domingo, janeiro 31, 2016

Vamos descobrir o que é o saber, sem saber...


Gordon Parks, Nova Iorque, 1943

S. — Pois, nesta minha arte de dar à luz, coexistem as outras todas que há na outra arte, diferindo não só no facto de serem homens a dar à luz e não mulheres, mas também no de tomar conta das almas e não dos corpos dos que estão a parir. E o mais importante desta fc] nossa arte está em poder verificar completamente se o pensamento do jovem pariu uma fantasia ou mentira, ou se foi capaz de gerar também uma autêntica verdade. Pois isto é o que justamente a minha arte partilha com a das parteiras: sou incapaz de produzir saberes. Mas disso já muitos me criticaram, pois faço perguntas aos outros, enquanto eu próprio não presto declarações sobre nada, porque nada tenho de sábio; e o que criticam é verdade. A causa disso é a seguinte: o deus que me obriga a fazer nascer, impediu-me de produzir, [d] Não sou, portanto, absolutamente nada sábio, nem tenho nenhuma descoberta que venha de mim, nascida da minha alma; mas aqueles que convivem comigo, a princípio alguns parecem de todo incapazes de aprender, mas, com o avanço do convívio, todos aqueles a quem o deus permite, é espantoso o quanto produzem, como eles próprios e os outros acham; sendo claro que nunca aprenderam nada disto por mim, mas descobriram por si próprios e deram à luz muitas e belas coisas. No entanto, o deus e eu é que fomos a causa do parto, [e] E isto é evidente; já muitos que o ignoram e atribuem a causa a si próprios, me olharam com desprezo, e, quer por convicção própria, quer persuadidos por outros, afastaram-se mais cedo do que deviam. Depois de se afastarem, fizeram abortar as coisas que ainda restavam, por causa das más companhias e, alimentando-as mal, destruíram as que eu tinha feito nascer, preferindo a mentira e as fantasias à verdade, acabando por parecer ignorantes, tanto a si próprios, como aos outros. (…)

Então, comecemos de novo, desde o início, Teeteto. Tenta definir o que pode ser o saber: do que não fores capaz, não digas nada. Mas decerto serás, se o deus quiser e te fizer homem.

Platão Teeteto, 150,c,d

As aporias do pensamento Socrático parecem-nos comuns porque nos habituámos a elas mas não deixam de ser estranhas se quisermos perceber o que são, descurando o fim, percebemos o fim, mas não percebemos o meio. Como pode alguém fazer nascer a verdade em alguém se não sabe em que consiste a verdade? Não é trabalho de parteira pois esta reconhece aquilo que vai ajudar a nascer, pois Sócrates não...

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Estaremos a sonhar? RENÉ DESCARTES




Ouvimos o despertador, desligamo-lo, levantamo-nos da cama, vestimo-nos, tomamos o café da manhã, aprontamo-nos para mais um dia. De repente, algo inesperado acontece: acordamos e percebemos que estávamos a sonhar. No nosso sonho, estávamos despertos e dando seguimento à vida, mas na verdade ainda estávamos roncando debaixo do cobertor. Se alguém já teve uma dessas experiências, entenderá o que digo. São geralmente  chamadas de “falso despertar” e podem ser bastante convincentes. O filósofo francês René Descartes (1596-1650) teve uma que o deixou a pensar. Como poderia ele ter certeza de que não estava a sonhar? Para Descartes, a filosofia era um entre muitos interesses intelectuais. Ele foi um matemático brilhante, talvez mais conhecido por ter inventado as “coordenadas cartesianas” – supostamente depois de ver uma mosca a cruzar o teto pensou como poderia descrever a sua posição em vários pontos. A ciência também o fascinava, e ele era tanto astrónomo quanto biólogo. A sua reputação como filósofo deve-se principalmente à obra  Meditações e ao Discurso do método, livros nos quais ele explorou os limites do que possivelmente podia conhecer. Como a maioria dos filósofos, Descartes não gostava de acreditar em nada sem antes examinar por que acreditava naquilo; ele também gostava de fazer perguntas complicadas, que outras pessoas evitavam fazer. Obviamente,  percebeu que não podia viver questionando tudo a tempo inteiro. Seria extremamente difícil viver se não tomássemos certas coisas como verdadeiras na maior parte do tempo, o que Pirro sem dúvida descobriu (ver Capítulo 3). Mas Descartes pensou que valeria a pena tentar uma vez na vida descobrir o que ele podia saber com certeza. Para isso, ele desenvolveu um método, hoje conhecido como método da dúvida cartesiana. O método é bastante simples: não aceites nada como verdadeiro se houver a mínima possibilidade de que não o seja. Pensa num grande saco de maçãs. Sabes que dentro do saco existem algumas maçãs estragadas, mas não tens a certeza de quais são. Queres chegar ao ponto de ter um saco só com maçãs boas. Como poderias chegar a esse resultado? Uma maneira seria despejar todas as maçãs no chão e examinar uma a uma, guardando no saco somente aquelas que tivesses absoluta certeza de serem boas. Talvez descartasses durante o processo algumas maçãs boas, porque  parecem estar um pouco estragadas por dentro, mas a consequência seria ter um saco só com maçãs boas. O método da dúvida cartesiana era mais ou menos assim. Parte-se de uma crença, como “estou acordado, lendo este livro”, examinamos, e só a aceitamos se tivermos a certeza de que não é errada ou enganadora. Se houver o mínimo espaço para a dúvida, rejeitamo-la. Descartes analisou diversas coisas nas quais acreditava e questionou se tinha ou não certeza de que  eram o que pareciam ser. Seria o mundo realmente tal como parece ser? Tinha ele certeza de que não estava a sonhar?

Nigel Warburton, Breve História da Filosofia

quinta-feira, janeiro 14, 2016

11ºG - Leitura complementar para os grupos III e VI


Grupo III (1ª Parte do Discurso do Método)

NÃO EXISTE NO MUNDO coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem. E é improvável que todos se enganem a esse respeito; mas isso é antes uma prova de que o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é justamente o que é denominado bom senso ou razão, é igual em todos os homens; e, assim sendo, de que a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam. Quanto a mim, nunca supus que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que os dos outros; com frequência desejei ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão clara e diferente, ou a memória tão abrangente ou tão pronta, quanto alguns outros. E desconheço quaisquer outras qualidades, afora as que servem para o aperfeiçoamento do espírito; pois, quanto à razão ou ao senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um, acompanhando nisso a opinião geral dos filósofos, que afirmam não existir mais nem menos senão entre os acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie. Mas não recearei dizer que julgo ter tido muita felicidade de me haver encontrado, a partir da juventude, em determinados caminhos, que me levaram a considerações e máximas, das quais formei um método, pelo qual me parece que eu consiga aumentar de forma gradual o meu conhecimento, e de elevá-lo, pouco a pouco, ao mais alto nível, a que a mediocridade de meu espírito e a breve duração de minha vida lhe permitam alcançar. Pois já colhi dele tais frutos que, apesar de no juízo que faço de mim próprio eu procure inclinar-me mais para o lado da desconfiança do que para o da presunção, e que, observando com um olhar de filósofo as variadas ações e empreendimentos de todos os homens, não exista quase nenhum que não me pareça fútil e inútil, não deixo de lograr extraordinária satisfação do progresso que creio já ter feito na procura da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens existe alguma que seja solidamente boa e importante, atrevo-me a acreditar que é aquela que escolhi. Contudo, pode ocorrer que me engane, e talvez não seja mais do que um pouco de cobre e vidro o que eu tomo por ouro e diamantes. Sei como estamos sujeitos a nos enganar no que nos diz respeito, e como também nos devem ser suspeitos os juízos de nossos amigos, quando são a nosso favor. Mas apreciaria muito mostrar, neste discurso, quais os caminhos que segui, e representar nele a minha vida como num quadro, para que cada um possa julgá-la e que, informado pelo comentário geral das opiniões emitidas a respeito dela, seja este uma nova forma de me instruir, que acrescentarei àquelas de que tenho o hábito de me utilizar. Portanto, meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha. Os que se aventuram a fornecer normas devem considerar-se mais hábeis do que aqueles a quem as dão; e, se falham na menor coisa, são por isso censuráveis. Mas, não propondo este escrito senão como uma história, ou, se o preferirdes, como uma fábula, na qual, entre alguns exemplos que se podem imitar, encontrar-se-ão talvez também muitos outros que se terá razão de não seguir, espero que ele será útil a alguns, sem ser danoso a ninguém, e que todos me serão gratos por minha franqueza.

