A intenção da Escritura não é ensinar coisas respeitantes ao saber; podemos facilmente concluir isto, vendo que ela não exige dos homens senão uma obediência, condenando a rebelião, mas não a ignorância…Os homens não são dirigidos por um mandamento para conhecer os atributos de Deus; pelo contrário, entre os fiéis, não há senão alguns a quem esse privilégio é concedido; e esta tese encontra muitos exemplos nas Escrituras; quem não vê, com efeito, que o conhecimento divino não foi igual em todos os fiéis? E que ninguém pode ser sábio por mandamento, não mais do que viver ou ser? Os homens, as mulheres, as crianças, todos na verdade, podem igualmente obedecer, mas não serem sábios. Se dizemos que não é necessário compreender os atributos de Deus mas, acreditar nisso com toda a simplicidade e sem demonstração, está-se em pleno sonho: porque as coisas invisíveis, e que não são senão objeto do espírito, não podem ver-se sobre outra perspetiva para além da demonstração; razão por que o que não a possui não vê absolutamente nada dessas coisas…
O conhecimento intelectual de Deus considera a natureza divina, tal como ela é em si, e os homens não podem imitá-la, numa regra determinada de vida, nem tomá-la como exemplo: este conhecimento não diz respeito, de maneira nenhuma, à instituição de uma verdadeira regra de vida, a uma crença e a uma religião revelada; por consequência, os homens podem, sem estar em falta, errar grandemente nesse domínio. Não é de espantar que Deus fosse adaptado às imaginações e prejuízos dos profetas, e que os fiéis tenham recebido de bom grado, opiniões diversas de Deus. Não é de espantar que os livros sagrados falem tão inapropriadamente de Deus, que lhe atribuam pés, olhos, orelhas, espírito, um movimento local, e seguidamente movimentos da alma, de tal forma que ele seria ciumento, misericordioso, etc, e enfim pintam-no como um juiz, sentando-se nos céus sobre um trono real, com Cristo à sua direita. Porque se exprime segundo o alcance do vulgar, e a Escritura não se aplica a torná-lo sábio, mas obediente. Quando, portanto, os teólogos se puderam aperceber naturalmente de que algumas dessas características não convinham à natureza divina, pretenderam que fosse necessário interpretá-lo de forma metafórica (…). Mas se tudo o que se encontra, desse género, na Escritura devesse necessariamente ser interpretado e compreendido de forma metafórica, então a Escritura não teria sido feita pelo povo e massa inculta, mas somente pelos sábios e principalmente pelos filósofos. Na verdade, se fosse uma coisa ímpia, pôr toda a sua piedade e simplicidade de alma a acreditar no que acabámos de referir sobre Deus, os Profetas deviam guardar-se com maior cuidado de empregar tais expressões devido à fraqueza de espírito do vulgar, e, pelo contrário, ensinar os atributos de Deus sem ambiguidade, sobretudo, e com clareza, segundo o que cada um tivesse possibilidade de compreender, o que nunca fizeram em parte alguma. Razão por que não é necessário de modo nenhum acreditar que as opiniões tomadas de forma absoluta tenham qualquer coisa a ver com piedade ou impiedade, independentemente da relação que elas têm com as obras; mas exclusivamente quando se trata de tal motivação, é necessário dizer que o homem acredita em qualquer coisa com piedade ou impiedade, segundo é determinado pelas suas opiniões a obedecer ou aí obtenha autorização de pecar ou de se revoltar. Desde então, se qualquer um se torna rebelde, julgando as coisas verdadeiras, há na verdade um crença ímpia; e se, pelo contrário, se torna obediente, julgando as coisas falsas, há uma piedosa crença… Porque Deus não exige dos homens um outro conhecimento a não ser o da Sua justiça e da Sua caridade divinas, conhecimento que não é necessário em matéria de saber, mas somente de obediência.
Bento Espinosa, Tratado Teológico-Político, cap 13

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