quarta-feira, outubro 15, 2008

Casamento gay


A união heterossexual está imbuída da sensação de que a natureza do nosso parceiro sexual nos é estranha, um território no qual somos introduzidos sem conhecimento prévio e no qual o outro e não o eu é o único guia fiável. Esta experiência tem profundas repercussões sobre a nossa sensação do perigo e do mistério da união sexual; e essas repercussões são seguramente parte do que as pessoas tinham em mente ao vestir o casamento como um sacramento e a cerimónia do casamento como um rito de passagem de uma forma de segurança para outra. O casamento tradicional não era apenas um rito de passagem da adolescência para a adultez; nem um modo de favorecer e garantir a criação de crianças. Tratava-se de uma dramatização da diferença sexual. O casamento mantinha os sexos a tal distância um do outro que a circunstância de virem a estar juntos se tornava um salto existencial, e não apenas uma experiência passageira. A intencionalidade do desejo era formada por isto e mesmo se essa forma era – a um certo nível mais profundo – cultural e não universal, ela conferia ao desejo a sua nupcialidade intrínseca e ao casamento o seu fim transformador. Considerar o casamento gay simplesmente como uma opção alternativa dentro da instituição é ignorar o facto de uma instituição moldar o motivo que nos leva a abraçá-la. O casamento formou-se em torno da ideia da diferença sexual e de tudo o que significa a diferença sexual. Fazer desta característica um aspecto acidental é transformar o casamento em algo que já não se pode reconhecer como tal. Os gays querem o casamento porque querem a aprovação social que ele significa; mas ao admitir o casamento gay retiramos ao casamento o seu significado social (… ) Portanto, a pressão a favor do casamento gay auto-derrota-se. Faz lembrar a iniciativa de Henrique VIII de se tornar o chefe da Igreja para ter apoio eclesiástico para o seu divórcio. A Igreja que aprovou o seu divórcio deixou desse modo de ser a Igreja cuja aprovação ele desejava.

Roger Scruton, A political philosophy. Arguments for conservatism. (London and New York, 2006), p. 101.
Trad. Carlos Marques.

30 comentários:

Orlando disse...

Estou TOTALMENTE de acordo.

Pseudo-Physis disse...

Não posso, nem devo concordar com tal aspecto fundamentalista.
Só o simples facto de hoje em dia se discutir ainda a "diferença sexual", é totalmente absurdo. Não andam milhões de mulheres a defender os seus direitos de igual para igual com o homem? Não andam os homens a tentar ser um pouco menos "machos"? Hoje em dia, com a permissão destes casamentos "gays" isso pode ser um passo importante. Pois se ainda se considerar a tal diferença sexual existente entre homem e mulher (estará a Srª.Professora apenas a falar a nível físico?) os homens serão ainda superiores, pois para tal teriamos de voltar "atrás" no tempo, onde os homens apenas governavam. Se não se considerar o casamento gay, como um casamento como outro qualquer, estaremos a limitar a barreira do "Ser Livre" e haver a liberdade tão desejada. Havemos nós, heterossexuais, julgar os outros pelas suas escolhas? Não terão os "outros" os mesmos direitos que nós? Se assim não for, mais vale regressar uns anos atrás, e julgar as mulheres como o ser mais fraco!

Orlando disse...

Nonsense. Os homens não "anda menos machos" -- antes escondem a sua virilidade para não parecer mal ao politicamente correcto.

As diferenças entre homem mulher não são só a nível físico -- e ainda bem que é assim: complementam-se!

Liberdade e tolerância não significam libertinagem e permissividade.

O que é que tem a ver o "casamento" gay com a igualdade de direitos humanos e a equivalência de obrigações sociais, entre o homem e a mulher? Há coisas que a mulher (genericamente) sabe fazer melhor do que o homem, e vice-versa (as excepções confirmam a regra).

O texto é chega a uma conclusão: quando o casamento é tudo, passa ser nada -- incluindo o "casamento" gay. O que o texto não diz, é que a intenção de estender o casamento a tudo, é mesmo essa: transformar o casamento em nada. é intencional; faz parte de uma agenda política.

pseudo-physis disse...

