sábado, janeiro 12, 2019

Ação





Quando falamos da ação de um ácido sobre um corpo, por exemplo deste sumo de limão sobre este pedaço de açúcar, estamos a utilizar uma metáfora: o sumo de limão não é um ator, o sumo de limão não visa dissolver o açúcar. Se não há dúvidas de que o ser humano é um excelente candidato ao título de agente ou de ator, e que o vento, as cadeiras ou as pedras jamais o poderão ser, que dizer em relação à possibilidade de existirem outros candidatos não humanos credíveis? Contrariamente a uma longa tradição filosófica que reserva a intencionalidade para o homem, parece ser um dado adquirido que também os animais (pelo menos alguns) são entidades capazes de ação. Aos olhos da maioria dos homens, parece não restarem dúvidas de que também os símios, os burros ou as girafas são criaturas agentes. Outras entidades, como os extraterrestres, no caso de existirem, podem ser considerados possíveis candidatos. O critério discriminativo parece repousar sobre a diferença entre a noção de finalidade e a noção de função. Um ator é uma entidade que tem consciência de um objetivo. Um pseudoator é um objeto ou substância que se limita a cumprir uma função, sem que tenha consciência de um objetivo. Tomemos o exemplo de uma torradeira Mitos outros exemplos poderiam ser dados) , é óbvio que este utensílio tem por função torrar o pão. No entanto, não podemos atribuir-lhe o objetivo de torrar o pão. Uma torradeira não é um ator. Esta distinção entre objetivo e função permite reduzir a extensão da noção de ator, assim como excluir um bom número de candidatos ilegítimos, como é o caso das algas e dos termóstatos, e isto sem que se reserve para o homem o título de agente ou ator.  (…) é a intenção que permite estabelecer uma distinção entre o conceito de objetivo, que a pressupõe e o conceito de função, que a exclui. 

Stéphane Ferret, Aprender com as coisas, Lisboa, 2007, Asa, p.85 e 86

quinta-feira, janeiro 03, 2019

Razão e moral: uma ligação não necessária.



René Burri (Suíça, 1933/2014) - S.Paulo Brasil, quatro homens no telhado, 1960

Há uma antiga linha de pensamento filosófico que tenta demonstrar que agir racionalmente é agir eticamente. O argumento está hoje associado a Kant e encontra-se principalmente nos textos dos kantianos modernos, embora remonte no passado pelo menos aos Estóicos. A forma em que este argumento é apresentado varia, mas a estrutura comum é a seguinte: 

1. Para a ética, é essencial uma exigência qualquer de universalidade ou de imparcialidade. 2. A razão é universal ou objetivamente válida. Se, por exemplo, das premissas "Todos os seres humanos são mortais" e "Sócrates é um ser humano" decorre que Sócrates é mortal, então esta inferência tem de ser universalmente válida. Não pode ser válida para uma pessoa e inaceitável para outra. Trata-se de uma questão geral sobre a razão, tanto teórica como prática. 

Logo: 

3. Só um juízo que satisfaça o requisito descrito em 1 como condição necessária de um juízo ético será um juízo objetivamente :, racional de acordo com 2. Pois não posso estar à espera de que outro agente racional aceite como válido um juízo que eu não aceitaria se estivesse no seu lugar; se dois agentes racionais não puderem aceitar os juízos um do outro, esses juízos não podem ser racionais, pela razão dada em 2. Dizer que eu aceitaria o meu juízo mesmo que estivesse no lugar de uma outra pessoa equivale, porém, a dizer simplesmente que o meu juízo se pode prescrever de um ponto de vista universal. Tanto a ética como a razão exigem que nos elevemos acima do nosso ponto de vista pessoal e adotemos uma perspetiva a partir da qual a nossa identidade pessoal -- o papel que por acaso desempenhamos -- não seja importante. Assim, a razão exige que atuemos com base em juízos universais e, nessa medida, eticamente. 

