sexta-feira, novembro 06, 2026

Platão: O conhecimento sólido constrói-se no diálogo.

 

John William Waterhouse, Inglaterra, 1849-1917, O despertar de Adónis, 1899

"Platão introduz o assunto dos jardins para chegar a um argumento sobre a arte de escrever, cuja seriedade deseja questionar. Consideremos primeiro o divertimento da jardinagem e depois o divertimento da escrita. Platão põe-nos numa encruzilhada erótica nos chamados “jardins de Adónis”.

Os jardins de Adónis eram um elemento da observância religiosa ateniense no século V. Durante os ritos anuais em honra de Adónis, eram lançadas sementes de trigo, cevada e funcho em pequenos vasos, sendo forçadas a brotar rapidamente fora de estação, por diversão, durante os oito dias do festival. As plantas não tinham raízes. Floresciam brevemente, murchavam quase de imediato e eram descartadas no dia a seguir ao festival. As suas vidas frenéticas deviam refletir a do próprio Adónis, colhido na flor da juventude pela deusa Afrodite, morto no seu apogeu com consequência (Diógenes de Laércio 1.14; Gow 1952, 2: 295). É a rápida carreira do amado ideal.

Sócrates cita estes jardins de Adónis como analogia para a palavra escrita, sedutora e efémera como é, uma simulação do discurso vivo. A meio da sua análise da escrita, vira-se para Fedro com a seguinte pergunta:

“ Agora diz-me isto. Crês que um jardineiro sensato, que se preocupasse com as suas sementes e desejasse vê-las florescer, as lançaria com séria intenção nos jardins de Adónis no pico do Verão e se comprazeria em vê-las crescer em beleza no espaço de oito dias? Ou será que ele faria esse tipo de coisa, se chegasse a fazê-lo, apenas por diversão ou para um festival? E, quando a sério, não aplicaria ele a sua habilidade de jardineiro e não semearia em solo adequado, e não se sentiria gratificado quando as sementes que semeara florescessem completamente no oitavo mês? (276b)

Sócrates e Fedro chegam, portanto, à conclusão de que nenhum jardineiro com sérias intenções de produzir plantas encontraria satisfação na agricultura apressada e cosmética dos jardins de Adónis. Da mesma forma, nenhum pensador sério no tocante à comunicação dos seus pensamentos escolheria “ semeá-los em tinta com uma caneta de junco” (276c). Os jardins de letras, como os jardins de Adónis, são semeados por divertimento (276d). Os pensamentos sério requerem um cultivo diferente e tempo para crescer; lançados como sementes de discurso vivo no solo de uma alma apropriada, hão-de criar raízes, amadurecer e dar fruto como conhecimento na estação devida (276e-277a). Neste diálogo, Sócrates revela a Fedro a sua crença com franqueza e de modo enfático: os pensamentos sérios e o conhecimento têm a sua vida real em conversa filosófica, não nos jogos da leitura e da escrita. (…)

Os textos escritos tornam possível a noção de que uma pessoa conhece aquilo que meramente leu. Para Platão, esta ideia é uma ilusão perigosa; acredita que o alcance do conhecimento é um processo necessariamente vivido no espaço e no tempo. As tentativas de atalhar o processo, ou de o embalar para uma reutilização conveniente, como na forma de um tratado escrito, são uma negação do nosso compromisso com o tempo e não podem ser levadas a sério."

Anne Carson, Eros Amargo doce (1986),  Lisboa, 2024, Edições 70,p. 173,174,175