Orlando, O senhor faz caso da relação existente entre homem-mulher, defendendo os direitos humanos e as suas igualdades. Mas de certa forma contradiz-se quando afirma que este texto tenta transformar o casamento em nada. O casamento sempre foi algo de muito importante no ser humano, tratado como uma união eterna defendida pela igreja, entre marido e mulher. A funçao do casamento era/e é gerar condiçoes para permitir a existenica de uma nova familia. Hoje em dia, dizer que o casamento gay, apenas gera confusão e destroi os principios do verdadeiro casamento, é um absurdo. O casamento gay deve ser olhado como qualquer outro, ou seja um casamento que permita de certa forma gerar a continuidade da familia, protegida então pela igreja. Não será o homem, um ser racionalmente correcto, capaz de aceitar esta diferença nas escolhas de cada um?? Um casamento é só um casamento, e se abdicamos dos casamentos gays, então o homem racional que abdique dos casamentos de Las Vegas... Por exemplo. Afirma ainda que Homem/Mulher complementam-se, concordo. Mas ao discriminar os gays, fazendo-os desacreditar que tão a tentar transformar o sagrado casamento em tudo/nada, estaremos a discriminar o ser humano e as suas escolhas.

Orlando disse...

Não foi isso que eu disse, ou Vc não percebeu. Quem quer transformar o casamento em TUDO, e consequentemente, em NADA, é quem defende hoje o "casamento" gay, amanhã o casamento poliamórico, depois a benevolência com o casamento poligâmico, etc. A perseguição ao casamento tem a ver com a propriedade privada (ler Engels e Proudhon).

Nós só podemos compreender as ideias que parecem controlar hoje o mundo estudando a HISTÓRIA DAS IDEIAS ao longo do tempo. De outra forma, entramos numa confusão ideológica que não tem ponta por onde se lhe pegue...

Uma coisa é "discriminar os gays", outra coisa é dar a um grupo de pessoas direitos especialíssimos que mais nenhum outro grupo social tem (de forma similar ou equivalente). Ninguém falou aqui em "discriminar", porque não podemos tratar situações diferentes de forma igual. Não podemos discriminar o que é diferente.

Hoje, a maior parte das pessoas não tolera os fumadores em locais fechados. Será isso discriminação? Será que as pessoas que não fumam não têm o direito de não gostar de ter um fumador por perto? Claro que têm esse direito! E nem por isso essas pessoas devem ser chamadas de "tabacofóbos".

A auto-vitimização dos gays faz parte da estratégia de uma determinada agenda política que acaba por servir o marxismo cultural -- e muita gente "vai na conversa". Já temos em Portugal uma lei que regula as uniões-de-facto (lei 7/2001). Se for necessário, alterem-na. Não podemos é confundir o casamento com "outra coisa".

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

orlando, venho colocar algumas achas para a discussão. De facto, este assunto: "Casamento gay" gera grande controvérsia e, como na educação, todos nós nos sentimos capazes de ter uma opinião e esgrimir argumentos, talvez porque o assunto envolva costumes, e, como tal todos temos uma ideia do correcto e do incorrecto. São de facto os costumes que criam a necessidade da lei e não o contrário e tanto quanto me é dado observar há de facto casais homossexuais que levam uma vida em comum e obedecem aos mesmos hábitos e rituais de qualquer outro casal. Esse costume tornou-se um facto incontornável no nosso século, como se tornou um facto que “O casamento” de que fala Scruton como ritual de transformação já não é o que era, isto é, muitos casais vivem de facto em conjugalidade e só depois casam, o que significa o esvaziamento desse conceito/símbolo de transformação. Também me parece indiscutível que muitos casais casam por uma questão legal, para facilitar uma série de procedimentos cívicos que sem o casamento seriam dificultados: acesso a crédito, assistência em doença, pagamento de impostos, partilha de bens, segurança social. Sendo assim, não me parece aceitável este argumento de Scruton contra a legalização do casamento gay porque ele se afasta do que é a vivência real hoje das pessoas. De tal exposição decorre ainda que não me parece justificável atribuir à “agenda marxista” qualquer intenção de desviar a agenda política, pois este debate decorre em muitos países e seria exagerado atribuir-lhe uma conotação marxista, nem sei o que Marx pensaria disto, penso que não se pronunciou.Para concluir, e tendo em conta o que foi dito, parece-me um acto de justiça e de consciência da mudança, a legalalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Helena Serrão

Orlando disse...

o assunto envolva costumes, e, como tal todos temos uma ideia do correcto e do incorrecto.

