sexta-feira, outubro 20, 2017

Reflexão sobre as"Aprendizagens essenciais" de Filosofia propostas para o 10ºAno.


Pensar, falar, fazer. O trinómio parece viciado pelo juízo ético e o desperdício. Passo a explicar: há multiplicação de "Falares"e desta multiplicação fica o apagamento da força. Falar era forte quando não se podia dizer, agora ao poder dizer-se, falar parece estratégia de "mais do mesmo" perdendo a sua eficácia, tornando-se coisa para nada. Mas atenção, estou a falar do "falar crítico" que analisa, do falar que se vocaciona para a exceção, para a recusa, é do falar que recusa que estamos fartos.  Não do falar pró-activo, que apresenta soluções, que fala do que faz. Esse desejamo-lo. Ora esse falar que faz ou fez e que vai fazer, apresenta-se sob a forma de "grupinhos de influência" os únicos que têm forma de sair do anonimato e, pelos seus discursos, nos fazerem crer que as coisas são como eles fazem e pouco importa o que digam, pois não parece figurar-se no horizonte alternativa credível. Neste caso, o que parece é: Não há alternativa. Não há outros grupos a fazerem e a dizerem diferente, não existem ou não aparecem. Neste caso o que parece não é. Há de factos muitos a fazerem e a pensar diferente mas não têm visibilidade mediática, logo, não existem.
Certos figurões que pertencem a "grupinhos de influência", ganham visibilidade pela sua azáfama de pequenas formiguinhas obreiras dessas mesmas forças de influência. A metáfora do insecto não é pura coincidência. Trata-se de um reino bem composto de seres minúsculos mas de grande persistência de Fazer.  Seja. Se o pensar é uma incógnita, o que pelo falar se dá do pensar é um discurso de circunstância e de interesse, nada de novo. Assim ficamos limpos para encarar o FAZER como inequivocamente objetivo e transformador.  À incógnita do pensar resta a supremacia do fazer. 
Este preâmbulo introduz o meu ceticismo em relação ao que estou a escrever neste momento, não acredito que tenha consequências senão servir de desabafo a uma anónima mas esforçada professora de filosofia do Ensino Secundário.
Tudo isto por causa das "Aprendizagens essenciais de Filosofia" que duas ou três formigas "iluminadas", das que estão presentes em todos os eventos dignos desse nome e que - por razão obviamente desconhecida - representam a classe dos professores, visualizaram, propuseram, fizeram e lançaram como LEI geral para todos.  Esta lei não representa nada senão os interesses daquele quintal, o que as formiguinhas obreiras possuem e estimam.Ora o que é válido para esse  quintal não é válido para todos os quintais porque há muitos e diferentes quintais. Pensar que sim  é uma falácia e  a pior de todas. É uma generalização apressada. Pois bem, é do que se trata quando vemos que entre todas as aprendizagens possíveis de seleccionar para o 10ºAno, foram seleccionadas as aprendizagens relativas à "Lógica proposicional" que não constam do programa em vigor (embora este não tenha sido oficialmente alterado) e que apenas são essenciais para um quintal determinado vergando-se o termo "essencial" até ao absurdo do " que nos dá jeito". E meu Deus, que afazer frenético, queridas formiguinhas obreiras, a seguir monta-se esquema de Ações de Formação para os desgraçados dos professores para quem a "Lógica proposicional" não é essencial, mas que têm de a aprender mesmo assim, porque sim. É bonito, jeitoso, verdadeiramente plural e bastante rentável.

Helena Serrão

quinta-feira, outubro 05, 2017

Um fenómeno ocorrido a milhares de Anos Luz afecta o nosso quintal! Magnífico! Queremos mais descobertas destas, mais cientistas convictos e apaixonados, mais dinheiro para investir nestes projectos! Queremos mais ciência!!





