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domingo, setembro 11, 2022

Inflexão


Richard Kalvar, New York City, 1976

"Tomo o carro, parto para férias. Não irei à aldeia senão um ou dois dias - apetece-me andar. Não tenho projetos, não procuro nada, exceto estar só, eu só, soldado à máquina, nesta pura fuga de vertigem, nesta fuga de nada, nesta quente sedução de esquecer. Estradas abertas, campos abertos, a alegria à minha volta, evidente, natural como a luz do céu. O carro gira vertiginosamente, o motor zumbe como uma obsessão, espectros de casas, à beira da estrada, outros carros que se cruzam com o meu num mundo reinventado a alucinação. Mas eu estou calmo e leve como quem transforma um risco num jogo. Dos restos do que passou, dos pedaços em que me quebrei, de tudo o que bateu à minha porta, à pessoa que me habita, a memória sobe, purifica-se, aquieta-se à minha volta, penetra-me o sangue, estabelece-se em harmonia, como se fosse de amanhã, como se fosse já de agora que revivo à luz da noite. Atravesso Lisboa, tomo a estrada de Sintra - que maldição pesa sobre a assunção do nosso destino?, sobre o nosso confronto connosco mesmos?, sobre a evidência da nossa condição? O sol desce para os lados do mar, rasa o campo aberto que vou atravessando, "Que esperas tu da vida? Vê como os teus sonhos se resolvem nos outros em... Mas são atos definitivos, não se iludem. Duvidar é cómodo. Interrogar-se é cómodo." "Sei o que quero, sei o que sonho". "Que fazes para o atingir?" Não sei, não sei. Reconheço-me na evidência última da minha condição - saber é já conquistar.

Vergílio Ferreira, Aparição, LX, Bertrand, 25ª ed., 1966, pp.237-238

quinta-feira, maio 29, 2014

O Sentido de existir.




A filosofia da existência não se opõe ao pensamento, contanto que este pensamento seja intenso e apaixonado. Recordemos que Kierkegaard definiu a existência, na medida em que pode ser definida, como uma energia de pensamento. Podemos mesmo dizer que o pensamento existencial é reflexão; não é verdade que a reflexão sufoque a originalidade: pode aguçá-la; e Kierkegaard quererá unir a reflexão ao caráter autêntico, originário do pensamento naquilo a que ele chama um sério imediato, uma juventude séria, uma primitividade adquirida, uma imediação amadurecida. Sem dúvida, em certos momentos, ele diz, para se opor aos cartesianos: «Quanto mais penso, menos sou, e quanto mais sou, menos penso»; e não é menos verdade que só há real existência se houver a reflexão da existência. Há aqui dois termos anti-téticos; há uma luta de morte entre o pensamento e a existência; mas esta luta de morte constitui precisamente a existência. Kierkegaard diz: «Se eu penso a existência, eu abulo-a. Mas aquele que a pensa existe. A existência encontra-se posta ao mesmo tempo que o pensamento.» Não podemos conceber a existência, nem eliminá-la, nem eliminar o seu pensamento. Reside aí o paradoxo e, simultaneamente, a essência do pensamento existencial.

Uma vez que chegamos aí, que devemos fazer? Poderemos voltar às coisas «deste mundo» ? Foi o que Kierkegaard pensou e o que quis efectuar pela ideia de repetição. Trata-se de reencontrar «este mundo» depois de ter estado em contacto com o paradoxo, com o absurdo, com Deus.

Devemos escolher e devemo-nos escolher, escolhermo-nos tal qual somos, devemos assumir o próprio destino. é o que ele chama imediação amadurecida, que só pode existir quando se passou pela mediação divina. Devemo-nos escolher, mas simplificando-nos constantemente, pela própria paixão, pela paixão do próprio absoluto.

