segunda-feira, setembro 28, 2026

Existirá um conhecimento "a priori"?

 



Retire um livro retangular da sua estante e olhe para a capa. Qual é a cor predominante, e quantos lados tem? Ao responder a estas questões, o leitor fica a saber duas coisas acerca deste livro, e esses dois factos mostram uma importante distinção entre duas maneiras que temos de adquirir conhecimento.

Para ficarmos a saber a cor do livro temos que observá-lo (ou pedir a alguém que o faça por nós). A justificação para a sua crença acerca da sua cor é fornecida pela experiência (nossa ou de outrem). Mas não precisamos de olhar para um livro retangular para sabermos quantos lados tem. Sabemos que os retângulos têm quatro lados pelo simples facto de pensarmos o que é um retângulo. Adquirimos este conhecimento usando apenas os nossas poderes de raciocínio; não temos de considerar a informação dada pelos nossos sentidos. O conhecimento que é justificado pela experiência é denominado conhecimento a posteriori ou conhecimento empírico. O conhecimento em que a experiência não tem um papel justificatório é denominado conhecimento a priori.



Dan O'Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento

terça-feira, setembro 08, 2026

O crime da liberdade


Acusação feita pelo grande inquisidor a Jesus, num dado momento em que este voltou à terra e é preso por crimes contra a humanidade. in Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski.

"    Porque o mistério da existência humana não consiste em viver por viver, mas ter um sentido de vida. Sem uma noção firme do objetivo da vida, o homem não consentirá em viver e antes se eliminará a si mesmo do que continuará na Terra, mesmo que tenha à volta dele muitos pães. É assim que se passam as coisas, mas o que aconteceu? Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade! Esqueceste-Te que a tranquilidade e até a morte são mais queridas para o homem do que a escolha livre no conhecimento do bem e do mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada mais torturante.Então, em vez dos fundamentos sólidos para a tranquilização da consciência humana de uma vez por todas, preferiste tudo o que há de mais extraordinário, incerto e indefenido, tudo o que está fora das capacidades das pessoas e, ao procederes assim, procedeste como quem não as ama... E quem fez isso? Aquele que veio para dar por elas a sua vida! Em vez de Te apoderares da liberdade humana, multiplicas-te-a e sobrecarregaste para sempre o reino espiritual do homem com os sofrimentos que da liberdade provêm. Desejaste o amor livre do homem, para que ele Te seguisse livremente, encantado e cativado por Ti. Em vez da sólida lei antiga, o homem, a partir de então, teve de decidir com o seu coração livre o que é o bem e o que é o mal, tendo como guia apenas a Tua imagem diante dele. "

Fiódor Dostoiévski, Os irmãos Karamázov, tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra, Lx, Presença,, 2021, p. 322