quinta-feira, dezembro 01, 2016

O cérebro não toma decisões antes de pensarmos tomá-las.


Fotografia:Lewis Hine

Os defensores do livre-arbítrio podem, por agora, ficar descansados. Uma experiência efectuada há 30 anos e que é muitas vezes utilizada como argumento contra o livre-arbítrio poderá ter sido mal interpretada. VER AQUI

quarta-feira, novembro 30, 2016

RETÓRICA E PROPAGANDA


A manipulação conscienciosa e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões é um elemento importante da sociedade democrática. Aqueles que manipulam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder regulador do nosso país.
Somos governados, as nossas mentes moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico do modo com a nossa democracia está organizada. Um vasto número de seres humanos têm de cooperar desta maneira se querem viver em conjunto como uma sociedade que funcione tranquilamente. (...)

Nos dias em que os reis eram reis, Luís XIV proferiu esta modesta observação: “O Estado sou eu”. Ele estava quase certo.
Mas os tempos mudaram. A máquina a vapor, a impressão em série, a escola pública, este trio da revolução industrial, retirou o poder aos reis e deu-o ao povo. O povo hoje conquista o poder que o rei perdeu. O poder económico tende a ser arrastado pelo poder político; a história da revolução industrial mostra como o poder passou do rei e da aristocracia para a burguesia. O sufrágio universal e a escola universal reforçaram esta tendência, e por fim mesmo a burguesia sente-se ameaçada pelas pessoas comuns. As massas prometem ser o próximo rei.
Hoje, contudo, surge uma reação. A minoria descobriu um poderoso auxiliar para influenciar as massas. Tornou-se então possível moldar a mentalidade das massas que se lançarão com o seu vigor recém-adquirido na direção desejada. Na actual estrutura da sociedade, esta prática é inevitável. Qualquer que seja a importância social que lhe é dada hoje, seja na política, finança, industria, agricultura, caridade, educação, ou noutros campos, deve ser feita com recurso à propaganda. A propaganda é o braço executor do governo invisível.
Supunha-se que a literacia universal educaria o homem comum a controlar o meio ambiente. Uma vez que podia ler e escrever poderia ter uma mentalidade apta a governar. Mas em vez de uma mentalidade, a literacia universal ofereceu-lhe carimbos, carimbos esses pintados com slogans publicitários, com editoriais, com dados científicos, com as trivialidades dos tablóides e as vulgaridades da história, mas pouco inocentes no que respeita à originalidade. Cada carimbo humano é duplicado de milhões de outros, de modo que quando estes milhões são expostos aos mesmos estímulos, recebem todos impressões idênticas. (…)O mecanismo pelo qual as ideias são disseminadas em larga escala é a propaganda, no sentido lato de um esforço organizado para espalhar uma convicção ou uma doutrina.
Estou consciente que a palavra propaganda provoca em muitas mentes uma conotação desagradável. De qualquer maneira, em qualquer circunstância, a propaganda ser boa ou má depende do mérito da causa advogada, e da correção da informação publicada.(…)

Trotter e Le Bon concluíram que a mentalidade de grupo não pensa no sentido estrito da palavra. Em vez de pensamentos tem impulsos, hábitos, e emoções. Ao elaborar o seu pensamento o primeiro impulso geralmente é seguir o exemplo de um líder em que se confia. Este é um dos princípios mais firmemente estabelecidos da psicologia de massas. Funciona a subida ou diminuição de prestígio de uma estância estival, ao provocar uma corrida a um banco, ou o pânico na cotação de ações, ao criar um “best-seller” ou u êxito de bilheteira. Mas quando o exemplo do líder não está à mão e a multidão tem de pensar por si, fá-lo com o recurso a clichés, palavras ou imagens que permanecem na globalidade de um grupo de ideias e experiências. Não há muitos anos atrás, era somente preciso etiquetar um candidato político com a palavra interesses para fazer com que milhões de pessoas votassem contra ele, porque qualquer coisa associada a “os interesses” parecia necessariamente corrupta. Recentemente a palavra Bolchevique tem desempenhado um serviço semelhante a pessoas que desejam assustar o público para o afastar de uma linha de ação.(…)
Os homens raramente se apercebem das verdadeiras razões que motivaram as suas ações. Um homem pode acreditar que compra um carro porque, depois de ter cuidadosamente estudado as características técnicas de todas as marcas no mercado, concluiu que aquele é o melhor. Quase de certeza que se está a enganar a si próprio. Compra-o, talvez, porque um amigo, cuja esperteza financeira respeita, comprou um na semana anterior; ou porque os seus vizinhos crêem que ele não é capaz de ter recursos para comprar um carro daquela categoria; ou porque vem com as cores do lar universitário de estudantes em que viveu.
Foram principalmente os psicólogos da escola de Freud que identificaram que muitos dos pensamentos e ações do homem são substitutos compensatórios dos desejos que são obrigados a reprimir. (…) Os desejos humanos são o vapor que faz a máquina social funcionar. Só compreendendo-os o propagandista pode controlar esse vasto mecanismo, ao mesmo tempo solto e unido, que é a sociedade moderna.

Edward Bernays (1928) Propaganda, Lisboa, Mareantes Editora, 2005 (p.p 19, 31,32,  64,66)


Edward Bernays and the Art of Public Manipulation

terça-feira, novembro 29, 2016

quinta-feira, novembro 17, 2016

Estamos condenados a ser livres?

Fotografia: Robert Capa

(…)  o homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tomamos a palavra "responsabilidade" no sentido corriqueiro de "consciência (de) ser o autor incontestável de um acontecimento ou de um objeto", (...) pois os piores inconvenientes ou as piores ameaças que prometem atingir a minha pessoa só adquirem sentido pelo meu projeto; e elas aparecem sobre o fundo de compromisso que eu sou. Portanto, é insensato pensar em queixar-se, pois nada alheio determinou aquilo que sentimos, vivemos ou somos. Por outro lado, tal responsabilidade absoluta não é resignação: é simples reivindicação lógica das consequências de nossa liberdade. O que acontece comigo, acontece por mim, e eu não poderia  deixar me afetar por isso, nem  revoltar-me, nem  resignar-me. Além disso, tudo aquilo que me acontece é meu; deve-se entender por isso, em primeiro lugar, que estou sempre à altura do que me acontece, enquanto homem, pois aquilo que acontece a um homem por outros homens e por ele mesmo não poderia ser senão humano. As mais atrozes situações da guerra, as piores torturas, não criam um estado de coisas inumano·I não há situação inumanas; é somente pelo medo, pela fuga e pelo recurso a condutas mágicas que irei determinar o inumano, mas esta decisão é humana e tenho de assumir total responsabilidade por ela. Mas, além disso, a situação é minha por ser a imagem da minha livre escolha de mim mesmo, e tudo quanto ela me apresenta é meu, nesse sentido de que me representa e me simboliza. Não serei eu quem determina o coeficiente de adversidade das coisas e até sua imprevisibilidade ao decidir por mim mesmo? Assim, não há acidentes numa vida; uma ocorrência comum que irrompe subitamente e me carrega não provém de fora; se sou mobilizado para a guerra, esta guerra é a minha guerra, é feita à minha imagem e eu mereço-a. Mereço-a, primeiro, porque sempre poderia livrar-me dela pelo suicídio ou pela deserção: esses últimos possíveis são os que devem estar sempre presentes quando se trata de enfrentar uma situação. Por ter deixado. de livrar-me dela eu escolhi-a; pode ser por fraqueza, por covardia frente à opinião pública, porque prefiro certos valores ao valor da própria recusa de entrar na guerra (a estima dos meus parentes, a honra de minha família, etc.). De qualquer modo, trata-se de uma escolha. Essa escolha será reiterada depois, continuamente, até o fim da guerra; portanto, devemos subscrever as palavras de J. Romains: "Na guerra, não há vítimas inocentes". Portanto, se preferi a guerra à morte ou à desonra, tudo se passa como se eu carreasse inteira responsabilidade por esta guerra. Sem dúvida, outros declararam a guerra, e eu ficaria tentado, talvez, a considerar-me um  simples cúmplice. Mas esta noção de cumplicidade não tem mais do que um sentido jurídico; só que, neste caso, tal sentido não se sustenta, pois de mim dependeu o fato de que esta guerra não viesse a existir para mim e por mim, e eu decidi que ela existisse. Não houve coerção alguma, pois a coerção não poderia ter qualquer domínio sobre uma liberdade; não tenho desculpa alguma, porque, como dissemos e repetimos nesse livro, o próprio da realidade-humana é ser sem desculpa.