A ideia que os costumes estão antes da lei é um lugar-comum (cliché politicamente correcto) hoje em dia. A verdade é que a relação é biunívoca, porque a lei natural moldou os costumes deste que o homo sapiens existe desde há 150 mil anos. O que está acontecer é que uma elite política, seguindo uma tendência suicida a Ocidente, pretende separar os costumes da lei natural, o que é um claro sinal de decadência civilizacional (por favor ler Oswald Spengler, e não digam que ele é nazi, porque até se recusou a colaborar com o partido nazi ― que por “coincidência”, até teve na sua génese como partido político, eminentes e conhecidos homossexuais).

Na Antiga Grécia existia uma grande tolerância em relação à homossexualidade e à pederastia, mas nunca passou pela cabeça dos gregos instituir o “casamento” homossexual. Portanto, os costumes dos antigos gregos não lhes ditaram outra coisa ― com reflexo a nível da lei vigente ou “lei positiva” ― senão o que fosse consentâneo com a lei natural.

há de facto casais homossexuais que levam uma vida em comum e obedecem aos mesmos hábitos e rituais de qualquer outro casal

Num tempo de promiscuidade sexual utilitarista e hedonista que se afirma como valor cultural supremo, posso concordar com esta sua ideia, mas não lhe gabo o argumento: ele nivela por baixo.

Contudo, lembro que esta sua ideia é essencialmente masculina: a mulher é, em geral, e por sua natureza, avessa à promiscuidade sexual. O que acontece é que, com leis que cada vez menos a protegem ― hipócrita e ironicamente em nome da “liberdade” da mulher ― ela não tem outro remédio senão “dançar a música” tocada pelo “marialva cultural” que continua a comandar a sociedade e os seus valores, cinicamente e em nome de uma pretensa “igualdade”. A verdade é que o “real feminino” saiu de cena em nome de uma androgenia cultural presentista que não tem pernas para andar sob o ponto de vista histórico ― trata-se de uma construção cultural conjuntural e inerente a uma fase histórica de decadência civilizacional e que tem os dias contados ―, e a mulher abdicou também em muito da sua natureza, como aconteceu ao homem e ao “Thumos” em circulação na sociedade (ler o link para se perceber o que quero dizer).

que significa o esvaziamento desse conceito/símbolo de transformação.

Os ritos de iniciação social são necessários em qualquer sociedade. Ainda não percebi que combustível moral (incluindo os ritos) pretendem como substituição total dos que existiam. Não acho boa ideia passarmos de 8 a 80. Temos nuvens muito sombrias no horizonte histórico.

Também me parece indiscutível que muitos casais casam por uma questão legal, para facilitar uma série de procedimentos cívicos que sem o casamento

Não me parece. As leis portuguesas privilegiam e favorecem quem não se casa. Uma dupla (não casada) e com filhos paga menos impostos do que um casal (casado) nas mesmas condições; e depois, e por simples respeito à nossa inteligência, não me venham dizer que “os costumes fazem as leis”. Neste caso, as leis foram nitidamente feitas para se moldarem os costumes, porque se não fosse assim, existiria uma igualdade de condições legais nos dois diferentes casos. Certo?

Esta coisa de provocar conflitos sociais, artificialmente construídos através da pura subversão cultural recorrendo a argumentos contra-natura (inventando “problemas” que não existem na natureza), e depois preocuparem-se em não deixar impressões digitais que comprometam quem realmente está por detrás da construção desses conflitos ― atirando a responsabilidade para “os costumes” ―, já vem da cartilha de Lukacs; não é novidade.