Grupo VI
(1ª Parte do Discurso do Método)

Fui instruído nas letras desde a infância, e por me haver convencido de que, por intermédio delas, poder-se-ia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia extraordinário desejo de aprendê-las. Porém, assim que terminei esses estudos, ao cabo do qual costuma-se ser recebido na classe dos eruditos, mudei totalmente de opinião. Pois me encontrava embaraçado com tantas dúvidas e erros que me parecia não haver conseguido outro proveito, procurando instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, contudo, estudara numa das mais célebres escolas da Europa, onde imaginava que devia haver homens sábios, se é que havia em algum lugar da Terra. Aprendera aí tudo o que os outros aprendiam, e mesmo não havendo me contentado com ciências que nos ensinavam, lera todos os livros que tratam daquelas que são reputadas as mais curiosas e as mais raras, que vieram a cair em minhas mãos. Além disso, eu conhecia os juízos que os outros faziam de mim; e não via de modo algum que me julgassem inferior a meus colegas, apesar de entre eles haver alguns já destinados a ocupar os lugares de nossos mestres. E, enfim, o nosso século parecia-me tão luminoso e tão fértil em bons espíritos como qualquer um dos anteriores, O que me levava a tomar a liberdade de julgar por mim todos os outros e de pensar que não havia doutrina no mundo que fosse tal como antes me haviam feito presumir. Apesar disso, não deixava de apreciar os exercícios com os quais se ocupam nas escolas. Sabia que as línguas que nelas se aprendem são necessárias ao entendimento dos livros antigos; que a gentileza das fábulas estimula o espírito; que as realizações notáveis das histórias o fazem crescer, e que, sendo lidas com discrição, ajudam a formar o juízo; que a leitura de todos os bons livros é igual a uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam apenas seus melhores pensamentos; que a eloqüência possui forças e belezas incomparáveis; que a poesia tem delicadezas e ternuras deveras encantadoras; que as matemáticas têm invenções bastante sutis, e que podem servir muito, tanto para satisfazer os curiosos quanto para facilitar todas as artes e reduzir o trabalho dos homens; que os escritos que tratam dos costumes contêm muitos ensinamentos e muitos estímulos à virtude que são muito úteis; que a teologia ensina a ganhar o céu; que a filosofia ensina a falar com coerência de todas as coisas e de se fazer admirar pelos que possuem menos erudição; que a jurisprudência, a medicina e as outras ciências proporcionam honras e riquezas àqueles que as cultivam; e, enfim, que é bom havê-las examinado a todas, até mesmo as mais eivadas de superstição e as mais falsas, a fim de conhecer-lhes o exato valor e evitar ser por elas enganado. Mas eu julgava já ter gasto bastante tempo com as línguas, e também com a leitura dos livros antigos, com suas histórias e suas fábulas. Pois quase a mesma coisa que conversar com os homens de outros séculos é viajar. E bom saber alguma coisa dos hábitos de diferentes povos, para que julguemos os nossos mais justamente e não pensemos que tudo quanto é diferente dos nossos costumes é ridículo e contrário à razão, como soem fazer os que nada viram. Contudo, quando gastamos excessivo tempo em viajar, acabamos tornando-nos estrangeiros em nossa própria terra; e quando somos excessivamente curiosos das coisas que se realizavam nos séculos passados, ficamos geralmente muito ignorantes das que se realizam no presente. Ademais, as fábulas fazem imaginar como possíveis muitos acontecimentos que não o são, e até mesmo as histórias mais verossímeis, se não mudam nem alteram o valor das coisas para torná-las mais dignas de serem lidas, ao menos deixam de apresentar quase sempre as circunstâncias mais baixas e menos insignes, de onde resulta que o resto não parece tal qual é, e que aqueles que norteiam seus hábitos pelos exemplos que deles tiram estão sujeitos a cair nas extravagâncias dos heróis de nossos romances e a conceber propósitos que superam suas forças

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Verdade de razão e de facto


Nicolas Muller,  1938, Espanha

Porquanto, do ponto de vista daquele que diz a verdade, a tendência para se transformar o facto em opinião, suprimindo a linha divisória entre eles, não é menos embaraçosa que o transe em que se encontra o contador da verdade tão vigorosamente simbolizado na Alegoria da Caverna, em que o filósofo, de regresso da sua viagem solitária pelo céu das ideias sempre eternas, tenta comunicar a sua verdade à multidão com o resultado de a ver diluir-se numa diversidade de modos de ver que, para ele, não passam de ilusões e em que vê a verdade  rebaixada ao nível incerto da opinião, a tal ponto que, agora, de volta à caverna a própria verdade veste o disfarce de dokei uoi (parece-me) - da doxa (opinião) que o filósofo tinha esperado abandonar para sempre. No entanto o repórter da verdade de facto está ainda numa situação mais delicada. Ele não regressa de uma viagem solitária de regiões situadas para além do mundo dos assuntos humanos e também não pode consolar-se com o pensamento de que se tornou um estranho neste mundo. Similarmente, não temos o direito de nos consolarmos com a noção de que a sua verdade, se verdade aí houver, não é deste mundo. se as verdade de facto que ele enuncia não são aceites - as verdades vistas e testemunhadas com os olhos do corpo e não com os olhos do espírito - emerge a suspeita de que é talvez do domínio público negar ou perverter toda a espécie de verdade, como se os homens fossem incapazes de chegar a um entendimento com a sua inflexibilidade e teimosia obstinada.  se fosse assim, as coisas pareceriam ainda mais desesperadas do que Platão as supunha, porque a verdade de Platão, encontrada e renovada na solidão filosófica, transcende, por definição, o domínio da multidão, isto é, o mundo dos negócios humanos.
amente simbolizado na Alegoria da Caverna, em que o filósofo, de regresso da sua viagem solitária pelo céu das ideias sempre eternas, tenta comunicar a sua verdade à multidão com o resultado de a ver diluir-se numa diversidade de modos de ver que, para ele, não passam de ilusões e em que ela é rebaixada ao nível incerto da opinião, a tal ponto que, agora, de volta à caverna a própria verdade veste o disfarce de

