quinta-feira, novembro 13, 2014

Argumentação: um poder acessível



12 Angry Man é um filme de 1957 realizado nos EUA por Sidney Lumet. Trata-se de uma história de 12 jurados que têm de decidir se um jovem é culpado ou inocente do homicídio do pai. A situação inicial é a de que todos menos um concordam em considerá-lo culpado, o filme desenrola-se então dentro de um espaço fechado onde se joga a decisão que tem de ser tomada por unanimidade. O tempo do filme é o tempo real, duas horas. Em duas horas esgrimem-se razões e chega-se ao consenso. A incógnita é, quem convence quem e como.
 No início, o veredicto de cada uma das personagens  é o reflexo dos seus interesses mais imediatos, cada um com a sua história pessoal, deixando-se influenciar por ela a tal ponto que não vê ou não lhe interessa ver o lugar do outro, do arguido, aquele que estão a julgar. Mas a necessidade de discutirem por haver um discordante, leva  11 homens a pensar e, por isso, a mudar de opinião à medida que da análise das provas vão surgindo novos factos capazes de gerar  uma "Dúvida Razoável". 
Ora, esta  "Dúvida Razoável" é suficiente para a absolvição mas não é  suficiente para a condenação. Nenhum destes homens pode querer a verdade, não é da verdade que se trata mas da confiança ou descrença das provas, só podem analisar os factos e descobrir através deles outros factos que permaneciam ocultos, revelando outra história que sendo possível de ocorrer pode criar a dúvida. O campo da discussão é o campo do possível, do verosímil e do plausível, o justo campo onde só a  argumentação tem poder. Por outro lado, estes homens estão constrangidos pelas circunstâncias, uma porta fechada, a obrigação de um consenso, discutir não é uma escolha, não há alternativa melhor. Prefeririam muitos deles ter dado um veredicto e ter ido fazer outra coisa, preferiam não discutir, porque na discussão há exposição e risco, há vencedores e perdedores como em qualquer campo de batalha. O problema é que saímos da discussão com dúvidas e não com certezas, e isso torna o risco pouco apetecível para a maioria de nós.

O desafio que aqui deixamos sobre este filme é o seguinte: A partir das pistas dadas descubra a profissão de cada uma das personagens.

sexta-feira, novembro 07, 2014

Novo desafio filosófico

A retórica é útil porque as coisas que são verdadeiras e as coisas que são justas têm uma tendência natural para prevalecer sobre os seus opostos. Assim, se as decisões dos juízes não forem aquelas que deveriam ser, a derrota tem de ser atribuída aos próprios oradores e por isso eles têm de ser censurados.
Além disso, nem mesmo a posse do conhecimento mais exacto torna fácil convencer certos auditórios daquilo que dizemos, pois a argumentação baseada no conhecimento implica a instrução e existem pessoas que não conseguiremos instruir. Nestes casos, temos de usar, então, noções que todos possuem enquanto modo de persuasão e argumentação. (...)
Além do mais, temos de ser capazes de utilizar a persuasão (tal como o raciocínio rigoroso pode ser utilizado) em lados opostos de uma questão - não para que na prática possamos utilizá-la de ambas as maneiras, pois não devemos levar as pessoas a acreditar naquilo que é errado, mas podermos ver claramente os factos e para que, se outro homem argumentar desonestamente, possamos refutá-lo. Em nenhuma das outras artes se retiram conclusões opostas: isto só acontece na dialéctica e na retórica. Estas duas artes retiram conclusões opostas imparcialmente. Ainda assim, os factos subjacentes não se prestam igualmente bem às perspectivas contrárias. Não, na prática, as coisas que são verdadeiras e as coisas que são melhores são, pela sua natureza, mais fáceis de acreditar e de provar.
Por fim, é absurdo sustentar que um homem deve ter vergonha de ser incapaz de se defender com os seus membros, mas não ser incapaz de se defender com o discurso e a razão.

DE QUEM É ESTE TEXTO? 

ACEITAM-SE SUGESTÕES. FILÓSOFOS, ESTUDIOSOS DE FILOSOFIA ARRISQUEM...CONFIRAM A AUTORIA. EM BOA VERDADE UM TEXTO QUE NÃO SE ESCUDE NA AUTORIDADE DE UM AUTOR É MUITO MAIS FRÁGIL MAS TAMBÉM MAIS ABERTO À DISCUSSÃO...