Em tudo o resto [assistência em doença (vide lei de união-de-facto 7/2001), pagamento de impostos (idem), partilha de bens (não existem testamentos?), segurança social (é preciso estar casado para ter direitos nesta área?)], as nossas leis foram propositadamente feitas para formatar os costumes, e não o contrário.. Existe, de facto, uma agenda política que luta contra a natureza, e por isso, está condenada ao fracasso; o problema está nos custos (até em vidas humanas) que esta aventura irracional de uma “elite” terá para a sociedade em geral no futuro.

E depois ― e aqui é que está uma das verdadeiras intenções do “casamento” gay: a lobotomia cultural e contra-natura das nossas crianças ― temos a adopção de crianças por duplas de pessoas do mesmo sexo (que podem, na prática, serem três ou quatro ― ou mais; ver poliamoria ― pessoas adultas em promiscuidade sexual “de facto” que adoptam uma criança em conjunto, como quem compra uma boneca), que vem a seguir ao “casamento” gay e que constitui uma autêntica aberração humana, cultural e civilizacional. Uma aberração hedionda!

pois este debate decorre em muitos países e seria exagerado atribuir-lhe uma conotação marxista,

Quando me refiro ao Marxismo, não me refiro ao marxismo económico clássico, mas refiro-me ao marxismo cultural. Alguém que esteja minimamente atento ao que se passa no Ocidente pode contestar que existe uma tentativa de sincretismo ideológico entre o capitalismo (neoliberal) na área económica, e o marxismo na área da cultura? Alguém tem dúvidas sobre isto? O problema é que algumas “elites” defensoras deste sincretismo irracional não se deram conta de que o capitalismo morrerá pela cultura, e será pela cultura que um totalitarismo neomarxista se instalará progressivamente ― tal como desenharem Gramsci e Lukacs ―, a não ser que “o pêndulo do relógio histórico” tenda à sua posição natural, o que irá, inexoravelmente, acontecer, e infelizmente, com consequências dramáticas que seriam perfeitamente evitáveis se existisse hoje algum bom-senso.

Por muito que V. Vexa queira “dourar a pílula”, a verdade é que sua opinião reflecte uma influência (consciente ou inconsciente, não posso precisar) de uma visão da sociedade que se iniciou nos anos 20 do século passado, com a Escola de Frankfurt. Vexa, na minha opinião, está ideologicamente comprometido(a) ― eu também estou, e não o escondo.

A História encarregar-se-a de nos dizer quem tem razão, porque as nossas posições estão de tal modo afastadas que não é possível qualquer tipo de compromisso ― no futuro, provavelmente uma guerra civil, ou coisa que o valha, resolva uma total impossibilidade de entendimento nesta (e noutras) matérias.

Este será o meu último comentário neste blogue. Espero que não seja apagado.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caros comentadores (incluindo a minha cara colega e co-editora Helena Serrão)

Chamo a atenção para um aspecto crucial. O texto de Roger Scruton não discute a questão do casamento gay num plano moral. Não há uma palavra no texto que o sugira. É, portanto, irrelevante estarmos a discutir o texto apelando para as questões dos direitos das pessoas com esta ou aquela orientação sexual. O autor não toma posição acerca da moralidade ou imoralidade das relações homossexuais! Não refere que as uniões gay não devem ser reconhecidas plenamente como as uniões heterossexuais.
A questão colocada no texto é meramente conceptual. O conceito de casamento tem um determinado conteúdo que lhe foi dado pela história. Por outro lado, há aspectos desse conceito que se lhe forem retirados desfiguram o próprio conceito e o que obtemos com essa transformação é uma coisa diferente. O autor o que diz é que a diferença sexual é um dos elementos essenciais à instituição a que chamamos casamento e que, por isso, por definição os gays nunca se poderão 'casar'.
Ler com atenção e não ler mais nem menos do que o que está escrito é requisito básico para se pensar filosoficamente.

Carlos Marques

José Santana disse...

Algumas questões para lançar a confusão matrimonial.