Será este argumento válido? Já indiquei que aceito o primeiro ponto, o de que a ética implica a universalidade. O segundo ponto também é indesmentível. A razão tem de ser universal. Será então que a conclusão se segue? Reside aqui a falha do argumento. A conclusão parece seguir-se diretamente das premissas; mas este passo implica um afastamento do sentido estrito, no qual é verdade que um juízo racional é universalmente válido, para um sentido mais forte de "universalmente válido" que é equivalente à universalidade. A diferença entre estes dois sentidos torna-se manifesta ao considerar um imperativo não universalizável, como o puramente egoísta: "Que todos façam o que é do meu interesse", que difere do imperativo do egoísmo universalizável -- "Que todos façam o que é *do seu próprio* interesse" -- porque contém uma referência não eliminável a uma pessoa em concreto. Não pode por isso ser um imperativo ético. Será que carece da universalidade exigida para constituir uma base racional da ação? Por certo que não. Todo o agente racional poderia aceitar que a atividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adotado por toda a gente. Vejamos a questão de mais perto. Temos de conceder que há um sentido em que um agente racional puramente egoísta -- chamemos-lhe Jack -- não podia aceitar os juízos práticos de outro agente puramente egoísta -- chamemos-lhe Jill. :, Presumindo que os interesses de Jill diferem dos de Jack, Jill pode estar a agir racionalmente ao pressionar Jack a fazer *_A*, enquanto Jack também age racionalmente ao decidir não fazer *_A*. Contudo, este desacordo é compatível com todos os agentes racionais que aceitam o egoísmo puro. Embora ambos aceitem o egoísmo puro, este leva-os para direções diferentes porque partem de lugares diferentes. Quando Jack adota o egoísmo puro, este leva-o a promover os seus próprios interesses, e quando Jill adota o egoísmo puro, este leva-a a promover os seus próprios interesses. Daqui o desacordo sobre o que fazer. Por outro lado -- e é este o sentido em que o egoísmo puro podia ser aceite como válido por todos os agentes racionais -- se perguntássemos a Jill (em segredo e prometendo nada dizer a Jack) o que ela pensava que seria racional Jack fazer, ela responderia, se fosse honesta, que seria racional Jack fazer o que era do seu próprio interesse, e não o que era do interesse de Jill. Logo, quando os agentes puramente racionais se opõem aos atos uns dos outros, isso não significa desacordo quanto à racionalidade do egoísmo puro. O egoísmo puro, embora não seja um princípio universalizável, podia ser aceite como base racional da ação por todos os agentes racionais. O sentido no qual os juízos racionais têm de ser universalmente aceitáveis é mais fraco do que o sentido no qual os juízos éticos o têm de ser. O facto de uma ação me beneficiar mais a mim que a outra pessoa qualquer podia ser uma razão válida para a fazer, embora não pudesse ser uma razão ética para tal. Uma consequência desta conclusão é a de que um agente racional pode racionalmente tentar evitar que outro faça aquilo que ele próprio admite que o outro tem justificação racional para fazer. Infelizmente, nada há de paradoxal nisto. Dois vendedores que compitam para conseguir efetuar uma determinada venda aceitarão que o comportamento do outro é racional, embora cada um deles pretenda frustrar os intentos do outro. O mesmo se pode dizer de dois soldados que se enfrentam no campo de batalha ou de dois jogadores de futebol que disputam a bola. Assim, esta tentativa de demonstração da existência de uma ligação entre razão e ética fracassa. Pode haver outras formas de forjar esta ligação, mas é difícil vislumbrar uma que seja mais :, promissora. O obstáculo principal a ultrapassar é a natureza da razão prática. Há muito tempo, David Hume argumentou que, na ação, a razão aplica-se apenas a meios, e não a fins. Os fins são dados pelos nossos desejos. Hume apresentou de forma implacável as implicações desta perspetiva.