Jean- Paul Sartre, O ser e o nada, Ed.Vozes, p.678,679
Tradução de Paulo Perdigão

domingo, novembro 06, 2016

O significado de cultural



Em virtude da sua grande capacidade de adaptação e do seu engenho notável, o homem pode aperfeiçoar de muitíssimos modos a forma pela qual satisfaz as suas necessidades. Possui capacidade de criar o próprio meio, em vez de ser obrigado, como no caso de outros animais, a sujeitar-se ao meio em que se encontra. Dentro de cada sociedade existem maneiras especiais de satisfação das necessidades. As origens dessas maneiras,  regra geral, estão “perdidas na névoa dos tempos” ou, como dizem os aborígenes australianos, “pertencem ao tempo do sonho”. Com efeito, uma das coisas mais difíceis em Antropologia é traçar a origem de um costume. De ordinário, não existe ninguém com idade suficiente para se lembrar da sua origem porque, por via de regra, ele surgiu há muito tempo, muito antes da tradição oral ou da história escrita.
A cultura representa a resposta do homem às suas necessidades básicas. É o seu modo de se colocar à vontade no mundo. É o comportamento que aprendeu como membro da sociedade. Podemos defini-la como o modo de vida de um povo, o meio, em formas de ideias, instituições, língua, instrumentos, serviços e pensamentos, criado por um grupo de seres humanos que ocupam um território comum.
É esse meio feito pelo homem, a cultura, que todas as sociedades humanas impõem ao meio físico e no qual todos os seres humanos são adestrados. De tal forma se identifica a cultura com a própria vida que se pode dizer perfeitamente não ser ela tanto sobreposta à vida quanto uma extensão da mesma vida. Assim como o instrumento amplia e estende as capacidades da mão, assim a cultura acentua e estende as capacidades da vida.

São os seguintes critérios pelos quais se reconhece a cultura: (1) precisa ser inventada, (2) precisa ser transmitida de uma geração a outra, e (3) precisa ser perpetuada na sua forma original ou duma forma modificada. Ao passo que outros animais são capazes de um restrito comportamento cultural, só o homem parece possuir uma capacidade virtualmente ilimitada de cultura. O processo de criar, transmitir e manter o passado no presente é cultura – a capacidade que o linguista  norte-americano  Alfred Korybski denominou vinculadora do tempo. As plantas vinculam as substâncias químicas, os animais vinculam o espaço, mas só o homem é capaz de vincular o tempo.
A cultura é a criação conjunta do indivíduo e da sociedade, que interagem mútua e reciprocamente, para se servirem, manterem, sustentarem e desenvolverem um ao outro.
A cultura, portanto, é o complexo de configurações mentais que, em forma de produtos de comportamento e produtos materiais, constitui de modo principal que tem o homem de adaptar-se ao meio total, controlando-o, mudando-o e transmitindo e perpetuando os modos acumulados de fazê-lo.
A mudança evolutiva processa-se em todos os animais por mutação e pelo armazenamento, nos genes, das mutações mais valiosas resultantes da adaptação. No homem, a mudança evolutiva também se processou dessa maneira, mas a adição de um sem-número de mudanças não genéticas, que também representam mudanças evolutivas sociais. Essas mudanças culturais ou de comportamento, não genéticas, não estão armazenadas nos genes, porém na parte do meio feita pelo homem, na parte aprendida, na cultura, nos instrumentos, nos costumes, nas instituições, nas baladas, etc., nas lembranças dos homens, assim como em outros dispositivos não genéticos de armazenamento e recuperação de informações.
A natureza humana é o que se aprende do meio feito pelo homem; não é alguma coisa com que se nasce. O ser humano nasce, isso sim, com as possibilidades de aprendizagem, que, mediante o ensino adequado, podem ser transformadas em capacidades unicamente humanas.


ASHLEY MONTAGU - As necesidades humanas e o significado da cultura

sábado, outubro 29, 2016

Intencionalidade

Annie Leibovitz, Carl Lewis

Para explicar a estrutura do comportamento humano, preciso de introduzir um ou dois termos técnicos. A noção nuclear da estrutura do comportamento é a noção de intencionalidade. Dizer que temos intencionalidade significa que esperamos que uma coisa aconteça (temos essa crença), ou pretendemos que uma coisa aconteça, (temos um desejo). Um estado intencional pode ser querer, desejar, esperar ou ter uma intenção. Assim podemos ter o mesmo resultado para diversos estados intencionais: posso querer sair da sala, julgar que irei sair da sala ou tencionar sair da sala.Em cada caso temos o mesmo conteúdo para diferentes modos psicológicos: crença, deseja e intenção, respectivamente.




Por comportamento (...) entendo o comportamento humano voluntário e intencional. Entendo coisas como caminhar, correr, comer, fazer amor, votar nas eleições, casar-se, comprar e vender, ir de férias, trabalhar no emprego. Não entendo coisas como digerir, envelhecer ou ressonar. Mas, mesmo restringindo-nos ao comportamento intencional, as actividades humanas apresentam-nos uma desconcertante variedade de tipos. Precisaremos distinguir entre comportamento individual e comportamento social; entre comportamento social colectivo e comportamento individual dentro de um colectivo social; entre fazer alguma coisa por mor de outra coisa e fazer alguma coisa por mor de si mesma. E, talvez o mais difícil de tudo, precisamos de explicar as consequências melódicas do comportamento ao longo da passagem do tempo. As actividades humanas, ao fim e ao cabo, não se assemelham a uma série de instantâneos parados, mas sim ao filme da nossa vida.




John Searle, Mente , cérebro e Ciência, Edições 70

quarta-feira, outubro 12, 2016

Da existência do livre- arbítrio - Santo Agostinho




Robert Frank, NY,1947

Mas, também ainda, embora dissesse e acreditasse firmemente que és incontaminável e inalterável e sob nenhum aspecto mutável, tu, nosso Deus, Deus verdadeiro, que criaste não só as nossas almas, mas também os nossos corpos, e não apenas as nossas almas e os nossos corpos, mas também todos nós e todas as coisas, não tinha por explicada e esclarecida a causa do mal. Fosse ela qual fosse, porém, via que era preciso procurá-la de modo a que, graças a ela, não fosse obrigado a acreditar que é mutável o Deus imutável, ou que eu próprio me convertesse naquilo que eu procurava. E assim, procurava-a em segurança e certo de que não era verdade o que diziam aqueles que eu evitava com toda a minha alma, porque os via, procurando donde provinha o mal, cheios de maldade, em virtude da qual eram de opinião que é mais a tua substância que está sujeita a sofrer o mal, do que a deles a fazê-lo. E esforçava-me por compreender o que ouvia: que o livre arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal e o teu recto juízo a de o sofrermos, mas não conseguia compreender essa causa com clareza. E assim, tentando arrancar do abismo o olhar do meu espírito, afundava-me de novo, e muitas vezes tentava e me afundava uma e outra vez. Na verdade, elevava-me para a tua luz o facto tanto de saber que tinha uma vontade como o de saber que vivia. Por isso, quando queria ou não queria alguma coisa, tinha absoluta certeza de que quem queria ou não queria não era outro senão eu. E via, cada vez mais, que aí estava a causa do meu pecado. E aquilo que fazia contra vontade via que era mais padecer do que fazer, e julgava que isso não era culpa, mas castigo, pelo qual, como eu logo confessava, considerando-te justo, era castigado não injustamente. Mas de novo dizia: ‘Quem me fez? Porventura não foi o meu Deus, que é não apenas bom, mas o próprio bem? Donde me vem então o querer o mal e o não querer o bem? Será para haver um motivo para que eu seja castigado justamente? Quem colocou isto em mim, e plantou em mim este viveiro de amargura , embora todo eu tenha sido feito por um Deus tão doce? Se o autor é o diabo, donde veio o mesmo diabo? Mas se também ele, por uma vontade perversa, de anjo bom se tornou diabo, donde lhe veio, também a ele, a má vontade pela qual se tornaria diabo, quando o anjo, na sua totalidade, tinha sido criado por um criador sumamente bom?’ De novo me deixava abater e sufocar com estes pensamentos, mas não me deixava arrastar até àquele inferno do erro, onde ninguém te confessa quando se julga que és tu a padecer o mal, e não o homem que o pratica.