1. Dizer que a finalidade, o telos do casamento é a consagração da diferença sexual é uma tese como outra qualquer. É a definição por excelência dos motivos do matrimónio? Tenho dúvidas. Mas é isso que Scruton faz para alegar a incongruência do casamento gay.
2. Poderíamos dizer que a finalidade encontra-se noutra direcção, por exemplo na procriação legalizada, uma vez que há outras formas de procriação (fora do casamento por ex).
3. Por outro lado, a consumação das diferenças obriga-nos a avançar um pouco mais. Quais diferenças? De género ou biológicas? Ambas coincidem?
4. Por outro lado ainda, temos que resolver o que fazer a essas diferenças, e nesse caso acrescentaríamos que é a diferença procriadora. Então temos as duas teses unidas.
5. O próprio acto de referi a diferença obriga a referir a identidade. Como se formam as identidades nos indivíduos? Certamente que a heteronormatividade não é um atributo essencial definidor de homem.
6. Se aceitarmos que a identidade resulta de uma convenção social fruto da história, então as diferenças entre os sexos não são irredutíveis. Vamos novamente impedir as mulheres de votar para honrar a tradição?
7. Podemos, por consequência, dizer que um casamento não procriador não sintetiza as diferenças e portanto falha o seu propósito. Nesse caso, os casais inférteis mantinham a sua diferença irredutível e teriam que se desunir.
8. E se os casais descobrissem de repente que afinal são do mesmo sexo? Teriam que anular o casamento.
9. E se descobrissem que um deles tem filhos noutro lado qualquer?
10. A questão dos filhos não se pode vincular ao casamento porque está resolvida pela adopção. A linha de pensamento de Scruton certamente contorna a possibilidade de adopção por parte dos homossexuais.
11. Se a diferença sexual é assumida como factor de atracção a questão torna-se insípida. Pode haver casais assexuados, logo, indiferenciados, sem impulso entre si.
12. Podemos arranjar ainda diversas outras noções para o casamento: a companhia, a solução financeira, o respeito, viver um projecto a dois, o erotismo, e até a possibilidade de obter um visto de residência. O que significa a expressão «o significado social do casamento»? Existe algum significado essencialista que deva manter-se até ao fim dos tempos? E a poligamia? E a dominação masculina, o declinante patriarcalismo? Um boa leitura de O Poder da Identidade de Manuel Castells não seria de menosprezar.
13. Se pensarmos que o erotismo é a fatalidade do casamento o problema das diferenças desaparece subitamente. Nunca vi ninguém declarar no altar que está ali a consumar as diferenças entre os sexos mas um amor profundo, etc.
14. Se afirmamos, por exemplo, que o casamento é «um contrato jurídico entre pessoas afectivamente unidas» não se vê onde a restrição de Scruton tem lugar. Defender que apenas os heteros podem aceder a esse contrato é outra coisa. É o mesmo que dizer que apenas os indivíduos de raça branca podem comprar casa ou andar de autocarro.
15. Podemos ainda dizer que o factor em jogo é o amor, sem pretender cair nas suas múltiplas definições. O que interessa é que o amor não nasce apenas entre os diferentes, ou melhor, entre indivíduos de sexo diferente.
16. Falar da tradição é ignorar a própria tradição. Vê-se que o autor não é versado em levantamentos genealógicos. Outrora já foi possível a união de indivíduos do mesmo sexo.
17. A tradição não constitui argumento válido. Ninguém se lembraria no Ocidente de defender a enfibulação ou a queima das viúvas como na Índia antiga no caso de morte do marido a partir da mera reprodução dos costumes.
18. Finalmente uma apreciação genérica à análise (muito parcelar) de Scruton: um pensamento que se compraz nas tradições e nas formas de dominação institucional, que não visa alternativas fora dos limites convencionados, que não pretende questionar o já-dado, nem procurar outros horizontes de sentido que superem as formas de vida intoleráveis (a homofobia e a sua discriminação é intolerável) é uma filosofia muito pouco ambiciosa e sem vigor.

José Santana

Jetpack Ninja Dinosaur disse...

Muito sinceramente... nao tenho nada contra os gays pelo que tenho 3 amigos homossexuais, pelos quais tenho todo o respeito. Se um dia quisessem casar um com o outro eu não me metia à frente deles, antes pelo contrário, eu até apoiava e ajudava no casamento.
No ponto de serem capazes de criar uma criança saudável tanto mentalmente como fisicamente também acho que são perfeitamente capazes e que também os gays têm instinto paternal ou maternal dependendo do caso.

