Caravaggio, Ceia em Emaus, 1601
Pode-se,
pois, saber que existe um Deus sem saber o que ele é.
Conhecemos, pois, a
existência e a natureza do finito, porque somos finitos e extensos como ele.
Conhecemos a
existência do infinito e ignoramos sua natureza, porque ele tem extensão como
nós, mas não tem limites como nós. Não conhecemos, porém, nem a existência nem
a natureza de Deus, porque ele não tem extensão nem limites.
Mas, pela fé,
conhecemos a sua existência; pela glória, conheceremos a sua natureza. Ora, já
mostrei que não se pode conhecer bem a existência de uma coisa sem conhecer a
sua natureza.
Falemos, agora,
segundo as luzes naturais.
Se há um Deus, ele é
infinitamente incompreensível, de modo que, não tendo nem partes nem limites,
nenhuma relação possui connosco: somos, pois, incapazes de conhecer não só o
que ele é, como também se ele é. Assim sendo, quem ousará empreender resolver
essa questão? Não somos nós, que nenhuma relação temos com ele.
Quem, pois, censurará
os cristãos por não poderem dar satisfação da sua crença, eles que professam
uma religião de que não podem dar satisfação? Expondo-a ao mundo, declaram que
isso é uma tolice, stultitiam. No
entanto, vós vos lastimais porque eles não a provam! Se a provassem, faltariam
à sua palavra; é por não terem provas que não lhes falta o senso. Sim; mas,
embora isso escuse os que assim a oferecem e os livre da censura de produzi-la
sem razão, não escusa os que a recebem.
Examinemos, pois,
esse ponto, e digamos: Deus é, ou não é. Mas, para que lado penderemos? A razão
nada pode determinar aí. Há um caos infinito que nos separa. Na extremidade
dessa distância infinita, joga-se cara ou coroa. Que apostareis? Pela razão,
não podeis fazer nem uma nem outra coisa; pela razão, não podeis defender nem
uma nem outra coisa.
Não acuseis, pois, de
falsidade os que fizeram uma escolha, pois nada sabeis disso. "Não: mas,
eu os acusarei de terem feito, não essa escolha, mas uma escolha; porque,
embora o que prefere coroa e o outro estejam igualmente em falta, ambos estão
em falta: o justo é não apostar".
Sim, mas é preciso
apostar: isso não é voluntário; sois obrigados a isso; (e apostar que Deus é, é
apostar que ele não é). Que tomareis, pois? Vejamos, já que é preciso escolher,
vejamos o que menos vos interessa: tendes duas coisas que perder, o verdadeiro
e o bem, e duas coisas que empenhar, a vossa razão e a vossa vontade, o vosso
conhecimento e vossa beatitude; e a vossa natureza tem que evitar duas coisas,
o erro e a miséria. A vossa razão não é mais atingida, desde que é preciso
necessariamente escolher, escolhendo um dentre os dois. Eis um ponto liquidado;
mas, vossa beatitude?
Pesemos o ganho e a
perda, preferindo coroa, que é Deus. Estimemos as duas hipóteses: se ganhardes,
ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis. Apostai, pois, que ele é, sem
hesitar. Isso é admirável: sim, é preciso apostar, mas, talvez eu aposte
demais.
Vejamos. Uma vez que
é tal a incerteza do ganho e da perda, se só tivésseis que apostar duas vidas
por uma, ainda poderíeis apostar. Mas, se devessem ser ganhas três, seria
preciso jogar (desde que tendes necessidade de jogar) e seríeis imprudente
quando, forçado a jogar, não arriscásseis vossa vida para ganhar três num jogo
em que é tamanha a incerteza da perda e do ganho. Há, porém, uma eternidade de
vida e de felicidade; e, assim sendo, mesmo que houvesse uma infinidade de
probabilidades, das quais somente uma fosse por vós, ainda teríeis razão em
apostar um para ter dois, e agiríeis mal, quando obrigado a jogar, se
recusásseis jogar uma vida contra três num jogo em que, numa infinidade de
probabilidades, há uma por vós, havendo uma infinidade de vida infinitamente
feliz que ganhar. Mas, há aqui uma infinidade de vida infinitamente feliz que
ganhar, uma probabilidade de ganho contra uma porção finita de probabilidades
de perda, e o que jogais é finito. Jogo é jogo: sempre onde há o infinito e
onde não há infinidade de probabilidades de perda contra a de ganho, não há que
hesitar, é preciso dar tudo; e, assim, quando se é forçado a jogar, é preciso
renunciar à razão, para conservar a vida e não arriscá-la pelo ganho infinito
tão prestes a chegar quanto a perda do nada.
Pascal, Pensamentos,
Secção 3, pp103, 104