John William Waterhouse, Inglaterra, 1849-1917, O despertar de Adónis, 1899
"Platão introduz o assunto dos jardins para chegar a um argumento sobre a arte de escrever, cuja seriedade deseja questionar. Consideremos primeiro o divertimento da jardinagem e depois o divertimento da escrita. Platão põe-nos numa encruzilhada erótica nos chamados “jardins de Adónis”.Os jardins de Adónis eram um elemento da observância
religiosa ateniense no século V. Durante os ritos anuais em honra de Adónis,
eram lançadas sementes de trigo, cevada e funcho em pequenos vasos, sendo
forçadas a brotar rapidamente fora de estação, por diversão, durante os oito
dias do festival. As plantas não tinham raízes. Floresciam brevemente,
murchavam quase de imediato e eram descartadas no dia a seguir ao festival. As
suas vidas frenéticas deviam refletir a do próprio Adónis, colhido na flor da juventude
pela deusa Afrodite, morto no seu apogeu com consequência (Diógenes de Laércio
1.14; Gow 1952, 2: 295). É a rápida carreira do amado ideal.
Sócrates cita estes jardins de Adónis como analogia para a
palavra escrita, sedutora e efémera como é, uma simulação do discurso vivo. A
meio da sua análise da escrita, vira-se para Fedro com a seguinte pergunta:
“ Agora diz-me isto. Crês que um jardineiro sensato, que se
preocupasse com as suas sementes e desejasse vê-las florescer, as lançaria com
séria intenção nos jardins de Adónis no pico do Verão e se comprazeria em
vê-las crescer em beleza no espaço de oito dias? Ou será que ele faria esse
tipo de coisa, se chegasse a fazê-lo, apenas por diversão ou para um festival?
E, quando a sério, não aplicaria ele a sua habilidade de jardineiro e não
semearia em solo adequado, e não se sentiria gratificado quando as sementes que
semeara florescessem completamente no oitavo mês? (276b)
Sócrates e Fedro chegam, portanto, à conclusão de que nenhum
jardineiro com sérias intenções de produzir plantas encontraria satisfação na
agricultura apressada e cosmética dos jardins de Adónis. Da mesma forma, nenhum
pensador sério no tocante à comunicação dos seus pensamentos escolheria “
semeá-los em tinta com uma caneta de junco” (276c). Os jardins de letras, como
os jardins de Adónis, são semeados por divertimento (276d). Os pensamentos
sério requerem um cultivo diferente e tempo para crescer; lançados como
sementes de discurso vivo no solo de uma alma apropriada, hão-de criar raízes,
amadurecer e dar fruto como conhecimento na estação devida (276e-277a). Neste
diálogo, Sócrates revela a Fedro a sua crença com franqueza e de modo enfático:
os pensamentos sérios e o conhecimento têm a sua vida real em conversa
filosófica, não nos jogos da leitura e da escrita. (…)
Os textos escritos tornam possível a noção de que uma pessoa
conhece aquilo que meramente leu. Para Platão, esta ideia é uma ilusão
perigosa; acredita que o alcance do conhecimento é um processo necessariamente vivido
no espaço e no tempo. As tentativas de atalhar o processo, ou de o embalar para
uma reutilização conveniente, como na forma de um tratado escrito, são uma
negação do nosso compromisso com o tempo e não podem ser levadas a sério."
Anne Carson, Eros Amargo doce (1986), Lisboa, 2024, Edições 70,p. 173,174,175