Orlando disse...

Eu tinha escrito aqui que não voltaria a comentar porque constato que se tenta forçar aqui uma teoria contra todas as evidências (o que é irracional e nada científico), mas gostaria de chamar à atenção do comentador Santana acerca do facto de não devermos partir de uma conclusão para definir as premissas. Esta atitude é irracional e própria de uma mente revolucionária. .

Vejam o 5º item: "Como se formam as identidades nos indivíduos? Certamente que a heteronormatividade não é um atributo essencial definidor de homem.". Primeiro, uma pergunta; depois, uma afirmação sem justificação, isto é, um dogma.

O 6º Item é mais risível: as diferenças biológicas entre os sexos são literalmente obliteradas e lança-se para o "fruto social da História" as razões das diferenças entre o feminino e o masculino. O que me preocupa é que esta gente pode ser docente...Não é que eu defenda a biologia como uma verdade suprema, mas que ela formulou já algumas verdades científicas acerca dos dois sexos, disso não temos dúvidas.

Recorre o comentador Santana exaustivamente à “falácia de Parménides”, transportando para hoje a cultura considerada (por ele) “negativa” ou “positiva” de há dois mil anos, esgrimindo esses argumentos como sendo actuais e actualizados ― o passado que se desconstrói a nosso belo prazer para servir o presente e construir o futuro que se considera inexoravelmente conforme o nosso modelo idealizado. Pelo mesmo raciocínio, alguém poderia defender aqui o canibalismo ou a legalização da pederastia e da pedofilia.

Esquece-se que o “amor” não interessa à sociedade. A sociedade e o Estado não têm nada a ver com o “amor” que exista entre dois dos meus vizinhos. O amor é coisa privada, e quando se confunde o Privado com o Estado, damos nisto.

Por último, de um dogma, de um preconceito negativo (aquele preconceito que não se discute): a homofobia é intolerável, mas já a homofilia é recomendável, porque a negação da primeira implica automaticamente a aceitação da segunda.

A isto tudo chama-se: ideologia e agenda política. Não é filosofia.

José santana disse...

A argumentação de Orlando é curiosa devido ao facto de, ao pretender assinalar limitações ideológicas , baseia-se inteiramente na ideologia e no preconceito. Pretende indicar o dogma a partir de pontos de vista ainda mais dogmáticos. É um argumento típico ad hominem.
Vejamos,
Fala de um plano totalmente evidente. Qual é ele? Resposta: o científico. Conclusão: a ciência dá-nos uma verdade de tal modo evidente que se torna inquestionável. Será assim? Ou será esta postura super-dogmática mais adequada ao plano teológico?
Neste sentido podemos então chegar a uma verdade inabalável e sacrossanta: a da biologia. Que verdades científicas acerca dos dois sexos são essas? Tremo de ansiedade…
Depois temos a falácia da de Parménides. Nesse caso Scruton começou primeiro. Não foi ele que falou de tradição?

Outro dogma: o amor não interessa à sociedade. Quem disse? O grande Orlando? Na verdade, o público e o privado cruzam-se. Leitura recomendada The fall of public man de Sennett.

Outro conceito mal percebido. A luta contra a homofobia não conduz à recomendação da homofilia, leva apenas à sua aceitação em plano de igualdade. Aquele que aceita o gay não significa que pretende tornar-se gay, nem que as pessoas se convertam. A luta contra o machismo não leva a um feminismo exacerbado por ex. A luta contra os abusos não leva à promiscuidade, etc

Nota final: o afã classificador de Orlando é notável: irracional, mente revolucionária, etc. Voltamos ao estalinismo? Discutamos argumentos, não pessoas. Não vamos desenterrar o Gulag.

Orlando disse...

Para que o Santana fique elucidado sobre a minha “teologia”:

Surgiu a notícia de um novo estudo científico realizado na União Europeia que pode ser lido aqui. Que cada um tire as suas conclusões.

