Mostrar mensagens com a etiqueta Rilke. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rilke. Mostrar todas as mensagens

domingo, maio 10, 2026

Na exposição


Nadya Ismail, "No atelier", óleo sobre tela, maio 2026
 

Tarde no Centro Olga Cadaval para ver uma exposição de uma antiga aluna, Nadya Ismail. Trabalha sobre a fotografia, usa a tela em branco como cor ou contraste, utiliza muito pouca cor, persegue encantada, a luz e a sombra, um jogo onde vislumbramos a efemeridade dos corpos, o seu aparecimento fugaz, as suas ausências e o rasto de luz que nos deixam. Há um universo feminino na escolha da casa, no carinho pelos objetos quotidianos mas, simultaneamente, uma necessidade de fuga, uma espécie de enclausuramento que emana, um compasso de espera antes da saída, um estalar de dedos, a eminência de que algo está verdadeiramente para acontecer, espera-se, mas ainda não aconteceu.

Como a Nadya se inspira em Rilke, selecionei um poema:


III


Espelhos: o que sois na vossa essência,
nunca ninguém saberá explicá-lo.
Como os furos do crivo, sois a ausência,
do tempo a preencher cada intervalo.


Vós, que esbanjais a sala inda deserta,
vastos como florestas, quando a noite regressa…
e o lustre, como hastes múltiplas de algum gamo alerta,
vossa água inviolável atravessa.


Tanta vez estais cheios de pinturas.
Umas em vós parecem entranhadas,
as outras afastou-as a vossa timidez.


Mas a mais bela de todas as figuras
ficará lá no fundo, até nas faces recatadas
romper claro o narciso em sua nitidez.




Rainer Maria Rilke
Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu
trad. de vasco graça moura
quetzal
2017

quarta-feira, julho 24, 2019

acontece...

O Homem que Lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

sábado, junho 23, 2018

Poesia da Semana: O Homem Que LÊ (Rainer Maria Rilke)



O Homem que Lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira