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sábado, outubro 15, 2011

Responder é encerrar a questão?

Um texto deve ser entendido como resposta a uma questão posta pelo autor. Não que se considere a questão sob um ponto de vista psicológico e que se trate de reconstruir o pensamento do autor, a questão deve ser considerada na sua relação com a coisa mesma por que interroga o texto.
Mas a questão não surge ela própria, de modo expresso, no texto. Com efeito, o discurso ao passar de oral a escrito, isto é, ao tornar-se texto, põe em suspenso o contexto inicial, comum a locutor e receptor, de onde surgiu a pergunta. O texto, quando considerado na sua mera efectividade, torna-se, por assim dizer, autónomo relativamente ao contexto histórico, social e psicológico de onde surgiu.
Se questionar é abrir possibilidades, isto é, abrir as múltiplas respostas possíveis ao que está em questão, responder é eleger uma dessas possibilidades enquanto fundamento do não-ser das outras. A possibilidade eleita, a resposta afirmada, opõe-se a todas as outras possíveis respostas abertas pelo questionar.
Se questionar é abrir possibilidades, responder é encerrar possibilidades, quer dizer, encerrar a questão.

João Paisana,História da filosofia e tradição filosófica, Colibri, lx, 1993, p.19

Foto: Helena Lebre

Aqui fica a homenagem ao João Paisana, meu professor. Como qualquer texto-tese, afirmar uma resposta  não é, de modo nenhum, encerrar a questão, tão pouco ter a pretensão de o fazer, se assim fosse ignorar-se-ia toda a tradição filosófica que persegue certas questões de  modo sistemático através do tempo. Tanto na sua actividade crítica como hermenêutica ou em ambas, o texto aparece como uma provocação ou um pretexto para o questionamento continuar, alimenta-o. Neste aspecto questionar e responder são sempre possibilidades em aberto. Mesmo quando a questão é retórica, mera formalidade, para se poder expandir a consistência de um pensamento, de uma visão, enquadra-se um questionamento da sua legitimidade no tempo, da sua oportunidade ou necessidade dadas as referências disponíveis, é, portanto, abertura para um diálogo que não se opera apenas ao nível histórico mas também analítico pois os argumentos podem ser sempre colocados em causa e, por isso, desocultada a sua inconsistência tanto em comparação com o sistema onde tem lugar como nas consequências que dele podem ser retiradas e que podem revelar-se falsas.

terça-feira, abril 13, 2010

A constituição do sujeito


August Sander, Alemanha, 1876/1964

Logo, Epicuro impõe uma actividade incessante na phusiologia, mas impõe o conhecimento da natureza para a alcançar, e na medida em que  ele permite alcançar a mais perfeita serenidade. De igual modo, princípio da carta a Pythoclès: " É necessário convencer-se que o conhecimento dos fenómenos do céu não tem outro fim que a Ataraxia, e uma firme confiança. A nossa vida, com efeito, não precisa de desrazão nem de opiniões vazias, mas precisa de se renovar sem perturbação."
O conhecimento dos meteoros, o conhecimento das coisas do mundo, o conhecimento do céu e da terra, o conhecimento mais especulativo da Física, não é recusado, longe disso.  São, no entanto presentificados e modalisados na fisiologia (phusiologia) de tal modo que o saber do mundo seja , na prática do sujeito sobre si, um elemento pertinente, elemento que deve ser efectivo e eficaz na transformação do sujeito por si-próprio. Aqui está, se quereis, porque  a oposição entre o saber das coisas e o saber de si-mesmo não pode nunca ser interpretada, tanto para os epicuristas como para os cínicos, como oposição entre  saber da natureza e saber do ser humano. A oposição que é por eles traçada, e a desqualificação que fazem de um certo número de conhecimentos, refere-se simplesmente a esta modalidade do saber. O que é requerido, aquilo em que deve consistir o saber válido e aceitável, tanto para o sábio como para o discípulo, não é o saber que têm sobre si próprios, não é o saber que se tomaria da alma, que fizesse do si (soi) o objecto do conhecimento. É um saber que investe sobre as coisas, que investe sobre o mundo, que investe sobre os deuses e os homens, mas que tem como efeito e tem como função modificar o ser do sujeito. É necessário que essa verdade afecte o sujeito. A questão não é que o sujeito seja objecto de um discurso verdadeiro. Aqui está, creio, a grande diferença. Aqui está o que é preciso separar, e aqui está  que nada, nessas práticas de si-próprio, e no modo como se articulam com o conhecimento da natureza e das coisas,  pode aparecer como preliminar ou esboço daquilo que será mais tarde o decifrar da consciência por ela própria e a auto-exigese do sujeito.

Michel Foucault, L'herméneutique du sujet,Cours au Collège de France, 1981-1982, Seuil/Gallimard, 2001, pp.233

Tradução Helena Serrão

terça-feira, dezembro 02, 2008

A Sociedade do Espectáculo

Guy Debord, Paris, 1931 -1994
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A sociedade que repousa sobre a moderna indústria não é fortuitamente espectacular ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente "espectalista". No espectáculo, imagem da economia reinante, a finalidade não é nada, o desenvolvimento tudo. O espectáculo não quer vir a ser outra coisa senão ele mesmo.

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Enquanto adereço indispensável dos objectos produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, enquanto sector económico que forma directamente uma multidão de imagens/objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade.