Hannah Arendt, Verdade e Política, 2005, Lisboa Ed, p. 85,86

quarta-feira, dezembro 30, 2015

EU - TU Um texto para celebrar


Martin Buber, 1878/1965

O EU da palavra-princípio EU-TU é diferente do EU do palavra-princípio EU-ISSO.
O EU da palavra-princípio EU-ISSO aparece como egótico e toma consciência de si como sujeito (de experiência e de utilização).
O EU da palavra-princípio EU-TU aparece como pessoa e toma consciência como subjectividade, (sem genitivo dela dependente).
O egótico aparece na medida em que se distingue de outros egóticos.
A pessoa aparece no momento em que entra em relação com outras pessoas.
O primeiro é a forma espiritual da diferenciação natural, a segunda é a forma espiritual do vínculo natural.
A finalidade da separação é o experienciar e o utilizar, cuja finalidade é, por sua vez, “a vida”, isto é, o contínuo morrer no decurso da vida humana.
A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contacto com o TU. Pois, no contacto com cada TU, toca-nos um sopro da vida eterna.
Quem está na relação participa de uma actualidade, quer dizer, de um ser que não está unicamente nele nem unicamente fora dele. Toda actualidade é um agir do qual EU participo sem poder dele me apropriar. Onde não há participação não há actualidade. Onde há apropriação de si não há actualidade. A participação é tanto mais perfeita, quanto o contacto do TU é mais imediato.
O EU é actual através de sua participação na actualidade. Ele se torna mais actual quanto mais completa é a participação.
Mas o EU que se separa do evento de relação em direcção da separação, consciente desta separação, não perde sua actualidade. A participação permanece nele, conservada como potencialidade viva; ou então, em outro termo usado quando se trata da mais elevada relação e que pode ser aplicado a todas as relações, “a semente permanece nele”. É este o domínio da subjectividade, onde o EU toma consciência simultaneamente tanto de seu vínculo quanto de sua separação. A autêntica subjectividade só pode ser compreendida de um modo dinâmico, como a vibração de um EU no seio de sua verdade solitária. É aqui, também, o lugar onde irrompe e cresce o desejo de uma relação cada vez mais elevada e absoluta, o desejo de uma participação total com o Ser. Na subjectividade amadurece a substância espiritual da pessoa.
                A pessoa toma consciência de si como participante do ser, como um ser-com, como um ente. O egótico toma consciência de si como um ente-que-é-assim e não-de-outro-modo. A pessoa diz: “Eu sou”, o egótico diz: “eu sou assim”. “Conhece-te a ti mesmo” para a pessoa significa: conhece-te como ser; para o egótico: conhece o teu modo de ser. Na medida em que
o egótico se afasta dos outros, ele se distancia do Ser.
Com isso não se quer dizer que a pessoa “renuncie” ao seu modo de ser específico, mas somente isso: este não é somente o seu ponto de vista, mas a forma necessária e significativa de ser. Ao contrário, o egótico se delicia com seu modo-de-ser específico que ele imaginou ser o seu. Pois, para ele, conhecer-se significa fundamentalmente, sobretudo estabelecer uma manifestação efectiva de si e que seja capaz de iludi-lo cada vez mais profundamente; e pela contemplação e veneração desta manifestação procura uma aparência de conhecimento de seu próprio modo-de-ser, enquanto que o seu verdadeiro conhecimento poderia levar ao suicídio ou à regeneração.
A pessoa contempla-se o seu si-mesmo, enquanto que o egótico ocupa-se com o seu “meu”: minha espécie, minha raça, meu agir, meu génio.
O egótico não só não participa como também não conquista actualidade alguma. Ele se contrapõe ao outro e procura, pela experiência e pela utilização, apoderar-se do máximo que lhe é possível. Tal é a sua dinâmica: o pôr-se à parte e a tomada de posse; ambas operações se passam no ISSO, no que não é actual. O sujeito, tal como ele se reconhece, pode apoderar-se de tudo quanto queira, que daí ele não obterá substância alguma, ele permanece como um ponto, funcional, o experimentador, o utilizador, e nada mais. Todo o seu modo de ser múltiplo ou sua ambiciosa “individualidade” não podem lhe proporcionar substância alguma.
                Não há duas espécies de homem; há, todavia, dois pólos do humano.
Homem algum é puramente pessoa, e nenhum é puramente egótico; nenhum é inteiramente actual e nenhum totalmente carente de actualidade. Cada um vive no seio de um duplo EU. Há homens entretanto, cuja dimensão de pessoa é tão determinante que se podem chamar de pessoas, e outros cuja dimensão de egotismo é tão preponderante que se pode atribuir-lhes o nome de egótico. Entre aqueles e estes se desenrola a verdadeira história.

Martin Buber, Eu-Tu, (1923), S. Paulo, Moraes, 1974, pp.75,79

Tradução do alemão de NEWTON AQUILES VON ZUBEN


terça-feira, dezembro 08, 2015

Consumidor: um ser emocional com cérebro de homem das cavernas



Reduzir oxigénio para tornar a compra mais impulsiva é uma das estratégias das marcas com base nas neuro-ciências.
As decisões dos consumidores são 100% emocionais e não têm nada de racional. Ao contrário do que os especialistas em marketing tomam muitas vezes como garantido, os prós e contras de um produto pesam pouco da decisão de compra. O que é verdadeiramente importante é o capital emotivo que associamos à compra. A decisão, garante o neurologista, é tomada muito antes de termos consciência dela. “O consumidor é um ser irracional que responde a necessidades humanas que estão codificadas no nosso cérebro, praticamente desde os tempos em que vivíamos em cavernas”, explicou ao Diário Económico o neurologista Rodrigo Cunha.
Descobertas das neuro-ciências, como esta, podem fazer a diferença na estratégias de ‘branding’. “A vantagem das neuro-ciências é que podem olhar para o cérebro e medir modificações que correspondem ao processo de tomada de decisão, antes do indivíduo sequer ser capaz de relatar que a decisão foi tomada. Estamos a falar de uma fracção de segundos”, explica Rodrigo Cunha.É uma prática comum no Reino Unido, algumas grandes superfícies baixarem os teores de oxigénio presentes nas grandes superfícies, onde o ar pode ser controlado. A objectivo, tal como explica Rodrigo Cunha, é surpreendente. O último sítio a que o sangue chega com oxigénio é à parte da frente do cérebro, exactamente a zona onde aferimos os prós e os contras e prevemos consequências futuras das nossas acções. Se essa zona tem menos oxigénio ficamos mais impulsivos e tendemos a ser mais controlados pelo nosso lado emocional. Resultado: compramos mais, mas também estamos mais predispostos a entrar em conflitos, nem que seja porque alguém bate no nosso carrinho de compras. Mais: basta olharmos para um alguém que passa com um carrinho cheio, teremos uma maior apetência para querer encher o nosso.
A última campanha mundial que a Mercedes gravou em Portugal com McNamara é um dos casos em que as neuro-ciências foram usadas como ferramenta. Vários anúncios integrados nas campanhas de Natal de supermercados britânicos também recorreram a esta componente, não só para criar para televisão mas também para outros meios como o digital e o ‘outdoor’. (...)
Neste contexto, uma marca torna-se “um atalho que permite reunir uma quantidade muito grande de experiências tidas ao longo da vida, que de uma maneira muito holística recupera várias dessas antigas experiências e permite ou não uma adesão ao conceito que é apresentado”. Este processo envolve tudo o que está à volta da marca, desde o nome à cor. Facilmente associamos o vermelho à Coca-Cola ou o violeta a marcas de chocolate, exemplifica o especialista.
Face ao que as neuro-ciências conhecem hoje, torna-se impossível ao consumidor explicar porque é que prefere um produto a outro, “na medida em que não é esta zona da racionalidade que está por trás desta tomada de decisão”.
A irracionalidade da decisão é tanto maior quanto maior for o envolvimento emocional do consumidor com o produto que vai comprar e não depende da gama do produto. Se a compra de arroz para um cozinheiro pode ser totalmente emocional, para alguém que não cozinha essa escolha pode ser permeável a factores mais racionais como o preço.
Se a necessidade de satisfação emocional é transversal ao ser humano, Rodrigo Cunha acrescenta que as neuro-ciências encontram ligeiras diferenças entre géneros: “As mulheres têm uma maior permeabilidade às componentes emocionais, enquanto os homens têm normalmente barreiras mais fortes para permitir que a emoção tome conta do processo de decisão”.
E quando o poder de compra interfere na decisão? O especialista garante que, sobretudo nos produtos básico, o componente emocional continua a ter a maior importância. Para Pedro Diogo Vaz, esta é a prova de que “a influência que o activo marca acaba por ter no consumidor está muito longe de ser de curto prazo”.

