quinta-feira, maio 21, 2015

O ressentimento


Steve Mc Curry, India Jodhpur, 2007

"O terror fundamentalista islâmico não se baseia na convicção por parte do terrorista da sua superioridade e no seu desejo de salvaguardar a sua identidade religiosa e cultural do massacre da civilização consumista global. O problema com os fundamentalistas não é que os consideremos inferiores a nós, mas antes o facto de eles próprios se considerarem secretamente inferiores. É por isso que as nossa declarações condescendentes e politicamente correctas  de que não sentimos qualquer superioridade sobre eles só serve para os enfurecer ainda mais e para alimentar o seu ressentimento
. O problema não é a diferença cultural (o esforço deles por manterem a sua identidade), mas o facto oposto dos fundamentalistas serem já como nós, de, secretamente, terem já interiorizado os nossos critérios e se avaliarem a si próprios nesses termos. (...)
O aspecto desconcertante dos ataques terroristas é não corresponderem à nossa oposição característica entre o mal como egoísmo u desprezo pelo bem comum e o bem como espírito e real disposição de sacrifício em nome de uma causa mais elevada. (...) O egoísmo, ou preocupação com o bem-estar próprio, não se opõe ao bem comum, uma vez que podem facilmente deduzir-se normas altruístas de preocupações egoístas. As oposições individualismo versus comunitarismo, utilitarismo versus afirmação de normas universais, são oposições falsas, uma vez que as duas opções contrárias conduzem ao mesmo resultado. Os críticos que se queixam  de que, na sociedade actual hedonista-egoísta, faltam os verdadeiros valores erram por completo o alvo. O verdadeiro do amor-próprio egoísta não é o altruísmo, a preocupação com o bem comum, mas a inveja, o ressentimento, que me faz agir contra os meus próprios interesses. Freud sabia-o bem: a pulsão de morte opõe-se tanto ao princípio do prazer como o princípio da realidade. O verdadeiro mal, que é a pulsão de morte, implica a auto-sabotagem. Faz-nos agir contra os nossos próprios interesses.
O problema do desejo humano é, segunda Lacan, ser sempre "desejo do outro" em todos os sentidos do termo: desejo pelo outro, desejo de ser desejado pelo outro, e, especialmente, desejo daquilo que o outro deseja. Este último desejo torna a inveja, que inclui o ressentimento, uma componente constitutiva do desejo humano - aspecto que Agostinho conhecia bem. lembremos a passagem das suas Confissões, citadas com frequência por Lacan, onde deparamos com um bébé com cíumes do seu irmão que chupa o seio da mãe: "Eu mesmo vi e compreendi como uma criança pode ter ciúmes embora aibnda não fale. Empalidece e lança olhares amargos ao seu irmão de leite." 

Slavoj Zizek, A Violência, pág 81,82

quinta-feira, maio 07, 2015

PARADIGMA


Escif, arte urbana

Paradigma é um termo com origem no grego “paradeigma” que significa modelo, padrão. No sentido lato corresponde a algo que vai servir de modelo ou exemplo a ser seguido em determinada situação. São as normas orientadoras de um grupo que estabelecem limites e que determinam como um indivíduo deve agir dentro desses limites.
O termo surgiu inicialmente em Linguística na teoria do signo linguístico criado por Ferdinand de Saussure, que  relacionava o signo ao conjunto de elementos que constituem a língua.
Em filosofia, um paradigma está relacionado com a epistemologia, sendo que para Platão, um paradigma remete para um modelo relacionado com o mundo exemplar das ideias, do qual faz parte o mundo sensível.
O norte-americano Thomas Samuel Kuhn (1922-1996), físico e filósofo da ciência, no seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” designou como paradigma as “realizações científicas que geram modelos que, por um período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas na busca da solução para os problemas por elas suscitados.”
O paradigma é um princípio, teoria ou conhecimento originado da pesquisa num campo científico. Uma referência inicial que servirá de modelo para novas pesquisas.Retirado daqui

quarta-feira, abril 29, 2015

Verificar pela experiência


A experiência deve confirmar a propriedade dos corpos de maneira que a definição coincida com os fenómenos.
Galileu escreve numa carta a Carcarilhe (…) “Se a experiência mostra que as propriedades que deduzimos encontram confirmação na queda livre dos corpos, podemos afirmar, sem medo de errar, que o movimento concreto da queda é idêntico ao que nós definimos e pressupusemos; se não é o caso, as nossas demonstrações  que se aplicam à nossa única hipótese, não perdem nada da sua força e valor, tal como as proposições de Arquimedes sobre a espiral não sofrem pelo facto de não encontrar na natureza nenhum corpo ao qual se possa atribuir um movimento em espiral”.
Aqui está enunciado um princípio fundamental do pensamento científico moderno: o princípio fundamental que estabelece a relação alternativa das hipóteses e da experiência. Para observar a natureza o espírito humano desenvolve hipóteses que devem ser matemáticas, logicamente conclusivas. As demonstrações matemáticas incidem sobre hipóteses. O facto de serem conclusivas não dá, no entanto, qualquer indicação quanto à existência rela na natureza, das relações tais como estas são vistas nas hipóteses. As hipóteses só adquirem o carácter de leis naturais se são empregues na experiência empírica e verificadas por ela. Hipóteses que são em si lógicas, matemáticas, mas não correspondem a nada na natureza, não deixam de concluir qualquer coisa, mas não constituem uma lei natural.
W. Heisenberg, La nature dans la Physique Contemporaine, Gallimard, 1962, p.99


Penso que descobrir um padrão nos acontecimentos físicos, encontrar depois uma explicação possível e descobrir como a poderemos comprovar é o trabalho que podemos reconhecer no conhecimento científico. A confirmação da experiência é um passo fundamental ou indispensável para a credibilidade científica e para a forma como esta pode reproduzir o fenómeno em laboratório a partir do momento que conhece o seu funcionamento. O papel da experiência pode não verificar a hipótese mas não é primeiramente para isso que a experiência é necessária. Daqui decorre que algo que se usa com determinado fim, é na acepção ou satisfação desse fim que encontra a sua natureza. Contrariamente ao procedimento usual na ciência Popper propõe uma finalidade na experiência que não é aquela pela qual ela é importante, se considerarmos que a ciência é um conhecimento, isto é pressupõe que busca uma explicação e ou uma descrição de como funcionam os elementos e os fenómenos, essa explicação pode não ser verdadeira mas é suficiente para os podermos manipular, reproduzir e sobre eles intervir. O registo prático do conhecimento não pode ser separado da sua estratégia de procedimento e penso que Popper o faz, fixa-se na lógica  e esquece o procedimento prático, tanto no sentido da lógica prática da descoberta científica como no sentido da sua manipulação material dos fenómenos.

domingo, abril 26, 2015

Não haverá alternativa ao capitalismo selvagem?


Sebastião Salgado, Trabalhador de chá no Rwanda, 1991 
Com o desenvolvimento da produção capitalista durante o período da manufactura, a opinião pública europeia despiu o último farrapo de consciência e de pudor. Cada nação vangloriava-se cinicamente de qualquer infâmia que servisse para acumulação do capital. Leiam-se por exemplo os ingénuos Annales du commerce, do honesto A. Anderson. Este bravo homem admira, como um golpe genial da política inglesa, que, quando da paz de Utrecht, a Inglaterra tenha arrancado à Espanha, pelo tratado de Asiento, o privilégio de fazer entre a África e a América espanhola, o tráfico de negros, que até então se fizera apenas entre África e as suas possessões na Índia oriental. A Inglaterra forneceu assim, até 1743, quatro mil e oitocentos negros por ano à América espanhola. Isso servia-lhe, ao mesmo tempo para cobrir com o véu oficial as proezas do seu contrabando. Foi o tráfico de negros que lançou as bases da grandeza de Liverpool; para esta cidade ortodoxa, o tráfico de carne humana constituiu todo o método de acumulação primitiva. E, até aos nossos dias, os notáveis de Liverpool cantaram as virtudes específicas do comércio de escravos, "o qual desenvolve o espírito de empreendimento até à paixão e forma marinheiros sem paralelo"(John Aikin, Description from the Country, 1745).(...)
A industria algodoeira, ao mesmo tempo que introduzia em Inglaterra a escravatura infantil, nos Estados Unidos  transformava o tratamento mais ou menos patriarcal dos negros num sistema de exploração mercantil. Em resumo, para suportar a escravatura disfarçada dos assalariados na Europa, era necessária a escravatura sem limites do novo mundo. Tanto e molis erat (De tal modo era difícil, Vergílio, Eneida,1,33). Eis por que preço pagamos as nossas conquistas; eis quanto nos custou desenvolver as leis eternas e naturais da produção capitalista, para consumar o divórcio entre os trabalhadores e as condições de trabalho, para transformar estas em capital, e a massa do povo em assalariados, em pobres laboriosos, obra-prima da arte, criação sublime da história moderna.
Se, segundo Augier (Maria Augier, Du crédit Públic, 1842, p,265), foi com manchas naturais de sangue numa das faces que o dinheiro veio ao mundo, o capital surge exalando sangue e lama por todos os poros.
Karl Marx, A acumulação Primitiva, ,estampa, 1977, Lx, p.100,101,102,103 -
8ª Secção de O Capital Marx publicado pela primeira vez em 1867.



É inegável que, 148 anos passados da publicação deste texto,  depois dos massacres de populações inteiras, duas guerras mundiais e  várias revoluções comunistas, o mundo económico e moral ocidental não sejam o mesmo de que falava Marx, todavia há verdade factual nas suas palavras e esperança na possibilidade de mudança. A crítica contra as usurpações disfarçadas da sociedade capitalista é contundente, essa mesma crítica continua actual, hoje nenhuma alternativa se perfila contra o capitalismo selvagem que estamos a viver,  apesar de nos considerarmos livres,  não pode haver liberdade sem alternativas reais e credíveis.