Peter Singer, Ética Prática, Tradução Álvaro Augusto Fernandes Revisão Científica Cristina Beckert e Desidério Murcho, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Gradiva, 1993

sexta-feira, dezembro 21, 2018

Viver sem certeza

 Gerald Bloncourt (Haiti, 1926/2018), criança com boneca, França, Bidonville

 “ Estará o mundo dividido entre espírito e matéria, e sendo assim, que é espírito e que é matéria? Está a alma sujeita à matéria, ou tem energias independentes? Tem o Universo unidade ou fim? Evolui para algum objetivo? Há realmente leis da natureza, ou cremos nelas devido ao nosso inato amor da ordem? (…) Há um tipo nobre e um tipo baixo de vida, ou são todos meramente fúteis? Se um deles é nobre, em que consiste e como realizá-lo? Deve o bem ser eterno para poder ser apreciado, ou merece procurar-se ainda quando o Universo caminhe inexoravelmente para a morte? Existe de facto a sabedoria ou não passa de requinte derradeiro de loucura? Não há resposta em laboratório para tais questões. Pretenderam teologias dar respostas, todas demasiado definidas, o que as torna suspeitas aos espíritos modernos. Estudar essas questões, se não responder-lhes, é tarefa da filosofia.
Mas, então, dir-se-á, porque perder tempo com problemas insolúveis? Pode responder-se como historiador ou como homem em face do terror da solidão cósmica.
 (…)Desde que os homens foram capazes de especular livremente, as suas ações em inúmeros aspetos importantes dependeram das suas teorias sobre o mundo e a vida humana, assim como sobre o bem e o mal. Assim é hoje como foi antes. Para compreender uma idade ou uma nação temos de compreender-lhe a filosofia, e para isso temos de ser em qualquer grau filósofos. Há aqui uma causalidade recíproca. As circunstâncias da vida do homem concorrem muito para determinar a sua filosofia e, reciprocamente, a sua filosofia determina em muito as suas circunstâncias. Esta interação multisecular é o tópico das páginas seguintes (da história da filosofia).
 Há no entanto uma resposta mais pessoal. A ciência diz-nos o que sabemos, e é pouco; e se esquecemos quanto ignoramos ficaremos insensíveis a muitos factos da maior importância. Por outro lado, a teologia induz a crer dogmaticamente que temos conhecimento onde realmente só temos ignorância, e assim produz uma espécie de impertinente arrogância em relação ao Universo. A incerteza perante esperanças vivas e receios é dolorosa mas tem de suportar-se se quisermos viver sem o conforto dos contos de fadas. Nem é bom esquecer as questões postas pela filosofia, nem persuadirmo-nos de que lhes achámos resposta indubitável. Ensinar a viver sem certeza sem ser paralisado pela hesitação é talvez o mais importante dom que a filosofia do nosso tempo dá, a quem a estuda.
 

Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental,(1946) Relogio D’água, 2017, p. 13,14

terça-feira, dezembro 04, 2018

Futuro da humanidade depende das árvores, a “verdadeira fábrica do solo” .

Banco Mundial destina 176 mil milhões de euros ao combate às alterações climáticasHá mais de 40 anos, Jean-Philippe Beau-Douëzy, ecologista e engenheiro consultor na área do ambiente, iniciou-se naquela que viria a ser a sua luta pela conservação da natureza. Hoje, quer continuar a plantar árvores nativas porque diz serem o futuro da humanidade. Há 11 anos que trabalha na Fundação Yves Rocher, em França, onde é administrador do programa Plant for the Planet que consiste na plantação de 100 milhões de árvores em vários continentes com o objectivo de combater a erosão do solo, a perda de biodiversidade e recursos hídricos e para ajudar a agricultura local.
Jean-Philippe Beau-Douëzy, que esteve recentemente no Porto, já percorreu vários pontos do planeta. Passou pelo Sara, pelo Mediterrâneo, mas foi na Amazónia brasileira – onde chegou a ser baptizado por índios – que ganhou um novo pressuposto: o de lutar pela sua conservação. Em 1992, participou na Cimeira da Terra no Rio de Janeiro, mas, antes disso, em 1978, já organizava um dos primeiros simpósios com o tema Invenção Social e Ecologia Urbana, conceitos de que tanto se fala hoje em dia.
Que questões se discutiam em 1978 e que ligação têm hoje com as preocupações sobre a sustentabilidade e a eficiência das cidades?