Trata-se sempre de se unificar, de se simplificar, porque o simples é mais elevado que o complexo. As crianças têm uma multidão de ideias, mas aquele que medita realmente, um Sócrates, por exemplo, só tem uma ideia. Aumentar os nossos conhecimentos, diz Kierkegaard, reencontrando uma fórmula neoplatónica, é muitas vezes diminuirmo-nos nós próprios.

Devemos entretanto acrescentar que, ao mesmo tempo, Kierkegaard sabe muito bem que ele próprio é feito de dualidades, de diversidades, de diversidades infinitas. Há assim em Kierkegaard um conflito entre esta vontade de unidade e esta multiplicidade quase infinita que ele sente em si.

A existência é a palpitação de uma vida intensa, o agudo extremo da subjectividade.

O pensador subjectivo torna-se um espírito existente infinito, torna-se um mistério por esta relação profunda em relação a si próprio e ao objecto da sua afirmação. (...)A existência é «ir sendo», a existência está sempre voltada para os possíveis e ao mesmo tempo para o que é a sua origem, para o que é originário. (...) O existente é o que se relaciona com si próprio e o que se relaciona com a transcendência.

Jean Wahl, As Filosofias da Existência, 

domingo, março 24, 2013

ou, ou


 
James Nachtwey
 
Que sejam os outros a queixarem-se de que os tempos são maus, queixo-me de que são miseráveis, porque são tempos sem paixão. Os pensamentos dos homens são finos e quebradiços como rendas, eles próprios tão dignos de dó quanto as rendeiras. Os pensamentos que lhes vão no coração são tão miseráveis, que não chegam a ser pecaminosos. Talvez fosse possível para um verme considerar como pecado alimentar tais pensamentos, mas não para um homem, que é criado à imagem de Deus. Os seus desejos voluptuosos são comedidos e indolentes, as suas paixões, sonolentas; estas almas mercantis cumprem os seus deveres, porém, tal como os judeus, dão-se todavia o direito de desbastar uma migalhinha da moeda; em sua opinião, embora Nosso Senhor mantenha as contas bastante em ordem, também é certamente possível escapar aldrabando-o um pouco. Desavergonhados! Por isso a minha alma regressa sempre ao Antigo Testamento e a Shakespeare. Sente-se deveras que são homens que falam; e que aí, odeia-se, e aí, ama-se, mata-se o inimigo, amaldiçoa-se a descendência por todas as gerações, aí, peca-se.

 

Soren Kierkegaard, Ou-Ou. Um Fragmento de vida


Tradução do Dinamarquês de Elisabete M. de Sousa

 Relógio D’Água, 2013 Pág.57

 
Não percebo dinamarquês de modo a confrontar este texto traduzido, com o original, se assim fosse poderia esclarecer as dúvidas sobre certas expressões cujo sentido é enigmático.  As outras traduções não são fidedignas, ou melhor, enfermam do mesmo problema, não há como ter uma referência se não se conhece o original.  Por exemplo, a expressão: "desbastar uma migalhinha da moeda" quererá significar que gastam pouco mas mesmo assim gastam; gastam mais do que têm direito apesar de parecer que não? Mais à frente : " embora Nosso Senhor mantenha as contas em ordem, é certamente possível escapar aldrabando-o um pouco". Aldraba-se? Como? Resta saber se é o autor que utiliza estas expressões metafóricas, se são expressões idiomáticas, seja como for, o significado é vago, fica-se com uma impressão de incompletude, uma irritação enfim!!
 
Helena Serrão

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

A Existência é inexplicável.

André kertész, Vert galant ao cair da tarde, 1963

A palavra Absurdidade acabou-me de nascer na caneta; ainda agora, no jardim, não a consegui encontrar, mas também não a procurava, é verdade, não era preciso: pensava sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. A Absurdidade não era uma ideia na minha cabeça, não era um sussurro, mas esta longa serpente morta aos meus pés, esta serpente de madeira. Serpente ou garra ou raiz ou estufa de abutre, não é importante. E sem nada formular com clareza, encontrei a chave da existência, a chave das minhas náuseas, da minha própria vida. De facto tudo o que, em seguida, pudesse apreender conduzia-me de volta a esta absurdidade fundamental.