A minha conclusão é a de que a filosofia não pode ignorar a ciência, porque se assim o fizer, passa a ser dogma ou “ideologia política”. Se é verdade que a filosofia “é mais do que ciência” ― isto é, está para além da ciência ― , não pode, contudo, ignorá-la simplesmente. Seria irracional se o fizesse.

José Santana disse...

Este estudo serve para demonstrar exactamente o quê? Que a prevalência dos homossexuais aumenta com a mentalidade mais aberta da sociedade? E que isso acontece mais em meio urbano do que na zona rural? E que afinal a questão dos gays é uma convenção social e não uma diferença biológica naturalizada (como dizia Scruton)? And so what?

Que conclusões se podem tirar daqui para o ponto em discussão, a saber, se é ou não permitido o casamento gay? Seria o mesmo que dizer que não se deve permitir o divórcio porque isso aumenta a prevalência das separações entre casais. O que na verdade acontece. Sem o divórcio, contudo, as pessoas mantinham-se casadas apesar do ódio recíproco.
Se o divórcio for visto como tragédia social a evitar, então seria melhor proibi-lo, não? Nem a Igreja já pensa assim…
Todavia, o argumento é o mesmo: devemos fazer tudo para evitar a homossexualidade nem que tenhamos de os perseguir.

Meu caro e racional Orlando. A união entre pessoas do mesmo sexo não é uma novidade. Basta ler o livro de John Boswell, Same-Sex Unions in Premodern Europe. A questão que subjaz é jurídico-política e também filosófica. Se mantivermos a hipótese absurda de Scruton, segundo a qual o casamento resulta de uma diferença sexual naturalizada, então confundimos dois planos, o nomos e a fusis em prol de um determinismo biológico que estendemos às convenções sociais. O estudo que cita revela o contrário, ou seja, que os factores são ambientais. O casamento é uma mera instituição, não um fenómeno de vontade de Deus (para que as pessoas procriem e não vivam em pecado) e do ponto de vista jurídico ainda é menos sagrado. Já houve em Espanha nos anos 70 uma lei que mandava os gays para a prisão para se «curarem». A homossexualidade deixou de ser considerada uma psicopatologia nos anos 70 pela DSM (isto é revelador das conclusões dos estudos científicos que tanto aprecia).

A questão é simples: devem os gays continuar a ser vistos como «anormais» e desviantes face ao casamento ou não? E quais os argumentos que podem sustentar as respectivas tomadas de posição?

Orlando disse...

Este estudo serve para demonstrar exactamente o quê? Que a prevalência dos homossexuais aumenta com a mentalidade mais aberta da sociedade? E que isso acontece mais em meio urbano do que na zona rural? E que afinal a questão dos gays é uma convenção social e não uma diferença biológica naturalizada (como dizia Scruton)? And so what?

Não coloque na caneta de Scruton aquilo que ele não escreveu.

Uma das questões é a de saber se aquilo a que chama de “mentalidade aberta”, pode ser “mentalidade fechada” para a maioria.

O meio-ambiente em que a sociedade vive deve estar de acordo com o máximo denominador comum idiossincrático dessa sociedade, e não devem as tendências maioritárias submeter-se às suas congéneres minoritárias. A mim, este parece-me um princípio lógico. O “princípio do terceiro excluído” de Aristóteles, aplicado aqui, resulta que a “intolerabilidade da homofobia” definida por lei, implica a “obrigatoriedade da homofilia”, e portanto, a imposição da homofilia por aculturação das crianças. É exactamente isto que o Santana defende: a homofilia (a simpatia para com a homossexualidade) passa a ser obrigatória por interdição moral e legal da homofobia. Como teoria “a priori”, a sua é tão boa como outra qualquer. O que temos que ver é se ela faz sentido, em função da liberdade que deve gozar o ser humano. Não podemos nem devemos retirar direitos à maioria para dar direitos especialíssimos e acrescidos a uma minoria. Voltamos ao marxismo cultural.

Seria o mesmo que dizer que não se deve permitir o divórcio porque isso aumenta a prevalência das separações entre casais.