Artigo de Catarina Madeira no Diário Económico de 7 de Dezembro de 2015

Análise: Continua a ser obrigatório o uso de palavras que não têm equivalente na língua portuguesa, onde certas novas realidades são codificadas em Inglês mas não em Português. Depois parece-me que esta sociedade impregne do consumo, e determinada por ele, o veja sempre como uma ameaça, como a sociedade cria para tornar a sua criação não uma alternativa de liberdade mas um jugo de terríveis consequências. A retórica funciona nos dois sentidos no bom e no mau, como se essas duas faces fossem a sua mesma credibilidade.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

As verdades com que não podemos deixar de contar.


Thomas Hoepker, NY, 1963

O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes lamentamo-nos por não existir em França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram um período de intensa atividade filosófica. A relação entre a análise, a pesquisa, a crítica ” culta ” ou ” teórica ” e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável. Há pouco eu dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos?
Creio que já foi feito e que se está a continuar a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso faz-se numa  ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia. É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das ideias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, esses, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um errado, a história está farta de inexistências; é tempo para que fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação …
Michel Foucault
Archivio Foucault. Vol. 3.
Estetica dell’esistenza, etica, politica. 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. 


domingo, novembro 22, 2015

RETÓRICA E PROPAGANDA


A manipulação conscienciosa e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões é um elemento importante da sociedade democrática. Aqueles que manipulam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder regulador do nosso país.
Somos governados, as nossas mentes moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico do modo com a nossa democracia está organizada. Um vasto número de seres humanos têm de cooperar desta maneira se querem viver em conjunto como uma sociedade que funcione tranquilamente. (...)

Nos dias em que os reis eram reis, Luís XIV proferiu esta modesta observação: “O Estado sou eu”. Ele estava quase certo.
Mas os tempos mudaram. A máquina a vapor, a impressão em série, a escola pública, este trio da revolução industrial, retirou o poder aos reis e deu-o ao povo. O povo hoje conquista o poder que o rei perdeu. O poder económico tende a ser arrastado pelo poder político; a história da revolução industrial mostra como o poder passou do rei e da aristocracia para a burguesia. O sufrágio universal e a escola universal reforçaram esta tendência, e por fim mesmo a burguesia sente-se ameaçada pelas pessoas comuns. As massas prometem ser o próximo rei.
Hoje, contudo, surge uma reação. A minoria descobriu um poderoso auxiliar para influenciar as massas. Tornou-se então possível moldar a mentalidade das massas que se lançarão com o seu vigor recém-adquirido na direção desejada. Na actual estrutura da sociedade, esta prática é inevitável. Qualquer que seja a importância social que lhe é dada hoje, seja na política, finança, industria, agricultura, caridade, educação, ou noutros campos, deve ser feita com recurso à propaganda. A propaganda é o braço executor do governo invisível.
Supunha-se que a literacia universal educaria o homem comum a controlar o meio ambiente. Uma vez que podia ler e escrever poderia ter uma mentalidade apta a governar. Mas em vez de uma mentalidade, a literacia universal ofereceu-lhe carimbos, carimbos esses pintados com slogans publicitários, com editoriais, com dados científicos, com as trivialidades dos tablóides e as vulgaridades da história, mas pouco inocentes no que respeita à originalidade. Cada carimbo humano é duplicado de milhões de outros, de modo que quando estes milhões são expostos aos mesmos estímulos, recebem todos impressões idênticas. (…)O mecanismo pelo qual as ideias são disseminadas em larga escala é a propaganda, no sentido lato de um esforço organizado para espalhar uma convicção ou uma doutrina.
Estou consciente que a palavra propaganda provoca em muitas mentes uma conotação desagradável. De qualquer maneira, em qualquer circunstância, a propaganda ser boa ou má depende do mérito da causa advogada, e da correção da informação publicada.(…)

Trotter e Le Bon concluíram que a mentalidade de grupo não pensa no sentido estrito da palavra. Em vez de pensamentos tem impulsos, hábitos, e emoções. Ao elaborar o seu pensamento o primeiro impulso geralmente é seguir o exemplo de um líder em que se confia. Este é um dos princípios mais firmemente estabelecidos da psicologia de massas. Funciona a subida ou diminuição de prestígio de uma estância estival, ao provocar uma corrida a um banco, ou o pânico na cotação de ações, ao criar um “best-seller” ou u êxito de bilheteira. Mas quando o exemplo do líder não está à mão e a multidão tem de pensar por si, fá-lo com o recurso a clichés, palavras ou imagens que permanecem na globalidade de um grupo de ideias e experiências. Não há muitos anos atrás, era somente preciso etiquetar um candidato político com a palavra interesses para fazer com que milhões de pessoas votassem contra ele, porque qualquer coisa associada a “os interesses” parecia necessariamente corrupta. Recentemente a palavra Bolchevique tem desempenhado um serviço semelhante a pessoas que desejam assustar o público para o afastar de uma linha de ação.(…)
Os homens raramente se apercebem das verdadeiras razões que motivaram as suas ações. Um homem pode acreditar que compra um carro porque, depois de ter cuidadosamente estudado as características técnicas de todas as marcas no mercado, concluiu que aquele é o melhor. Quase de certeza que se está a enganar a si próprio. Compra-o, talvez, porque um amigo, cuja esperteza financeira respeita, comprou um na semana anterior; ou porque os seus vizinhos crêem que ele não é capaz de ter recursos para comprar um carro daquela categoria; ou porque vem com as cores do lar universitário de estudantes em que viveu.
Foram principalmente os psicólogos da escola de Freud que identificaram que muitos dos pensamentos e ações do homem são substitutos compensatórios dos desejos que são obrigados a reprimir. (…) Os desejos humanos são o vapor que faz a máquina social funcionar. Só compreendendo-os o propagandista pode controlar esse vasto mecanismo, ao mesmo tempo solto e unido, que é a sociedade moderna.