Absurdidade: uma palavra ainda; debato-me contra as palavras; ali em baixo, toquei a coisa. Mas quero fixar aqui o carácter absoluto desta absurdidade. Um gesto, um acontecimento, no pequeno mundo colorido dos homens, só é absurdo relativamente: em relação às circunstâncias que o acompanham.  Os discursos de um louco, por exemplo, são absurdos em relação à situação em que se encontra mas não em relação ao seu delírio.. Mas eu, ainda há pouco tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo.Esta raíz não há nada em relação ao qual ela não seja absurda. Oh! Como posso eu fixar isto em palavras?

Absurdo: em relação aos calhaus, aos tufos de erva amarela, à boca seca, à árvore, ao céu, aos bancos verdes. Absurdo, irredutível; nada – nem mesmo um delírio profundo e secreto da natureza –o pode explicar. Eu não sabia tudo, evidentemente, não vi o germe desenvolver-se nem a árvore brotar. Mas diante essa pata gorda e rugosa, nem o saber nem a ignorância têm importância: o mundo das explicações e das razões não é o mesmo da existência. Um círculo não é absurdo, explica-se muito bem pela rotação de um segmento de recta à volta de uma das suas extremidades. Mas também um círculo não existe. Esta raiz, ao contrário, existia na medida em que eu não podia explicá-la. Nodular, inerte, sem nome, fascinava-me, enchia-me os olhos,  reconduzia-me incessantemente à sua própria existência. Poderia repetir: “ É uma raíz” – não tinha efeito. Via bem que não podia passar da sua função de raiz, de bomba aspirante, a isto, a esta pele dura e compacta de foca. A este aspecto oleoso, calejado e entretelado. A função não explicava nada: permitia compreender grosseiramente o que era uma raiz, mas não esta. Esta raiz, com esta cor, esta forma, o seu movimento de fisga, estava…para lá de toda a explicação.”

 
Tradução helena serrão
 
Jean-Paul Sartre “ La Nausée” gallimard, Barcelona 2009, pp.184, 185
1ª edição 1938

sábado, abril 09, 2011

Haverá na minha vida um sentido?

A minha pergunta - aquela que aos meus cinquenta anos, quase me levou ao suicídio - era a mais elementar que reside no fundo da alma de qualquer pessoa, desde a criança estúpida ao sábio ancião, a pergunta sem a qual a vida é impossível, como verifiquei na prática. A questão era: " O que vai resultar do que estou a fazer agora, do que vou fazer amanhã - o que vai resultar de toda a minha vida?"
Expressa de outra maneira, a pergunta será: " Para que tenho de viver, para que tenho de desejar, de fazer seja o que for?" mais uma forma de exprimir a mesma pergunta: "Haverá na minha vida um sentido que não seja eliminado inevitavelmente pela minha futura morte?"
Foi a esta pergunta, expressa de várias maneiras, que procurei uma resposta na sabedoria humana. E descobri que, em relação a esta questão, todos os conhecimentos humanos se dividiam em duas semiesferas opostas, por assim dizer, tendo dois pólos contrários: um negativo e outro positivo; mas também que em nenhum deles havia respostas às questões da vida.
Uma série de conhecimentos parece não reconhecer a questão mas, responde com clareza e exactidão às suas próprias perguntas, colocadas independentemente: é uma série de conhecimentos experimentais, no ponto extremo da qual se encontra a matemática; outra série reconhece a questão, mas não lhe dá resposta: é uma série de conhecimentos especulativos, e no seu ponto extremo encontra-se a metafísica.
(...)
Se nos virarmos para o ramo dessa ciência que tenta dar respostas às questões da vida - a fisiologia, a psicologia, a biologia a sociologia - encontramos uma impressionante pobreza de pensamento, uma enorme imprecisão, pretensões injustificadas de poder resolver questões fora do seu âmbito e as permanentes contradições em que um pensador cai relativamente aos outros e, até, relativamente a si próprio.
(...)
Se nos dirigirmos aos ramos da ciência que não procuram resolver as questões da vida, resolvendo apenas a especificidade das suas questões científicas, ficamos admirados com a força da mente humana, mas sabemos de antemão que não encontramos aqui a resposta às questões da vida. Estas ciências não querem saber da questão da vida. Dizem: " Não temos resposta para a pergunta sobre o que tu és e para que vives, não tratamos disso; mas se quiseres conhecer as leis da luz, dos compostos químicos, as leis da evolução dos organismos, se quiseres saber as leis dos corpos e das suas formas, e a relação dos números e das grandezas, ou as leis do teu intelecto, temos para tudo isso respostas claras, exactas e indubitáveis."

Tradução de Nina e Filipe Guerra

Lev Tolstói, Confissões, Ed. Alfabeto, Lx, 2010, p.48 a 51

terça-feira, novembro 11, 2008



A VISÃO CIENTÍFICA DO UNIVERSO
E O SENTIDO DA VIDA
Será útil fazer uma recapitulação (...) da familiar narrativa evolucionista moderna sobre a natureza e origem humanas, de modo a ver com mais clareza quais os seus elementos que supostamente ameaçam o quadro tradicional do sentido e valor [da vida] conferidos pela linguagem da religião. Grosseiramente a narrativa padrão reza assim:
Há cerca de 14 milhões de anos, teve início, por alguma razão, o cosmos - tudo o que existe, incluindo matéria, radiação, espaço e tempo -, explodindo a partir de uma pequena concentração de matéria-espaço-energia. Expandiu-se com grande rapidez. Mais tarde, os efeitos gravitacionais fizeram com que a matéria se concentrasse em massas de hidrogénio (galáxias, estrelas) e que o hidrogénio se começasse a fundir em hélio. Explosões causaram novos elementos mais pesados, que acabaram por constituir os planetas. Pelo menos num planeta, surgiu uma molécula auto-reprodutora. Os descendentes desta molécula evoluíram para organismos vivos que se diversificaram em todos os tipos de plantas, animais, micróbios, etc., tudo isto somente como resultado da selecção natural (um processo totalmente cego, operando através de mutações ao acaso em conjunto com a luta constante pela sobrevivência). Após milhões de anos uma dessas espécies torna-se inteligente. O ser humano é um produto dessas forças cegas. Quer os seus impulsos morais, quer os outros, mais selvagens, foram formados pelas pressões da sobrevivência da espécie. As narrativas religiosas sobre a nossa natureza e origens foram ultrapassadas por uma narrativa científica e as noções de criação divina são ressacas de mitos antropomórficos primitivos que procuram explicar a nossa origem na ausência de métodos científicos adequados. A ciência revela que a nossa natureza e existência são o resultado de processos inteiramente naturais que compreendemos e predizemos cada vez melhor. Estamos sós num universo material impessoal e completamente desprovido de qualquer propósito (embora outros seres inteligentes possam ter evoluído em outros planetas). Um dia, o nosso sistema solar deixará de poder ser habitado e a vida humana (ou seja o que for que evolua a partir dela) cessará, a não ser que continue noutras paragens. Seja como for, o universo inteiro chegará finalmente a um termo, pois a energia e o calor serão a pouco e pouco dispersados de acordo com as leis da entropia. Não há um significado 'último' para tudo isto, nem para nenhuma vida humana particular (na verdade, falar do sentido ou propósito do universo ou da vida humana é uma confusão filosófica). Ao pôr de parte a falsa demanda de um significado religioso, podemos, ainda assim, viver melhor ou pior, dependendo de como conseguimos aliviar o sofrimento (usando a ciência) e maximizar a oportunidade de actividades que dêem satisfação ou que sejam enriquecedoras para o maior número de pessoas.
John Cottingham, On the Meaning of Life (London & New York, 2003, pps. 41-43). Tradução Carlos Marques.