sexta-feira, novembro 18, 2022

A filosofia na escola


 Wayne Miller, Crianças num teatro, 1958, EUA

Dicionários corretos, inspiradores, mas inúteis, definem “filosofia” como o “amor da sabedoria”, mas uma definição melhor seria “investigação reflexiva e crítica”. A filosofia é, naturalmente, um assunto, bem como um processo, embora seja um conceito muito abrangente: as suas duas grandes questões são: O que há? Estas questões em conjunto, de forma imediata convidam a uma série de perguntas sobre o conhecimento, a verdade, a razão, o valor, a mente e muito mais, que constituem o núcleo deste empreendimento. Os nossos esforços para atingir a compreensão nestes assuntos requerem o tipo de pensamento que é distintamente filosófico: questionamento, sondagem, crítica, reflexão, rigor, exigência, inquietação, aceitando que pode haver várias respostas ou nenhuma e, portanto, aceitando a textura aberta da investigação onde raramente há uma solução simples para um problema e quase nunca o seu encerramento. Mentes experientes nesse tipo de pensamento são geralmente resistentes à rápida fixação da ideologia e do dogma, e têm uma  saudável propensão para examinar, com um olhar claro e, quando necessário cético, tudo o que for colocado diante deles.

A investigação deste tipo é, obviamente, um processo altamente exportável; a sua prática constitui o que hoje se chama de “competência transversal”. Só por isso a filosofia deve ser uma característica central e contínua do currículo escolar desde tenra idade, porque (como mostram algumas das atuais discussões) potencializa imediatamente os alunos para trabalharem em outras áreas temáticas. Há um ponto de vista que defende que a educação deveria ser mais sobre ensinar as crianças a obter e avaliar informações do que a transmitir informações pré-digeridas - pelo menos depois de já terem os conhecimentos de literacia, numerologia e estrutura que fornecem a base necessária sobre a qual se pode construir o treino do pensamento e pesquisa. A filosofia é, por excelência, quem oferece a parte avaliadora deste processo. E porque não é apenas reflexão crítica e construção de bons argumentos, mas também é sobre questões substantivas - na moral, na epistemologia, na lógica, e judicialmente em relação às reivindicações, suposições e metodologias de todas as outras áreas de investigação mais específicas, como por exemplo na área da natureza e ciências sociais e humanas - o treino no pensar fornece uma série de “iluminações” e compreensão em muitos áreas além destas. Num curriculum dedicado à aquisição de conhecimento e técnica, tem que haver tempo para refletir sobre o que tudo isso significa, para que serve e por que é importante, e isso é, também, o campo específico da filosofia.

A.C Grayling, Thinking of answers, London,2010, Bloomsbury, pp 245,246

 

 

domingo, outubro 30, 2022

Niilismo

 


Vivian Maier, NI, 1926/2009

Saber, porém, significa: poder manter-se na verdade. Essa é a manifestação do ente, O saber é por conseguinte: poder estar na manifestação do ente, suportá-la. Possuir simples conhecimentos, por mais amplos que sejam, não é saber. Mesmo tratando-se de conhecimentos "ligados à vida",  modelados pela mais imperiosa necessidade, ainda assim, a sua posse, não é saber. Quem traz consigo tais conhecimentos e ainda se exercitou em algumas técnicas de uso prático, ficará, sem embargo, desarmado diante da realidade real, que sempre difere do que o cidadão comum entende por proximidade da vida e da realidade, e será necessariamente um inexperiente. E porquê? Porque não possui saber, pois saber significa: poder aprender. O poder-aprender supõe o poder-investigar. Investigar é o querer-saber esclarecido acima: a re-solução de abrir-se a um poder-suportar a manifestação do ente. Visto que se trata para nós da investigação da primeira questão em dignidade, tanto o querer como o saber são de índole particularmente originária. (...). A atitude de Investigação deve-se então esclarecer, assegurar e firmar pelo exercício.  A nossa primeira tarefa consiste, pois, em desdobrar a questão: "Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” Em que direção se poderá fazê-lo? Em primeiro lugar a questão tem um enunciado acessível pois proporciona, por assim dizer, uma amostra sobre a questão. Por isso sua formulação linguística tem que ser correspondentemente ampla e pouco rigorosa. Consideremos, sob este ponto de vista, o enunciado da nossa questão. "Por que há simplesmente o ente e não antes c Nada?". (...) Ora, na nossa questão  indica-se, com toda exatidão, o que se investiga, a saber o ente. Aquilo em função do qual se investiga, aquilo pelo que se investiga, ê o porquê, ou seja o fundamento. Logo, o que ainda segue no enunciado da questão "e não antes o Nada?”, é mais um apêndice, que numa linguagem introdutória e pouco rigorosa se junta por si mesmo, mas nada  acrescenta ao tema, seja aquilo que,  seja aquilo pelo que se Investiga. É um floreio de adorno. Até sem o apêndice, que só nasce da abundância de um discurso impreciso, a questão ganha muito mais em precisão e exatidão: “Por que há simplesmente o ente?” O acréscimo, “e não antes o Nada?”, não só, com vista a uma formulação rigorosa, se torna supérfluo, como ainda mais, em razão de não dizer coisa alguma. Pois com efeito, o que se poderia ainda investigar no Nada? O Nada é simplesmente nada. Aqui a investigação já não tem nada mesmo o que procurar. Com a introdução do Nada, antes de tudo, não logramos o mínimo que seja para o conhecimento do ente. Quem fala do Nada, não sabe o que faz. Quem diz algo do Nada, transforma-o, ao fazê-lo. em alguma coisa. Dizendo algo, di-lo pois contra o que pensa. Contradiz-se  a si mesmo. Ora, um dizer, que se contradiz, formula-se contra a regra fundamental de todo dizer (logos]-. contra a “Lógica”. Falar do Nada é ilógico. O homem, que fala e pensa de modo ilógico, está irremediavelmente fora da ciência. Quem, dentro da filosofia, onde a lógica tem a sua cidadela, fala do Nada, é atingido pela  incriminação de faltar contra a regra fundamental de todo pensamento, ainda mais duramente, Um falar do Nada consta sempre de meras frases sem sentido. Ademais, quem leva o Nada a sério, coloca-se a favor do negativo. Favorece evidentemente o espírito de negação e serve apenas ao aniquilamento. Falar do Nada não só é inteiramente contrário ao pensamento, como arruína também toda cultura e qualquer fé. Qra, desprezar o pensamento, na sua lei fundamental, é como destruir a vontade construtiva e a fé, é, portanto, puro niilismo.

Martin Heidegger, Introdução à metafísica, 1999, Tempo Brasileiro

sexta-feira, outubro 21, 2022

 

Sebastien Durand

 

“Os pensadores essenciais dizem sempre o mesmo. Isto, porém, não quer dizer: o igual. Não há dúvida que eles só dizem a quem se empenha a meditar sobre eles. Na medida em que o pensar, rememorando historicamente, presta atenção ao destino do ser, ele já se adequou ao humor que é adequado ao destino. E, contudo, permanece o elemento aventureiro, a saber, como o constante risco de pensar. Já é tempo de desacostumar-se de super valorizar a filosofia e de, por isso, lhe vir com exigências. Na presente indigência do mundo, é necessário: menos filosofia, mas mais desvelo de pensar; menos literatura e mais cultivo da letra.

O pensamento futuro não é mais filosofia, porque pensa mais originariamente que a “metafísica”, nome que diz o mesmo. O pensar futuro também não pode mais, como exigia Hegel, deixar de lado o nome de “amor pela sabedoria” e nem ter-se tornado a própria sabedoria na forma de saber absoluto. O pensar está na descida para a pobreza da sua essência precursora. O pensar recolhe a linguagem para junto do simples dizer. A linguagem é assim a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu. Com seu dizer, o pensar abre sulcos invisíveis na linguagem. Eles são mais invisíveis que os sulcos que o camponês, a passo lento, traça pelo campo. “

Martin Heidegger, Carta sobre o humanismo, Lisboa, Guimarães, 1980, pp.123-125

 

sexta-feira, outubro 07, 2022

Filosofia: uma indagação em tudo semelhante à ciência?

 

 


 

Edward Munch, 1904, Costa com casa vermelha

" Há um mito do génio solitário, que tudo pensa por si em glorioso isolamento. Não é assim que funcionam a filosofia ou a matemática ou a ciência natural. Embora muito nelas se tenha alcançado por via do pensamento solitário, isso foi feito por pensadores que tinham já aprendido muito com o trabalho dos outros. Talvez o mais próximo de um contra-exemplo a isto tenha sido o génio matemático indiano Srinivasa Ramanujan (1887 -1920), mas até ele começou com manuais. Os bons filósofos parecem-se menos ainda com gurus saídos do ermo. A filosofia avança por comparação racional de ideias rivais, através do diálogo, não do monólogo.  Há que estar envolvido na discussão para saber que ideias foram propostas como rivais às nossas, e que base comum temos com os proponentes daquelas para começar a argumentar contra as mesmas. O guru solitário carece de tal conhecimento.  Dois gurus têm de aprender tanto a ouvir como a falar um com o outro.(…)

A questão controversa é saber se os filósofos precisam ou não de muito mais conhecimento da história menos recente do seu assunto do que precisam os matemáticos e cientistas naturais nas suas áreas. Terá a filosofia contemporânea absorvido já todas as ideias significativas do trabalho anterior?

Eis uma ideia. É difícil saber que suposições a filosofia toma por garantidas até encontrarmos alguma filosofia do passado que não as tomava como garantidas. Aí reside parte do valor de as tomar por garantidas: de modo a não perder tempo a refletir sobre elas. Porém, os filósofos tipicamente querem detetar as suas suposições, e não as deixar passar despercebidas. “ A vida não examinada não é digna de ser vivida”, afirmou Sócrates, segundo Platão. Examinar a nossa própria vida envolve identificar aquilo que se tem tomado como garantido. Por exemplo, muitos filósofos contemporâneos pressupõem que os deveres morais se sobrepõem sempre a considerações estéticas de beleza e fealdade, sem estarem cientes de que fazem uma suposição substancial. Ler F.Nietzsche  poderia alertá-los para alternativas, e talvez fazê-los questionar a sua pressuposição”

Timothy Williamson, Filosofar, Da curiosidade comum ao raciocínio lógico, Lx, Gradiva,2019, p.p214,215