Edward Bernays (1928) Propaganda, Lisboa, Mareantes Editora, 2005 (p.p 19, 31,32,  64,66)


Edward Bernays and the Art of Public Manipulation

sábado, novembro 21, 2015

Exame de Filosofia



Robert Doisneau, França, 1912/1994


JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS AS NOVAS NORMAS PARA O EXAME DE FILOSOFIA DE 2016 AQUI

quinta-feira, novembro 12, 2015

Liberdade e necessidade



Koudelka. Invasão de Praga pelas tropas soviéticas

Paul Goldsmith, Invasão de Praga pelas tropas soviéticas, 1968

[…] Do fato de o meu comportamento poder ser explicado, no sentido em que pode ser subsumido sob uma lei da natureza, não se segue que estou a agir sob coação. Se isto for correto, dizer que eu poderia ter agido de outra maneira é dizer, primeiro, que eu teria agido de outra maneira se assim o tivesse escolhido; segundo, que a minha ação foi voluntária no sentido em que as ações, digamos, de um cleptomaníaco não o são; e, em terceiro lugar, que ninguém me obrigou a escolher o que escolhi. E estas três condições podem muito bem ser respeitadas. E quando o são pode-se dizer que agi livremente. Mas isto não significa que agir como agi foi uma questão de acaso ou, por outras palavras, que a minha ação não poderia ser explicada. E que as minhas ações possam ser explicadas é tudo o que é exigido pelo postulado do determinismo.
[…]
Contudo, poderá dizer-se, se o postulado do determinismo for válido, então o futuro pode ser explicado em termos do passado; e isto significa que se soubéssemos o suficiente sobre o passado, seríamos capazes de prever o futuro. Mas nesse caso o que acontecerá no futuro está já decidido. E como posso então dizer que sou livre? O que vai acontecer vai acontecer e nada do que eu faço poderá evitá-lo. Se o determinista tiver razão, sou um prisioneiro indefeso do destino.
Mas o que quer dizer que o curso futuro dos acontecimentos já está decidido? Se a sugestão é que uma pessoa o decidiu, então a proposição é falsa. Mas se tudo o que se quer dizer é que é possível, em princípio, deduzi-lo de um conjunto de fato particulares sobre o passado, juntamente com as leis gerais apropriadas, então, se isto é verdade, não implica de modo algum que sou o prisioneiro indefeso do destino. Nem sequer implica que as minhas ações não afetam o futuro: pois elas são causas, tal como efeitos; de modo que, se fossem diferentes, as suas consequências seriam também diferentes. Implica, sim, que o meu comportamento pode ser previsto; mas dizer que o meu comportamento pode ser previsto não é dizer que estou a agir sob coação. É realmente verdade que não posso escapar ao meu destino, se isto significar apenas que farei o que farei. Mas isto é uma tautologia, tal como é uma tautologia dizer que o que vai acontecer vai acontecer. E tautologias como estas nada provam sobre o livre-arbítrio.

A. J. Ayer, «Liberdade e Necessidade», 1954, trad. de Desidério Murcho, pp. 282-284.

Será aceitável o determinismo?


Thomas Hoepker, Portugal 1964

Supõe que estás na bicha de uma cantina e que, quando chegas às sobremesas, hesitas entre um pêssego e uma grande fatia de bolo de chocolate com uma cremosa cobertura de natas. Escolhes o bolo.
No dia seguinte perguntas-te: “Podia ter comido antes o pêssego” Que quer dizer isto? E será verdade?
Havia pêssegos quando estavas na bicha da cantina: e tiveste oportunidade de ter tirado antes um pêssego. Mas não é apenas isso que queres dizer. Queres dizer que podias ter tirado o pêssego em vez do bolo. Podias ter feito algo diferente daquilo que realmente fizeste. Antes de te teres decidido, estava em aberto se havias de tirar fruta ou bolo, e foi apenas a tua escolha que decidiu qual dos dois havias de comer.
Quando afirmas “podia ter comido antes o pêssego”, queres dizer que isso dependia apenas da tua escolha?
Mas isto ainda não parece suficiente: Não queres apenas dizer que, se tivesses escolhido o pêssego, teria sido isso que terias comido. Quando dizes “podia ter comido antes o pêssego”, também queres dizer que podias tê-lo escolhido – não há aqui ses nenhuns. Mas que quer isto dizer? Não pode ser explicado fazendo notar outras ocasiões em que de facto escolheste comer fruta. O que estás a dizer é que podias ter escolhido um pêssego em vez de bolo de chocolate naquele momento, tal como as coisas realmente eram. Pensas que podias ter escolhido um pêssego mesmo que todas as restantes coisas fossem exactamente da mesma maneira até ao momento em que de facto escolheste bolo de chocolate.
Esta é uma ideia de “pode” ou “poderia” que aplicamos só às pessoas (e talvez a alguns animais). Quando dizemos “o carro podia ter chegado ao cimo da colina”, queremos dizer que o carro tinha potência suficiente para chegar ao cimo da colina se alguém o tivesse conduzido até lá.
Até ao momento em que escolhes nada determina irrevogavelmente qual será a tua escolha. Escolher o pêssego continua a ser para ti uma possibilidade em aberto até ao momento em que de facto escolhes bolo de chocolate. A tua escolha não está determinada à partida.
Algumas coisas que acontecem estão determinadas à partida. Por exemplo, parece estar determinado à partida que o Sol se levantará amanhã a uma certa hora. O Sol não se levantar amanhã e continuar a noite não é uma possibilidade em aberto. Tal não é possível porque apenas poderia acontecer se a Terra parasse de rodar, ou se o Sol deixasse de existir, e não se passa nada na nossa galáxia que pudesse fazer com que qualquer destas coisas acontecesse. Se não existir qualquer possibilidade de a Terra parar ou de o Sol não estar lá, não há qualquer possibilidade de o Sol não se levantar amanhã.
O que queres dizer é que não havia processos ou forças a operarem antes de fazeres a tua escolha que tenham tornado inevitável o facto de teres escolhido bolo de chocolate.
Se, na verdade, estivesse realmente determinado à partida que irias escolher comer bolo, como podia simultaneamente ser verdade que podias ter escolhido comer fruta? A verdade é que nada te teria impedido de comer um pêssego se o tivesses escolhido em vez do bolo. Mas estes ses não são o mesmo que dizer apenas que podias ter escolhido um pêssego. Não poderias tê-lo escolhido a não ser que a possibilidade continuasse aberta até a fechares com a tua escolha do bolo.
Algumas pessoas pensam que nunca é possível fazermos qualquer coisa diferente daquilo que de facto fazemos neste sentido absoluto. Reconhecem que aquilo que fazemos depende das nossas escolhas, decisões e desejos e que fazemos escolhas diferentes em circunstâncias diferentes. Mas afirmam que, em cada caso, as circunstâncias que existem antes de agirmos determinam as nossas acções e tornam-nas inevitáveis. O total das experiências, desejos e conhecimentos de uma pessoa, a sua constituição hereditária, as circunstâncias sociais e a natureza da escolha com que a pessoa se defronta, em conjunto com outros factores dos quais pode não ter conhecimento, combinam-se todos para fazerem com que uma acção particular seja inevitável nessas circunstâncias.
A ideia não consiste em que podemos conhecer todas as leis do universo e usá-las para prevermos o que irá acontecer. Em primeiro lugar, não podemos conhecer todas as circunstâncias complexas que afectam uma escolha humana. Em segundo lugar, mesmo quando chegamos a saber alguma coisa acerca dessas circunstâncias e tentamos fazer uma previsão, isso já é uma alteração nas circunstâncias, o que pode alterar o resultado previsto. Mas a previsibilidade não é o que está em questão.
A hipótese é que existem leis da natureza, tal como aquelas que governam o movimento dos planetas, que governam tudo o que acontece no mundo.
Se isso é verdade, então mesmo quando estavas a decidir que sobremesa irias comer já estavas determinado pelos muito factores que operavam sobre ti e em ti que irias escolher o bolo, Não poderias ter escolhido o pêssego, apesar de pensares que podias fazê-lo: o processo de decisão é apenas a realização do resultado determinado no interior da tua mente.
Se o determinismo é verdadeiro para tudo o que acontece, já estava determinado antes de nasceres que havias de escolher o bolo. A tua escolha foi determinada pela situação imediatamente anterior, e essa situação foi determinada pela situação anterior a ela, e assim sucessivamente, até ao momento em que quiseres recuar.
Mesmo que o determinismo não seja verdadeiro para tudo o que acontece – mesmo que algumas coisas aconteçam simplesmente, sem serem determinadas por causas que já existiam – continuaria a ser significativo se tudo aquilo que fizemos estivesse determinado antes de o fazermos.
Algumas pessoas pensam que, se o determinismo é verdadeiro, ninguém pode ser razoavelmente elogiado ou condenado por nada, tal como a chuva não pode ser elogiada ou condenada por cair. Outras pessoas pensam que continua a fazer sentido elogiar as boas acções e condenar as más, ainda que elas sejam inevitáveis. Afinal de contas, o facto de alguém estar determinado à partida a comportar-se mal não quer dizer que não se tenha comportado mal. Se rouba os teus discos, isso revela falta de consideração e desonestidade, quer tenha sido determinado, quer não. Alem do mais, se não o condenarmos, ou talvez até se não o castigarmos, voltará, provavelmente a fazê-lo.
Por outro lado, se pensarmos que aquilo que fez estava determinado à partida, isso parece-se mais com o castigo de um cão que roeu o tapete. Não quer dizer que o consideramos responsável por aquilo que fez: estamos apenas a tentar influenciar o seu comportamento no futuro. Por mim, não penso que faça sentido condenar alguém por algo que lhe era impossível não fazer.
Muitos cientistas acreditam hoje que o determinismo não é verdadeiro para as partículas básicas da matéria. – que numa dada situação existe mais de uma coisa que um electrão pode fazer. Se o determinismo também não for verdadeiro para as acções humanas, talvez isso deixe algum espaço para o livre arbítrio e para a responsabilidade. E se as acções humanas, ou pelo menos algumas de entre elas, não estiverem determinadas à partida?
Mas o problema reside em que, se a acção não estava determinada à partida pelos teus desejos, crenças e personalidade, entre outras coisas, parece que foi apenas algo que aconteceu, sem qualquer explicação. Mas, nesse caso, como pode ter sido algo feito por ti?
A acção livre limita-se a ser uma característica básica do mundo e não pode ser analisada. Há uma diferença entre algo que aconteceu, sem uma causa, e uma acção que se limita a ser realizada, sem uma causa.
Portanto, talvez o sentimento de que podias ter escolhido um pêssego em vez de uma fatia de bolo seja uma ilusão filosófica, que não podia ser correcta, fosse qual fosse o caso.

