"Naturalmente, convenço-me da existência do mundo exterior. Logo que abro as janelas, vejo o céu e as árvores, sinto o calor o Sol na minha pele, oiço o canto dos pássaros e a chaleira do meu vizinho. Sei, de modo evidente, que as coisas existem. O mundo está ali, à minha frente, à minha espera. Posso comprar um bilhete de avião para Nova Iorque, Viena ou Dacar. Posso cruzar os oceanos, caminhar pelo campo e nas cidades. Posso aperceber-me dos objetos que me rodeiam a qualquer momento.
Por exemplo, este ramo de rosas que tenho debaixo de olho,
como poderia ele não existir, uma vez que o vejo? É formado por uma dúzia de
rosas de um vermelho-carmim que exalam um perfume suave entontecedor. As
hastes, de um belo verde claro, são duras e revestidas de pinhos pontiagudos,
de modo a fazer sangue logo que ponho o dedo num deles. No preciso instante em
que escrevo estas linhas, apercebo-me que estou a descrever o ramo de rosas que
se encontra realmente na minha mesa de trabalho. Tenho a impressão de uma
correspondência total entre o ramo de rosas que acabo de descrever e o ramo de
rosas tal qual ele é. Ao mesmo tempo que me convenço disto, reparo numa
joaninha minúscula que se move por entre as flores. A acreditar nisso, as suas
perceções, se é que ela percebe alguma coisa, são francamente distintas das
minha. A simples diferença de escala, para não falar da diferença entre os
nossos órgãos sensoriais e a nossa constituição interna, faz com que, aos seus
olhos, este ramo pareça uma floresta. (…)
Contrariamente ao que pensava até agora, apercebo-me de que
uma descrição depende necessariamente do observador e das condições materiais
da observação, não permitindo nunca captar as coisas tal qual elas são em si
mesmas. (…)
Contudo, (…) se eu pedir a um amigo que descreva este ramo
de rosas, a sua descrição será, provavelmente, muito próxima da minha. (…). O
problema é que o recurso a terceiros não fornece as garantias necessárias. (…)
O canal que me permite aceder às criaturas e o que me
permite apreender as coisas, é o mesmo. Daí podermos concluir que este ramo de
rosas e todos aqueles que pretendem afirmar a sua existência não existem
enquanto tais, mas que se resumem a imagens ou representações do meu espírito”
Stéphane Ferret, Aprender com as coisas, Lx, 2007, Asa, p.21,22

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