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terça-feira, julho 16, 2024

Crónicas da escola.



Foto Dorothea Lange, EUA, (1895–1965)

 Nos jornais em tom de notícia de última hora, os rankings das escolas deste ano.  Assim sai o título, de facto dia 12 de julho, a data deste acontecimento, as provas de exame do secundário já tinham sido corrigidas e esperavam-se os resultados na próxima segunda feira. O comum dos mortais pensaria, como eu pensei, que os jornais estão a publicar, em primeira mão, os resultados dos exames deste ano. Faria sentido apesar de ser estranho que tenham acedido aos resultados antes das próprias escolas, mas no seguimento cronológico dos acontecimentos, poderíamos pensar que sim, eram os resultados desse ano. Engano! São os resultados do ano passado, que se publicam numa altura em que está no ar a expectativa acerca dos resultados deste ano; a baralhação é o trunfo destas notícias, querem fazer-nos pensar que hierarquia das escolas corresponde a este ano, e sendo agora altura de matrículas, segue-se uma equação simples; os pais quererão inscrever os seus filhos e educandos numa boa escola, isto é, numa escola bem classificada do ranking e as melhores são os colégios privados...vai já um telefonema para marcar uma vaga...isto é, claro! para quem tem dinheiro para pagar, se não há dinheiro, não há alternativa, têm que ficar na escola Pública. Conclusão: Os rankings, pelo momento escolhido, para a sua publicação, fazem uma descarada publicidade ao Ensino Privado e segunda conclusão, vinculam a ideia de que os ricos têm melhor educação que os pobres. Os rankings ajudam a tornar visível o fosso social entre ricos e pobres, os ricos têm acesso às melhores escolas e os pobres não podem escolher, têm que ficar com o que resta. É um facto. A educação de qualidade paga-se, pelo seguro, não arrisque, pague, será melhor servido.

Para começar, melhores classificações de exames não são os únicos indicadores de melhor educação, são um indicador, há outros. A escola pública deve pensar com os rankings e aprender com alguns aspetos que funcionam melhor nos colégios privados.

Como professora da escola pública este ano tive problemas com um aluno que me mandou para aqueles sítios que me envergonho de dizer, o aluno continuou a ser meu aluno, não pediu desculpa, continuou a insultar á boca pequena, para o ar, fiz queixas e nada aconteceu, entretanto este aluno já tinha ameaçado outros professores e estragado material da escola com murros e pontapés, continua sem que nada lhe aconteça. A liberdade da escola pública, e o ensino para a liberdade, que é, sem dúvida algo que deve ser preservado, tem, nestes exemplos o seu contraditório. Uma liberdade efetiva não permite nunca a violação de direitos essenciais, não pode haver liberdade sem a defesa dos direitos de todos os membros da comunidade escolar, considero que os meus direitos não foram defendidos pela instituição e que se dá maus exemplos de liberdade quando se tomam estas atitudes institucionais. Aqui o colégio privado está melhor, o aluno que insulta um professor tem um processo disciplinar e é expulso da escola. Um dos problemas da escola pública é, parece-me, o problema de não sancionar maus comportamentos e confundir liberdade com direito a cada um fazer o que quiser, não cuidando assim da educação, pois dissemina maus exemplos, nem do professor porque não defende os seus direitos, nem do aluno porque lhe permite comportamentos abusivos. Enquanto este tipo de actuação não mudar, continuaremos a ter falta de professores, pois não é apenas o salário que desmotiva, é sobretudo este chão armadilhado que se dá como tarefa ao professor, esta falta de soluções para preservar os seus direitos, sem a preservação integral e inequívoca dos direitos dos professores, poucos serão aqueles que querem abraçar esta profissão e muito pouco se poderá melhorar no ensino.

Helena Serrão


terça-feira, março 15, 2016

Escola



Os jovens portugueses não gostam muito de Escola, consideram as aulas aborrecidas. Tal é a conclusão de um estudo sobre a adolescência da OMS (VEJA-SE AQUI). Parece-me haver um nó neste estudo, uma contradição natural e prolongada, na reflexão sobre a Escola e as aulas. Consiste esse nó em, por um lado, considerarmos que se tem de gostar para aprender e, por outro, em considerar que aprender requer esforço e nem todos gostam, aliás só alguns (poucos) gostam, a maioria não gosta. A questão parece-me que aponta para dois tipos de ensino: aquele que deve agradar à maioria que não gosta muito de se esforçar nem tem capacidade ou quer aprender coisas complicadas, e tem portanto de ser seduzida de uma forma lúdica para aprender; e um outro ensino para aqueles que são capazes de se esforçar e de estudar mesmo que as matérias não lhes agradem porque querem progredir, querem conhecer, querem ultrapassar obstáculos. Não há volta a dar, um ensino exigente não é compatível como um ensino lúdico, não pode agradar à maioria dos alunos, mas isso não quer necessariamente dizer que se tenha de abandonar a exigência em prol do gosto da maioria, esse é, penso, o perigo que corre a escola pública. Vejo então este estudo como uma insinuação (pouco clara) de que aqui em Portugal estejamos no "mau caminho" quando, na minha opinião, este estudo indica antes que mantemos um certo rigor, que se vai perdendo no ensino público onde está a larga maioria dos adolescentes portugueses. Concluindo. Apesar do que se diz na Suécia e no modelo nórdico idolatrado, nós aqui no sul não somos comparáveis, os adolescentes acharem as aulas aborrecidas não é uma descoberta, como o estudo quer fazer passar, mas um sintoma da própria adolescência no confronto com a exigência do estudo, perder essa exigência e esse confronto é, parece-me, desistir de educar.
Helena Serrão