Interessante que a conversa é a mesma. As questões são as mesmas, mudou a situação, que piorou. Por exemplo, naquela época a situação do mar não era a de hoje, não tinha tanto lixo. A situação na Amazónia não estava como hoje, estava muito menos desmatada, claramente. Também a biodiversidade não tinha a loucura de desaparecimento de hoje. As questões não mudaram, são as mesmas: o consumo de energia, o lixo. Por isso, o importante é fazer e não discutir. Não é preciso falar mais, tem que se fazer. Temos muitas áreas degradadas, muita terra degradada.
Como se aplica a todo o planeta uma política capaz de gerir e conservar o ambiente?
A questão não é política, a questão são as pessoas. A real pergunta é: será que as pessoas, hoje em dia, são capazes de entender que têm que plantar uma árvore? Se cada humano neste planeta for plantar uma árvore já vai mudar alguma coisa. Os políticos só falam e acabou. A responsabilidade é de todos nós. Cada um pode fazer e tem de fazer.
Nesse contexto, até que ponto temos de mudar a forma como vivemos?
Vamos ter de mudar e de nos adaptar com certeza. Especialmente no ocidente, onde temos um gasto enorme e temos, sempre, um consumo incrível. Há dois lados que têm de mudar: consumir menos e melhor e mais produtos locais. O comércio local deve ser apoiado.
Já reparei que em Portugal há muito a tradição de ter uma horta em casa – isso é muito bom e tem de continuar, é um bom caminho. Em França as hortas desapareceram. As pessoas compram verduras, até as biológicas, no supermercado. Isso é um absurdo. As verduras que se encontram no supermercado fizeram mil ou dois mil quilómetros para lá chegar e isso é um gasto brutal para o ambiente.
Entre todas as problemáticas ambientais, qual é a que mais lhe interessa? Porquê?
Sabemos que as mudanças climáticas existem e que têm efeitos na corrente do Golfo, efeitos visíveis. Estas mudanças climáticas e outras actividades humanas têm um efeito incrível na qualidade do solo, da terra, mas nós precisamos dela para nos alimentar.
Temos perdido muita terra por causa da erosão e da salinização dos solos e o que pode proteger e reconstituir a terra são as árvores. Elas são a verdadeira fábrica do solo. Hoje, continuamos a fazer a desflorestação e a monocultura da plantação de árvores – o que não presta, nenhuma das duas. Nenhum dos casos vai ajudar e ainda piora se usarmos árvores como pinheiros ou eucaliptos. As folhas do eucalipto têm um processo de decomposição muito lento e vão deixar a terra em más condições a longo prazo. Devem ser plantadas árvores nativas porque estão adaptadas ao solo. É preciso plantar uma árvore no coração das pessoas.
Acha que a tecnologia vai alguma vez conseguir vencer tudo aquilo que as árvores nativas fazem pelo nosso planeta?
A solução não é a tecnologia. A tecnologia está na moda e parece que vamos consertar a natureza com a tecnologia. Só que a única coisa que conseguimos fazer com a tecnologia foi acabar com muito do ambiente. Ainda temos muito a aprender com a natureza. Isto não quer dizer que a tecnologia não possa ajudar, mas a primeira coisa é estudar. Ainda não estudámos todos os pontos de como funciona uma floresta. As árvores são capazes de fotossíntese e nós não conseguimos replicar isso com tecnologia, até agora. Fazemos painéis solares muito poluentes, com muitos gastos. Não há comparação com o que faz a natureza. Além disso, é preciso perceber que o que é mais barato para parar o CO2 [dióxido de carbono] são as árvores.
O factor económico também é, por isso, importante?
Hoje em dia também tem de se considerar esse ponto. Mas não podemos pensar que vai ser só crescimento económico. Por exemplo, os eucaliptos têm uma saída económica muito fácil que é o fabrico de papel. Mas, a longo prazo, será que necessitamos de mais papel? Temos tanto papel no planeta que podemos reciclar. Os eucaliptos não vão conservar o solo e é preciso ver se há outras culturas que se possam encaixar de um ponto de vista mais ecológico.