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O espectáculo submete os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Não há mais nada senão economia desenvolvendo-se a si mesma. O espectáculo é o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

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A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou na definição de toda a realização humana uma degradação evidente, degradação do ser no haver. A presente fase da ocupação total da vida social através dos resultados acumulados da economia, conduz a um deslizamento generalizado do haver no parecer, do qual todo o haver efectivo dele tira o seu prestígio imediato e a sua última função. Ao mesmo tempo, toda a realização individual tornou-se social, directamente dependente da força social, formada por ela. Aqui, quando nada é, permitem-lhe aparecer.


Guy Debord, La société du Spectacle (Gallimard, Paris 1992). Publicado pela primeira vez em 1967.
Tradução de Helena Serrão.

Retirando o tom apologético e datado na forma como simplifica as relações sociais e económicas de modo a obter um produto discursivo inflamante , a leitura de Debord não deixa de fazer todo o sentido e obrigar-nos a pensar de novo este produto imagem/espectáculo onde as verdadeiras motivações do sistema são apagadas ou elididas. Um sistema que se mostra e autopromove a todo o momento numa espécie de máquina histórica que submete as relações individuais e sociais, mesmo aquelas que supostamente se queriam marginais, a um efeito promocional; de facto à luz desta leitura nenhum discurso parece poder escapar a este efeito de globalização.

segunda-feira, julho 23, 2007

O Ponto de exclamação

Pablo Picasso, Málaga, 1881/1973.
1917 - Les demoiselles d'Avignhon

" Sento-me hoje em frente duma máquina de escrever novinha em folha e a primeira coisa que procuro é naturalmente o ponto de exclamação. Mas não, esta máquina, última palavra de inteligência dactilográfica, exemplo, de certo, das mais vivas necessidades do homem moderno, resultado de numerosas investigações psicológicas e sociológicas acerca da melhor maneira de os homens melhor se adaptarem à realidade dos nossos dias, tem o cifrão, claro, tem também os sinais aritméticos (por amor da matemática ou da ganância?) tem o sinal das percentagens, tem ainda o ponto de interrogação (até quando?), mas o ponto de exclamação, esse, desapareceu.E desapareceu certamente porque se concluiu já não ser necessário ― devermos tudo aceitar sem espanto. O espanto, ter-se-á descoberto, é um factor de perturbação no universo, a dedada do demónio.O começo duma nova era? Afastado dos teclados das máquinas de escrever, numa época em que toda a escrita passa pelas máquinas de escrever (até cartas de amor), o ponto de exclamação (e portanto a própria exclamação) caminham para o rol das coisas arcaicas, precedendo, provavelmente o ponto de interrogação, o outro sinal do demónio. E com mais uns anos, as próprias escolas deixarão de ensiná-lo, a memória dele perder-se-á.Sem o sinal tradutor do espanto, os homens deixarão de se espantar, a flor, o regato, o quarto crescente da Lua, a mulher bonita e inteligente não terão mais mistério, o mundo passará a ser apenas o que parece ser: compreensível, óbvio, as maçãs cairão porque sim. Opaco.Ah!!!!Oh!!!! "

Augusto Abelaira, Requiem pelo ponto de exclamação

segunda-feira, abril 23, 2007

Rousseau, o solitário

Jean-Jacques Rousseau,Genebra, Suíça 1712

" Não posso deixar de verificar, em conclusão, uma oposição muito estranha entre nós no que respeita ao assunto desta carta. Recompensado com a glória, e desenganado, com ares presunçosos, viveis livre e despreocupadamente (...) No entanto, não encontrais senão mal no mundo. E eu, na obscuridade, pobre, só, atormentado por um sofrimento sem remédio, medito com prazer no meu retiro e descubro que tudo está bem. De onde vêm estas contradições aparentes? Vós o haveis explicado - enchei-vos de júbilo, e eu de esperança, e a esperança embeleza o mundo. "
in , Carta a Voltaire ,18 Agosto de 1756

Duas notas, ou dúvidas:

Primeira: porque é que o nome de um determinado autor dá um poder especial ao texto, independentemente do que é dito? Se fosse escrito por um anónimo este texto não teria honra de citação e reflexão.

Será uma questão de autoridade consentida? Uma questão de facilidade de encontrar e ler determinados autores que a tradição permitiu que fossem publicados?

Segundo: Interessará saber de que padece Rousseau para validar a sua argumentação?



sábado, março 17, 2007

O Poder do Discurso

Michel Foucault, 1926 -1984, França
O desejo diz: " Não quereria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não quereria estar a contas com ele no que há de cortante e decisivo; quereria que à minha volta fosse tudo transparente e calmo, profundo, indefinidamente aberto, em que os outros respondessem à minha espera, e as verdades nascessem uma a uma; não teria senão de me deixar conduzir nele e por ele, como um destroço feliz."
A instituição responde:" Não tens de temer começar; nós estamos todos aí para te mostrar que o discurso está na ordem das leis; (...) e se lhe acontecer ter algum poder é de nós, e somente de nós que o recebe."
(...)Suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é, ao mesmo tempo, controlada seleccionada, organizada e redistribuída por um certo número de processos que têm por fim conjurar-lhe os poderes e os perigos, dominar-lhe o acontecer aleatório, evitar-lhe a pesada, a temível materialidade.
Numa sociedade como a nossa conhecem-se os processos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar, é o interdito. Sabe-se que não há o direito de tudo dizer, que não se pode falar de tudo em quaisquer circunstâncias, que qulquer pessoa não pode falar seja do que for."

Michel Foucault, A ordem do Discurso