenções na nossa afetividade, na nossa inteligência, e no nosso espírito.

Mais ainda os poderes criados pela atividade científica escapam totalmente aos próprios cientistas. Esse poder, em migalhas no nível da investigação, encontra-se reconcentrado no nível dos poderes económicos e políticos. De certo modo, os cientistas produzem um poder sobre o qual não têm poder, mas que enfatiza instâncias já todo-poderosas, capazes de utilizar completamente as possibilidades de manipulação e de destruição provenientes do próprio desenvolvimento da ciência.

Edgar Morin, Ciência com consciência (1990), Bertrand Brasil, Rio de janeiro 2005, p.17 e 18