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segunda-feira, dezembro 03, 2018

Morreu o filósofo e professor de Filosofia Fernando Belo

Uma entrevista em Colares 2011



Conheci-o. Recebia-me num gabinete no primeiro andar da Faculdade de Letras. Era rigoroso e um pouco ausente. Mandou-me reescrever o primeiro capítulo da minha primeira tese de mestrado. Bem, porque era uma algraviada ininteligível, mas depois de escrever 300 páginas sobre Michel FGoucault disse-lhe que não prosseguia. E assim foi o meu pequeno encontro com Fernando Belo.

quinta-feira, novembro 15, 2018

Dia da Filosofia



Este texto de Arendt alerta-nos para uma situação que pressentimos ser perigosa mas que caminha indelével e silenciosa sem o nosso consentimento que esquecemos de  dar ou estamos preocupados em fazer sem verdadeiramente dizer, olhar e ver. A Filosofia nada é se não for atenta à realidade situada e vivida. Leis abstratas e lógicas são exercicício como ir ao ginásio da mente mas não conferem mais realidade ao que nos afecta nem ajudam a vontade a encontrar os outros para com eles encetar um diálogo, um diálogo que nos chama mas que, ao mesmo tempo, nos entedia de morte, como se estivessemos todos cansados de palavras. As palavras só ganham força se representarem uma vontade colectiva e não apenas uma vontade individual. Se nada mais nas palavras puder ecoar dentro de nós como um bálsamo ou um hino ou um clarim, então que nos deixemos ficar pobres e a elas renunciemos, renunciaremos ao que nos faz ser, ao mais humano, no sentido bom, isto é, criador de paz e de possíveis.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Dualismo


Marc Chagall, Voando sobre a cidade, 1918, Russia

"O dualismo é a perspectiva segundo a qual és composto por um corpo e por uma alma e a tua vida mental se desenrola na tua alma. O fisicalismo é a perspectiva segundo a qual a tua vida mental consiste em processos físicos no teu cérebro. Contudo, outra possibilidade é a de a tua vida mental se desenrolar no teu cérebro, mas todas essas experiências, sentimentos, pensamentos e desejos não serem processos físicos no teu cérebro, o que equivaleria a dizer que a massa cinzenta de milhares de milhões de células nervosas no teu crânio não é apenas um objecto físico. Tem muitas propriedades físicas - desenrolam-se nele grandes quantidades de actividade química e eléctrica - mas também tem processos mentais. (...) A perspectiva de que o cérebro é o lugar da consciência mas que os seus estados conscientes não são apenas estados cerebrais, é designada por teoria do aspecto dual. Chama-se assim porque significa que quando comes um chocolate se produz um estado ou um processo no teu cérebro com dois aspectos: um aspecto físico, que envolve diversas transformações químicas e eléctricas, e um aspecto mental- a experiência do sabor do chocolate. Quando este processo ocorre, um cientista que olhe para o teu cérebro será capaz de observar o aspecto físico, mas tu próprio passarás, interiormente, pelo processo mental: terás a sensação de saborear chocolate. Se isto for verdade, o teu cérebroterá um interior que não poderá ser alcançado por um observador exterior, mesmo que o abra. Ao comeres um chocolate, existiria um aspeto mental do processo cerebral que seria a tua própria sensação. (...)"

 Thomas Nagel, Que Quer dizer tudo isto?, Gradiva, pag 34-35;

quinta-feira, outubro 04, 2018

Será possível o conhecimento "a priori"?




Na "A Crítica da Razão Pura" Immanuel Kant aborda alguns aspectos do conhecimento e distingue-os, ainda que esta distinção seja feita "mediante uma longa prática que nos habilite a separar esses dois elementos." e os elementos do conhecimento a que Kant se refere são o "a priori" e "a posteriori".

