terça-feira, abril 13, 2010

A constituição do sujeito


August Sander, Alemanha, 1876/1964

Logo, Epicuro impõe uma actividade incessante na phusiologia, mas impõe o conhecimento da natureza para a alcançar, e na medida em que  ele permite alcançar a mais perfeita serenidade. De igual modo, princípio da carta a Pythoclès: " É necessário convencer-se que o conhecimento dos fenómenos do céu não tem outro fim que a Ataraxia, e uma firme confiança. A nossa vida, com efeito, não precisa de desrazão nem de opiniões vazias, mas precisa de se renovar sem perturbação."
O conhecimento dos meteoros, o conhecimento das coisas do mundo, o conhecimento do céu e da terra, o conhecimento mais especulativo da Física, não é recusado, longe disso.  São, no entanto presentificados e modalisados na fisiologia (phusiologia) de tal modo que o saber do mundo seja , na prática do sujeito sobre si, um elemento pertinente, elemento que deve ser efectivo e eficaz na transformação do sujeito por si-próprio. Aqui está, se quereis, porque  a oposição entre o saber das coisas e o saber de si-mesmo não pode nunca ser interpretada, tanto para os epicuristas como para os cínicos, como oposição entre  saber da natureza e saber do ser humano. A oposição que é por eles traçada, e a desqualificação que fazem de um certo número de conhecimentos, refere-se simplesmente a esta modalidade do saber. O que é requerido, aquilo em que deve consistir o saber válido e aceitável, tanto para o sábio como para o discípulo, não é o saber que têm sobre si próprios, não é o saber que se tomaria da alma, que fizesse do si (soi) o objecto do conhecimento. É um saber que investe sobre as coisas, que investe sobre o mundo, que investe sobre os deuses e os homens, mas que tem como efeito e tem como função modificar o ser do sujeito. É necessário que essa verdade afecte o sujeito. A questão não é que o sujeito seja objecto de um discurso verdadeiro. Aqui está, creio, a grande diferença. Aqui está o que é preciso separar, e aqui está  que nada, nessas práticas de si-próprio, e no modo como se articulam com o conhecimento da natureza e das coisas,  pode aparecer como preliminar ou esboço daquilo que será mais tarde o decifrar da consciência por ela própria e a auto-exigese do sujeito.

Michel Foucault, L'herméneutique du sujet,Cours au Collège de France, 1981-1982, Seuil/Gallimard, 2001, pp.233

Tradução Helena Serrão

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