Desfeito o anonimato o texto é de Aristóteles, da obra a Retórica, como ninguém respondeu ao desafio o próximo desafio será mais atraente: Será que o actor Zeca vai voltar às Novelas? Será que vamos poder voltar a contar com os seus magníficos olhos azuis ou Adeus Zeca? Aguardam-se comentários...

quinta-feira, outubro 23, 2014

Logosfera - A Babel das línguas que não se entendem


"Cada povo tem, sobre si, um céu matematicamente dividido em conceitos, e, sob a exigência de verdade, entende que nenhum deus conceptual  pode ser  procurado em lugar algum fora da sua sua esfera "(Nietzsche): somos todos apanhados na verdade das linguagens, isto é, na sua regionalidade,  arrastados para a grande rivalidade que governa as suas vizinhanças. Pois cada palestra (cada ficção) luta pela hegemonia;  se  tem o poder,  atravessa tudo no decorrer quotidiano da vida social, torna-se  doxa , natureza: a conversa pretensamente apolítica dos políticos, funcionários públicos,  da imprensa, rádio, televisão;  é a conversação; Mas, mesmo fora do poder, contra o poder, a rivalidade renasce, os dialectos  lutam entre si. Uma Regra implacável rege a vida da linguagem; ela vem sempre de algum lugar, é guerreira desse  lugar. Imagina-se o mundo da linguagem (o logosfera ) como um enorme e perpétuo conflito de paranóias. Apenas sobrevivem os sistemas  (ficções, dialectos) suficientemente inventivos para produzir uma imagem final, o sistema que marca o adversário   com termos semi-científicos, semi-éticos, espécie  de torniquete que permite ao mesmo tempo ver, explicar, condenar , vomitar, recuperar o inimigo, em uma palavra, fazê-lo pagar.
Roland Barthes, Le plaisir du texte, Seuil, Paris 1973, p.47,48

Tradução de Helena Serrão

O conceito de Logosfera descobre a sua paternidade e também a luz do dia, neste excerto do texto de Barthes. O mundo das linguagens em conflito que lutam pela hegemonia.

terça-feira, outubro 14, 2014

Hannah Arendt entrevistada por Roger Errera em 1973 (extracto)

Hannah Arendt nasceu a 14 de Outubro de 1906, hoje faria 108 anos. À sua fama referenciada na página de pesquisa do Google, não é alheia uma evidente capacidade de comunicação e de reflexão simultaneamente estimulante e original, não só porque faz uso de uma linguagem comum, facilmente compreensível, como alerta para a discussão dado o carácter provocador das suas principais teses. Veja-se na entrevista a relação entre a banalidade do mal e a grandiosidade das suas consequências, qualquer ser humano que se destitui do pensamento pode perpetrar, se as condições o propiciarem, actos causadores dos maiores danos, sem consciência, pois sem pensamento não há verdadeira consciência moral. Esta conclusão resulta da análise de um caso histórico, o julgamento do nazi Adolf Eichmann. No seguimento deste raciocínio, a citação de Brecht, que a comédia pode representar melhor que a tragédia este mal cometido provoca uma inversão dos lugares comuns que usamos e nos quais confiamos, exemplo da função crítica da Filosofia que não precisa afastar-se dos factos históricos, pode perfeitamente partir deles para os interpelar de um outro modo, diferente da História.

quinta-feira, outubro 09, 2014

O homem do momento.



"Teria misturado os papéis, como num jogo de cartas, e tê-los-ia espalhado sobre a mesa. É então esta  a minha vida presente? Tudo se limitava, para mim, neste momento, a uma vintena de nomes e moradas avulsos dos quais eu era a única ligação. E porquê estes e não outros? Que tenho eu de comum com estes nomes e lugares? Encontrava-me num sonho onde se sabe que,assim de um momento para o outro, não se pode acordar quando os perigos nos ameaçam. Se quisesse, abandonaria a mesa e tudo se diluiria, tudo desapareceria no nada. Não restaria senão uma mala de folha de Flandres e alguns recados em papel onde estavam rabiscados alguns nomes e lugares que já não faziam sentido para ninguém."