Einstein não parou as suas investigações sobre a força da gravidade depois de ter chegado às equações da relatividade geral. Num artigo de 1916 conjeturou que existiam ondas gravitacionais, semelhantes às ondas eletromagnéticas (ou radiação ou luz), conhecidas desde meados do século XIX. Uma oscilação de uma massa deveria abanar a geometria do espaço e do tempo propagando-se a grandes distâncias, tal como uma oscilação de uma carga espalha luz em redor. Para o efeito ser apreciável era preciso que a massa em vibração fosse muito maior do que a do Sol. De início, Einstein não acreditou totalmente na realidade das suas ondas gravitacionais, pois receou tratar-se de um artifício matemático. Faleceu em 1955 sem ter a certeza da existência das ondas que tinha previsto.

As ondas gravitacionais manifestaram-se indiretamente com a descoberta, em 1974, de um sistema binário formado por estrelas pesadas, chamadas estrelas de neutrões, pelos americanos Russel Hulse e Joseph Taylor Jr., que ganharam o Nobel da Física de 1993. Uma parte da energia escapava das estrelas provavelmente sob a forma de ondas gravitacionais. Mas, faltando uma observação direta, foram propostas engenhosas experiências.

Verificou-se que as ondas gravitacionais eram mesmo reais precisamente cem anos após a ideia de Einstein. A 11 de Fevereiro de 2016, os media de todo o mundo anunciavam a extraordinária descoberta, fazendo eco de um artigo da equipa da experiência LIGO, com cerca de mil autores, que relatava a recolha das ondas em duas instalações gémeas no noroeste e no sul dos Estados Unidos, separadas por mais de 3000 quilómetros. Era precisa uma observação simultânea nos dois lados já que, como os sinais eram extremamente ténues, tinham se ser excluídas perturbações com uma origem terrestre e não extraterrestre. Cada instalação possui "antenas", em forma de L, com braços de quatro quilómetros, onde se pode medir através de um feixe laser o afastamento entre pares de espelhos. Ora esses espelhos abanaram um bocadinho durante uma fração de segundo, no dia 14 de Setembro de 2015. Ou melhor, o espaço entre eles oscilou. O sinal, que já foi comparado a um chilrear, foi o mesmo nos dois sítios: só um match perfeito permitiria concluir que a emissão era remota. Simulações computacionais indicaram que as ondas em causa eram devidas à fusão de dois buracos negros, cada um deles com cerca de 30 vezes a massa do Sol, à distância de mais de mil milhões de anos-luz de nós. Buracos negros, descritos pela teoria da relatividade geral, são as estrelas mais pesadas que se conhecem. A observação das ondas gravitacionais na Terra, revelando um acordo bastante bom entre teoria e experiência, é uma das proezas mais notáveis da física contemporânea. A Academia Sueca acaba de distinguir com o Nobel da Física os responsáveis maiores por essa observação pioneira, que já foi repetida por mais três vezes (uma das quais há poucos dias, com a participação de um observatório em Itália). O prémio foi para os americanos Brian Weiss, Barry Barish e Kip Thorne (o físico que ajudou no filme Interstellar). Até agora só víamos o céu através de luz, visível ou invisível. Mas agora passámos a recolher as vibrações do próprio espaço. Se antes só tínhamos olhos para o céu, passámos a ter também "ouvidos”.

Carlos Fiolhais in Público, dia 4 de Outubro de 2017




terça-feira, outubro 03, 2017

Os pré-socráticos


Joaquin Sorolla "Estudo sobre o mar", Valencia, 1904

Tales tentou compreender o mundo sem invocar a intervenção dos deuses. Como os babilónicos, acreditava que o mundo já tinha sido água. Para explicar a terra seca, os babilónicos diziam que Marduk tinha colocado uma esteira na face das águas e amontoado areia sobre ela. Sim, tudo tinha sido água, mas a Terra surgiu dos oceanos por um processo natural, similar, ele julgava, à obstrução que tinha observado no delta do Nilo. Pensava realmente que a água era um princípio comum subjacente a toda matéria, assim como hoje em dia dizemos o mesmo de eletrões, protões e neutrões, ou dos quarks. Se a conclusão de Tales estava ou não correta não importa, mas sim o seu lema: o mundo não era governado pelos deuses, mas sim pelo trabalho das forças materiais interagindo com a Natureza. Tales trouxe da Babilónia e do Egito as sementes das novas ciências, astronomia e geometria; ciências que germinaram e cresceram no solo fértil da Jónia. Muito pouco se sabe da vida pessoal de Tales, mas Aristóteles narra uma anedota reveladora na sua obra Política: [Tales] era censurado pela sua pobreza, que se supunha ser prova de que sua filosofia não tinha utilidade. De acordo com a história, sabia pela sua perícia [em interpretar os céus], enquanto ainda era inverno, que haveria uma grande colheita de azeitonas no ano seguinte, de modo que, tendo pouco dinheiro, fazia depósitos pelo uso das prensas de azeitonas em Quio e Mileto, as quais alugava a preços baixos porque ninguém lhe dava ouvidos. Quando chegava a colheita, e havia necessidade de muitas, cedia-as ao preço que lhe convinha e ganhava uma boa quantia de dinheiro. Assim provava que os filósofos do mundo podiam facilmente ficar ricos se quisessem, mas que a sua ambição era outra. Era famoso como sábio político, incitando com sucesso os Milesianos a resistir à assimilação por Creso, Rei da Lídia, mas não foi feliz ao apelar a uma federação de todos os estados insulares da Jónia contra os Lídios. Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, um dos primeiros, que se tem conhecimento, a fazer experiências. Examinando o movimento de uma sombra lançada por uma vareta vertical, determinou com precisão a duração do ano e das estações. Por anos os homens utilizaram varetas para lutar ou matar. Anaximandro utilizou-as para medir o tempo. Foi a primeira pessoa na Grécia a fazer um relógio de sol; um mapa do mundo conhecido e um globo celeste que mostrava os traços das constelações. Acreditava que o Sol, a Lua e as estrelas eram feitos de fogo vistos através de buracos que se moviam na abóbada do céu, provavelmente uma ideia bem mais antiga. Sustentou a opinião admirável de que a Terra não era suspensa ou sustentada mas, para ele, era o centro do universo; uma vez sendo equidistante de todos os pontos da "esfera celeste" não havia força capaz de movê-la. Argumentava que somos tão desamparados ao nascer, que se os primeiros bebés fossem colocados no mundo e deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí, Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros animais com recém-nascidos mais capazes. Propôs a geração espontânea da vida na lama, os primeiros animais tinham sido peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a terra seca, onde evoluíram para outros animais por transmutação de um tipo para outro. Acreditou num número infinito de mundos, todos habitados e sujeitos a ciclos de dissolução e regeneração. "Nem ele", queixou-se lamentavelmente Santo Agostinho, "nem Tales atribuíram a causa de toda esta atividade sem fim a uma mente divina."

                                                                                                                                                              Carl Sagan, Cosmos,

A história da Filosofia parece ser a história do tempo em que os professores, nas suas aulas, ainda se interessavam por este percurso de ensinar como a filosofia surgiu. A questão da origem foi progressiva e inexoravelmente substituída pela noção de causa. A questão histórica substituída pela questão estrutural da linguagem e assim se foi perdendo como displicente. O argumento era sempre o mesmo, o velhinho e gasto argumento de Kant de que se pode ensinar História da Filosofia mas que História não é Filosofia e que só se aprende Filosofia filosofando. Bom,  poderia, para rebater Kant, usar B. Russell como quem usa uma colher para comer esparguetti, diz ele, e desculpem-me se pareço subtilmente superficial em matérias tão sérias, diz ele, repito,  que sem História não há progresso na Filosofia pois os filósofos não saberiam de que modo os antigos filósofos argumentaram e resolveram as questões e cairiam facilmente nos erros já cometidos por eles.

sexta-feira, setembro 22, 2017

Um pintor a descobrir

                                                     
Sorolla, 1892, Otra Margarita


quarta-feira, setembro 13, 2017

Começam hoje as aulas.


Henri Cartier-Bresson, Saravejo, Jugoslávia,1965


A Logosfera agradece a todos os que por aqui passam, espera que este espaço vos seja útil (e simpático) e deseja-vos um BOM ANO! Novinho em folha!


sábado, agosto 12, 2017

As aprendizagens essenciais para Filosofia.

 Foto: Rita Araújo

Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória na disciplina de Filosofia

O Ministério da Educação traça, neste documento, o perfil do aluno do Secundário e as aprendizagens essenciais que este deve adquirir. Trabalho feito, perguntamos: O que adianta ao programa? Nada. A mesma linguagem abstrata que nada diz, objetivos reconhecíveis e generalistas sem conteúdo real, como exemplo, todos sabemos que o aluno deve ter espírito crítico, é já um lugar comum estafado, tão estafado que está vazio de gasto, sem sabermos nada sobre isso, senão mais generalizações gastas. A questão não é: “Criar espírito crítico” mas “como criar espírito crítico num aluno que não tem qualquer interesse por questões cognitivas, éticas ou outras”. Um documento com alternativas e estratégias práticas adequadas aos objetivos era muito mais desejável e necessário, não vos parece?


segunda-feira, julho 31, 2017

Amor-de-si versus Amor-próprio


Burt Glinn, Chicago 1968



As nossas paixões naturais estão muito bem delineadas; elas são o instrumento da nossa liberdade, elas tendem a conservar-nos. Todas aquelas paixões que nos subjugam e nos destroem vêm-nos de fora; não é a natureza que as dá mas apropriamo-nos delas para seu prejuízo.
A fonte das nossas paixões, a origem e princípio de todas as outras paixões, a única que nasce com o homem e que nunca o abandona enquanto ele viver, é o amor-de-si: paixão primitiva, inata, anterior a qualquer outra, e da qual todas as outras são, num certo sentido, suas modificações. Neste sentido, todas são, se quisermos, naturais. Mas a maior parte destas paixões tem causas estrangeiras sem as quais nunca existiriam: e estas modificações longe de nos serem vantajosas, são-nos prejudiciais; alteram o primeiro objeto e vão contra o seu princípio: é assim que o homem se descobre fora da natureza, e inicia a contradição consigo mesmo.
O amor de si é sempre bom, e sempre conforme com à ordem. Cada um estando encarregue especialmente da sua própria conservação, tem e deve ter como primeiro e mais importante dos seus cuidados vigiá-la constantemente: e como a poderia vigiar deste modo se não a tomasse como o seu maior interesse?
Devemos portanto amar-nos para nos conservarmos, devemos amar-nos mais que a qualquer outra coisa; e, na sucessão imediata do mesmo sentimento, amamos o que nos conserva. A criança liga-se ao seu alimento: Rómulo devia-se ligar à loba que o aleitou. No princípio essa ligação é puramente maquinal. O que promove o bem-estar de um indivíduo atrai-o. O que lhe causa dano causa-lhe repulsa. O que transforma esse instinto em sentimento, a ligação em amor, a aversão em ódio, é a intenção manifestada de nos alimentarem e de nos serem úteis. Não nos apaixonamos por seres insensíveis que apenas seguem o impulso que lhes dão: mas aqueles do qual esperamos o bem ou mal pela sua disposição interior, pela sua vontade, aqueles que vemos agir livremente a favor ou contra, inspiram-nos sentimentos semelhantes aos que nos demonstram. O que nos serve, procuramo-lo, mas o que nos quer servir, amamo-lo. Fugimos do que nos causa dano: mas daquele que nos quer causar mal, odiamo-lo.
O primeiro sentimento de uma criança é de se amar a si mesma; e o segundo que deriva do primeiro, é amar aqueles que dela se aproximam; dado que no estado de fraqueza em que se encontra reconhece as pessoas pelos cuidados que lhe proporcionam. (…)
Uma criança é naturalmente dada à bondade porque vê que todos os que se aproximam são prestáveis, a partir dessa observação habitua-se a ter um sentimento favorável aos da sua espécie; mas à medida que alarga as suas relações, as suas necessidades, as suas dependências ativas ou passivas, o sentimento das suas relações com os outros, desperta, e produz sentimentos de dever e preferência. Então a criança torna-se dominadora, invejosa, falsa, reivindicativa. Se a vergamos à obediência, não vendo nenhuma utilidade no que lhe ordenamos, atribui ao capricho a intenção de a atormentar, e amotina-se. Mas se lhe obedecemos, quando qualquer coisa lhe resiste, vê nesse gesto uma rebelião, uma intenção de lhe resistir, bate na mesa ou na cadeira por lhe terem desobedecido. O amor-de -si , que tem apenas a ver connosco, fica contente quando as nossas verdadeiras necessidades são satisfeitas; mas o amor-próprio, que se compara, não está nunca contente e nunca estará, porque este sentimento de nos preferirmos aos outros exige que os outros nos prefiram a si próprios; o que é impossível. Vemos então como paixões doces e afetuosas nascem do amor-de-si, e como as paixões odiosas e irascíveis nascem do amor-próprio.

Jean- Jacques Rousseau, Émile ou de L'Education, Flammarion, Paris,1966, p. 275,276,277


Tradução Helena Serrão

segunda-feira, julho 17, 2017

Da dúvida




                                                Imagem: Laura Knight, Dark pool, 1908

Estava naquele estado de espírito de incerteza e de dúvida que Descartes exige para a procura da verdade. Este estado não é feito para durar, é inquietante e penoso; deixa-nos apenas o interesse do vício e a preguiça na alma. Não tinha o coração tão corrompido para aí me comprazer; e nada preserva melhor o hábito de refletir que estar mais satisfeito consigo do que com o seu destino.

Meditava então na triste sorte dos mortais flutuando sobre um mar de opiniões humanas, sem governo, sem bússola, e entregues às suas tempestuosas paixões, sem outro guia que um piloto inexperiente que conhece mal a sua rota, e que não sabe nem de onde vem nem para onde vai. Dizia a mim próprio: Amo a verdade, procuro-a, e não posso reconhecê-la; que ma mostrem e ficarei a ela ligado: porque será preciso que ela seja roubada à espontaneidade de um coração feito para a adorar?

Apesar de ter provado muitas vezes grandes males, nunca levei uma vida tão desagradável como nesse tempo de desordem e ansiedade, onde, sem cessar, errando de dúvida em dúvida, só retirava, das minhas longas meditações, incerteza, obscuridade, contradições sobre a causa do meu ser e sobre a regulação dos meus deveres.

Como poderemos ser sistematicamente céticos e estar de boa fé? Não podia compreendê-lo. Estes filósofos, ou não existem, ou são os mais infelizes dos homens. A dúvida sobre as coisas que nos importam conhecer é um estado demasiado violento para o espírito humano: ele não resiste aí muito tempo; decide-se, apesar de tudo, de um modo ou de outro, e prefere enganar-se a não crer em nada.

O que redobrava o meu embaraço, era que tendo nascido numa Igreja que tudo decide, que não permite nenhuma dúvida, um único ponto rejeitado fazia-me rejeitar tudo o resto, e que a impossibilidade de admitir tantas decisões absurdas separava-me também das que não o eram. Ao dizer-me: Crê em tudo, impediam-me de crer em alguma coisa, e eu já não sabia onde me deter.

Consultei os filósofos, folheei os seus livros, examinei a sua diferentes opiniões; pareceram-me todos orgulhosos, afirmativos, dogmáticos, mesmo pretendendo ser céticos, não ignorando nada, não provando nada, troçando uns dos outros; e este ponto comum a todos pareceu-me o único onde todos tinham razão. Triunfantes quando atacavam, não tinham qualquer vigor quando se defendiam. Se pensarmos nas razões, só as têm para destruir; se contarmos as vozes, cada um está reduzido à sua; só entram em acordo para se disputarem; escutá-los não era a forma de sair da minha incerteza.

Conclui que a insuficiência do espírito é a primeira causa desta prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho é a segunda.(…)

Quando os filósofos estiverem em estado de descobrir a verdade, quantos terão interesse nela? Cada um sabe bem que o seu sistema não está melhor fundamentado que o dos outros; mas mantém-no porque é o seu sistema. Não há um único que chegando ao conhecimento do verdadeiro e do falso, não prefira a mentira que descobriu à verdade descoberta por um outro.  Onde está o filósofo que pela sua glória não enganaria voluntariamente o género humano? Onde está aquele que , no segredo do seu coração, tem outro objetivo senão distinguir-se? Desde que se eleve por cima da vulgaridade, desde que apague o efeito dos seus concorrentes, que quer mais? O essencial é pensar de modo diferente dos outros. Para o crente é ateu, para o ateu será crente.


Jean-Jacques Rousseau, L’Émile ou de l’éducation, Flammarion,1966, Paris pág.347 e348


Editado pela primeira vez em 1762, na Holanda, condenado e proibido em França de onde o autor teve de fugir.

Tradução: Helena Serrão

quinta-feira, junho 29, 2017

Textos essenciais


 
Lewis Hine, (EUA 1874/1940)


Os estudos servem para passatempo, ornamento e habilitação. A sua principal utilidade para passatempo, é dada na solidão e no retiro; para ornamento,  no discurso; para habilitação, no juízo; porque os homens peritos podem executar, mas os instruídos são mais aptos para julgar e censurar. Despender demasiado tempo com eles é indolência; usá-los demasiado no ornamento é afetação; formular sentenças unicamente de acordo com as suas regras é defeito de escolar. Os estudos aperfeiçoam a natureza mas são, por sua vez  aperfeiçoados pela experiência. Os homens ladinos os condenam, os sábios os utilizam, os simples os admiram; porque tais homens não ensinam a estudar, apenas dizem que há uma sabedoria sem estudos e outra para além dos estudos, ganha por observação. Lede, não para contraditar nem para acreditar, mas para ponderar e para considerar. Livros há que são para gostar, outros que são para engolir, e só alguns para mastigar e digerir; quer dizer, há alguns que são só para ler em parte, outros por mera curiosidade, e só alguns merecem ser lidos inteiramente com diligência e atenção. Ler amadurece o espírito, conversar adestra-o, escrever torna-o exato; portanto, se o homem escreve pouco, necessita de grande memória; se conversa pouco, de muita astúcia para simular que conhece o que não conhece. A história faz o homem sábio; a poesia engenhoso; a matemática subtil; a física profundo; a moral grave; a lógica e a retórica apto a discutir.
Francis Bacon, Ensaios, Guimarães Editores, Lx, p.17,18
Tradução de Álvaro Ribeiro

terça-feira, maio 30, 2017

Spice Girls explicam Foucault - Verdade & Poder




Vídeo realizado por um grupo de alunas de uma Universidade Brasileira. Como usar imagens e desconstruí-las para lhes dar novos e insuspeitos significados. Veja-se AQUI

domingo, maio 28, 2017

Relatório -Debra 11A


PORQUE É A EXISTÊNCIA HUMANA PREFERÍVEL À DE UM SEIXO?

No século dezanove, Shopenhauer, conhecido como o 'filósofo do pessimismo', chamou a atenção para o sofrimento da vida humana: queremos algo que nos falta ou temos aquilo que queremos; mas sofremos de um modo ou de outro - quer com a falta do que queremos, quer com o tédio resultante da falta de querer quando alcançamos o que queremos. (…) Se Shopenhauer tem razão, não será melhor ser um simples seixo, que é imune a estas experiências? Se fôssemos apenas um seixo de uma praia, todas as ondas e agitações da vida (atrevo-me ao gracejo?) seriam levadas pela maré.
Shopenhauer está errado, pelo menos nos pormenores. Em muitas coisas apreciamos simplesmente o prazer da actividade que nos faz esquecer as insatisfações. Como é costume dizer, é melhor a viagem com esperança do que a chegada ao destino.
É um erro pensar que quando mobilizamos os meios para atingir um fim só o fim nos importa, sendo os meios irrelevantes e sem qualquer valor em si mesmos. O nosso objectivo pode ser atingir o topo do monte Evereste, mas isso não significa que o queiramos atingir de qualquer maneira. Queremos escalar a montanha, combater as tempestades de neve, lutar escalada acima. Quando (no meu caso, é melhor dizer 'se') queremos atingir o topo, queremos atingir o nosso objectivo como deve ser. Os feitos medem-se não somente pelos resultados, mas também pelo modo como são conseguidos. Vermo-nos no cume do Evereste largados por um helicóptero ou por ter carregado num botão não teria interesse, a não ser que o feito a atingir fosse ser capaz de pilotar um helicóptero ou construir uma máquina que pudesse levar pessoas do local A para o B premindo apenas um botão.
Shopenhauer terá alguma razão no seu pessimismo, no sentido em que na maior parte das vidas humanas há mais sofrimento do que satisfações. Muitos sofrimentos parecem mais ou menos inevitáveis - mesmo para aqueles que vencem na vida. Perdemos familiares, amigos e amantes; temos consciência da crescente decadência que acompanha a velhice; com toda a probabilidade, viremos um dia a ter, durante anos, experiência directa dessa decadência - e, por fim, do sofrimento de morrer. Temos consciência de que milhões de outras pessoas sofrem, no passado, no presente e no futuro e também do sofrimento dos animais. Além disso, alguns de nós sentem-se apegados a certos objectos - um livro, um vestido, um carro muito amado - chegando por vezes a atribuir-lhes uma vida própria e sofrendo também quando eles entram em colapso. Estas reflexões podem bem levar-nos a concluir que os mais felizes são, por assim dizer, aqueles que nunca chegam a nascer.
* * *
Qual o sentido de tudo isto? Muitos não resistem a fazer esta pergunta. Há fins e propósitos na minha vida - mas qual o fim ou propósito da minha vida?
Alguns respondem explicando que as suas vidas ganham sentido ao ajudarem os seus filhos, ao trabalharem para melhorar a vida dos pobres ou ao abraçarem uma causa política. Mas isto é jogar ao jogo do empurra: qual o sentido de ajudar as crianças ou de abraçar uma causa política? Qualquer que seja a resposta dada, podemos sempre continuar a fazer perguntas similares. Alguns voltam-se para a esperança de uma vida eterna no além, mas também ela não tem mais sentido do que uma vida finita. Se temos motivo para nos questionarmos genuinamente sobre o sentido de uma vida finita, também o teremos para nos questionarmos sobre o sentido de uma vida de duração infinita. Se optarmos pela resposta 'servir a Deus' ou por algo semelhante, devemos perceber que se pode perguntar: e qual o sentido de tal serviço ou da existência de Deus?
Talvez seja melhor começar a pensar que para uma coisa ter valor não precisa de ter um sentido. (…)
As vidas humanas podem ter valor especialmente porque são vidas de seres capazes de atribuir valor e que valorizam certos aspectos do universo, a vida e o viver. É verdade que as vidas acabam; mas será que poderíamos sequer enfrentar a vida eterna? A consciência da morte faz com que muitos de nós se sintam emparedados pela triste e obsessiva melancolia do 'Para quê?' Mas recordemos que pode não haver um sentido acima de todos os sentidos. Tal como as explicações, os propósitos têm de parar algures.
Todas as coisas a que damos valor e que dão sentido às nossas vidas, por mais raras ou pequenas que sejam - as amizades, os amores e as coisas absurdas; as memórias de paixões e olhares correspondidos, mescladas com sons de fundo, que por magia nos cercam e armadilham; as intoxicações dos vinhos e das palavras, os pensamentos e as músicas que teimosamente nos acompanham pelas noites enevoadas e sonolentas; os nossos sentidos revitalizados por águas cintilantes, tão necessárias ao amanhecer; o espectáculo do mar enfurecido pelas ondas, os luares e imagens de mistério e os céus que se alargam obrigando os olhos a acompanhá-los - acabam realmente por deixar de existir. E, curiosamente, as mais encantadoras destas coisas são muitas vezes aquelas em que nos perdemos e deixamos também de ser - no entanto, que elas existem, assim como nós, numa certa fracção de tempo, é uma verdade perene, fora do tempo. Isto é o melhor a que os amantes da eternidade podem aspirar.

Peter Cave, Can A Robot Be Human? 33 Perplexing Philosophy Puzzles (Oxford, 2007, pp. 193-196). Tradução Carlos Marques.

domingo, maio 14, 2017

Mistificação e facto.



 Alex McLean


Lá fora ouvem-se foguetes e as buzinas não páram de tocar. Hoje treze de Maio parece-me que foi mesmo o dia do milagre, os Pastorinhos tiveram a sua confirmação de santidade, e a prova está à vista, ganhámos o festival eurovisão da canção depois de cinquenta anos sempre nos últimos lugares!  Enchem-se praças de futebol e fé,  estamos em plena exacerbação emocional nacionalista. Ninguém se moveria assim por um presidente ou um chefe de Estado, nosso, eleito. A política está sentada numa cadeira pequenina, no trono parece estar o futebol e a religião. Lembro-me de Marx, mas não ouso...ouso, sim, aqui vai Marx, para encontrar um equilíbrio entre a mistificação e a realidade dos factos.



"É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião; a religião não faz o homem. E a religião é, de facto, a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou ainda não se conquistou ou voltou a perder-se. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantasmal da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é indiretamente a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.

A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o âmago de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que eles deixem as ilusões a respeito da sua situação é o apelo para abandonarem uma situação que precisa de ilusões . A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. A crítica colheu nas cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem fantasia ou sem consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que ele pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e recuperou o entendimento, a fim de que ele gire à volta de si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não gira à volta de si mesmo.

Por isso, a tarefa da história , depois que o além da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade do aquém. A imediata Tarefa da filosofia , que está ao serviço da história, é desmascarar a autoalienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma- se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, a crítica da teologia em crítica da política."



Se a luta política e a sociedade ideal revelou-se, quando experimentada, tirânica e profundamente injusta, a sociedade cristã católica nunca poderá ser testada na história porque abdicou há muito de ser histórica, é como uma esperança infinita, nunca desilude pois a sua forma não pode ser testada. Esta esperança infinita pode coexistir com a miséria dos factos e ser por eles alimentada num procedimento natural de fuga que por ser de algum modo maniqueísta é condescendente com a miséria dos factos. Alimenta-se essa esperança infinita de foclore e demagogia que se vai metamorfoseando para falar a linguagem do seu tempo. É certo que precisamos de foclore e demagogia para que as desigualdades e injustiças não sejam tão aquilo que verdadeiramente são, um filme de terror difícil de aguentar.


Karl Marx, Para a crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 
Tradução de Artur Mourão