Santo Agostinho, Confissões, Livro VII, p.21, Casa da Moeda,2001

segunda-feira, outubro 03, 2016

ARGUMENTOS & SALSICHAS



A máquina de salsichas da razão

Aquilo que é maravilhoso num argumento sólido é o seu poder de preservar a verdade. Tomemos, por exemplo, o argumento seguinte:


   1. Francisco é um homem.
   2. Todos os homens vivem na terra.
   Conclusão: Francisco vive na terra.

Este argumento forma-se de duas afirmações, ou premissas, e de uma conclusão. Num argumento dedutivo, como este, as premissas implicam supostamente a conclusão. O argumento, se válido, fornece-nos uma garantia lógica: se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o é. Neste caso, o argumento é válido. As premissas implicam realmente a conclusão.
É claro que se introduzirmos num argumento dedutivamente válido uma ou mais falsidades, não há qualquer garantia quanto ao que obteremos. A conclusão pode, ainda assim, ser verdadeira. Mas pode ser falsa. (Suponhamos, por exemplo, que a primeira premissa do nosso argumento é falsa: o Francisco não é um homem – é um extra-terrestre que vive no planeta Plutão; então a nossa conclusão é falsa.)
Portanto, um argumento dedutivo válido preserva a verdade. Se introduzirmos premissas verdadeiras, temos a garantia lógica de que sai uma conclusão verdadeira. Se estivermos interessados em ter convicções que sejam realmente verdadeiras, trata-se de um belo resultado.
Para aqueles que gostam de analogias, podemos dizer que as formas válidas de argumentos dedutivos funcionam um pouco como as máquinas de salsichas. A única diferença é que em vez de introduzirmos carne de salsicha e de saírem do outro lado salsichas, é-nos dada a garantia de que se introduzirmos premissas verdadeiras, sairão conclusões verdadeiras.



A máquina de salsichas indutiva

A argumentação dedutiva não é a única forma de argumentação sólida. Há também os raciocínios indutivos. Eis um exemplo de um argumento indutivo:


  1. A maçã um tem sementes.
2.          2. A maçã dois tem sementes.
      3. A maçã três tem sementes.
    [...]
  1000. A maçã mil tem sementes.
  Conclusão: Todas as maçãs têm sementes.

Este argumento tem mil premissas (embora eu não me tenha dado ao trabalho de listar mais do que quatro). Num argumento indutivo, as premissas apoiam supostamente a conclusão. Aqui, a palavra-chave é apoiam. É claro que estes argumentos não são (e não pretendem ser) dedutivamente válidos. As premissas não implicam dedutivamente a conclusão. Não há garantia lógica de que a maçã seguinte não terá sementes, apesar das muitas maçãs que examinámos até agora. Apesar disso, supomos que o facto de todas as maçãs que examinámos até agora terem sementes torna extremamente razoável que concluamos que todas têm. As premissas, supomos, tornam a verdade da conclusão bastante provável. Se isto é correcto, os argumentos indutivos sólidos também têm a qualidade de preservar a verdade à maneira da máquina das salsichas. Introduzam-se premissas verdadeiras num argumento indutivo sólido e sai provavelmente uma conclusão verdadeira do outro lado.
Uma vez mais, se é a verdade que buscamos, trata-se de um belo resultado.

Stephen Law, The War for Children’s Minds (Londres & Nova Iorque, 2006). Trad. Carlos Marques.

1. Qual o problema tratado no texto?
2. Que comparação é feita? 
3. O que se pretende mostrar com essa comparação?

domingo, outubro 02, 2016

O que é a Filosofia. Resposta 4


Ara Guler, 1987, Idade

A Filosofia, como entenderei a palavra, é algo intermédio entre a teologia e a ciência. Como a teologia consiste em especulações sobre matérias inacessíveis até agora ao conhecimento definido, mas como a ciência apela para a razão de preferência à autoridade, quer da tradição, quer da revelação. Todo o conhecimento definido (…) pertence à ciência; todo o dogma como o que excede o conhecimento definido pertence à teologia. Mas entre teologia e ciência há uma terra sem dono exposta aos ataques de ambos os lados: é a filosofia. As questões de maior interesse para os espíritos especulativos raro têm resposta científica e as respostas confiantes dos teólogos já não parecem tão confiantes como nos séculos anteriores. Estará o mundo dividido entre espírito e matéria? e, sendo assim, que é espírito e que é matéria? Está a alma sujeita à matéria ou tem energias independentes? Tem o universo unidade ou fim? Evolui para algum objetivo? Há realmente leis da natureza ou cremos nelas devido ao nosso inato amor da ordem? É o homem o que aparece ao astrónomo, um pequeno conjunto de carvão impuro e água, a arrastar-se impotente sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é o que pensava Hamlet? Será as duas coisas? Há um tipo nobre e um tipo baixo de vida ou são todos meramente fúteis? Se um deles é nobre, em que consiste e como realizá-lo? Deve o bem ser eterno para poder ser apreciado ou merece procurar-se ainda quando o universo caminha inexoravelmente para a morte? Existe de fato a sabedoria ou não passa de derradeiro requinte de loucura? Não há resposta em laboratório para tais questões. Pretenderam as teologias dar respostas, todas demasiado definidas, o que as torna suspeitas a espíritos modernos. Estudar essas questões, senão responder-lhes, é a tarefa da filosofia.



Bertrand Russell em ‘História da Filosofia Ocidental’

sábado, setembro 24, 2016

Emoção e Razão

O português António Damásio, 69 anos, é um dos maiores nomes da neurociência na atualidade. Radicado nos Estados Unidos desde a década de 70, e professor da University of Southern California, em Los Angeles, onde dirige o Instituto do Cérebro e da Criatividade, ele conduziu pesquisas que ajudaram a desvendar a base neurológica das emoções, demontrando que elas têm um papel central no armazenamento de informações e no processo de tomada de decisões. Seus livros O Erro de Descartes (1994)O mistério da Consciência (1999)Em Busca de Espinosa (2003) e E o Cérebro Criou o Homem (2009), todos publicados no Brasil pela Cia. das Letras, tratam principalmente do papel das emoções e sentimentos na razão humana e quais são os processos que produzem o fenômeno da consciência. Em visita ao Brasil para participar da série de palestras Fronteiras do Pensamento, Damásio falou a VEJA.
Na introdução de seu último livro, O Cérebro criou o Homem, o senhor diz que acabou  desapontando-se com algumas das suas abordagens ao longo do tempo e decidiu começar seu trabalho de novo. Quais foram as descobertas que o levaram a repensar sua pesquisa? Ao longo desses anos todos, o estudo sobre a estrutura do cérebro avançou muito e ajudou a entender melhor certas operações, como a memória e a consciência. Além disso, por meio das minhas pesquisas pude perceber a importância das emoções e dos sentimentos na construção do nosso raciocínio. Para ter o que chamamos de consciência básica é preciso ter sentimentos. Isto é, é preciso que o cérebro seja capaz de representar aquilo que se passa no corpo e fora dele de uma forma muito detalhada. É daí que nasce a rocha sobre a qual a mente forma sua base e se edifica.
O que é a mente? Ela é uma sucessão de representações criadas através de sistemas visuais, auditivos, táteis e, muito frequentemente, das informações fornecidas pelo próprio corpo sobre o que está acontecendo com ele – quais músculos estão se contraindo, em que ritmo o coração está batendo e assim por diante. Em resumo: a mente é um filme sobre o que se passa no corpo e no mundo a sua volta.
Qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é um conjunto de todas as respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo em resposta a algum evento. É um programa de movimentos como a aceleração ou desaceleração do batimento do coração, tensão ou relaxamento dos músculos e assim por diante. Existe um programa para o medo, um para a raiva, outro para a compaixão etc. Já o sentimento é a forma como a mente vai interpretar todo esse conjunto de movimentos. Ele é a experiência mental daquilo tudo. Alguns sentimentos não têm a ver com a emoção, mas sempre têm a ver os movimentos do corpo. Por exemplo, quando você sente fome, isso é uma interpretação da mente de que o nível de glicose no sangue está baixando e você precisa se alimentar.
O senhor diz que as emoções desempenham um papel muito importante no desenvolvimento do raciocínio e na tomada de decisões. Que papel é esse? Há certas decisões que são evidentemente feitas pela própria emoção. Quando há uma situação de medo, ele aconselha um entre dois tipos de decisão: correr para longe do perigo ou permanecer quieto para não ser notado. Há também decisões muito mais complexas, como, por exemplo, aceitar ou não um convite para jantar. Nesse caso, a emoção tem um papel de primeiro conselheiro, um primeiro indicador do que se deve fazer. Você pode querer ir, mas ao mesmo tempo há qualquer coisa no comportamento da pessoa que o faz desconfiar de que ela pode não ser sincera. E o que é isto? É uma reação emotiva, a emoção participando da sua decisão.
Então é a emoção que nos fornece o que chamamos popularmente de instinto ou sexto sentido? Instinto é uma palavra que deve ser reservada para certas coisas muito fundamentais, como o instinto sexual ou de alimentação. Eu diria que a emoção fornece incentivos. As emoções, quer as positivas quer as negativas, podem ter uma enorme influência naquilo que nós pensamos. Mesmo as pessoas que se dizem muito racionais não podem separar as duas coisas. Por exemplo: imaginemos que um chefe esteja entrevistando uma pessoa para uma vaga. O currículo da pessoa é ótimo e as referências também, mas algo diz que ela não vai dar certo na empresa. Esse ‘algo me diz’ é a emoção falando. Algo no comportamento dessa pessoa evoca uma emoção negativa que leva o chefe a ficar com um pé atrás.
O que pode causar essa desconfiança? O ser humano avalia uma outra pessoa principalmente pela voz e pela expressão facial dela. Assim, a forma como a pessoa olha para você pode parecer insolente; ou um jeito de mexer a boca faz parecer que ela não é sincera.
Se toda a nossa percepção do mundo é afetada pela emoção, como podemos confiar nos nossos julgamentos? As emoções foram extremamente bem sucedidas, ao longo da evolução, em nos manter vivos. O medo fez com que nos expuséssemos menos ao perigo e tivéssemos mais chance de sobreviver. A alegria nos deu incentivo para fazer o que precisamos para prosperar: exercitar a mente, inventar soluções para problemas, comer, nos reproduzir. Emoções como a compaixão, a culpa e a vergonha são importantes porque orientam nosso comportamento moral. Se você fizer qualquer coisa que não está correta em relação a outra pessoa, vai se sentir envergonhado e terá um sentimento de culpa. Isso é muito importante porque vai ajudar a manter a sua conduta de acordo com a convivência em sociedade. Uma coisa que falta aos psicopatas é exatamente esse sentimento de culpa, de vergonha. Os sentimentos são, portanto, fundamentais para organizar a sociedade e foram fundamentais para a formação dos sistemas moral e judicial. Mas as emoções por si só têm limites. Para vivermos em sociedade no século XXI, precisamos muitas vezes ser capazes de criticar as nossas próprias emoções e dizer não a elas. E a única maneira de ultrapassar as emoções é o conhecimento: saber analisar as situações com grande pormenor, ser capaz de raciocinar sobre elas e decidir quando uma emoção não é vantajosa. Há um nível básico em que as emoções ajudam, e se você não tem esse nível você é um psicopata. Mas há um nível mais elevado em que as emoções têm de ser não as conselheiras, mas as aconselhadas.
As emoções são condicionadas pela vivência em sociedade? As emoções são em grande parte inatas, mas nos primeiros anos de vida são condicionadas e sintonizadas com a sociedade. Alguns mamíferos têm emoções mais elevadas, como a compaixão, especialmente na relação entre mães e filhos. As mães de cães e lobos tratam seus filhotes com um carinho que é emocional e é totalmente inato, ninguém as ensinou. Há elefantes que quando perdem um companheiro ficam não só tristes como deixam de brincar e são capazes até de fazer uma espécie de luto. Claro que nada disso foi ensinado, é tudo inato. O que acontece com os seres humanos é que esses programas inatos têm sido, através de milhares de anos, refinados e melhorados por aspectos sócio-culturais. Hoje em dia, evidentemente, nossa estrutura moral não é inata. Ela tem sido condicionada pela história da nossa sociedade com elementos que têm a ver com a religião, a justiça e a economia, estruturas que são resultado da vida humana em sociedades complexas.
Se as emoções podem moldar o raciocínio, o oposto pode acontecer? Isto é, o raciocínio pode alterar nossas emoções? Claro, e é aí que está a grande beleza e a grande complicação dos seres humanos. É aí que você vai encontrar todos os grandes dramas da história, aquilo que Sófocles ou Shakespeare captaram em suas peças. Os grandes dramas de reis e rainhas, príncipes e plebeus, é o constante conflito entre aquilo que são os conselhos da emoção e do instinto, por um lado, e a influência que vem do raciocínio, do conhecimento e da reflexão. Essa é a grande base da tragédia grega ou shakespeariana. Nós, na medida em que as sociedades evoluem, estamos caminhando para uma maior harmonia entre o lado emocional e instintivo e o lado racional e de reflexão. Essa harmonia ainda não se estabeleceu e não vai acontecer nem na minha geração nem na sua. É um trabalho por se concluir. Mas um dia, a convivência em sociedade, que exige que se ponha razão e emoção na balança o tempo inteiro, vai conseguir equilibrar os dois lados.
E como ocorre esse condicionamento das emoções? É nos primeiros anos de vida que podemos inculcar valores e formas de raciocínio através da repetição de exemplos. Eles são o alicerce da construção da nossa moral. Do ponto de vista do cérebro isso é muito curioso porque é quase uma negociação entre suas partes. Há partes muito antigas em termos de evolução, como o tronco cerebral, e muito mais recentes, como o córtex cerebral. No córtex cerebral estão as grandes representações que constroem a mente: visão, audição, tato. Todas essas representações se constroem ali, e da ligação entre elas se dá o raciocínio. Mas o córtex cerebral precisa negociar com regiões do cérebro que estão no tronco cerebral e são as responsáveis pelos impulsos e as reações rápidas. É dessa negociação que surge o conceito de que algo é permitido ou não. Você repete, repete, repete até que as duas partes entrem em consenso.
É possível recondicionar os sentimentos já na vida adulta? É possível, porém é muito mais difícil e nem sempre é um trabalho bem sucedido. Se você tem uma pessoa que começou a vida como um sociopata, é extraordinariamente difícil tornar essa pessoa um ser normal em relação a comportamento social. Isto porque seria necessário fazer todo o processo que se faz numa criança, mas o paciente já tem autonomia para não aceitá-lo.
Como raciocinamos melhor? Felizes ou tristes? A felicidade está ligada a certas moléculas químicas e a tristeza a outras. Quando estamos felizes as imagens se sucedem com mais rapidez e se associam mais facilmente. Na tristeza as imagens passam muito mais devagar e ficam como que impressas ali por um tempo. O ponto ideal para a efetividade do raciocínio é a felicidade com uma ponta de tristeza – porque na euforia, o pensamento se embaralha.