Patrick Modiano, Du plus loin de l'oubli

helena serrão tradução livre

quinta-feira, outubro 02, 2014

Oxalá desaparecesse a Filosofia!!!



Mas,  qual a atitude do mundo em relação à filosofia? Há cátedras de filosofia nas universidades. (…) Por força da tradição, a filosofia é polidamente respeitada, mas, no fundo, objecto de desprezo. A opinião corrente é a de que a filosofia nada tem a dizer e carece de qualquer utilidade prática. É nomeada em público, mas — existirá realmente? A sua existência prova-se, pelo menos, pelas posições de defesa a que dá lugar.
A oposição à filosofia traduz-se em fórmulas como: a filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está para além do meu alcance; não tenho vocação para ela; e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; decide abster-se de pensar no plano geral para mergulhar, através de trabalho consciencioso, num capítulo qualquer da actividade prática ou intelectual; quanto ao resto, bastará ter “opiniões” e contentar-se com elas.
A polémica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar a minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever os meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.
E surgem os detractores, que desejam substituir a obsoleta filosofia por algo de novo e totalmente diverso. Ela é desprezada como produto final e mandatária de uma teologia falida. A insensatez das proposições dos filósofos é ironizada. E a filosofia vê-se denunciada como instrumento servil de poderes políticos e outros.
Muitos políticos vêem facilitado o seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante. Oxalá desaparecessem as cátedras de filosofia. Quanto mais vaidades se ensinem, menos estarão os homens em risco de se deixar tocar pela luz da filosofia.

Assim, a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. A auto-complacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência em função da sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário — tudo isso proclama a anti-filosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão a fazer. E permanecem inconscientes de que a anti-filosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria a sua própria aniquilação.

Karl Jaspers, Introdução ao pensamento filosófico, Cultrix, S. Paulo, s.d, pp.101

quinta-feira, setembro 18, 2014

Boa Tarde a todos!!!



Chema Madoz, fotografia, Espanha n.1958

Horário da Logosfera na Escola Secundária Luís de Freitas Branco: 5ªfeira das 14.30h ; 16h.
Sala D21

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quinta-feira, setembro 04, 2014

O relativismo moral


Paul Gauguim "Cenas da vida no Tahiti

A minha tese é a de que a moralidade surge quando um grupo de pessoas atinge um acordo implícito ou chega a um entendimento tácito relativo ao modo como se relacionam uns com os outros. Parte do que eu quero dizer com isto é que os juízos morais, ou um importante conjunto deles, só fazem sentido em relação e com referência a um ou outro acordo ou entendimento. (…) Mas deve ficar claro que pretendo argumentar a favor de uma versão do que tem sido chamado de relativismo moral. Ao fazer isso, estou a tomar partido numa controvérsia antiga. (…) Do mesmo modo que o conceito de grande só faz sentido em relação ou em comparação, o juízo de que alguém fez algo errado também só faz sentido na relação com um acordo ou entendimento. Um cão pode ser grande em relação aos chihuahuas e não ser grande em relação à generalidade dos cães Similarmente, uma acção pode ser errada  relativamente a um acordo e não o ser em relação a outro. Do mesmo modo que não faz sentido perguntar se o cão é grande, sem mais,  também não se pode perguntar de modo isolado e sem relação com um acordo, se uma acção é errada.
Existe um acordo ou entendimento, num sentido relevante se cada uma das pessoas que integra um grupo tem a intenção de aderir a algum programa, plano ou conjunto de princípios, pressupondo que os outros também têm intenção de o fazer.
Gostaria de dizer breves palavras sobre o caso limitado da moralidade de um grupo, quando o mesmo tem apenas um membro; então, por assim dizer,  uma pessoa chega a um entendimento com ela própria (consigo mesma). Na minha opinião, uma pessoa pode fazer julgamentos internos em relação a si mesmo. A forma familiar de pacifismo é deste tipo. Alguns pacifistas consideram que seria errado matarem, embora não estejam dispostos a fazer um juramento semelhante sobre os outros (…). Há naturalmente, muitos exemplos de moralidade individual neste sentido, quando uma pessoa impõe padrões a si mesma que não se aplicam aos outros. A existência de tais exemplos é mais uma confirmação da tese relativista que eu apresentei.
A minha conclusão é a de que a moral deriva de um implícito acordo ou entendimento e que os juízos morais são feitos  com relação a esse acordo.


Gilbert Harman (1975), Moral Relativism defended, in The philosophical Review, vol 84, nº1, pp3-22

Neste ponto de vista se o grupo não chegasse a acordo então não haveria regras, ou vamos limitar o grupo aos que estão de acordo e assim há regras mas só para alguns e os outros formam outras. Não há verdadeiramente tão grande discrepância, ou substancial divergência entre todos sobre certos actos serem errados, objectivamente errados, e portanto a evitar, assim  como não há substancial divergência em relação à grandeza dos cães. Um cão grande é facilmente reconhecível por todos, porque há um padrão formado a partir da experiência comum que todos temos sobre a natureza dos cães conhecidos. O facto de poderem existir excepções não altera o que podemos concluir ser o mais comum e constituir o padrão. Do mesmo modo o juízo moral pode estar vinculado a um grupo resultante do acordo tácito entre todos os membros mas isso não significa que por serem praticados e consentidos certos actos no seio desse grupo, que eles sejam correctos moralmente. Ser aceite por um grupo não significa moralmente correcto. O juízo sobre o correcto ou incorrecto não pode ser confinado a um grupo porque a questão moral é uma questão geral, pois qualquer acção de qualquer indivíduo, em qualquer grupo afecta ou pode  afectar  todos. Imaginemos uma terra onde só existem cães pequenos, raças pequenas. Nessa terra, se não houvesse conhecimento de outras raças chegar-se-ia a pensar que todos os cães são pequenos e o nosso juízo estaria errado.

sábado, agosto 30, 2014

Kant: A melancolia como condição humana


Rodney-Smith

Aquele cujo sentimento pertence ao melancólico não é assim chamado por privar-se das alegrias da vida, por afligir-se numa sombria melancolia, mas porque os seus sentimentos, caso ultrapassem um determinado grau ou tomem uma direção equivocada em função de certas razões, se reportam mais facilmente àquele estado que a outros. Ele possui sobretudo um sentimento do sublime. Mesmo a beleza, da qual sem dúvida possui o sentimento, precisa não apenas estimulá-lo, mas antes, visto que ao mesmo tempo lhe inspira admiração, também deve comovê-lo. Embora desfrute de contentamentos com mais austeridade, não o faz de maneira inferior. Todas as comoções do sublime possuem em si mais encanto do que as atrações volteantes do belo. Seu bem-estar consistirá mais em felicidade que em alegria. Ele é constante. Para isso, subordina seus sentimentos a princípios. Aqueles são tanto menos submetidos à inconstância e à mudança quanto mais universal é o princípio ao qual se subordinam e, portanto, quanto mais abrangente é o sentimento elevado, que compreende em si os sentimentos inferiores. Todos os fundamentos particulares das inclinações encontram-se submetidos a muitas exceções e modificações, caso não sejam derivados de tal princípio superior. O bem disposto e amistoso Alceste diz: Amo e aprecio a minha mulher, pois é bela, carinhosa e esperta. Como, porém, amá-la, se fosse desfigurada pela doença, se tornasse rabugenta com a idade, e, depois de passado o primeiro momento de admiração, não parecesse mais esperta do que qualquer outra? O que pode resultar da inclinação, quando o fundamento já não está presente? Tomai, em contrapartida, o benevolente e firme Adrasto, que diz a si mesmo: Dispensarei amor e respeito a essa pessoa, pois é minha mulher. Esse caráter é nobre e generoso. Seja lá como for que se modifiquem os atrativos de ocasião, ela permanece sempre sua mulher. Mantém-se o fundamento nobre, sem que esteja submetido à inconstância das coisas exteriores. Tal é a natureza dos princípios em comparação com as disposições que nos exaltam apenas em ocasiões especiais, e assim é o homem de princípios, oposto àquele acidentalmente impulsionado por um movimento bondoso e amoroso. Se, porém, a voz secreta de seu coração sussurrar: "Preciso ajudar aquele homem, pois ele sofre; não porque seja meu amigo ou conhecido, ou porque o saiba capaz de retribuir com gratidão ao benefício. Não é hora de raciocinar e se demorar em perguntas: ele é um homem, e o que acontece a um homem também me diz respeito". Nesse caso, o seu comportamento tem por base o mais elevado fundamento da benevolência na natureza humana, e é sumamente sublime, quer por sua inalterabilidade, quer pela universalidade da sua aplicação.
Prossigo com minhas observações. O homem com uma disposição de ânimo melancólica pouco se preocupa com o que outros julgam bom ou verdadeiro, tomando por base apenas a própria convicção. Porque nele os fundamentos de ação assumem a natureza de princípios, não é fácil inculcar-lhe outros pensamentos. A sua firmeza, ocasionalmente, também degenera em teimosia. Vê a mudança das modas com indiferença, o seu brilho, com desprezo. A amizade é sublime e, por isso, é própria para o seu sentimento. Ele pode talvez perder um amigo volúvel; este, porém, não o perde tão facilmente. Mesmo a recordação de uma amizade passada lhe é digna de veneração. A conversação é bela, o silêncio pensativo é sublime. Sabe muito bem guardar segredos, seus ou alheios. A sinceridade é sublime, e ele odeia mentiras ou fingimento. Possui um elevado sentimento da dignidade da natureza humana. Aprecia-se a si mesmo, e tem o ser humano como criatura que merece respeito. Não tolera nenhuma subserviência abjeta, e seu nobre coração respira a liberdade. Todas as correntes, das douradas que se carregam na corte aos pesados ferros das galeras de escravos, lhe são abomináveis. É um severo juiz de si próprio e dos outros, e não raramente se vê enfastiado do mundo.

Kant, Observações sobre o Belo e o Sublime, Obra de 1764
Edição brasileira digitalizada.Ver edição.


Curioso seria fazer a comparação entre esta condição humana, esta inevitável melancolia, com a melancolia filosófica expressa por Hume aqui.

http://filosofialogos.blogspot.pt/search/label/Hume

domingo, agosto 24, 2014

Os juízos morais


Em última análise as nossas decisões sobre o certo e o errado dependerão da nossa escolha em relação à vida em comum, com quem queremos passar as nossas vidas. E esta vida em comum, por sua vez, é escolhida pensando em exemplos, exemplos de pessoas mortas ou vivas, exemplos de acontecimentos, passados ou presentes. No caso improvável que alguém nos venha e dizer que prefere viver em comum com o Barba Azul, sendo ele o seu exemplo, tudo o que podemos fazer seria ter certeza de que essa pessoa não iria conviver connosco. Mas a probabilidade de alguém vir dizer-nos que não se importa e que qualquer um é   suficientemente bom para ele, é, temo, muito maior. Moralmente e até mesmo politicamente falando, essa indiferença, embora comum, é o maior perigo. E na mesma direcção, apenas um pouco menos perigoso, há um outro fenómeno moderno comum: a tendência generalizada de recusar julgar. Da falta de vontade ou  incapacidade de escolher um exemplo ou delinear uma vida comum, e da falta de vontade ou incapacidade de se relacionar com os outros através do julgamento, surgem os reais skandala , os blocos entorpecidos, que os poderes humanos não podem remover, porque não foram causados por motivos humanos e são humanamente incompreensíveis. Aí reside o horror e, ao mesmo tempo, a banalidade do mal.

Hannah Arendt in " Lectures on Kant political Philosophy", The University Chicago Press, 1992, p.113