NAGEL, Thomas, Que Quer Dizer Tudo Isto? – uma iniciação à filosofia, 2ª edição, 2007. Lisboa: Gradiva, pp. 46-55

segunda-feira, novembro 09, 2015

A complexidade da ação humana


Thomas Hoepker, 1991, Guatemala, Homem transportando carne.
Tem sido comum para esclarecer uma questão central sobre a natureza da ação, invocar uma distinção intuitiva entre as coisas que apenas acontecem com as pessoas - os eventos a que se submetem - e as várias coisas que realmente fazem. Os últimos acontecimentos, as obras, são atos ou ações do agente, e o problema sobre a natureza da ação é suposto ser: o que distingue uma ação de um mero acontecimento ou ocorrência? Há já algum tempo, tem havido, no entanto, uma melhor apreciação dos caprichos do verbo 'fazer' e num sentido mais profundo podemos mostrar que a questão não está bem enquadrada. Por exemplo, uma pessoa pode tossir, espirrar, piscar os olhos ou corar, numa convulsão, e estas são todas coisas que a pessoa tem, nalgum sentido mínimo, "feito", embora nos casos habituais, o agente tenha sido inteiramente passivo ao longo dessas obras. É natural protestarmos dizendo que não é esse o sentido de" fazer " que o filósofo sagaz da ação originalmente tinha em mente, mas também não é tão fácil de dizer que sentido é esse. Além disso, como Harry Frankfurt notou, o comportamento intencional dos animais constitui um tipo inferior de fazer "ativo". Quando uma aranha caminha sobre a mesa, a aranha controla diretamente os movimentos das suas pernas,  estes são dirigidos para a levar de um local para outro. Esses mesmos movimentos têm um objetivo ou propósito para a aranha, e, portanto, eles estão sujeitos a um tipo de explicação teleológica. Da mesma forma, os movimentos ociosos dos meus dedos, que faço sem notar, podem ter o objetivo de libertar o lambuzado doce da minha mão. Toda essa atividade comportamental é "ação" num certo sentido bastante fraco.
No entanto, uma grande parte da ação humana tem uma estrutura psicológica mais rica. Um agente executa uma atividade que é dirigida para um objetivo, esse objetivo é uma espécie de meta que o agente adoptou com base numa avaliação prática global das suas opções e oportunidades. Além disso, está imediatamente disponível à  consciência do agente, que  está realizando a atividade em causa,  que esta atividade está destinada por ele para tal e tal fim escolhido. Num nível conceptual ainda mais sofisticado, Frankfurt também argumentou que as questões básicas relativas à liberdade de ação pressupõem  dar peso a um conceito de "agir com um desejo com o qual os agentes se identificam". (…) Assim, existem diferentes níveis de ação que são distintos, e estes incluem, pelo menos, o seguinte: inconsciente e / ou comportamento involuntário, atos com um propósito ou meta atividade dirigida (de aranha, por exemplo), ações intencionais  e autónomas ou ações de agentes humanos auto-conscientemente ativos. Cada um destes conceitos-chave para serem caracterizados, levantam alguns duros quebra-cabeças.  
Tradução de Helena Serrão

quarta-feira, novembro 04, 2015

As razões são causas das ações





Gustav Klimt, The Maiden, (1868-1918)