terça-feira, agosto 30, 2016

Radicalismos 3


Raymond Depardon, Beirute, 1978. Guerra civil, falangista cristão



A liberdade social está intimamente ligada a certas virtudes intelectuais. O Mal pode existir num mundo onde grandes grupos de pessoas nutrem certezas dogmáticas acerca de assuntos que são teoricamente duvidosos. Parece fazer parte da natureza do animal humano acreditar não só em coisas para as quais existem provas, mas também em muitas outras coisas para as quais não existe a menor prova. E é precisamente naquelas coisas para as quais não há provas que geralmente se crê com paixão. Ninguém tem sentimentos entusiásticos acerca da tabuada de multiplicação ou da existência do Cabo Horne, porque estes assuntos não oferecem dúvidas. Mas em questões de teologia ou de teoria política, onde um indivíduo racional sustentaria que, na melhor das hipóteses, há uma probabilidade maior a favor deste ou daquele ponto de vista, as pessoas discutem apaixonadamente e estão prontas a fazer vingar as suas opiniões impondo, pela força das armas, a escravidão física, e, pelas escolas, a escravidão mental. As pessoas acostumam-se de tal maneira a sentir certezas onde deveriam sentir dúvidas que acabam por se tornar incapazes de agir sobre probabilidades.


Se chega a uma bifurcação na estrada em que não há qualquer sinal e onde no momento não se encontra ninguém a quem se pergunte o caminho e não se possui um mapa que indique qual a estrada que se pretende, o ser racional escolherá, das duas estradas, a que melhor lhe parecer, ao acaso, e inquirirá logo que encontre alguém. Por outro lado, se a mesma pessoa tiver vivido toda a sua vida numa atmosfera de dogmatismo, ou ficará parada, na mais completa perplexidade, na bifurcação, ou, se decide a escolher ao acaso, tornar-se-á tão dogmaticamente convencido de que escolheu bem que nunca lhe ocorrerá parar para inquirir quando lhe surgir a oportunidade de o fazer.


Bertrand Russell, Realidade e ficção, Europa-América, Lx, 1965,p. 77 e 78
Texto revelador este, no meio da desconfiança em relação ao racional. Sou tentada a rever a diferença entre a acção guiada por uma fé cega, sem suporte racional, e uma acção suportada por razões. A questão é a de pensar antes de tomar algo como certo, nenhuma certeza existe no campo ideológico, e por isso, porque esse pensamento nos conduziria à moderação não o queremos, coloca-mo-lo pelo contrário ao serviço da acção, obrigado a dar-lhe um sentido depois da acção feita. A possibilidade de pensar e agir de acordo com o resultado desse pensamento evitaria muitos males, se não pudermos ou não quisermos, façamos como Descartes, à falta de uma ideia clara sigamos pelo caminho menos radical, pois se estivermos enganados o dano não será tão grande. Parece-me que a guerra seria outra ou nenhuma se as facções em conflito tivessem este bom senso que advém de colocar a acção depois do pensamento e não antes. Não é brilhante como proposta, mas é a única que poderia evitar o mal e a desumanidade.

terça-feira, agosto 02, 2016

O que é a Filosofia? Hipótese de resposta 3 - Santo Agostinho



Giuseppe De Nittis, Mar revolto

4. Sendo assim, recebe, meu caro Teodoro – visto que para alcançar o que desejo te considero o único capaz de me auxiliar e sempre te admirei –, recebe, dizia eu, este relato onde te mostrarei em qual dos três grupos de homens está aquele que a ti se dirige, em que lugar me encontro e que tipo de auxílio reclamo de ti, com toda a segurança. Desde que li, quando aos dezanove anos frequentava a escola de retórica, o livro de Cícero que se intitula Hortênsio, inflamei-me de tal maneira pelo amor da filosofia que imediatamente me entreguei ao seu estudo. Porém, nem sequer me faltaram as névoas a perturbar a minha viagem e durante muito tempo, confesso, contemplei os astros que se afundavam no oceano e me conduziam para o erro. É que uma certa superstição pueril fazia-me perder todo o espírito crítico; quando ganhei mais coragem, afastei de mim aquele denso nevoeiro e convenci-me de que se deve acreditar mais nos que ensinam do que naqueles que mandam. Caí assim no meio de uns homens que veneram a luz que os olhos vêem como se fosse a realidade suprema e divina. Não concordava com eles, mas pensava que com aqueles véus escondiam algo de importante que me seria revelado quando, enfim, estivessem dispostos a levantá-los. Mas, após ter discutido com eles, abandonei-os e depois de ter atravessado este mar, os Académicos  apoderaram-se durante muito tempo do leme da minha vida, no meio das ondas, em luta com todos os ventos. Seguidamente, acostei a estas terras onde aprendi a conhecer o norte em que devia depositar confiança. Compreendi muitas vezes, de facto, quer pelo nosso sacerdote, quer por algumas conversas que tive contigo, que não se deve de forma alguma conceber Deus como corpóreo, nem a alma, que é a realidade mais próxima de Deus. No entanto, confesso que os atractivos de uma esposa e das honras me retinham, não me deixando aproximar com a rapidez necessária do seio da filosofia; só na altura em que essas ambições fossem alcançadas é que me apressaria para aquela enseada, com as velas desfraldadas e à força de remos – o que acontece a poucas e felicíssimas pessoas – e aí repousaria. Foi então que li algumas obras de Platão, por quem, sei, nutres grande admiração: confrontando-as como pude com os que pela autoridade nos transmitem os mistérios divinos, entusiasmei-me de tal maneira que, se a consideração por alguns homens me não demovesse, quereria ter quebrado todas aquelas âncoras. Que é que me faltava senão uma tempestade – tida como desfavorável – que, porque me encontrava preso a coisas vãs, viesse em meu auxílio? Foi então que se apoderou de mim uma forte dor de peito e não tendo saúde para suportar o fardo de uma profissão que me levaria, talvez, navegando até às sereias, a tudo renunciei e conduzi a minha barca, agitada e fendida, para a tão desejada tranquilidade.
 5. Agora já vês em que filosofia navego, como num porto. Mas é tão extenso e tão vasto este porto que, apesar de ser menos perigoso, não exclui por completo o erro. Por isso, não sei por que parte da terra, a única sem dúvida verdadeiramente feliz, me devo aproximar e alcançar. Que coisa de seguro consegui eu, de facto, se até hoje hesito e vacilo quanto ao problema da alma?

Santo Agostinho, Diálogo sobre a felicidade, Capítulo I, Parágrafos 4 e 5.
Tradução do original de Mário A. Santiago Carvalho, Edições 70, Lisboa 2014

segunda-feira, agosto 01, 2016

O que é a Filosofia? Hipótese de resposta 2 - Aristóteles


Fotografia de Lewis Hine, (1874/1940)


(...) todos consideram que a denominada “sabedoria” é a respeito das primeiras causas e princípios. Consequentemente, conforme foi dito antes, reputa-se que o experiente é mais sábio que aqueles que detêm uma sensação qualquer; o técnico, mais sábio que os experientes; os mestres de obra, mais sábios que os “trabalhadores braçais”, e as ciências teóricas, mais ciência que as produtivas.



É evidente, portanto, que a sabedoria é uma ciência a respeito de certos princípios e causas.