Não podemos perder a memória nem a imaginação para voltar a ver os últimos 100 anos e o que é hoje a sociedade ocidental. As intervenções "ocidentais" por todo o mundo, da expansão ao tráfico, adquiriram novas formas mas têm o mesmo objectivo e deixam o mesmo rasto de sangue. Considerado ultrapassado o nome de Marx exala o medo do comunismo Estalinista que tem proporções fantasmagóricas maiores no nosso imaginário que o capitalismo do qual somos dependentes e cúmplices nas suas continuadas e pretensamente justificadas surtidas sanguinárias. Há pelo menos dois factos que dão razão a Marx: a alienação dos meios de produção tomou a forma de alienação do povo dos centros de poder, apesar do Citroen à porta somos uns assalariados e a nossa opinião, apesar de livre, conta zero, porque estamos todos a falar sozinhos. Segundo facto, a riqueza está acumulada em meia dúzia de detentores desses meios de produção enquanto a esmagadora população do mundo vive no limiar da pobreza. Estamos melhor hoje do que estávamos em termos de condições de trabalho? Parece-nos que sim, a verdade é que muitos nem têm direito ao trabalho. Daí que nos surpreende que Marx seja tão dramático, o dramatismo é sinal de romantismo serôdio, talvez não possa deixar de ser dramático por estar desesperado, sabe-se que vivia da caridade dos amigos para comer, nessa Inglaterra industrial onde as desigualdades sociais eram injustas e incompreensíveis. Apeteceu-me lembrá-lo 41 anos depois do 25 de Abril.


Helena Serrão

domingo, abril 19, 2015

O que é a política?

1. A política baseia-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e produto da natureza humana. A filosofia e a teologia   ocupam-se do homem, e todas as suas afirmações seriam correctas se houvesse apenas um homem, ou apenas dois homens, ou apenas homens idênticos. Por isso, não encontraram nenhuma resposta filosoficamente válida para a pergunta: o que é política? Mais, ainda: para todo o pensamento científico existe apenas o homem — na biologia ou na psicologia, na filosofia e na teologia, da mesma forma como para a zoologia só existe o leão. Os leões seriam, no caso, uma questão que só interessaria aos leões.
É surpreendente a diferença de categoria entre as filosofias políticas e as obras de todos os grandes pensadores — até mesmo de Platão. A política jamais atinge a mesma profundidade. A falta de profundidade de pensamento não revela outra coisa senão a própria ausência de profundidade, na qual a política está ancorada.
2. A política trata da convivência entre diferentes. Os homens organizam-se politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, ou a partir do caos absoluto das diferenças. Enquanto os homens organizam corpos políticos sobre a família, em cujo quadro se entendem, o parentesco significa, em diversos graus, por um lado aquilo que pode ligar os mais diferentes e por outro, aquilo pelo qual formas individuais semelhantes podem separar-se de novo umas das outras e umas contra as outras.
Nessa forma de organização, a diversidade original tanto é extinta de maneira efectiva como também é destruída a igualdade essencial de todos os homens. A ruína da política em ambos os casos surge do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família. Aqui já está indicado o que se torna simbólico na imagem da Sagrada Família: Deus não criou tanto o homem como o fez com a família.*
3. Quando se vê na família mais do que a participação, ou seja, a participação activa na pluralidade, começa-se a fazer de Deus, ou seja, a agir como se se pudesse sair, de modo natural, do princípio da diversidade.

Hannah Arendt, O que é a Política? p.

Imagem, Leonard Freed, Colónia

sábado, abril 18, 2015

O método científico.


1. O facto observado é guiado por conhecimentos prévios
“Trouxeram um dia, ao meu laboratório, coelhos do mercado, Colocaram-nos numa mesa onde urinaram e observei, por acaso, que a sua urina era clara e ácida. Este facto impressionou-me, porque os coelhos têm geralmente a urina turva e alcalina por serem herbívoros, enquanto os carnívoros, como se sabe, têm, pelo contrário, urinas claras e ácidas.
2. A formulação da hipótese como explicação provisória do facto observado
Esta observação da acidez da urina dos coelhos fez-me supor que estes animais deviam ser da condição alimentar dos carnívoros. Supus que eles não tinham comido havia muito tempo e que se tinham transformado, pela abstinência, em verdadeiros animais carnívoros (...). Nada era mais fácil de verificar pela experiência do que esta ideia preconcebida ou esta hipótese.
3. A experimentação como processo de verificação da hipótese
Dei erva a comer aos coelhos e, algumas horas depois, as suas urinas tinham-se tornado turvas e alcalinas. Submeti em seguida os mesmos coelhos à abstinência e, vinte e quatro ou trinta e seis horas depois, as suas urinas tinham-se tornado claras e fortemente ácidas; depois voltaram a ser alcalinas se lhes desse ervas, etc. Repeti esta experiência tão simples um grande número de vezes com os coelhos e sempre com o mesmo resultado. Repeti-a em seguida com um cavalo, animal herbívoro, que tem igualmente a urina turva e alcalina. Verifiquei que a abstinência tinha produzido, como no coelho, uma pronta acidez da urina com um acréscimo relativamente considerável da ureia, a ponto de cristalizar por vezes, espontaneamente, na urina arrefecida.
4. A hipótese torna-se uma ideia aceitável
Cheguei assim, em consequência das minhas experiências, a esta proposição geral que então era desconhecida: em jejum, os herbívoros têm urinas semelhantes às dos carnívoros.
5. A contraprova como garantia da aceitabilidade
Mas, para provar que os meus coelhos em jejum eram carnívoros, havia uma contraprova a fazer. Era preciso, experimentalmente, fazer um coelho carnívoro, alimentando-o a carne, a fim de saber se as suas urinas seriam claras, ácidas e relativamente carregadas de ureia como durante a abstinência. Por isso fiz alimentar coelhos com carne de vaca cozida fria, alimento que comem muito bem, quando não se lhes dá outra coisa. A minha previsão foi ainda verificada e, enquanto durou esta alimentação animal, os coelhos conservaram urinas claras e ácidas”


Claude Bernard, Introdução ao estudo da medicina experimental,

quinta-feira, abril 09, 2015

O ponto de partida da ciência é o senso comum.



Christopher Anderson, Palestina 2007

A ciência, a filosofia, o pensamento racional, todos devem partir do senso comum.
Não, talvez, por ser o senso comum um ponto de partida seguro: a expressão "senso comum" que estou aqui a usar é muito vaga, simplesmente porque denota uma coisa vaga e mutável - os instintos, ou opiniões de muitas pessoas, às vezes adequados ou verdadeiros e às vezes inadequados ou falsos.
Como nos pode fornecer um ponto de partida uma coisa tão vaga e insegura como o senso comum? A minha resposta é: porque não pretendemos nem tentamos construir (...) um sistema seguro sobre esses "alicerces". Qualquer das nossas muitas suposições de senso comum (...) da qual partamos pode ser contestada e criticada a qualquer tempo; frequentemente, tal suposição é criticada com êxito e rejeitada (por exemplo, a teoria de que a Terra é plana). Em tal caso, o senso comum é modificado pela correcção, ou é transcendido e substituído por uma teoria que, por menor ou maior período de tempo, pode parecer a certas pessoas como mais ou menos "maluca" (...). Se tal teoria necessitar de muito treino para poder ser compreendida, poderá mesmo deixar para sempre de ser absorvida pelo senso comum. (...)Toda a ciência e toda a filosofia são senso comum esclarecido. (...)
Deste modo começamos com um ponto de partida vago e construímos sobre alicerces inseguros. Mas podemos progredir: podemos às vezes, após alguma crítica, ver que estivemos errados podemos aprender com os nossos enganos, com a compreensão de que fizemos um erro. (...)
A minha primeira tese é, pois, que o nosso ponto de partida é o senso comum e que o nosso grande instrumento para progredir é a crítica.


K. Popper (1975), Conhecimento Objectivo, Belo Horizonte, Editora da Universidade de S. Paulo e Itatiaia Limitada, p. 42.

terça-feira, março 31, 2015

Kant's Axe

quinta-feira, março 19, 2015

Suart Mill e reivindicação da igualdade entre os sexos

A Sujeição das Mulheres , é o título de um ensaio escrito por John Stuart Mill em 1869, possivelmente em conjunto com sua esposa Harriet Taylor Mill ,  argumentando a favor da igualdade entre os sexos. No momento em que foi publicado, em 1869, este ensaio foi uma afronta às normas convencionais europeias sobre o status de homens e mulheres.
Enquanto alguns estudiosos concordaram em 2009 que John Stuart Mill foi o único autor, não podemos esquecer e é necessário referir que alguns dos argumentos são semelhantes ao ensaio de Harriet Taylor Mill  A Emancipação da Mulher , que foi publicado em 1851. A filha de Harriet Taylor Mill, Helen Taylor, também terá contribuído para o ensaio. 
Mill estava convencido de que o progresso moral e intelectual da humanidade resultaria numa maior felicidade para todos. Afirmou que os prazeres mais elevados do intelecto trariam muito maior felicidade do que o prazer menor dos sentidos. Concebeu os seres humanos como moralmente e intelectualmente capaz de serem educados e civilizados. Acreditava, por isso,  que todos devem ter o direito de voto, com excepção  para os bárbaros e pessoas sem instrução.
 Argumenta que as pessoas devem ser capazes de votar para defender os seus próprios direitos e aprender a estar conscientes moral e intelectualmente. Este argumento é aplicado a homens e mulheres. Mill muitas vezes usou a sua posição como membro do Parlamento para exigir o voto para as mulheres, uma posição controversa para a época.
Na época, século dezanove, uma mulher era geralmente sujeita aos caprichos do seu marido e / ou pai devido às normas sociais que eram fundamentadas no “preconceito” de que as mulheres eram fisicamente e mentalmente menos capazes do que os homens e, portanto, precisavam ser "tomadas de cuidados." Contribuíram para essa visão as teorias sociais em voga, ou seja, a sobrevivência do mais apto e o determinismo biológico.  Consideradas hoje à luz da teoria evolucionista, como incorrectas, estas posições eram também sustentadas por pontos de vista religiosos que apoiavam uma visão hierárquica de homens e mulheres no seio da família. O arquétipo da mulher ideal, como mãe, esposa e dona de casa era uma ideia poderosa na sociedade do século XIX.
Quando escreveu o ensaio, Mill reconheceu que estava a ir contra os pontos de vista comuns da sociedade e estava ciente de que  seria forçado a retroceder nas suas reivindicações. Argumentou que a desigualdade das mulheres era uma relíquia do passado, mas não tinha lugar no mundo moderno.  Considerar efetivamente metade da raça humana incapaz de contribuir para sociedade fora de casa era um obstáculo ao desenvolvimento humano.
"...  a subordinação jurídica de um sexo ao outro - é errado em si mesmo, e é desde logo,  um dos principais obstáculos à melhoria humana,  deveria ser substituído por um sistema de perfeita igualdade, admitindo nenhum poder e privilégio para um lado, em detrimento do outro. " 

in Wikipédia, a subordinação das mulheres


quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Como é ser um morcego? À descoberta da relação mente corpo


Rene Magritte, O Peregrino, 1966


A experiência consciente é um fenómeno difundido. Ocorre em muitos níveis da vida animal, porém não podemos estar certos da sua presença nos organismos mais simples, e é muito difícil dizer, em termos gerais, o que nos dá evidências dessa experiência. (Alguns extremistas chegaram a negá-la até mesmo nos mamíferos diferentes do homem). Ela ocorre, sem dúvida, sob formas incontáveis, totalmente inimagináveis para nós, em outros planetas, em outros sistemas solares, pelo universo afora. Mas quaisquer que sejam as variações quanto à forma, o fato de um organismo ter, seja lá como for, uma experiência consciente significa, basicamente, que há "algo que seja ser como aquele organismo" [that there is something it is like to be that organism]. Pode haver implicações adicionais sobre a forma da experiência; pode mesmo haver implicações sobre o comportamento do organismo (porém, disso eu duvido). Mas, fundamentalmente, um organismo tem estados mentais conscientes se e somente se existe algo que "é como ser esse organismo", algo que é como ser para o organismo [something it is like for the organism].
Podemos chamar isso de o carácter subjectivo da experiência. Ele não é capturado por quaisquer das recentes e familiares análises redutoras do mental, já que todas elas são logicamente compatíveis com sua ausência. Não é analisável em termos de nenhum sistema explicativo de estados funcionais, ou de estados intencionais, pois esses poderiam ser atribuídos a robôs ou autómatos que se comportassem como pessoas, embora não experimentassem nada [2]. Não é analisável em termos do papel causal das experiências no comportamento humano típico, por razões similares [3]. Eu não nego que os estados e eventos mentais causem o comportamento, nem que possam ser dadas caracterizações funcionais deles. Nego apenas que esse tipo de coisa esgote a análise dos mesmos. Qualquer programa reducionista tem que se basear em uma análise do que deve ser reduzido. Se a análise deixa algo de fora, o problema será colocado erroneamente. É inútil basear a defesa do materialismo em qualquer análise dos fenómenos mentais que não encare explicitamente o seu carácter subjectivo. Não há razão para se supor que uma redução que pareça plausível quando não se tenta explicar a consciência possa ser estendida para incluir a consciência.
(:Eu disse que a essência da crença de que morcegos têm experiência está em que haja algo que é ser como um morcego [that there is something that it is like to be a bat]. Atualmente, sabemos que a maior parte dos morcegos (microchiroptera, para ser preciso) percebem o mundo externo primariamente por um sonar, localizando-se pelo eco, detectando as reflexões dos seu próprios gritos rápidos, sutilmente modulados e de alta frequência, nos objetos ao seu alcance. Seus cérebros são projetados [designed] para correlacionar os impulsos enviados com os ecos subsequentes, e as informações assim adquiridas permitem aos morcegos discriminações precisas acerca da distância, tamanho, forma, movimento e textura, comparáveis às que fazemos pela visão. Mas o sonar dos morcegos, embora seja claramente uma forma de percepção, não é similar a nenhum sentido que possuímos, quanto à forma das suas operações. E não há razão para se supor que ele seja, subjetivamente, parecido com algo que nós possamos experimentar ou imaginar. Isso parece criar dificuldades para a noção de como é ser um morcego [what is it like to be a bat]. Devemos considerar se algum método nos permitirá extrapolar o nosso próprio caso à vida interior do morcego, [5] e, em caso negativo, se pode haver algum método alternativo para o entendimento desta noção.
A nossa própria experiência provê o material básico para a nossa imaginação, cujo alcance é, consequentemente, limitado. Não ajuda tentar imaginar que alguém tenha membranas sob os braços que o habilite a voar ao entardecer e ao alvorecer pegando insetos com a boca, que tenha a visão muito precária e perceba o mundo à sua volta por um sistema de sinais de som em alta frequência refletidos, e que passe o dia pendurado de cabeça para baixo com os pés no teto de um sótão. Até onde eu consiga imaginar isso (e não chego muito longe), isso apenas me diz como seria para mim comportar-me como um morcego se comporta. Mas não é essa a questão. Eu quero saber como é, para um morcego, ser um morcego. Se eu ainda assim tento imaginar isso, fico restrito aos recursos da minha própria mente, inadequados para a tarefa. Não consigo isso nem mesmo imaginando acréscimos à minha experiência presente, nem imaginando segmentos gradualmente subtraídos dela, nem imaginando uma combinação de acréscimos, subtrações e modificações.
Mesmo que eu pudesse parecer uma vespa ou um morcego, ou comportar-me como eles, sem modificar a minha estrutura fundamental, minhas experiências não seriam nada parecidas com as experiências de tais animais.(...)

Estranhamente, nós podemos ter evidência da verdade de algo que não podemos realmente compreender. Suponhamos que uma lagarta seja trancada num cofre esterilizado por alguém que tenha pouca familiaridade com as metamorfoses dos insectos. Semanas depois o cofre é aberto, revelando uma borboleta. Se a pessoa sabe que o cofre esteve trancado o tempo todo, tem razões para acreditar que a borboleta seja, ou tenha sido, a lagarta, sem ter nenhuma ideia de como isso possa ser assim. (Uma possibilidade seria que a lagarta tivesse um parasita alado minúsculo que a tivesse devorado inteiramente e crescido transformando-se numa borboleta).

Tomas Nagel, Como é ser um morcego?

A experiência do cogito inicia a aventura do ser que se pensa e do mundo que é pensado e da sua radical ligação e separação.

René Descartes: Penso, logo existo (Cogito Ergo Sum)

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Relativismo cultural (RC)



"Bem" significa "socialmente aprovado." Escolhe os teus princípios morais segundo aquilo que a tua sociedade aprova.
O relativismo cultural (RC) defende que o bem e o mal são relativos a cada cultura. O "bem" coincide com o que é "socialmente aprovado" numa dada cultura. Os princípios morais descrevem convenções sociais e devem ser baseados nas normas da nossa sociedade.
Começaremos por ouvir uma figura ficcional, a que chamarei Ana Relativista, e que nos explicará a sua crença no relativismo cultural. Ao ler o que se segue, ou explicações semelhantes, proponho-lhe que reflicta até que ponto esta é uma perspectiva plausível e se se harmoniza com o seu ponto de vista. Depois de ouvirmos o que Ana tem para dizer, consideraremos várias objecções ao RC.

1. Ana Relativista
O meu nome é Ana Relativista. Aderi ao relativismo cultural ao compreender a profunda base cultural que suporta a moralidade.
Fui educada para acreditar que a moral se refere a factos objectivos. Tal como a neve é branca, também o infanticídio é um mal. Mas as atitudes variam em função do espaço e do tempo. As normas que aprendi são as normas da minha própria sociedade; outras sociedades possuem diferentes normas. A moral é uma construção social. Tal como as sociedades criam diversos estilos culinários e de vestuário, também criam códigos morais distintos. Aprendi-o ao estudar antropologia e vivi-o no México quando estive lá a estudar.
Considere a minha crença de que o infanticídio é um mal. Ensinaram-me isto como se se tratasse de um padrão objectivo. Mas não é; é apenas aquilo que defende a sociedade a que pertenço. Quando afirmo "O infanticídio é um mal" quero dizer que a minha sociedade desaprova essa prática e nada mais. Para os antigos romanos, por exemplo, o infanticídio era um bem. Não tem sentido perguntar qual das perspectivas é "correcta". Cada um dos pontos de vista é relativo à sua cultura, e o nosso é relativo à nossa. Não existem verdades objectivas acerca do bem ou do mal. Quando dizemos o contrário, limitamo-nos a impor a nossas atitudes culturalmente adquiridas como se se tratassem de "verdades objectivas".
"Mal" é um termo relativo. Deixem-me explicar o que isto significa. Quero dizer que nada está absolutamente "à esquerda", mas apenas "à esquerda deste ou daquele" objecto. Do mesmo modo, nada é um mal em absoluto, mas apenas um mal nesta ou naquela sociedade particular. O infanticídio pode ser um mal numa sociedade e um bem noutra.
Podemos expressar esta perspectiva claramente através de uma definição: "X é um bem" significa "a maioria (na sociedade em questão) aprova X". Outros conceitos morais como "mal" ou "correcto", podem ser definidos da mesma forma. Note-se ainda a referência a uma sociedade específica. A menos que o contrário seja especificado, a sociedade em questão é aquela a que pertence a pessoa que formula o juízo. Quando afirmo "Hitler agiu erradamente" quero de facto dizer "de acordo com os padrões daminha sociedade".
O mito da objectividade afirma que as coisas podem ser um bem ou um mal de uma forma absoluta — e não relativamente a esta ou àquela cultura. Mas como poderemos saber o que é o bem ou o mal em termos absolutos? Como poderíamos argumentar a favor desta ideia sem pressupor os padrões da nossa própria sociedade? As pessoas que falam do bem e do mal de forma absoluta limitam-se a absolutizar as normas que vigoram na sua própria sociedade. Consideram as normas que lhes foram ensinadas como factos objectivos. Essas pessoas necessitam de estudar antropologia, ou viver algum tempo numa cultura diferente.
Quando adoptei o relativismo cultural tornei-me mais receptiva a aceitar outras culturas. Como muitos outros estudantes, eu partilhava a típica atitude "nós estamos certos e eles errados". Lutei arduamente contra isto. Apercebi-me de que o outro lado não está "errado" mas que é apenas "diferente". Temos, por isso, que considerar os outros a partir do seu próprio ponto de vista; ao criticá-los, limitamo-nos a impor-lhes padrões que a nossa própria sociedade construiu. Nós, os relativistas culturais, somos mais tolerantes.
Através do relativismo cultural tornei-me também mais receptiva às normas da minha própria sociedade. O RC dá-nos uma base para uma moral comum no interior da cada cultura — uma base democrática que abrange as ideias de todos e assegura que as normas tenham um amplo suporte. Assim, posso sentir-me solidária com pessoas que partilham comigo uma mesma comunidade, ainda que outros grupos possuam diferentes valores.
Antes de avançar para a secção 1.2, reflicta sobre as suas reacções iniciais ao relativismo cultural. O que lhe agrada ou desagrada neste ponto de vista? Que objecções tem a colocar?

2. Objecções ao RC
Ana deu-nos uma formulação clara de um ponto de vista acerca da moral que muitas pessoas consideram atractiva. Reflectiu bastante acerca da moral e isto permite-nos aprender com ela. Contudo, estou convencido de que a sua perspectiva básica neste domínio está errada. Suponho que Ana acabará por concordar à medida que as suas ideias ficarem mais claras.
Deixem-me indicar o principal problema. RC força-nos a conformar-nos com as normas sociais — ou contradizemo-nos. Se "bem" e "socialmente aprovado" significam a mesma coisa, seja o que for ao qual o primeiro termo se aplique também o segundo lhe é aplicável.
Assim, o seguinte raciocínio seria válido:
Isto e aquilo são socialmente aprovados. Logo, isto e aquilo são bens.
Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, não poderíamos consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Mas este resultado é absurdo. Claro que é possível consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Podemos afirmar consistentemente que algo é socialmente aprovado e negar que seja um "bem". Isto não é possível se o RC for verdadeiro.
Ana poderia aceitar esta consequência implausível e dizer que é contraditório discordar moralmente da maioria. Mas esta seria uma consequência especialmente difícil de ser aceite. Ana teria de aceitar que os defensores dos direitos civis estariam a contradizer-se ao discordarem da perspectiva aceite pelos segregacionistas. E teria de aceitar a perspectiva da maioria em todas as questões morais — mesmo que perceba que a maioria é ignorante.

 Harry Gensler, Ética e Relativismo cultural

quinta-feira, janeiro 15, 2015

EPISTEMOLOGIA: A NECESSIDADE DE JUSTIFICAÇÃO


"Paul sabia que o seu cavalo iria vencer o Derby. Pelo menos, sentia a certeza de saber, e nunca se tinha enganado quando sentira aquela certeza no passado. A convicção de Paul não se baseava no estudo da forma dos cavalos. Nem ele via o futuro na revelação de uma visão. Na verdade, o nome do cavalo surgia quando ele andava no seu cavalinho-de-pau de brinquedo, para o qual ele já estava grande demais. Não que Paul ganhasse todas as apostas (ou aquelas feitas em seu nome pelos adultos que compartilhavam do seu segredo). Às vezes  não tinha tanta certeza, e outras vezes  não tinha a mínima ideia e apenas arriscara. Mas  nunca apostava muito nessas ocasiões. Quando tinha certeza absoluta, entretanto, apostava quase todo o seu dinheiro. O método até agora nunca o havia desapontado. Óscar, um de seus colaboradores adultos, não tinha dúvida de que Paul possuía uma habilidade extraordinária, mas não tinha certeza de que Paul realmente soubesse os vencedores. Não bastava que Paul, até agora, sempre tivesse ganhado. A menos que soubesse porque  tinha acertado, as fundações das suas crenças eram instáveis demais para sustentar o verdadeiro conhecimento. Entretanto, isso não impedia que Óscar apostasse o próprio dinheiro nas dicas de Paul."

Tudo aquilo que sabemos pode ser chamado de conhecimento? Muitas vezes o que, por qualquer motivo que seja, acreditamos ser verdade, não passa de coincidência. Para entrar no campo das certezas, é necessária a comprovação, a justificativa do porquê de ser ou não ser. A crença de Paul, que nunca falhou, é verdade absoluta por ter sido verdade até hoje? É possível provar que o seu cavalo venceria o Derby? Invariavelmente, a resposta para as duas perguntas é não. Mas, na ausência de certezas, ligamo-nos ao que nos parece mais seguro. E apostamos o nosso dinheiro nisso, mesmo que ainda haja dúvida.

O texto foi extraído do livro "O Porco Filósofo". "O vencedor do cavalo-de-pau".

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Liberdade de expressão


O segredo seria fechar a boca. Quem não fala, não vê, não ouve, não tem dúvidas nem problemas.
Quem insiste em considerar  que a massa humana produz situações e crenças hilariantes é, curiosamente, levado a sério. O riso, a ironia, são armas poderosas para mostrar que a soma da totalidade dos nossos dogmas, não deixa de ser um produto estranhamente ridículo quando tomamos uma parte como o todo e o levamos a sério como a VERDADE.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Na perspectiva da humanidade

O contributo do estudo e do conhecimento para o avanço da humanidade é um facto, só controverso se aceitarmos que existe apenas avanço material mas não Ético e que continuamos a ser os mesmos bárbaros apenas com armas mais sofisticadas. A prova de não sermos os mesmos bárbaros encontra-se na importância dada à educação, à educação pública, com ela pretendemos montar uma estrutura que permita a todos ascender ao topo da sociedade sem passar pelo privilégio do nascimento, permite-nos ultrapassar as condicionantes sócio-económicas a que estaríamos condenados se não houvesse leis que protegessem os mais fracos e desfavorecidos, se não houvesse uma escola para todos. A Escola para todos é uma utopia a que nos agarramos, mas uma utopia, para quem sabe dar valor às utopias escrevo este texto. Parto do pressuposto que há uma perspectiva da humanidade, isto é, uma perspectiva onde todos estivessem de acordo sobre certos princípios serem correctos, mesmo não tendo conhecimentos, mesmo partindo de uma cultura diferente da nossa, esses princípios seriam de natureza ética mas não se restringiriam apenas à natureza inter-pessoal da ética, são princípios que estão na base de leis mais justas, e estas permitem uma sociedade mais equilibrada. Tudo frases feitas, dirão, eu diria que podemos sem esforço alcançar uma perspectiva da humanidade e essa pode ser a nossa bússola, a nossa referência para julgar e apreciar o problema da escola pública. Na perspectiva da humanidade o conceito de "Escola Pública" protegido pelo idealismo resultante da Revolução Francesa é um privilégio de certos países e de certas culturas mas um objectivo comum. Uma estrutura que beneficia a sociedade pelas razões atrás expostas, sendo assim criada para fins estritamente éticos. Os fins éticos caem, no entanto, muitas vezes, no vazio das inutilidades ou dos palavrões bombásticos se não houver uma defesa política da Escola Pública e dentro das políticas que destroem o conceito de escola pública situa-se a Propaganda. A Propaganda que se faz hoje ao acaso e se quer "sem ideologia" com fins estatísticos e perseguindo factos é um dos cancros da Escola Pública, ela exerce-se exactamente sobre a política de não fazer política, como se houvesse factos que valessem por si, sem uma leitura política. Exemplos da Propaganda dos últimos dias : Ranking de Escolas; Licenciados desempregados; Professores em exame; para citar alguns dos títulos mais brilhantes. Então olho para um aluno à minha frente, de uma classe baixa, onde as expectativas continuam baixas e não sei como lhe dizer que o conhecimento e o estudo são a única forma de alterar essa situação, se o dissesse estaria a mentir. Então? Acredito que sim, mas toda a propaganda social grita que não, no concreto, na vida quotidiana. Continuo a pensar que tenho razão mas está difícil convencer alguém, seria talvez desejável que todos os que pensam o mesmo, pudessem contribuir de forma decisiva para a política da Escola Pública criando nichos de debate onde a dignidade e a Ética não fossem mais palavrões para enfeitar o discurso mas uma arma, uma arma feita das crenças no futuro da humanidade.

Helena Serrão