Qual é a relação entre uma razão e uma ação quando a razão explica a ação, dando a razão do agente para fazer o que fez? Podemos chamar tais explicações de racionalizações, e dizer que a razão racionaliza a ação.
Neste artigo quero defender a posição antiga — e de senso comum — de que a racionalização é uma espécie de explicação causalb. A defesa sem dúvida exige alguma reelaboração, mas não parece necessário abandonar a posição, como muitos autores recentes insistem.1
Uma razão racionaliza uma ação somente se nos leva a ver algo que o agente viu, ou pensou que viu, na sua ação — uma característica, consequência ou aspeto da ação que quis, desejou, admirou, estimou, considerou ser seu dever, ser benéfico, obrigatório ou agradável. Não podemos explicar por que alguém fez o que fez simplesmente dizendo que a ação particular lhe interessou; temos de indicar o que na ação lhe interessou. Sempre que alguém faz algo por uma razão, pode, por isso, ser caracterizado por a) ter algum tipo de atitude favorável a ações de certo tipo e b) acreditar (ou saber, perceber, notar, lembrar) que sua ação é daquele tipo. Sob a) devem ser incluídos desejos, quereres, impulsos, incitações, e uma grande diversidade de pontos de vista morais, princípios estéticos, predisposições económicas, convenções sociais, e objetivos e valores públicos ou privados, na medida em que podem ser interpretados como atitudes de um agente que visam ações de certo tipo. A palavra “atitude” precisa abranger não apenas traços de caráter permanentes, que se revelam nos comportamentos de uma vida inteira, (como o amor por crianças ou o gosto por companhia barulhenta), mas também as mais efémeras fantasias que impelem uma ação singular, como um desejo súbito de tocar o cotovelo de uma mulher. Em geral, as atitudes favoráveis não devem ser tomadas como convicções, de que toda a ação de certo tipo deva ser realizada, mereça ser realizada, ou seja desejável. Pelo contrário, um homem pode ter a vida toda um desejo ávido de, digamos, beber uma lata de tinta, sem jamais, nem mesmo no momento em que se sujeita a tal, acreditar que valha a pena fazê-lo.
Dar a razão pela qual um agente fez algo é frequentemente uma questão de nomear a atitude favorável (a), ou a crença relacionada (b), ou ambos; vou nomear razão primária (inclui as duas) pela qual o agente realizou a ação. (…)Ligo o interruptor, acendo a luz e ilumino a sala. Sem que eu saiba, também alerto o ladrão do fato de que estou em casa. Aqui não preciso estar a fazer quatro coisasc, mas apenas uma, da qual se deram quatro descrições.2 


 Liguei o interruptor porque quis acender a luz e, ao dizer que quis acender a luz, explico (dou a minha razão, racionalizo) o ligar. Mas não racionalizo, o meu alertar o ladrão, nem o meu iluminar a sala. Dado que as razões podem racionalizar o que alguém faz quando o descrevemos de um modo mas não de outro, não podemos tratar o que foi feito simplesmente como um termo em frases como “A minha razão para ligar o interruptor foi que quis acender a luz”; de outro modo seríamos forçados a concluir, do fato de que ligar o interruptor foi idêntico a alertar o ladrão, que a minha razão para alertar o ladrão foi que quis acender a luz.
(…) Quando sabemos que uma ação é intencional, é fácil responder à pergunta “Por que fez você isso?” com “Por nenhuma razão”, não significando que não houve uma razão, mas que não houve uma razão adicional, nenhuma razão que não pudesse ser inferida do fato de a ação ter sido intencional; nenhuma razão, por outras palavras, além de querer realizá-la. Esse último ponto não é essencial para o argumento presente, mas é interessante porque defende a possibilidade de definir uma ação intencional como uma ação feita por uma razão.
Uma razão primária consiste numa crença e numa atitude, mas geralmente é ocioso mencionar ambas. Se você me diz que está afrouxando a bujarrona, porque pensa que assim impedirá a vela mestra de ceder, não preciso ser avisado de que você quer impedir que a vela mestra ceda; e se você me diz que está fazendo uma careta porque me quer me insultar, não há razão para acrescentar que pensa que fazendo uma careta me insulta. De modo semelhante, muitas explicações de ações em termos de razões que não são primárias não exigem menção da razão primária para completar a história. (…)b Felizmente, não é necessário classificar e analisar os muitos tipos de emoções, sentimentos, humores, motivos, paixões e apetites, cuja menção pode responder à pergunta “Por que fez você isso?”, para se ver que, quando tal menção racionaliza a ação, está envolvida uma razão primária. A claustrofobia dá a um homem uma razão para deixar uma festa, porque sabemos que as pessoas querem evitar, escapar, ficar seguras, manter distância entre elas e o que temem. (…)Saber que foi a razão primária pela qual alguém agiu como agiu é saber qual foi a intenção com a qual a ação foi feita. Se viro à esquerda na encruzilhada porque quero chegar a Katmandu, a minha intenção ao virar à esquerda é chegar a Katmandu. Mas saber qual é a intenção não é, necessariamente, saber qual é a razão primária em todos os detalhes. Se James vai à igreja com a intenção de agradar a sua mãe, então tem de ter alguma atitude favorável em relação a agradar a sua mãe, mas é necessário mais informação para dizer se a sua razão é que gosta de agradar a sua mãe, ou pensa que é certo, que é o seu dever ou que é uma obrigação. 

Donald Davidson, Ensaios sobre ações e acontecimentos,

terça-feira, outubro 20, 2015

Sobre o que é uma boa vida: Prazer ou sabedoria? Qual é mais importante?


Louise Bourgeois, escultura

Sócrates - Então vê, Protarco, em que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais fazer, e também a nossa, que terás de contestar, no caso de não a aprovares. Queres que recapitulemos as duas?
 Protarco - Perfeitamente. Sócrates - Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os seres animados, o bem consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais do mesmo género. De nossa parte, defendemos o princípio de que talvez não seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais valor que o prazer, para quantos forem capazes de participar deles, e que essa participação é o que há de mais vantajoso para os seres presentes e futuros. Não foram esses pontos, Filebo, mais ou menos, que cada um de nós defendeu? Filebo - Isso mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.
 Sócrates - E agora, Protarco, aceitas defender a tese que te confiamos?
Protarco - Sou obrigado a aceitar, uma vez que o belo Filebo já se cansou.
Sócrates – Examinemos, então, e julguemos a vida do prazer e a sabedoria, tomando cada uma em separado.
Protarco – Que queres dizer com isso?
Sócrates – Não admitamos nenhuma sabedoria na vida do prazer nem prazer na da sabedoria. Se um dos dois for o bem, não necessitará de mais nada, e se qualquer deles se revelar como carente de algo, só por isso, não poderá ser considerado o verdadeiro bem.
Sócrates – Permites que façamos essa experiência contigo?
Protarco – Perfeitamente;
Sócrates – Então, responde.
 Protarco – Podes falar.
Sócrates – Aceitarias, Protarco, passar a vida inteira no gozo dos maiores prazeres? Protarco – Por que não?
Sócrates – E achas que ainda te faltaria alguma coisa, se contasses com prazeres em abundância?
Protarco – Em absoluto. Sócrates – Reflete melhor. Não precisarias pensar, compreender e calcular o que te faltasse? Não virias a precisar de nada?
Protarco – Para quê? Com o prazer, teria tudo.
Sócrates – Vivendo desse jeito, desfrutarias, a vida inteira, dos maiores prazeres. Protarco – Sem dúvida.
Sócrates – Mas, para começar, sem inteligência nem memória, nem conhecimento, nem opinião verdadeira, forçosamente não poderias saber se desfrutavas ou não de algum prazer, já que não terias discernimento.
 Protarco – Sem dúvida.
Sócrates – Da mesma forma, desprovido de memória, é claro que não apenas não poderias recordar-te de que havias tido algum prazer, como também passaria sem deixar rastro o prazer do momento presente, Como não tendo  opinião verdadeira, nunca poderias dizer que sentias prazer no instante em que o sentisses, e como és carente de reflexão, não poderias calcular os prazeres que o futuro te ensejasse. Não seria vida de gente, mas de algum pulmão marinho, ou desses animais do mar provido de conchas. Será assim mesmo, ou precisamos fazer do caso ideia diferente?
Protarco – Como fora possível?
Sócrates – E tal vida seria aceitável?

Protarco – Tua argumentação, Sócrates, deixou-me  sem fala.

Platão, Filebo

terça-feira, outubro 06, 2015

ARGUMENTOS & SALSICHAS



A máquina de salsichas da razão

Aquilo que é maravilhoso num argumento sólido é o seu poder de preservar a verdade. Tomemos, por exemplo, o argumento seguinte:


   1. Francisco é um homem.
   2. Todos os homens vivem na terra.
   Conclusão: Francisco vive na terra.

Este argumento forma-se de duas afirmações, ou premissas, e de uma conclusão. Num argumento dedutivo, como este, as premissas implicam supostamente a conclusão. O argumento, se válido, fornece-nos uma garantia lógica: se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o é. Neste caso, o argumento é válido. As premissas implicam realmente a conclusão.
É claro que se introduzirmos num argumento dedutivamente válido uma ou mais falsidades, não há qualquer garantia quanto ao que obteremos. A conclusão pode, ainda assim, ser verdadeira. Mas pode ser falsa. (Suponhamos, por exemplo, que a primeira premissa do nosso argumento é falsa: o Francisco não é um homem – é um extra-terrestre que vive no planeta Plutão; então a nossa conclusão é falsa.)
Portanto, um argumento dedutivo válido preserva a verdade. Se introduzirmos premissas verdadeiras, temos a garantia lógica de que sai uma conclusão verdadeira. Se estivermos interessados em ter convicções que sejam realmente verdadeiras, trata-se de um belo resultado.
Para aqueles que gostam de analogias, podemos dizer que as formas válidas de argumentos dedutivos funcionam um pouco como as máquinas de salsichas. A única diferença é que em vez de introduzirmos carne de salsicha e de saírem do outro lado salsichas, é-nos dada a garantia de que se introduzirmos premissas verdadeiras, sairão conclusões verdadeiras.



A máquina de salsichas indutiva

A argumentação dedutiva não é a única forma de argumentação sólida. Há também os raciocínios indutivos. Eis um exemplo de um argumento indutivo:


  1. A maçã um tem sementes.
2.          2. A maçã dois tem sementes.
      3. A maçã três tem sementes.
    [...]
  1000. A maçã mil tem sementes.
  Conclusão: Todas as maçãs têm sementes.

Este argumento tem mil premissas (embora eu não me tenha dado ao trabalho de listar mais do que quatro). Num argumento indutivo, as premissas apoiam supostamente a conclusão. Aqui, a palavra-chave é apoiam. É claro que estes argumentos não são (e não pretendem ser) dedutivamente válidos. As premissas não implicam dedutivamente a conclusão. Não há garantia lógica de que a maçã seguinte não terá sementes, apesar das muitas maçãs que examinámos até agora. Apesar disso, supomos que o facto de todas as maçãs que examinámos até agora terem sementes torna extremamente razoável que concluamos que todas têm. As premissas, supomos, tornam a verdade da conclusão bastante provável. Se isto é correcto, os argumentos indutivos sólidos também têm a qualidade de preservar a verdade à maneira da máquina das salsichas. Introduzam-se premissas verdadeiras num argumento indutivo sólido e sai provavelmente uma conclusão verdadeira do outro lado.
Uma vez mais, se é a verdade que buscamos, trata-se de um belo resultado.

Stephen Law, The War for Children’s Minds (Londres & Nova Iorque, 2006). Trad. Carlos Marques.

1. Qual o problema tratado no texto?
2. Que comparação é feita? 
3. O que se pretende mostrar com essa comparação?

O Enigma de Kaspar Hauser Uma Questão de Lógica

terça-feira, setembro 29, 2015

Estamos no espaço.

Beautiful time lapse of Sunday's blood moon eclipse.Video and photography by Joe Cappa on.fb.me/1QJpYjG

Posted by I fucking love science on Terça-feira, 29 de Setembro de 2015
Esta semana o espaço deu-nos notícia da sua respiração, sabemos mais sobre a sua natureza, sobre a sua inefável e insubstituível beleza. Eclipse da lua. Água salgada em Marte. Testemunhos de que o espaço não é uma ficção mas um facto, um facto que adquire realidade. Somos no espaço também, embora ele não nos influencie a fortuna, certamente que nos determina a vida, parece-nos que durante muito tempo vai ficar correndo no seu percurso de esferas inertes, nos seus movimentos de corpos sob a gravidade equilibrando-se uns aos outros.Devemos respeitar também esse grande eco onde vivemos. Devemos respeitá-lo porque nos antecede e porque tornou tudo aquilo que vivemos possível. Sem Marte, Vénus, Lua, não haveria marés nem atmosfera.Brindemos ao espaço. Tchim. Tchim!! Deixo-vos com a música dos planetas.

segunda-feira, setembro 28, 2015

A ironia como estratégia filosófica


Cartoon de Gerhard Haderer

"A ironia socrática é uma ironia interrogante; Sócrates desagrega, pelas suas questões, as cosmogonias maciças dos Jónios e o monismo sufocante de Parménides. Primeiro que tudo notemos que Sócrates é um sofista, como Prometeu é um 'Gigante'; mas é um sofista que 'acabou mal', um sofista que se ri da sofística tanto como da ciência dos meteoros. (...) Para sofista, sofista e meio: Sócrates desmancha o escândalo desta erística, a impostura deste 'arrivismo'; Sócrates criva de questões os mercadores de belas frases e tem um maligno prazer em perfurar os seus odres de eloquência, em desinchar estas bexigas cheias de um vão saber. Sócrates é a consciência dos Atenienses, a um tempo a sua boa e a sua má consciência; quer dizer que, na sua função, se encontra a disparidade própria dos efeitos da ironia, na mesma proporção em que nos liberta, também nos priva das nossas crenças. "

Jankélévitch, L'Ironie

terça-feira, setembro 15, 2015

INÍCIO

As aulas estão quase a começar...Desejo uma entrada segura e  esperança em razão suficiente  para conseguir levar o barco das almas gaiatas, ao porto instável do saber.
Deixo-vos com um quadro de Yuri Bondarenko  com a luz do Outono que acabou de chegar.  BOM ANO PARA TODOS.

sábado, agosto 29, 2015


“Silence is so accurate.” — Mark Rothko 

ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES DE FILOSOFIA - 3 e 4 DE SETEMBRO -

FACULDADE DE LETRAS DE LISBOA.