segunda-feira, julho 31, 2017

Amor-de-si versus Amor-próprio


Burt Glinn, Chicago 1968



As nossas paixões naturais estão muito bem delineadas; elas são o instrumento da nossa liberdade, elas tendem a conservar-nos. Todas aquelas paixões que nos subjugam e nos destroem vêm-nos de fora; não é a natureza que as dá mas apropriamo-nos delas para seu prejuízo.
A fonte das nossas paixões, a origem e princípio de todas as outras paixões, a única que nasce com o homem e que nunca o abandona enquanto ele viver, é o amor-de-si: paixão primitiva, inata, anterior a qualquer outra, e da qual todas as outras são, num certo sentido, suas modificações. Neste sentido, todas são, se quisermos, naturais. Mas a maior parte destas paixões tem causas estrangeiras sem as quais nunca existiriam: e estas modificações longe de nos serem vantajosas, são-nos prejudiciais; alteram o primeiro objeto e vão contra o seu princípio: é assim que o homem se descobre fora da natureza, e inicia a contradição consigo mesmo.
O amor de si é sempre bom, e sempre conforme com à ordem. Cada um estando encarregue especialmente da sua própria conservação, tem e deve ter como primeiro e mais importante dos seus cuidados vigiá-la constantemente: e como a poderia vigiar deste modo se não a tomasse como o seu maior interesse?
Devemos portanto amar-nos para nos conservarmos, devemos amar-nos mais que a qualquer outra coisa; e, na sucessão imediata do mesmo sentimento, amamos o que nos conserva. A criança liga-se ao seu alimento: Rómulo devia-se ligar à loba que o aleitou. No princípio essa ligação é puramente maquinal. O que promove o bem-estar de um indivíduo atrai-o. O que lhe causa dano causa-lhe repulsa. O que transforma esse instinto em sentimento, a ligação em amor, a aversão em ódio, é a intenção manifestada de nos alimentarem e de nos serem úteis. Não nos apaixonamos por seres insensíveis que apenas seguem o impulso que lhes dão: mas aqueles do qual esperamos o bem ou mal pela sua disposição interior, pela sua vontade, aqueles que vemos agir livremente a favor ou contra, inspiram-nos sentimentos semelhantes aos que nos demonstram. O que nos serve, procuramo-lo, mas o que nos quer servir, amamo-lo. Fugimos do que nos causa dano: mas daquele que nos quer causar mal, odiamo-lo.
O primeiro sentimento de uma criança é de se amar a si mesma; e o segundo que deriva do primeiro, é amar aqueles que dela se aproximam; dado que no estado de fraqueza em que se encontra reconhece as pessoas pelos cuidados que lhe proporcionam. (…)
Uma criança é naturalmente dada à bondade porque vê que todos os que se aproximam são prestáveis, a partir dessa observação habitua-se a ter um sentimento favorável aos da sua espécie; mas à medida que alarga as suas relações, as suas necessidades, as suas dependências ativas ou passivas, o sentimento das suas relações com os outros, desperta, e produz sentimentos de dever e preferência. Então a criança torna-se dominadora, invejosa, falsa, reivindicativa. Se a vergamos à obediência, não vendo nenhuma utilidade no que lhe ordenamos, atribui ao capricho a intenção de a atormentar, e amotina-se. Mas se lhe obedecemos, quando qualquer coisa lhe resiste, vê nesse gesto uma rebelião, uma intenção de lhe resistir, bate na mesa ou na cadeira por lhe terem desobedecido. O amor-de -si , que tem apenas a ver connosco, fica contente quando as nossas verdadeiras necessidades são satisfeitas; mas o amor-próprio, que se compara, não está nunca contente e nunca estará, porque este sentimento de nos preferirmos aos outros exige que os outros nos prefiram a si próprios; o que é impossível. Vemos então como paixões doces e afetuosas nascem do amor-de-si, e como as paixões odiosas e irascíveis nascem do amor-próprio.

Jean- Jacques Rousseau, Émile ou de L'Education, Flammarion, Paris,1966, p. 275,276,277


Tradução Helena Serrão

segunda-feira, julho 17, 2017

Da dúvida




                                                Imagem: Laura Knight, Dark pool, 1908

Estava naquele estado de espírito de incerteza e de dúvida que Descartes exige para a procura da verdade. Este estado não é feito para durar, é inquietante e penoso; deixa-nos apenas o interesse do vício e a preguiça na alma. Não tinha o coração tão corrompido para aí me comprazer; e nada preserva melhor o hábito de refletir que estar mais satisfeito consigo do que com o seu destino.

Meditava então na triste sorte dos mortais flutuando sobre um mar de opiniões humanas, sem governo, sem bússola, e entregues às suas tempestuosas paixões, sem outro guia que um piloto inexperiente que conhece mal a sua rota, e que não sabe nem de onde vem nem para onde vai. Dizia a mim próprio: Amo a verdade, procuro-a, e não posso reconhecê-la; que ma mostrem e ficarei a ela ligado: porque será preciso que ela seja roubada à espontaneidade de um coração feito para a adorar?

Apesar de ter provado muitas vezes grandes males, nunca levei uma vida tão desagradável como nesse tempo de desordem e ansiedade, onde, sem cessar, errando de dúvida em dúvida, só retirava, das minhas longas meditações, incerteza, obscuridade, contradições sobre a causa do meu ser e sobre a regulação dos meus deveres.

Como poderemos ser sistematicamente céticos e estar de boa fé? Não podia compreendê-lo. Estes filósofos, ou não existem, ou são os mais infelizes dos homens. A dúvida sobre as coisas que nos importam conhecer é um estado demasiado violento para o espírito humano: ele não resiste aí muito tempo; decide-se, apesar de tudo, de um modo ou de outro, e prefere enganar-se a não crer em nada.

O que redobrava o meu embaraço, era que tendo nascido numa Igreja que tudo decide, que não permite nenhuma dúvida, um único ponto rejeitado fazia-me rejeitar tudo o resto, e que a impossibilidade de admitir tantas decisões absurdas separava-me também das que não o eram. Ao dizer-me: Crê em tudo, impediam-me de crer em alguma coisa, e eu já não sabia onde me deter.

Consultei os filósofos, folheei os seus livros, examinei a sua diferentes opiniões; pareceram-me todos orgulhosos, afirmativos, dogmáticos, mesmo pretendendo ser céticos, não ignorando nada, não provando nada, troçando uns dos outros; e este ponto comum a todos pareceu-me o único onde todos tinham razão. Triunfantes quando atacavam, não tinham qualquer vigor quando se defendiam. Se pensarmos nas razões, só as têm para destruir; se contarmos as vozes, cada um está reduzido à sua; só entram em acordo para se disputarem; escutá-los não era a forma de sair da minha incerteza.

Conclui que a insuficiência do espírito é a primeira causa desta prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho é a segunda.(…)

Quando os filósofos estiverem em estado de descobrir a verdade, quantos terão interesse nela? Cada um sabe bem que o seu sistema não está melhor fundamentado que o dos outros; mas mantém-no porque é o seu sistema. Não há um único que chegando ao conhecimento do verdadeiro e do falso, não prefira a mentira que descobriu à verdade descoberta por um outro.  Onde está o filósofo que pela sua glória não enganaria voluntariamente o género humano? Onde está aquele que , no segredo do seu coração, tem outro objetivo senão distinguir-se? Desde que se eleve por cima da vulgaridade, desde que apague o efeito dos seus concorrentes, que quer mais? O essencial é pensar de modo diferente dos outros. Para o crente é ateu, para o ateu será crente.


Jean-Jacques Rousseau, L’Émile ou de l’éducation, Flammarion,1966, Paris pág.347 e348


Editado pela primeira vez em 1762, na Holanda, condenado e proibido em França de onde o autor teve de fugir.

Tradução: Helena Serrão