Ernst Hass, Austria, Ernst Haas (Viena, 2 de março de 1921 - Nova Iorque, 12 de setembro de 1986)
Os homens falam para responder e são para falar. Quando
terminam de falar deixam de ser. Pois um laço extraordinário entrelaça morte e
sentido no tecido da existência humana: vigor silencioso de uma mesma essência.
presença serena do mesmo nada criativo.
O homem é o ser que fala mesmo quando não fala e cala, recolhendo-se
no silêncio do sentido, assim como é o ser que morre, mesmo quando não morre e
vive, recolhendo-se à temporalidade da existência. A fala remete para além e para
aquém das palavras, mas este remeter não é semântico nem sintático. É o
silêncio do sentido. A fala só fala para e por calar. A palavra essencial,
sendo a essência da palavra no tempo das realizações, é apenas silêncio. Por
isso, não há nada nem além nem aquém da palavra, só se dá mesmo o nada. E não
se trata de um nada negativo, nem nada que se esvai e contenta em negar tudo
sem negar a si mesmo em sua negação. Trata-se de um nada criativo, um nada que
deixa tudo originar-se: a terra, o mundo, a história, os homens, com todas as
negações e afirmações. É um nada que constitui a estrutura ser-no-mundo. Mas
por que ser-no-mundo? O tema central e a questão nuclear de uma filosofia ainda
não formam, no dizer de Parmênides. "o coração intrépido" do
pensamento. Na qualidade de tema e questão, já resultam de um esforço de
tematizar e de um trabalho de questionar. Tematizar e questionar são tentativas
de se falar e dizer, no nível e por meio de discursos de uma língua. Ora, o
dizer do discurso se nutre de um contato pré discursivo e ante linguístico com
um tempo de verdade e sentido que, face ao trabalho temático, é tão originário
que se torna uma fonte de inteligibilidade e compreensão, de atividade e
decisão. O mistério deste contato impôs, ao longo da história do Ocidente, toda
uma série de registros diferentes para evocá-lo. Ao indicar uma diversidade de
estilos e épocas, de línguas e discursos, a diferença dos registros afirma,
sobretudo, uma identidade radical, um além ou aquém do discurso, uma
experiência primeira de doação, a partir da qual fala o filósofo, decerto não
para adorá-la e sim para manter-se fiel, e abrir espaço ao silêncio do ser, nos
tempos de seu sentido. E o que é este ser sempre em silêncio e retirada? - Nós
não podemos saber. O que certamente podemos é apenas dizer que o ser é o que,
justamente por retirar-se e calar-se, nos possibilita falar, perguntar,
questionar e dizer. Estamos sempre imersos no retraimento do ser. Esta imersão
nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de
falar e dizer o que é o ser. Mas trata-se de uma impossibilidade criativa. Pois
é na sua experiência que nos apercebemos do sentido de todos os seres. Não
apenas é impossível dizer o ser. Também não carece fazê-lo, não é preciso. E
por quê? - Porque em tudo e sobre tudo que se venha a falar, é preservando essa
impossibilidade que se pode dizer qualquer coisa. O ser é, pois, a estância, na
palavra de Heráclito, o nous, onde o mistério convoca e atrai o homem. O
ser e o homem não apenas se limitam como, por e para fazê-lo, se visitam. Por
esta estância passam todos os caminhos de compreensão dos discursos. Nesta
estância, instala-se todo diálogo de pensamento entre os homens. A partir desta
estância, os pensadores podem pensar, sempre pela primeira vez, o advento do
sentido e da verdade, no tempo das realizações.
Martin Heidegger, O Ser e o Tempo, (1926), S. Paulo, Editora
Vozes, 2005
Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback
Ser, é procurar uma linguagem para encontrar um sentido, ou, encontrar o sentido é um momento de silêncio e mudez? Podem ser as duas hipópeses verdadeiras, a questão sobre o sentido ultrapassa a lógica dicotómica verdadeiro falso mas, também é verdade, que a contradição é o verdadeiro limite para o pensamento, que dentro dela, nenhum pensamento pode medrar ou gerar-se. Faria imediatamente um sentido pleno se colocássemos esta dicotomia, não como duas acerções definitórias do ser mas, como momentos integradores do ser, enquanto este se revela e se esconde no tempo, neste aparecer e desaparecer e procurar-se, algo que é sempre um espaço de procura e de interrogação, ou à maneira Hegeliana, seria o resultado de uma dialéctica que necessita sempre a oposição, porque esta oposição é a essência do que se dá no tempo e que está sempre em transformação superando as oposições. Inclino-me para esta interpretação. A palavra "interpretação" irrompe como uma malapata, há, ultimamente tantas críticas à interpretação, substituindo-a pela análise, como se um texto tivesse um sentido escondido, mas só um sentido objetivo, esse sentido seria o resultado da análise da argumentação, para podermos validá-lo e compreendê-lo. Quando interpretamos partimos da crença de que o texto não tem apenas um sentido e que diferentes leitores buscam e, acabam por encontrar, diferentes sentidos. Contrariamente à análise, no sentido anteriormente exposto, a interpretação é mais livre e mais estimulante porque admite, à partida, que o texto filosófico é um pensamento em voz alta e que se vai entretecendo como uma teia de onde se podem retirar vários momentos de sentido. Neste aspeto há um diálogo onde o resultado pode ser diferente consoante os leitores, trata-se da primazia da leitura sobre o escrutínio. No final, interessará saber o que realmente foi dito ou o que quererá, verdadeiramente, o autor dizer? Será que é válido o seu pensamento? Será esse o objetivo último? A validade lógica de um pensamento não é, julgo, o que nos motiva a ler Filosofia e a pensar filosoficamente, não haja dúvida que a validação é uma parte importante mas não é a única forma de compreender a Filosofia. O exemplo de Heidegger é sintomático do que pretendo dizer, este excerto, por encerrar aparentes contradições, parace-nos pouco compreensível ou de impossível compreensão mas, vamos partir do princípio, de que a obra de Heidegger é de impossível compreensão lógica, que não supera ou resolve as contradições, antes as espalha e multiplica. Não deixa, contudo de nos apelar à interpretação, esse lado obscuro, e se a análise pode sucumbir, a interpretação renasce como uma flor desabrochando, e utilizo uma metáfora porque estou encantada com as metáforas dos textos de Heidegger, no próximo post vou elencar algumas, para gládio do leitor ou leitores que me leem.
Helena Serrão