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terça-feira, janeiro 22, 2008

NÃO BASTA CRER PARA CONHECER

Joseph Koudelka, Carnaval em Olomouc, Checoslováquia, 1968

Tipos de Conhecimento
No quotidiano (…) falamos acerca do “conhecimento” de coisas. Dizemos também que certas crenças estão “fortemente apoiadas por provas”; que elas estão “justificadas” ou “bem confirmadas”.(…)
A epistemologia tenta avaliar a ideia do senso comum de que possuímos (frequentemente, senão sempre) realmente conhecimento e que as crenças que temos estão (frequentemente, senão sempre) racionalmente justificadas. Alguns filósofos tentaram defender com argumentação filosófica estas ideias do senso comum. Outros desenvolveram uma posição filosófica que nega estas ideias do senso comum. Um filósofo que sustenta que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, está a defender uma versão de cepticismo filosófico. (…)

Três tipos de conhecimento
Antes de perguntar-mos a nós mesmos se conhecemos alguma coisa, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Para focar ideias, quero distinguir três diferentes sentidos em que podemos falar de conhecimento. (…)
Considere-se a diferença entre as declarações seguintes, relativas a um sujeito, a quem chamarei S (o sujeito):

(1) S sabe andar de bicicleta.
(2) S conhece o Presidente dos Estados Unidos.
(3) S sabe que as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte.

Chamo conhecimento proposicional ao tipo de conhecimento apresentado em (3). Note-se que o objecto do verbo em (3) é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — as Montanhas Rochosas ficam na América do Norte — e (3) afirma que S sabe que essa proposição é verdadeira. As frases (1) e (2) não têm esta estrutura. O objecto do verbo em (2) não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo tipo de conhecimento estaria envolvido se eu dissesse que S conhece Chicago. A afirmação (2) diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso, direi que (2) descreve uma instância de conhecimento por contacto.(…)
Consideremos agora o tipo de conhecimento descrito na afirmação (1). Chamar-lhe-ei conhecimento de saber fazer. Que significa dizer que sabemos fazer qualquer coisa? Penso que esta ideia tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. O meu filho Aaron sabia andar de bicicleta aos cinco anos. Isso significa que ele tinha certas aptidões – sabia como manter o equilíbrio, como pedalar, e por aí fora. Se perguntar a um físico para descrever o que Aaron fazia para poder andar na bicicleta, ele poderia pôr por escrito um conjunto de proposições. Estabeleceria factos acerca da gravidade, do movimento para a frente, do equilíbrio de forças. Porém, Aaron, com a idade de cinco anos, não era um físico. Não conhecia as proposições que o físico especifica. Aaron obedece aos princípios que o físico descreve – o seu comportamento está em conformidade com o que aqueles dizem. Mas não o faz aprendendo as proposições em questão. Aaron possui um conhecimento de saber-fazer, mas pouco conhecimento do tipo proposicional. Conversamente, um físico que tem um conhecimento detalhado dos princípios físicos que descrevem como se deve andar de bicicleta pode, não obstante, não saber como andar de bicicleta. (…) Não necessitamos de conhecimento proposicional para saber executar uma tarefa, nem ele é suficiente para tal.

Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade
Devemos fazer notar desde já duas ideias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, se S sabe que p, então tem de acreditar que p. Segundo, se S sabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. (…)
A segunda ideia requer alguma explicação. As pessoas dizem às vezes que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Ora, isto não quer dizer que sabem coisas que são falsas, mas que pensavam que sabiam coisas que, de facto, se revelaram falsas.
O conhecimento tem um lado subjectivo e um lado objectivo. Um facto é objectivo se a sua verdade não depende da mente das pessoas. É um facto objectivo que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar. Por outro lado, um facto é subjectivo se não é objectivo. O exemplo mais óbvio de um facto subjectivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém. Se uma pessoa acredita ou não que as montanhas rochosas estão a 3000 metros acima do nível do mar é uma questão subjectiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objectiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjectivo como um elemento objectivo. Para que S conheça p, p tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que p é verdadeira.

Elliott Sober, Core Questions in Philosophy (New York, 1991). Trad. Carlos Marques.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Três perspectivas sobre a Filosofia.

Cindy Sherman, 1978

Acabei de descrever um "menu" de cinco problemas filosóficos centrais: Deus, o conhecimento, a mente, a liberdade e a Ética. O que faz de todos eles problemas filosóficos?Em vez de dar exemplos, podemos dizer algo de mais geral e completo acerca do que distingue a Filosofia de outras áreas de investigação? Vou apresentar três teorias acerca do que é característico de pelo menos alguns problemas filosóficos.
Muitos dos problemas que acabei de descrever, envolvem questões fundamentais de justificação. Há muitas coisas nas quais acreditamos sem hesitação ou reflexão. Estas crenças que são como que uma segunda natureza, chamam-se por vezes "senso-comum". O senso-comum diz que os sentidos (visão, audição, tacto, paladar, olfacto) nos dão conhecimento do mundo em que habitamos. O senso-comum também diz que as pessoas agem frequentemente com base no "seu livre-arbítrio". O senso-comum sustenta ainda que algumas acções são correctas e outras não. A Filosofia examina os pressupostos fundamentais que temos acerca de nós mesmos e do mundo em que habitamos e procura determinar se esses pressupostos são racionalmente defensáveis.
Outra característica de muitas questões filosóficas é que elas são muito gerais. Relativamente ao problema do conhecimento não estamos a perguntar se os seres humanos sabem quão velha é a crosta terrestre ou porque sobe a inflação. Estas questões acerca do conhecimento são específicas da geologia e da economia. Em vez disso, o filósofo quer saber se os seres humanos sabem alguma coisa.
(...)
A terceira perspectiva acerca do que é a filosofia sustenta que esta é um esforço de clarificação de conceitos. Considere-se questões filosóficas características como as seguintes: O que é o conhecimento? O que é a liberdade? O que é a justiça? Cada um desses conceitos aplica-se a certas coisas mas não a outras. O que têm em comum as coisas subsumidas pelo conceito e em que medida se distinguem das que estão dele excluídas?

Elliott Sober, Core questions in philosophy. A text with readings (New York, 1991). Tradução de Carlos Marques.