quinta-feira, julho 24, 2014

Dilemas morais


Há acções intrinsecamente erradas ou será que são erradas apenas por causa das suas consequências? Vamos supor que ao torturar alguém estamos a salvar uma vida humana, ou dez, ou cem. Se for assim, deveria a tortura ser moralmente admissível ou até mesmo imperativa? Vamos supor que com a pena de morte estamos, de facto, a impedir o assassínio e que cada execução pode salvar duas vidas de inocentes, ou três, ou uma dúzia. Se for assim, deveria a pena de morte ser moralmente admissível ou talvez até imperativa? E como deveríamos estar a responder a estas perguntas?
Numa certa perspectiva, o melhor método, talvez o único viável, seja começar por examinar as nossas intuições. Algumas pessoas afirmarão convictamente que é errado que um governo execute ou torture pessoas, mesmo que com tal consiga travar o crime. Para algumas pessoas, é um dado adquirido que um país não deve bombardear uma cidade estrangeira e tirar a vida a milhares de civis, mesmo que venha a poupar muitas mais vidas. Se nos sentirmos inclinados a concordar com estas conclusões, podemos tentar testá-las, nomeadamente consultando uma vasta gama de casos hipotéticos. O processo pode ser-nos útil para apurar as nossas intuições. E até ajudar a perceber a sua concordância e como se relacionam com os valores universais que aparentemente as justificam e os quais, também elas, acabam por justificar.
Muitos filósofos sentem-se inclinados a ver as coisas desta forma. Para testar as nossas intuições morais e perceber mesmo o que a moralidade exige, ocuparam-se com uma série de dilemas, na sua maioria conhecidos como Dilemas do Trólei. Eis dois dos mais importantes:
1. O Problema do Trólei. Está em pé, ao lado de uma linha férrea, e vê um comboio a aproximar-se de si. Percebe que os seus travões falharam. Há cinco pessoas amarradas ao carril. Vão morrer, a não ser que tome uma atitude. E você está mesmo ao lado de um interruptor. Se o puxar, o comboio muda de linha. O problema é que há uma pessoa amarrada nessa outra linha e ao puxar o interruptor irá matá-la. Deve puxá-lo?
2. O Problema da Ponte. Está numa ponte pedonal a olhar para a linha férrea e vê um comboio aproximar-se. Percebe que os seus travões falharam. Há cinco pessoas amarradas ao carril. Vão morrer, a não ser que tome uma atitude. Um homem gordo está ao seu lado, debruçado na ponte, também a ver o comboio. Se o empurrar, ele vai cair e estatelar-se nos carris. E porque é obeso, o seu corpo irá travar o comboio e assim salvar as cinco pessoas — apesar de ele próprio morrer. Deverá empurrá-lo?
As intuições da maioria das pessoas sobre estes dois dilemas são muito claras. No Problema do Trólei, deveria puxar o interruptor; já no Problema da Ponte, não deveria empurrar o homem gordo. A questão é: o que diferencia estes dois casos? Uma vez identificada a resposta, talvez estejamos em condições de esclarecer o que está bem e o que está mal — não só sobre tróleis e pontes pedonais, mas sobre os pilares onde assenta a ética e os limites ao pensamento utilitarista. E, na volta, pode-se responder a uma vasta gama de questões que se colocam na vida real, questões que envolvem não apenas os temas da tortura, da pena de morte e dos conflitos armados, mas também o uso legítimo da coerção, das nossas obrigações para com estranhos e, no que respeita a temas de saúde e da segurança, onde e como devemos situar as análises de custo-benefício.
A "mãe" do dilema
Em Would You Kill The Fat Man (Princeton University Press), um livro elegante, lúcido e amiúde divertido, David Edmonds, um académico da Universidade de Oxford, explora os Problemas do Trólei e da Ponte e todos os comentários brilhantes que já foram proferidos à volta do tema. Philippa Foot, que ensinou Filosofia em Oxford entre 1940 e meados de 1970, foi a “mãe” do Dilema do Trólei (e também a neta de Grover Cleveland, por duas vezes Presidente dos Estados Unidos no século XIX).
Naquele período, Oxford era dominada por homens, mas três dos seus mais proeminentes filósofos eram mulheres — Foot, Elizabeth Anscombe (que foi recrutada pela própria Foot) e Iris Murdoch. Edmonds explica que as relações entre elas, filosóficas e não só, não estavam imunes a complicações várias. M.R.D. Foot, que veio a tornar-se o marido de Philippa, foi um dos muitos amantes renegados de Murdoch. O casamento dificilmente aguentou os embates dessa relação (“Perder-te & perder-te dessa maneira foi uma das coisas mais terríveis que me aconteceram”, escreveu Murdoch a Philippa). Depois de M.R.D. Foot deixar a mulher, ela e Murdoch voltaram a ser amigas (e tiveram um breveaffair).