Assim inicia Kant, "No tempo, nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela." Demonstrando que todo conhecimento se inicia com a experiência, porém não é porque se iniciou com a experiência que dela deve depender, pois "Consideraremos, portanto, conhecimento “a priori”, todo aquele que seja adquirido independentemente de qualquer experiência. A ele se opõem os empíricos, isto é, áqueles que só o são “a posteriori”, quer dizer, por meio da experiência." Desta forma, o conhecimento "a priori" mesmo tendo origem na experiência, não é dependente dela, Kant aborda o assunto dizendo que "[...] daqui por diante, [...] conhecimento “a priori”, são todos aqueles que são absolutamente independentes da experiência; eles são opostos aos empíricos, isto é, àqueles que só são possíveis mediante a experiência."
Desta forma o conhecimento "a priori" faz parte da razão pura, e é universal e necessário, como por exemplo: "O triângulo possui três lados." Esta frase faz-nos entender que em qualquer lugar do universo e em qualquer circunstâncias o triângulo possui três lados, assim como: "Todo solteiro é não casado"; "todo corpo possui massa", ou seja, são casos universais e necessários, sendo o que são em qualquer lugar.
Já o conhecimento "a posteriori" é contingente (pode ou não pode ser), pois depende do fenómeno empírico para ser o que é, dependente da experiência e dela originado, enquanto o conhecimento "a priori" é originado na experiência, mas não dependente dela.
A separação entre estes dois conhecimentos, um "a priori" (originado na experiência, mas não dependente dela) e um "a posteriori" (que é a própria experiência agindo). "Surge desse modo uma questão que não se pode resolver à primeira vista: será possível um conhecimento independente da experiência e das impressões dos sentidos?"
Lembrando que os conhecimentos "a priori" e "a posteriori" servem apenas para conhecimento das coisas que estão no âmbito da física e não metafísica, e ainda que não possamos conhecer as coisas como são em si, mas apenas como aparecem para nós.
 

Fonte: KANT, Immanuel. A Crítica da Razão Pura. Introdução.
O artigo pode ser consultado AQUI

sábado, setembro 29, 2018

O que é a Filosofia?


Violeta Loreti
 
TEXTO 1
"Os conhecimentos da razão contrapõem-se aos conhecimentos históricos. Aqueles são conhecimentos a partir de princípios; estes, conhecimentos a partir de dados. Porém um conhecimento pode provir da razão e, não obstante, ser histórico; como quando, por exemplo, um simples literato aprende os produtos de uma razão alheia; o seu conhecimento de tais produtos da razão é, assim, simplesmente histórico."
(...) Aquele que quiser aprender a filosofar deve, pelo contrário, encarar todos os sistemas da filosofia apenas como história do uso da razão e como objeto do exercício do seu talento filosófico.
O verdadeiro filósofo tem, portanto, como pensador por si próprio, de fazer um uso livre e próprio, não um uso imitador e servil, da sua razão."

Immanuel Kant, O conceito de filosofia em geral.

TEXTO 2
" O núcleo da filosofia reside em certas questões que o espírito reflexivo humano acha naturalmente enigmáticas, e a melhor maneira de começar o estudo da filosofia é pensar diretamente sobre elas.

(...) A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias , pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.

A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nela. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: 'O que é o tempo?'. Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: 'O que é um número?'. Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: ' Que faz uma palavra significar qualquer coisa?'

Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar é correto ou não, mas um filósofo perguntará: 'O que torna uma ação boa ou má?'

Thomas Nagel (1995) Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação à filosofia (Lisboa ,Gradiva).

TEXTO 3

"4.11 A totalidade das proposições verdadeiras é toda a ciência natural (ou a totalidade das ciências da natureza).

4.11.1 A Filosofia não é uma das ciências da natureza.

(A palavra filosofia tem de denotar alguma coisa, que está acima ou abaixo das ciências da natureza, mas não ao lado delas).

