quarta-feira, outubro 21, 2026

É preciso renovar o contrato social


Diego Rivera, The Marriage of the Artistic Expression of the North and of the South on This Continent, also known as Pan American Unity, 1940; courtesy City College of San Francisco


"Os compromissos que nos ligam ao corpo social são obrigatórios apenas porque são mútuos, e a sua natureza é tal que, ao cumpri-los, não se pode trabalhar para os outros sem trabalhar também para si próprio. Porque é que a vontade geral é sempre justa, e porque é que todos desejam constantemente a felicidade de cada um, senão porque não há ninguém que não se aproprie da palavra "cada um", e que não sonhe votar por todos? Isto demonstra que a igualdade perante a lei e a noção de justiça que ela produz derivam da preferência que cada um atribui a si próprio e, consequentemente, da natureza humana; que a vontade geral, para ser verdadeiramente tal, deve sê-lo tanto no seu objecto como na sua essência, devendo ser aplicada a todos por todos, e que perde a sua rectidão natural quando tende para algum objectivo individual e definido; pois, então, julgando o que nos é estranho, não temos um verdadeiro princípio de equidade para nos guiar.

De facto, logo que surge um facto ou direito particular sobre um ponto que não foi resolvido por um acordo geral e prévio, a questão torna-se contenciosa. É um processo em que os interesses privados são uma das partes e os públicos a outra, mas onde não vejo nem a lei a seguir nem o juiz a pronunciar-se. Seria ridículo, então, querer referir-se a uma decisão expressa da vontade geral, que só pode ser a conclusão de uma das partes e que, consequentemente, é para a outra apenas uma vontade particular e alheia, levada, nesta ocasião, à injustiça e à rejeição injusta. Assim como uma vontade particular não pode representar a vontade geral, a vontade geral, por sua vez, altera a natureza tendo um objetivo particular e, como geral, não pode pronunciar-se nem sobre um homem nem sobre um facto. Quando o povo de Atenas, por exemplo, nomeia ou destitui os seus chefes, concede honras a um, impõe penas a outro e, através de inúmeros decretos particulares, exerce indiscriminadamente todos os atos de governo, o povo deixa de exercer a sua vontade própria; deixa de agir como soberano e passa a agir como magistrado. Isto parece contrário às ideias comuns, mas devo permitir-me tempo para expor a minha.

Deve conceber-se, pois, que o que generaliza a vontade é menos o número de vozes do que o interesse comum que as une: pois, nesta instituição, cada um submete-se necessariamente às condições que impõe aos outros; a admirável concordância de interesses e de justiça confere às deliberações comuns um carácter de equidade que se vê desaparecer na discussão de qualquer caso particular; a falta de um interesse comum que una e identifique a regra do juiz com a da parte.

Qualquer que seja o caminho que percorramos desde o início, chegamos sempre à mesma conclusão: o pacto social estabelece entre os cidadãos uma igualdade tal que todos estão vinculados pelas mesmas condições e devem gozar dos mesmos direitos. Assim, pela natureza do pacto, todo o ato de soberania, isto é, todo o ato autêntico da vontade geral, obriga ou favorece igualmente todos os cidadãos, de tal modo que o Soberano conhece apenas o corpo da nação e não distingue nenhum dos seus membros. O que é, então, um ato de soberania? Não se trata de um acordo do superior com o inferior, mas de um acordo do corpo com cada um dos seus membros: acordo legítimo, porque se baseia no contrato social; equitativo, porque é comum a todos; útil, porque só pode servir o bem; sólido e firme, porque tem de garantir a força pública e o poder supremo. Enquanto os súbditos estiverem sujeitos apenas a tais convenções, não obedecerão a mais ninguém para além da sua própria vontade. E perguntar até que ponto se estendem os respectivos direitos do Soberano e dos Cidadãos é perguntar até que ponto estes se podem comprometer, cada um para com todos e todos para com cada um deles."

Jean-jacques Rousseau, Du contrat social, Livro 2, CapítuloIV

Tradução Google com acertos.


Na democracia, o contrato social é vinculativo e a vontade geral pode demitir o governo. A vontade do soberano (governo) expressa a vontade geral , somos um só corpo, governo e população, um Estado uno. Trabalhar para si é trabalhar para todos e vice versa, esta visão comunitarista deve ser indissociável da democracia mas, a economia de mercado, o capitalismo, concorre contra esta ideia porque gera um feroz individualismo. Estado e indivíduo podem competir e competem, muito do trabalho do indivíduo para o estado é oportunista e não verdadeiramente comunitário ou igualitário. Burlamo-nos, esquecemo-nos que o Estado somos todos e sabotamo-nos continuamente, com greves oportunistas, baixas fraudulentas, por um lado e, por outro, uma economia de mercado sem lei, um compadrio de interesses e gestões negligentes do património estatal benificiando quem governa e utiliza esse poder para se favorecer. O divórcio está instalado, a falta de espírito comunitário vai-se tranquilamente juntificando com "Todos fazem o mesmo" e as economias democráticas estão a ficar fraquinhas e a ser facilmente ultrapassadas por economias onde os direitos de quem trabalha e a vontade popular são quimeras idealistas sem sentido e onde funciona um Estado de chicote que tem legitimidade, ou acha que tem, de impor as suas leis para alimentar a produtividade e fortalecer o Estado. HS


terça-feira, outubro 13, 2026

Surpreendente!

 




Anne Carson, Nobel da Literatura 2026



O Small Sad Ecstasy of Love



"I like being with you all night with closed eyes.

What luck—here you are

coming

along the stars!

I did a road trip

all over my mind and heart

and

there you were

kneeling by the roadside

with your little toolkit

fixing something.

Give me a world, you have taken the world I was."


Copyright © 2020 by Anne Carson. Originally published in Poem-a-Day on December 10, 2020, by the Academy of American Poets.



A pequena e triste alegria do amor

"Gosto de estar contigo a noite toda de olhos fechados.

Que sorte — aqui estás tu

vindo

de entre as estrelas!

Eu estava a viajar de carro

com a mente e o coração tomados pela emoção

e

lá estavas tu

ajoelhado à beira da estrada

com o teu pequeno kit de ferramentas

arranjando alguma coisa.

Dá-me um mundo, levaste o mundo que eu era"


Tradução Google com acertos

A poesia surpreende sempre, mesmo que achemos, como eu acho, que já nada há de tão inovador que ainda cause um pequeno, minúsculo ou fremente calafrio. Aqui está! Se a li distraída, agora leio mais atenta e sim, maravilho-me. Um prémio como o Nobel colapsa sobre a nossa cabeça idiota e põe-nos aos saltinhos a caminho das livrarias, à procura de um pouco do ouro que ele descobriu. Seja como for, não, ainda não vimos nada, essa a conclusão que ler os seus poemas me faz pensar. É claro, poder explicar estas sensações e pensamentos fica pobre perante o desafio incandescente da leitura de alguns poemas mas, posso tentar, parece-me que as suas palavras embrulham a realidade numa outra cor, que não é outra, é mesmo a cor que a desnuda ou expressa de forma surpreendente mas, reconhecemos, justa! O amor, sendo algo de outro mundo é também muito real, e pode descrever-se com pequenos gestos, sensações ou imagens recorrentes de mundos não tradicionalmente associados ao amor, daquele onde cada um habita e é simultaneamente pessoal e universal, isto tudo está em nós sempre quando sentimos, quando falamos, quando pensamos e está no pequeno edifício da sua poesia. HS

terça-feira, outubro 06, 2026

Será que a realidade que represento corresponde à realidade exterior à minha mente?


"Naturalmente, convenço-me da existência do mundo exterior. Logo que abro as janelas, vejo o céu e as árvores, sinto o calor o Sol na minha pele, oiço o canto dos pássaros e a chaleira do meu vizinho. Sei, de modo evidente, que as coisas existem. O mundo está ali, à minha frente, à minha espera. Posso comprar um bilhete de avião para Nova Iorque, Viena ou Dacar. Posso cruzar os oceanos, caminhar pelo campo e nas cidades. Posso aperceber-me dos objetos que me rodeiam a qualquer momento.

Por exemplo, este ramo de rosas que tenho debaixo de olho, como poderia ele não existir, uma vez que o vejo? É formado por uma dúzia de rosas de um vermelho-carmim que exalam um perfume suave entontecedor. As hastes, de um belo verde claro, são duras e revestidas de pinhos pontiagudos, de modo a fazer sangue logo que ponho o dedo num deles. No preciso instante em que escrevo estas linhas, apercebo-me que estou a descrever o ramo de rosas que se encontra realmente na minha mesa de trabalho. Tenho a impressão de uma correspondência total entre o ramo de rosas que acabo de descrever e o ramo de rosas tal qual ele é. Ao mesmo tempo que me convenço disto, reparo numa joaninha minúscula que se move por entre as flores. A acreditar nisso, as suas perceções, se é que ela percebe alguma coisa, são francamente distintas das minha. A simples diferença de escala, para não falar da diferença entre os nossos órgãos sensoriais e a nossa constituição interna, faz com que, aos seus olhos, este ramo pareça uma floresta. (…)

Contrariamente ao que pensava até agora, apercebo-me de que uma descrição depende necessariamente do observador e das condições materiais da observação, não permitindo nunca captar as coisas tal qual elas são em si mesmas. (…)

Contudo, (…) se eu pedir a um amigo que descreva este ramo de rosas, a sua descrição será, provavelmente, muito próxima da minha. (…). O problema é que o recurso a terceiros não fornece as garantias necessárias. (…)

O canal que me permite aceder às criaturas e o que me permite apreender as coisas, é o mesmo. Daí podermos concluir que este ramo de rosas e todos aqueles que pretendem afirmar a sua existência não existem enquanto tais, mas que se resumem a imagens ou representações do meu espírito”

Stéphane Ferret, Aprender com as coisas, Lx, 2007, Asa, p.21,22