Dado que procuramos essa ciência, devemos investigar o seguinte: a respeito de quais causas e de quais princípios a sabedoria é uma ciência? Ora, se assumirmos as conceções que temos a respeito dos sábios, disso poderá surgir, talvez, algo mais claro.

Concebemos, primeiramente, que um sábio conhece tudo, na medida do possível, sem ter conhecimento de cada coisa particular. Em seguida, consideramos sábio aquele que é capaz de conhecer coisas difíceis, isto é, que não são fáceis de conhecer para o homem comum (o sentir é comum a todos e, por isso, é fácil e não é “sábio”). Além disso, no que respeita a qualquer conhecimento, consideramos ser mais sábio aquele que é mais exato e que tem maior capacidade de ensinar as causas. E, entre as ciências, consideramos ser sabedoria antes aquela que é escolhida em vista de si mesma e graças ao saber, de preferência àquela que é escolhida em vista dos resultados; 

(...) 
Que ela não é um conhecimento produtivo, é evidente também pelos que primeiro filosofaram: de fato, os homens, tanto agora como no início, começaram a filosofar devido ao admirar-se, admirando inicialmente, entre as coisas surpreendentes, aquelas que estavam à mão, em seguida, paulatinamente progredindo e formulando impasses (hipóteses) sobre problemas maiores, por exemplo, sobre as afeções da lua, do sol e dos astros, e sobre a geração do todo.

Ora, quem formula impasses (hipóteses) e se admira julga ser ignorante (por isso, também o apreciador de histórias é de certo modo filósofo, pois as histórias constituem-se de fatos admiráveis); consequentemente, se filosofaram justamente para fugir da ignorância, é claro que buscaram conhecer pelo saber e não em vista de alguma utilidade. Assim testemunham os próprios acontecimentos: por assim dizer, essa sabedoria começou a ser buscada quando já se encontravam satisfeitas todas as necessidades concernentes à facilitação e ao divertimento. É evidente, então, que a buscamos não devido a outra utilidade, mas, tal como dizemos que é livre o homem que é em vista de si mesmo e não é de outro, do mesmo modo dizemos que apenas ela, entre os conhecimentos, é livre, pois apenas ela é em vista de si mesma.

(...)
Também é correto denominar a filosofia como “ciência da verdade”. O fim da ciência teórica é a verdade, e, da ciência prática, é a ação. De fato, se os que sabem agir também investigam de que modo as coisas se dão, estudam-nas não como eternas, mas em relação a algo e agora.

Não conhecemos o verdadeiro sem a sua causa. Cada coisa pela qual algo de mesma denominação se atribui a outras tem, ela própria, mais do que as outras, essa mesma denominação (por exemplo: o fogo é o mais quente, pois é ele que é causa da quentura para outras coisas). Por conseguinte, também é mais verdadeiro aquilo que é causa pela qual itens posteriores são verdadeiros. Por isso, necessariamente, os princípios dos entes que são sempre são sempre os mais verdadeiros (pois não são verdadeiros apenas em um dado momento; tampouco há algo que lhes seja causa do ser, mas são eles que são causas do ser para outras coisas);consequentemente, tal como cada coisa se tem em relação ao ser, do mesmo modo se têm em relação à verdade.

Aristóteles, Metafísica, Libro I e II, 981a 25 -993b 23
Tradução de Lucas Angioni, Fev.2008

sábado, julho 30, 2016

O que é a Filosofia? Hipótese de resposta 1. Platão


Harry Gruyaert, Bélgica 1941

Glauco — Quais são, então, na tua opinião, os verdadeiros filósofos?
Sócrates — Os que amam o espectáculo da verdade.
Glauco — Talvez tenhas razão. Mas que entendes por isso?
Sócrates — Não seria fácil de explicar a outra pessoa, mas creio que concordarás comigo nisto.
Glauco — Em quê? 
Sócrates — Visto que o belo é o contrário do feio, trata-se de duas coisas distintas.
 Glauco — Claro.
Sócrates — E, visto que são duas coisas distintas, cada uma delas é uma?
Sócrates — Acontece a mesma coisa com o justo e o injusto, o bom e o mau e todas as outras formas: cada uma delas, tomada em si mesma, é una; porém, dado que entram em comunidade com acções, corpos e entre si mesmas, revestem mil formas que parecem multiplicá-las. 
Glauco — Tens razão.
 Sócrates — E neste sentido que eu diferencio, de um lado, os que amam os espectáculos, as artes e são homens práticos; e, de outro, aqueles a quem nos referimos no nosso discurso, os únicos a quem com razão podemos denominar filósofos.

Glauco — Em que sentido?

Sócrates — Os primeiros, cuja curiosidade situa-se toda nos olhos e nos ouvidos, amam as belas vozes, as cores e as figuras bonitas e todas as obras em que entre alguma coisa de semelhante, mas a sua inteligência é incapaz de enxergar e apreciar a natureza do próprio belo.
Glauco — E assim mesmo.
Sócrates — Mas não são raros aqueles que são capazes de se elevar até à essência do próprio belo?
Glauco — Bastante raros.
Sócrates — Aquele que conhece as coisas belas, mas não conhece a beleza em sua essência e não é capaz de seguir aos que poderiam levá-lo a esse conhecimento, parece-te que vive sonhando ou acordado? Vê bem: sonhar não é, quer se esteja dormindo, quer acordado, tomar a aparência de uma coisa pela própria coisa? 
Glauco — Sem dúvida que sonhar é isso. 
Sócrates — Contudo, aquele que acredita que o belo existe em si mesmo, que pode admirá-lo na sua essência e nos objetos que nele participam, que nunca toma as coisas belas pelo belo nem o belo pelas coisas belas, parece-te que este vive acordado ou sonhando? 
Glauco — Acordado, sem dúvida. 
Sócrates — Então, não afirmaríamos com razão que o seu pensamento é igual a conhecimento, visto que sabe, ao passo que o do outro é igual a opinião, visto que julga sobre aparências? 
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Porém, se este último, que, conforme nós achamos, julga pelas aparências e, por isso, não conhece, se exaltasse connosco e contestasse a veracidade da nossa afirmação, não teríamos nada a dizer-lhe para acalmá-lo e convencê-lo serenamente, ocultando-lhe ao mesmo tempo que está doente?


 Platão, Répública, Livro 5. 475d-476e

sábado, julho 23, 2016

O estrangeiro


Marcelo Mastroianni em " O Estangeiro" de Luchino Visconti, 1967

“Porque atirou sobre um corpo caído?” Mais uma vez não soube responder. O juiz passou a mão pela testa e repetiu a pergunta com a voz um pouco alterada. “Porquê? É preciso que me diga. Porquê?” Continuei calado.
Bruscamente levantou-se, com largas passadas dirigiu-se ao outro lado do escritório e abriu a gaveta de um classificador. Tirou um crucifixo de prata que bramiu enquanto se dirigia para mim. E com a voz alterada, quase trémula, gritou: “Conhece-o, a este aqui?” Disse: “Sim, naturalmente.” Então disse-me muito depressa e de forma apaixonada que acreditava em Deus, e era sua convicção que nenhum homem era suficientemente culpado para que Deus não lhe perdoasse, mas era preciso, pelo arrependimento, o homem tornar-se uma criança na qual a alma é vazia e pronta a tudo acolher. Tinha o corpo todo inclinado sobre a mesa. Agitava o seu crucifixo quase em cima de mim. Para dizer a verdade, mal segui o seu raciocínio, primeiro porque tinha calor e havia no seu escritório grandes moscas que pousavam na minha figura, e também porque ele me fazia um pouco de medo. Reconhecia, ao mesmo tempo, que isso era ridículo porque, afinal de contas, era eu o criminoso. No entanto, ele continuou. Compreendi pouco a pouco que, na sua opinião, não havia senão um ponto obscuro na minha confissão; o facto de ter esperado até atirar o meu segundo tiro de revólver. Quanto ao resto tudo bem, mas isso, ele não compreendia.
Ia dizer-lhe que não valia a pena obstinar-se: esse último ponto não tinha afinal assim tanta importância. Mas ele interrompeu-me e exortou-me uma última vez, do alto da sua autoridade, perguntando-me se acreditava em Deus. Respondi que não. Sentou-se indignado. Disse-me que era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo aqueles que se desviavam do seu rosto. Era essa a sua convicção, e se algum dia duvidasse, a sua vida não teria mais sentido. “ O senhor quer, exclamou, que a minha vida não tenha mais sentido?” Disse-lhe que, na minha opinião, isso não me dizia respeito. Mas ele avançava por cima da mesa com o Cristo sobre os meus olhos e gritando de um modo descontrolado: “ Eu sou cristão. Peço a Ele perdão pelos teus pecados. Como podes tu não acreditar que ele sofreu por ti?” Reparei que me estava a tratar por tu, mas estava farto. O calor era cada vez maior. Como sempre, quando tinha vontade de me desembaraçar de alguém que já não consiguia ouvir , fiz semblante de concordar. Para minha surpresa, rematou em triunfo: “Vês, vês, dizia ele. Não é verdade que acreditas e que te vais confessar a Ele?” Evidentemente que lhe disse não, mais uma vez. Ele deixou-se cair na cadeira. Tinha um ar cansado. Ficou um momento em silêncio enquanto a máquina, que não tinha parado de seguir o diálogo, se prolongava ainda pelas últimas frases. Depois, olhou-me atentamente e com um pouco de tristeza. Murmurou: “ Nunca vi uma alma tão endurecida como a sua. Os criminosos que têm vindo à minha presença sempre choraram perante esta imagem de sofrimento.” Ia responder que era justamente por isso que eram criminosos. Mas pensei que eu era também como eles. Ainda não me tinha habituado a essa ideia . O juiz levantou-se então como me querendo transmitir que o interrogatório tinha terminado.

Um francês na Argélia mata um árabe numa praia. Razão? Nenhuma em especial, talvez um medo difuso, eram estrangeiros, estava calor, tinha, por acaso, um revólver no bolso. Uma soma de acasos, nenhum motivo especial, nem auto-defesa, nem ódio, nenhum interesse ou ambição, depois nenhum remorso, uma consciência adormecida pelo calor. Um absurdo que se materializou.Estávamos  em 1942 em plena II Guerra Mundial, a morte não tem rosto nem sentido.


terça-feira, julho 19, 2016

EXAME NACIONAL DE FILOSOFIA 1ª e 2ª Fases - 2016



Robert Doisneau, 1953, Les écoliers curieux

1ª FASE - 15 de JUNHO 2016 
VERSÃO 1
VERSÃO 2
CRITÉRIOS DE CORREÇÃO

2ª FASE - 19 de Julho de 2016
VERSÃO 1
VERSÃO 2
CRITÉRIOS DE CORREÇÃO


Rasteira na escolha múltipla e resposta discutível. Na resposta à pergunta " Os relativistas acerca dos valores defendem que... as opções A: "A correcção dos juízos de valor depende da cultura e, assim, o que é correcto numa cultura pode não o ser noutra" e a opção B: " Todos os valores são relativos, e, por isso, nenhum juízo de valor é correcto ou incorrecto" são, a meu ver, ambas verdadeiras porque B é consequência deduzida de A, logo se A é verdadeira B é também verdadeira, pois a dedução é válida. Se os juízos de valor dependem das culturas "in abstractum" eles são relativos, logo se são relativos não há juízos de valor correctos ou incorrectos.

Oh! Atormentada consciência! A tragédia que é ( apenas) drama.Ricardo III


Henri Fantin-Latour, Maçãs, 1868

ACTO V
CENA III

(...)
(Entram os fantasmas dos dois jovens príncipes.)
 FANTASMAS (ao Rei Ricardo)- Pensa em teus primos sufocados na Torre. Chumbo sejamos dentro em teu peito, Ricardo, e com nosso peso te arremessemos para a ruína, infâmia e morte. As almas de teus sobrinhos ordenam que desesperes e morras. (Para Richmond) Dorme, Richmond, dorme em paz, e com alegria acorda. Guardem-te os anjos bons dos ataques do javali. Vive e gera feliz linhagem de reis. Os infelizes filhos de Eduardo ordenam que floresças. 
(Saem. Entra o fantasma da senhora Dona Ana, sua esposa) 
FANTASMA DE ANA (ao Rei Ricardo)- Ricardo, tua mulher, essa mísera Ana, tua mulher, que não dormiu contigo uma só hora feliz, enche agora teu sono de turvações. Amanhã na batalha pensa em mim, e caia, sem gume, tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, alma tranquila, dorme teu sono tranquilo. Sonha bom sucesso e uma vitória feliz. A mulher de teu adversário ora por ti.
 (Sai. Entra o fantasma de Buckingham)
 FANTASMA DE BUCKINGHAM (ao Rei Ricardo)- Fui aquele que primeiro te ajudou a chegar à coroa, o último que sentiu a tua tirania. Oh, na batalha pensa em Buckingham, e morre no terror das tuas culpas. Sonha, sonha sanguinolentos feitos e morte. Em perdendo forças desespera, em desesperando, exala teu derradeiro sopro. (Para Richmond) Morri na esperança e antes que te pudesse ajudar, mas que teu coração se alegre, e não esmoreças. Deus e os anjos bons pelejam ao lado de Richmond. E Ricardo cai do cume de todo seu orgulho. (Sai) 
(Ricardo acorda sobressaltado)
 RICARDO III (Rei)- Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas! Tende piedade, Jesus! Chiu, tão-só sonhava. Ó covarde consciência, como me atormentas! As luzes ardem azuis, é a meia-noite dos mortos. Gotas frias de terror são no meu corpo tremente. De que me receio? De mim próprio? Não é mais ninguém aqui. Ricardo ama Ricardo, ou seja, eu e eu. Aqui  há um assassino? Não! Sim, sou eu! Então fugi. Quê, de mim próprio? Boa razão há, não me vá eu vingar! Quê, eu próprio contra mim próprio? Coitado de mim, eu amo-me a mim próprio. Porquê? Pelos bens que eu próprio a mim próprio ofereci? Oh, não, pobre coitado, antes a mim próprio tenho ódio por feitos odiosos que eu próprio cometi. Sou ruim vilão... mas minto, eu o não sou! Sandeu, diz bem de ti próprio! Sandeu, não uses de lisonja! Minha consciência tem milhares de línguas diferentes e cada língua me diz um conto diferente, e cada conto me condena como ruim vilão: perjúrio, perjúrio, no mais subido grau; assassínio, assassínio horrendo, no mais horrífico grau. Todos os pecados diferentes, todos cometidos em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando: "Culpado, culpado!" Em desespero cairei. Não há criatura que me ame, e se eu morrer, ninguém me lamentará... E porque o fariam, se eu próprio em mim próprio por mim próprio não encontro dó? Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram a minha tenda, e cada qual me ameaçou que amanhã a vingança tombaria sobre a cabeça de Ricardo.
 (Entra Ratcliffe.) 
RATCLIFFE- Meu senhor?
RICARDO III (Rei)- Pelo demo! Quem está aí?

William Shakespeare, Ricardo III, Acto V - Cena III


Tradução de Carlos A. Nunes


Não é por acaso que consideramos a consciência como um palco. Ela é o lugar onde várias vozes dialogam, respondem, gritam, enfurecem-se, acarinham, aceitam, revoltam-se, falam como se cada uma fosse uma personagem digna de atenção e tão capaz de se impor como de se frustrar irremediavelmente, viva sem realmente o ser, como fantasma. A acção de Ricardo III não pode ser identificada como tragédia porque há uma consciência que dissolve a terrível e incompreensível injustiça dos actos trágicos, remetendo a sua explicação para a ambição e a insanidade de uma pessoa defeituosa, corcunda e egoísta. A dimensão psicológica de Ricardo III ( que Shakespeare quer mostrar também fisicamente com a corcunda que, consta, a personagem histórica não possuía) permite-nos compreender que a dimensão trágica da condição humana desapareceu, dando lugar à dimensão dramática, aos abismos da mente onde nos perdemos e onde a vontade submerge sem, no entanto, deixarmos de ser conscientes dos nossos actos. Nenhum destino nos manda, somos só nós, sozinhos com os nossos fantasmas, nós a força e a sua negação.