4.11.2 O objeto da Filosofia é a clarificação lógica dos pensamentos.

A Filosofia não é uma doutrina, mas uma atividade. Um trabalho filosófico, consiste essencialmente em elucidações.

O resultado da Filosofia não é "proposições filosóficas", mas o esclarecimento de proposições.

A Filosofia deve tornar claros e delimitar rigorosamente os pensamentos, que doutro modo são como que turvos e vagos."


Ludwig Wittgenstein (1987) ,Tratado Lógico-Filosófico, Lisboa, Ed. Fund.Calouste Gulbenkian.


segunda-feira, setembro 17, 2018

sexta-feira, julho 27, 2018

Sobre a piedade




Ara Guler, Istambul, 1951

A misericórdia pelos animais tem o mesmo princípio da piedade dos homens. Ambos nascem dessa dor quase irrefletida, orgânica, produzida em nós pela visão ou memória do sofrimento de outro ser sensível. Se uma criança está acostumada a ver os animais sofrer com indiferença ou mesmo prazer, o germe da sensibilidade natural, o primeiro princípio ativo de toda a moralidade, é destruído e, mesmo no que diz respeito aos homens, é destruída neles toda virtude,  sem a qual não são mais do que um cálculo de interesses, uma combinação fria da razão. Não vamos sufocar esse sentimento ao nascer; vamos mantê-lo como uma planta fraca ainda, que num instante pode murchar e secar para sempre. Não nos esqueçamos especialmente de que, no homem ocupado com trabalhos grosseiros que entorpecem a sua sensibilidade e o trazem de volta aos sentimentos pessoais, o hábito da dureza produz essa disposição para a ferocidade que é o maior inimigo das virtudes e da liberdade do povo, a única desculpa dos tiranos, o único pretexto ilusório de todas as leis desiguais. Façamos com que as pessoas sejam sensatas e doces, para que não tenham medo de ver o poder residir nas suas mãos; e para que não nos arrependamos de tê-lo restabelecido em todos os seus direitos, vamos dar-lhes aquela humanidade que, sozinha, pode ensiná-los a exercê-lo com uma generosa moderação. O homem compassivo não precisa ser iluminado para ser bom, e a razão mais simples basta para ele ser virtuoso. No homem insensível, pelo contrário, uma bondade fraca supõe uma grande iluminação, e ele não pode tornar-se virtuoso sem o apoio de uma filosofia profunda, ou daquele entusiasmo inspirado por certos preconceitos; um entusiasmo sempre perigoso, porque estabelece como virtude qualquer crime útil aos interesses dos enganadores cujos preconceitos fundaram o poder.

Condorcet, Cinq mémoires sur l’instruction publique (1791)   p. 59
Tradução Helena Serrão

sexta-feira, julho 20, 2018

quinta-feira, julho 19, 2018

Chamam-lhe "As aprendizagens essenciais da Filosofia"  A sociedade Portuguesa de Filosofia organizou e escolheu, penso eu, e os professores que o fizeram penso que são do conhecimento de todos. O que eu acho, é a minha opinião de professora com 30 anos de ensino, é que esses professores têm todos a mesma filiação analítica, não espelham a diversidade pedagógica da Filosofia e estão a confinar a Filosofia a um feudo demasiado restrito e redutor que não é de todo interessante ou formador para os alunos. De facto, a Lógica não é o instrumento essencial da Filosofia, a História é tão fundamental como a Lógica, ou a Hermenêutica, a Fenomenologia ou a Filologia. Este programa faz de conta que essas áreas de análise não existem, passa uma esponja e formata, isto é, faz o contrário do que deve ser uma abordagem ao pensamento filosófico. Não estou sozinha neste meu credo, mas não percebo porque não se discute de forma ampla estes assuntos e se apresenta um novo programa deste modo.

segunda-feira, julho 16, 2018

Foto Luis Faurer, 1961

Parabéns aos meus alunos que fizeram o exame de Filosofia! Os resultados foram, no geral, bastante satisfatórios!

terça-feira, julho 10, 2018

Radicalismos 5



Instituição dos jogos cénicos. 