Anscombe disse uma vez que Foot era a única filósofa de Moral a quem valia a pena estar atento em Oxford, mas ambas tiveram profundas divergências sobre contracepção e aborto (para Foot, moralmente aceitáveis). Anscombe discordava veementemente usando mesmo a expressão “assassina” para descrever “quase todas as mulheres que escolhem abortar”. Para Foot, Anscombe era “mais papista do que o Papa”.
O Dilema do Trólei germinou nestes debates. Assombrada pela Segunda Guerra Mundial e os seus horrores, Foot rejeitava a perspectiva que grassava nalguns círculos em Oxford de que os julgamentos éticos não representam mais do que declarações de preferência pessoal. Assim como reivindicava que a melhor forma de os analisar era perceber como é que palavras mais relevantes são usadas na linguagem comum. Foot acreditava que os julgamentos éticos podem ser questões de princípio. Em 1967, publicou um artigo — “The Problem of Abortion and the Doctrine of the Double Effect”, em tradução literal, “O problema do aborto e a Doutrina do Duplo Efeito” — uma teoria que se baseia no pressuposto de que um mau resultado pode ser aceite moralmente se for apenas efeito colateral de uma boa acção.
A doutrina do Duplo Efeito baseia-se no pressuposto de que um mau resultado pode ser aceite moralmente se for apenas efeito colateral de uma boa acção
A Doutrina do Duplo Efeito é muito conhecida no contexto do pensamento católico. Distingue de forma precisa entre o que podem ser danos causados de uma forma intencional — não admissíveis — e os que simplesmente podem vir a acontecer — admissíveis. De acordo com a teologia católica, uma mulher pode fazer uma histerectomia para retirar um tumor que põe em perigo a sua vida, mesmo que tal signifique que o feto morra. A razão que está por trás é salvar-lhe a vida, não a de matar o feto. Para explorar esta distinção, Foot introduziu uma série de dilemas hipotéticos, incluindo o Problema do Trólei e o Caso do Transplante — que questiona se deve um cirurgião matar um homem jovem com a intenção de preservar os seus órgãos porque irão salvar cinco pessoas em risco de vida. Para Foot, é claro que tal não deverá ser permitido ao cirurgião, ainda que vidas possam ser salvas. (Curiosamente, Foot não chega a nenhuma conclusão sobre se uma mulher deve fazer um aborto mesmo quando a sua vida e a saúde não correm perigo.)
Talvez a Doutrina do Duplo Efeito possa explicar porque é correcto puxar o interruptor no Problema do Trólei (quando a intenção é não matar ninguém) mas já é errado matar um jovem homem no Caso do Transplante (cuja morte é intencional). Mas, numa argumentação mais intrincada, Foot conclui, por fim, que, nestes casos, a melhor forma para explicar as nossas intuições contraditórias será equacionar, não entre os efeitos intencionais e os previsíveis, mas antes entre obrigações negativas (como o imperativo de não matar uma pessoa) e as positivas (como a de salvar uma pessoa). Num artigo escrito posteriormente, Foot enfatizava que no Problema do Trólei a questão reside em redireccionar uma ameaça latente, que poderá ser moralmente aceitável (mais do que criar uma nova ameaça, como acontece no Caso do Transplante).
O Problema da Ponte foi concebido por Judith Tarvis Thomson, uma filósofa do Massachusetts Institute of Technology, e granjeou-lhe fama. Ao impor uma distinção moral entre o Problema do Trólei e o Poblema da Ponte, Thomson chamou a atenção para os direitos das pessoas. Na sua perspectiva, o homem gordo tem o direito a não ser empurrado e morto, mas o mesmo não é verdade para o infeliz que está amarrado ao carril no Problema do Trólei. “A moral não nos exige que deixemos que um pesado fardo vindo do nada caia para cima de cinco [pessoas], quando sabemos que o podemos fazer cair em cima de apenas uma.” Um transeunte não pode empurrar alguém para a morte, mas pode, legitimamente, procurar minizar os efeitos, “o número de mortes que serão o resultado de uma ameaça que já existe”.

Quando Edmonds reflecte sobre estas questões do trabalho de Thomson, diz que ela está a ser discípula de Emmanuel Kant, que acreditava que as pessoas não devem ser apenas meios para atingir fins de outrem. A própria Foot já se referia à “existência de uma moralidade que recusa culpabilizar o sacrifício de um em prol do bem de muitos... [e] garante a cada indivíduo um determinado espaço moral, um espaço que outros não devem invadir”. Muitas pessoas acreditam que quando dizemos que é moralmente inaceitável empurrar o homem gordo (ou roubar órgãos vitais, ou torturar ou executar pessoas), estamos a dar respostas profundamente enraizadas no pensamento kantiano, e têm toda a razão.
CASS R. SUNSTEIN

sábado, julho 19, 2014

EXAMES

Provas de Exame de Filosofia 
Ano de 2013/2014.






quinta-feira, junho 26, 2014

Cristina Beckert
16 de Fevereiro de 1956 -26 de Junho de 2014

Faleceu hoje a minha professora de Ética. Gentil, atenciosa e de uma honestidade intelectual irrepreensível, ensinou-me a pensar livremente e a saber escutar. Ainda guardo o trabalho sobre a Ética de Kierkegaard que fiz com o imenso entusiasmo com que me motivou a estudar Filosofia. Obrigada Cristina Beckert.

quarta-feira, junho 11, 2014

Exame de Filosofia

 
Informações para o Exame de Filosofia deste ano. AQUI

terça-feira, junho 10, 2014

To Be Or Not To Be - A mecânica e a uniformidade: o cómico do nazismo


Soluciona-se assim o pequeno enigma proposto por Pascal a certa altura dos Pensamentos: "Dois rostos semelhantes, cada um dos quais por si não faz rir, juntos fazem rir pela sua semelhança." Diríamos nós : "Os gestos de um orador, cada um dos quais não é risível em particular, pela repetição, fazem rir." É que a vida  activa não deveria repetir-se. Onde haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo.
Que o leitor analise a impressão obtida diante de dois rostos muito parecidos: verá que pensa em dois exemplares obtidos de um mesmo molde, ou em duas impressões de um mesmo carimbo, ou em duas reproduções de um mesmo cliché, em suma, num processo de fabricação industrial. No caso, a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida em  direcção à mecânica.
E o riso será ainda mais intenso caso não se apresentem em cena apenas dois personagens, como no exemplo de Pascal, mas vários, o maior número  possível, todos semelhantes entre si, que vão e vêem, dançam, se agitam juntos, assumindo ao mesmo tempo as mesmas atitudes, gesticulando do mesmo modo. Ocorre-nos então distintamente a ideia de marionetas. Cordéis invisíveis parecem ligar braços a braços, pernas a pernas, cada músculo de uma fisionomia ao músculo análogo da outra: a inflexibilidade da correspondência faz com que a fragilidade das formas se solidifique diante de nós e que tudo se enrijeça como mecanismo. Tal é o artifício desse divertimento um tanto tosco. Os seus executantes talvez não tenham lido Pascal, mas certamente levam aos extremos uma ideia sugerida no texto de Pascal. E se a causa do riso é a vista de um efeito mecânico no segundo caso, ela devia estar já mais subtilmente no primeiro. Prosseguindo agora nessa via, percebemos confusamente consequências cada vez mais remotas, cada vez mais importantes também, da lei que acabamos de enunciar. Pressentimos visões ainda mais fugazes de efeitos mecânicos, sugeridas pelas acções complexas do homem e não simplesmente pelos seus gestos. Adivinhamos que os artifícios usuais da comédia, a repetição periódica de uma expressão ou de uma cena, a intervenção simétrica dos papéis, o
desenrolar geométrico das situações, e ainda muitos outros truques, poderão extrair a sua força cómica da mesma fonte. Nesse caso, a arte do teatro burlesco consistiria talvez em apresentar-nos uma articulação visivelmente mecânica de acontecimentos humanos, ao mesmo tempo conservando deles o aspecto exterior da semelhança, isto é, a maleabilidade aparente da vida. 
Tradução brasileira: Nathanael C. Caixeiro

Revista

Henri Bergson, O Riso, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1983, pp20, 21