H.S

sexta-feira, julho 15, 2016

Pensar


Giuseppe De Nittis, 1846/1884 Itália

Alcançamos o que significa pensar quando nós mesmos pensamos. Para que tal tentativa seja bem- sucedida, devemos dispor-nos a aprender a pensar. Assim que nos empenhamos nesta aprendizagem, estamos já a admitir que não somos capazes de pensar. Mas, ora, por direito, o homem é aquele que pode pensar. Porque ele é o animal razoável (racional). A razão, a ratio, desdobra-se em pensamento. Como animal razoável (racional), o homem deve poder pensar, só dependendo de querer. De todo modo, talvez o homem queira pensar e, no entanto, não possa. Afinal, nesse querer pensar, ele quer demais e, por isso, pode menos. O homem pode pensar, no sentido em que tem essa possibilidade. Mas, sozinha, tal possibilidade ainda não nos garante o pensamento. Está somente em nosso poder que o desejemos. Mas nós desejamos verdadeiramente, em compensação, apenas aquilo que, por sua vez,  deseja a nós -mesmos, na nossa verdadeira essência. Revelando-se à nossa essência como o que nos mantém nessa essência. Manter significa propriamente abrigar, deixar-se apascentar na pastagem. O que nos mantém na nossa essência, nos mantém apenas enquanto nós-mesmos retemos por o maior tempo possível, isso que nos mantém. Retemo-lo, enquanto não permitimos que ele saia da memória. A memória é a coleção de pensares. Coleção de quê? Daquilo que nos mantêm, enquanto for guardado no nosso pensamento – guardado porque continua a ser o que precisa ser guardado no pensamento, considerado ou a considerar. O que é guardado no pensamento e pode ser recordado só o é porque o desejámos. É apenas enquanto desejamos o que em si merece ser guardado no pensamento, que este está em nosso poder.
Para poder pensar, para que o pensamento esteja em nosso poder, nós precisamos aprendê-lo. O que é aprender? É fazer do que fazemos e do que não fazemos de cada vez, o eco da revelação do essencial. Nós aprendemos a pensar, prestando atenção ao que exige ser guardado no pensamento.
A nossa língua, por exemplo, nomeia a amizade como o que pertence à essência de amigo. Do mesmo modo, nomearemos agora, o que em si exige ser guardado no pensamento: o pensável ( o considerável). Todo pensável (considerável) dá a pensar.(...).
 O que é que exige ser guardado no pensamento? Como se mostra na nossa época? O que deve ser guardado no pensamento é o que ainda não pensamos; é um sempre e ainda não, apesar do estado do mundo o requerer consideravelmente. Esse processo aparece livremente a sustentar o fato de que o homem prioritariamente está na lida, sem demora, em vez de dar conferências em congressos e se movimentar em meras apresentações daquilo que deveria ser e como deveria ser feito. E, não obstante, − talvez o homem de até então há séculos tenha lidado demais e pensado muito pouco. Mas como pode alguém hoje afirmar que nós ainda não pensamos, quando por toda a parte o interesse pela filosofia é mais ruidoso, quando todo homem quer saber sobre o que, afinal, é a filosofia? Os filósofos são “os” pensadores”. Assim se chamam, pois é na filosofia que acontece o pensar. Ninguém quer contestar que existe hoje um interesse pela filosofia. Mas ainda haveria algo hoje pelo qual o homem não se interesse no sentido mesmo de como ele entende “interessar”? Interesse significa: estar no meio e entre coisas, demorar-se no coração de uma coisa e ficar perto dela. Mas para o in-teresse moderno só conta o que é “interessante”. A característica principal do que é “interessante”, é que pode no instante seguinte tornar-se-nos indiferente e ser substituído por outra coisa, que nos preocupa na mesma proporção que a precedente. É frequente, hoje, querermos honrar particularmente algo só porque o consideramos “interessante”. Na verdade um tal juízo faz do que é interessante qualquer coisa indiferente, e rapidamente enfadonho.

Martin Heidegger, Qu’apelle-t-on penser?, Presses Universitaires de France, Paris, 1973, pp.21, 22 e 23
Título original: Was heibt denken? (1954)

Tradução do francês de Helena Serrão



segunda-feira, junho 20, 2016

A palavra aos alunos




No final do ano pedi-lhes uma opinião sobre a Filosofia, era a última aula, não havia livros, as respostas surpreenderam-me...

"A Filosofia é uma disciplina que estuda o quotidiano, que pensa e tenta perceber os problemas que os homens apenas se limitam a viver. É uma matéria subjectiva e vaga com imensas ideias para explicar o que a ciência ainda não desvendou, como o que haverá depois da morte, entre muitos outros problemas."
Gonçalo Santos, 10A

" É a arte de pensar, ou seja, é um estudo infinito do comportamento e do pensamento humano em que os filósofos tentam juntar todos os conceitos que os abrangem em teorias na tentativa de serem universais e sem objecções. Estudo infinito? Sim, é mesmo infinito pois não acho  que alguma vez se consiga esclarecer completamente esses assuntos pois assim que o fizéssemos a Filosofia acabaria e o Homem deixaria de se questionar de tudo, portanto, deixaria de se humano."
Joana Canha 10A

" Filosofia é uma palavra que significa "amor à sabedoria" e consiste no estudo dos problemas fundamentais relacionados com a existência, o conhecimento, a verdade, os valores morais e estéticos, a mente e a linguagem. Porém, a filosofia é intrínseca à condição humana. Não é um conhecimento mas uma atitude do Homem em relação ao universo e ao seu ser."
Debra Copos, 10A

sábado, junho 11, 2016

SEBENTA PARA EXAME


Joaquin Sorolla, 1903, Animais no mar

Há um novo espaço com uma sebenta de perguntas e respostas que saem com regularidade no Exame Nacional de Filosofia.
Chama-se SEBENTOSFERA (na barra lateral já está presente). É uma ferramenta que tem a sua utilidade. Ainda está em construção. Pode consultar AQUI.

segunda-feira, junho 06, 2016

Perturbação de Hiperactividade com déficit de atenção. Doença ou ficção?


Quando estudamos teorias científicas sobretudo na área que detém o maior impacto sobre a vida das pessoas, área médica, não podemos deixar de cruzar os desenvolvimentos do conhecimento com os interesses mercantis, pois o conhecimento científico ligado às ciências médicas, por ter um alcance prático fundamental aliado ao mito da verdade científica, conduz a uma área obscura em que conhecimento e manipulação deste para fins eminentemente comerciais pode gerar práticas e  usos de medicamentos de forma abusiva e quiça prejudicial, contribuindo para que as melhorias na vida das pessoas sejam apenas aparentes e ligadas a interesses imediatistas que nada têm a ver com a real melhoria na saúde e hábitos sociais. Veja-se a polémica relativa ao uso da  RITALINA,  remédio usado para a (pretensa ou real?) doença catalogada pela OMS e que detém o pomposo nome de  "Perturbação de hiperactividade com distúrbio de atenção". Como professora já tive alunos que tomavam diariamente este fármaco e sempre me perguntei, visto que as crianças que o usavam revelavam dificuldades na retenção e assimilação de conteúdos, como seriam estas crianças e adolescentes se não tivessem sob a influência desta droga.Este artigo vem confirmar algumas das minhas suspeitas.