Todavia, ficai sabendo, vós que o ignorais e vós também que fingis ignorá-lo; prestai atenção, vós que murmurais contra quem vos libertou de tais senhores: os jogos cénicos, espetáculos de torpeza e desvario de vaidades, foram criados em Roma não por vícios humanos mas por ordem dos vossos deuses. Seria mais tolerável conceder honras divinas a Cipião do que prestar culto a deuses deste jaez. Porque estes não eram melhores que o seu pontífice. Vede se prestais atenção — se é que o vosso espírito, embriagado por erros sorvidos desde há tanto tempo, vos permite tom ar em consideração alguma coisa de são. Os deuses ordenavam exibições de jogos teatrais em sua honra para refrearem a pestilência dos corpos. O pontífice, ao invés, proibia a própria construção do teatro para evitar que as vossas almas se empestassem. Se em vós resta uma centelha de lucidez para dar preferência à alma sobre o corpo — escolhei a qual dos dois deveis prestar culto. E não se acalmou aquela pestilência dos corpos, porque, num povo belicoso como este, até então acostumado apenas aos jogos de circo, se insinuou a insânia refinada das representações teatrais. Mas a astúcia de espíritos nefandos, prevendo que a seu tempo terminaria aquela peste, teve o cuidado de inocular outra muito mais grave e do seu pleno agrado, desta vez não nos corpos mas nos costumes. Esta peste cegou o espírito a estes desgraçados com tão espessas [185] trevas e tornou-os tão disformes, que, agora (a posteridade talvez não acredite se lhe chegar ao ouvido), devastada que foi Roma, os contagiados desta peste que na fuga conseguiram chegar a Cartago, todos os dias e à porfia se encontram nos teatros enlouquecidos pelos histriões.

Santo Agostinho, A cidade de Deus, Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, Livro I, p.185


Tradução Dias Pereira

Ora Agostinho considera o Teatro perverso, ora ele é realizado a pedido e como oferenda a uma divindade, logo, a divindade é perversa. Aqui há um juízo de valor que se fundamenta numa crença prévia. O teatro é perverso porquê? Porque não é uma oferenda ao Deus Único? Porque não tem como fim a sua exaltação? 

sexta-feira, junho 29, 2018

Erros do exame de Filosofia

7. O caso seguinte serve para testar a teoria da justiça de Rawls. Um indivíduo sofre de graves deficiências mentais, e um outro tem um grande talento matemático. Estando satisfeitas as necessidades materiais de ambos, a sociedade dispõe de recursos adicionais que permitem ajudar apenas um deles. Desse modo, ou o indivíduo com graves deficiências mentais terá um apoio educativo suplementar, que não irá melhorar significativamente a sua vida, ou será proporcionada uma educação superior ao indivíduo com talento matemático, que dela retirará a grande satisfação de desenvolver todas as suas potencialidades nesse domínio. 
Quem, contra Rawls, defender a opção de ajudar o indivíduo com talento matemático estará a pôr em causa
(A) a existência de bens sociais primários. 
(B) o dever de imparcialidade.
(C) o princípio da diferença. 
(D) o princípio da igualdade de oportunidades.

A resposta correta seria, de acordo com os critérios oficiais, a C. Considero que essa resposta não é satisfatória de acordo com o problema. O problema consiste em considerar que o Estado deve apoiar o indivíduo mais talentoso em detrimento daquele com menos capacidades. Ora essa escolha acentua as desigualdades de nascimento, destruindo, em vez de criar, mais igualdade entre estes dois cidadãos. Violaria o princípio da igualdade de oportunidades e não o princípio da diferença,  pois o texto é omisso em relação à contribuição do indivíduo mais talentoso e mais apoiado para o bem do outro, mais desfavorecido, não diz que essa mais valia é por si valiosa, ou que contribui para o bem geral ou outra qualquer consequência, logo, nenhuma seria possível tirar.

sábado, junho 23, 2018

Poesia da Semana: O Homem Que LÊ (Rainer Maria Rilke)



O Homem que Lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira