Não somos indulgentes com a ideia do livre-arbítrio: sabemos de sobejo do que se trata; a habilidade teológica de pior reputação que já houve para tornar a humanidade responsável à maneira dos teólogos, o que equivale a colocar a humanidade sob a dependência dos teólogos. Vou me limitar a explicar a psicologia dessa tendência a exigir responsabilidades. Onde quer que exijam responsabilidades, o instinto de julgar e de castigar anda, geralmente, mesclado na tarefa. Retira-se a inocência do devir quando lhe atribui um estado de fato, qualquer que seja, à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade. A doutrina da vontade foi inventada, principalmente, colimando castigar, isto é, com a intenção de achar um culpado. Toda a antiga psicologia, psicologia da vontade, deve sua existência ao fato de que seus inventores, os sacerdotes, chefes das comunidades primitivas, quiseram atribuir-se o direito de castigar, ou quiseram conceder tal direito a Deus. Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados. Consequentemente, toda ação tinha que reputar-se voluntária, e a origem de todo ato devia supor-se na consciência (pelo que a falsificação das moedas in psychologicis, por princípio, se erigia da própria psicologia). Hoje, que entramos na corrente contrária e nós, os imoralistas, trabalhamos com todas nossas forças para conseguir que desapareça mais uma vez do mundo a ideia da culpabilidade e do castigo, tanto quanto para eliminar delas a psicologia, a história, a Natureza, as instituições e as sanções sociais, não há, a nossos olhos, oposição mais radical que a dos teólogos, que por meio da ideia do mundo moral prosseguem contaminando a inocência do devir com o pecado e o castigo. O cristianismo é uma metafísica de verdugos.
quarta-feira, fevereiro 05, 2025
O Erro do Livre-arbítrio
segunda-feira, outubro 26, 2020
Sobre os céticos
Fotograma de " O Ajo Azul" Filme de Joseph Von Sternberg, 1930
"Não temos os ouvidos cheios dos perigosos rumores dos factos?", diz o cético, no seu amor pela quietude, como um policial que deve zelar pela segurança pública, "Este não subterrâneo é terrível. Silêncio. Pelo menos uma vez, animais subterrâneos!" Aqui é que o cético, este ser delicado, amedronta-se facilmente, a sua consciência está pronta a sobressaltar –se a cada não e mesmo a um sim decidido, e experimenta uma espécie de ofensa. Sim e não! — mas isto a seu ver vai contra a moral — contrariamente, gosta de festejar a sua virtude com uma nobre abstenção, por exemplo dizendo com Montaigne: "Que sei eu?" ou, com Sócrates "Sei que não sei nada", ou ainda: "Desconfiei de mim mesmo, nenhuma porta se me abriu aqui" e, "supondo que fosse aberta, porquê entrar depressa?" Ou ainda: "Para que servem as hipóteses apressadas?" Abster-se de todas as hipóteses poderia ser prova de bom gosto. "É necessário endireitar aquilo que é curvo? Ou tapar um buraco com uma estopa qualquer? Não há tempo para isso? E o tempo não tem tempo? Mas sois endiabrados que não quereis ESPERAR? Mesmo o incerto tem seus atrativos, a Esfinge é uma Circe, e Circe também era filósofo." Estes são os consolos do cético e é necessário conceder que deles necessita. O ceticismo é a expressão mais espiritual para um estado fisiológico complicado, que vulgarmente se chama debilidade nervosa e morbidez, e que se manifesta todas as vezes em que raças ou classes longamente divididas entre si se entrecruzam de modo decidido e repentino. Na nova geração que herdou, por assim dizer, diferentes medidas e valores, tudo é inquietude, turbamento, dúvida, tentativa, as melhores forças agem inibidoramente, as próprias virtudes não permitem, reciprocamente, o crescimento e fortalecimento de cada uma delas, falta equilíbrio à alma e ao corpo, força gravitacional e segurança perpendicular. Mas aquele que nasceu de tais raças cruzadas é, antes de mais nada adoentado e degenerado em termos de vontade, ignora a independência que há na resolução, a sensação valorosa, a satisfação do querer, duvidam do "livre arbítrio", até nos seus sonhos. A nossa Europa é, nos nossos dias,teatro de uma tentativa insensatamente repentina de mistura radical de classes e consequentemente de raças e portanto cética, daquele ceticismo móvel que salta impaciente de ramo em ramo, outras vezes sombrio como uma nuvem prenhe de pontos de interrogação e frequentemente mortalmente saciado do próprio querer! Paralisia da vontade — onde não se encontra, na atualidade, esse ser raquítico?! E quantas vezes com que fausto não é visto! E que fausto sedutor! Esta moléstia endossa as mais suntuosas vestes da mentira, e assim, por exemplo, tudo aquilo que é pomposamente tratado, na atualidade, sob o nome de “objetividade”, de “filosofia científica” de “l'art pour l'art”, de “conhecimento puro e independente da vontade”, nada mais é que ceticismo, paralisação da vontade pomposamente apresentada -, asseguro-me o diagnóstico dessa moléstia europeia. A vontade doente difundiu-se de modo desigual na Europa, manifesta-se com mais força e sob os aspetos mais variados onde a cultura se aclimatou há mais tempo e tende a limitar-se na medida em que o "bárbaro" tende a manter — ou a reivindicar — os seus direitos sobre os negligentes vestuários da civilização ocidental.
Nietzsche, Para além do Bem e do Mal, São Paulo HEMUS LIVRARIA, pág 128
domingo, abril 12, 2020
A arte como fuga
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| Henri Cartier-Bresson, Nice |
terça-feira, abril 03, 2018
O valor da moral: fingimento
domingo, maio 08, 2016
O dramatismo da escrita de Nietzsche
Vede o homem pequeno, especialmente o poeta… O ardor com que as suas palavras acusam a vida! Escutai-o, mas não vos esqueçais de ouvir o prazer que há em toda a acusação. A estes acusadores da vida deixa a vida atados num abrir e fechar de olhos. “Amas-me? – diz a impertinente. Espera um bocado, ainda não tenho tempo para ti”. O homem é o animal mais cruel para consigo; e sempre que ouvirdes alguém chamar-se “pecador” ou “penitente”, ou falar da “sua cruz”, não vos esqueçais de ouvir a voluptuosidade que respiram essas queixas e essas acusações. E até eu… acaso quererei ser com isto acusador do homem? Ai, animais meus! O maior mal é necessário para o maior bem do homem; é a única coisa que até agora tenho aprendido. O maior mal é a melhor força do homem, a pedra mais dura para o mais alto criador; é mister que o homem se torne melhor e mais mau. Eu não só me não vi cravado nesta cruz – saber que o homem é mau – mas também gritei como ninguém gritou ainda: “Ah! como é pequeno o pior dele! Ah! como é pequeno o melhor dele.” O que me afogava e se me atravessava na garganta era o grande tédio do homem; e também o que predissera o adivinho: “Tudo é igual; nada merece a pena; o saber asfixia”. Na minha frente arrastava-se um longo crepúsculo, uma mortal tristeza ébria e fatigada que falava bocejando. “O homem de que estás enfastiado torna eternamente, o homem pequeno”. Assim bocejava a minha tristeza.
Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche Tradução de José Mendes de Souza, 2002
sábado, maio 28, 2011
Entrincheirado nas montanhas
terça-feira, outubro 20, 2009
Radicalismos 4
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
A memória
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Contra o ressentimento.
segunda-feira, julho 23, 2007
O Homem em Fúria
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, 125, Werke Ed.
Tradução de Manuel do Carmo Ferreira
quarta-feira, março 21, 2007
Ódios de estimação - Nietzsche
Nenhum destes pesados animais de rebanho de consciência inquieta (e que se propõem defender a causa do egoísmo como causa do bem-estar geral) quer saber ou farejar que o bem-estar geral não é um ideal, um alvo, um conceito definível, mas sim e apenas um vomitório – que o que é justo para um, é muito capaz de não poder ser justo para o outro, que a exigência de uma moral para todos é o prejuízo precisamente dos homens superiores, enfim, que há uma ordem hierárquica entre os homens e, por conseguinte, também entre as morais.
Sempre “quanto mais melhor”,
Cada vez mais entorpecidos de cabeça e de joelhos,
Sem entusiasmo, sem graça,
Irremediavelmente medíocres,
Sans génie et sans esprit!
Nietzsche,Humano demasiado humano