Naturalmente se se transforma o divórcio em “divórcio-à-la minute-tipo-simplex-e-unilateral”, não há dúvida nenhuma que se está a favorecer o “facilitismo” do divórcio. Conheço muita boa gente que se divorciou “à la minute” com consentimento da esposa, se arrependeu, e já não pode voltar atrás. Mas o que está em causa não é isto. Não tergiverssemos!

A união entre pessoas do mesmo sexo não é uma novidade. Basta ler o livro de John Boswell, Same-Sex Unions in Premodern Europe

Sempre houve bastardos, na Europa pré-moderna como até 1980. Isso não significa que a lei não deva acabar com os bastardos, responsabilizando o homem que faz o filho. A lei portuguesa de 1980 passou a não permitir que existissem bastardos em Portugal ― e muito bem! A nova tendência cultural é que os bastardos passem a ser coisa chique e de bom tom progressista, em nome da validação moral e social do casamento gay. A criança passa a não saber quem é o pai biológico (ou a mãe, em caso de “barriga de aluguer”); será que a criança não passará a ter os mesmos direitos dos bastardos da Europa pré-moderna? Estamos a evoluir?

A união entre duas pessoas é coisa privada. Há gente que pratica a zoofilia, e continua a ser coisa privada. Existem diversas parafilias, desde o sado-masoquismo até distúrbios de identidade, e tudo isso faz parte da esfera privada. A lei proíbe a pederastia e a pedofilia por enquanto, mas já existe na Holanda um partido político autorizado pela lei holandesa, que defende a legalização da pedofilia em nome da “liberdade e dos direitos da criança”. Por isso, a abordagem ética destas questões é inevitável, até porque a ética faz parte da Filosofia. O seu raciocínio pode levar a que se defenda no futuro próximo, por exemplo, o casamento entre uma pessoa de 35 anos e outra de 12 anos, em nome do combate às “convenções sociais”.

Repito: a união entre duas pessoas é coisa privada e a sociedade organizada através do Estado não tem nada a ver com isso, desde que a lei em vigor seja respeitada. Não podemos é abrir uma caixa-de-pandora em que todos os desejos e tendências privadas sejam acolhidas sob a instituição do casamento. Por isso, há que definir “casamento”, antes de continuarmos a discutir o assunto.

Conforme diz Scruton, se o casamento é uma forma de se reconhecer como legítima ― e moralmente validada pela sociedade ― uma determinada tendência ou comportamento sexual, neste caso, todas tendências “amorosas” terão a mesma legitimidade moral e legal de reclamar o acesso ao casamento. Neste caso, não faz nenhum sentido que se dê aos gays um privilégio: os polígamos, os poliamóricos, os defensores do incesto (hoje já existem anticonceptivos e aborto, just in case), etc., todos eles terão direito ao casamento e à adopção de crianças. Negar isto, no contexto do casamento gay, não faz sentido.
Quando se pretende baixar a “idade de consentimento” sexual (relações sexuais com adultos) na Holanda para os 10 anos de idade (que neste momento está em 12 anos, desde que com o aval dos pais), também as crianças de 10 poderão casar-se com um adulto, seja esse casamento homo ou hetero, ou mesmo com o pai da criança de 10 anos ou com a mãe, dado que o incesto tem o mesmo direito ao “casamento” (nesta lógica) que o casamento gay.

Voltamos ao tempo de Maomé que casou com uma criança de 8 anos, o que significa ― e é isto que Scruton diz ― é que o casamento deixa de fazer sentido e torna-se anacrónico, rumo à “perversidade polimórfica” preconizada por Herbert Marcuse (o termo utilizado é de sua autoria). Quando o Santana defende o casamento gay, implicitamente defende este tipo de “abertura cultural” “anti-convencional”, porque não tem o direito de coarctar as reivindicações de outras tendências sexuais e “amorosas” presentes na sociedade, isto é, o Santana não tem o direito de negar a outras minorias o que defende para uma minoria, a partir do momento em que repudia o princípio tradicional do casamento heterossexual monogâmico maioritário e consensual entre adultos idóneos, que na minha opinião, foi uma das grandes conquistas da civilização europeia. É preciso saber se isto é “evolução” ou se é “involução”. Ao contrário do ideólogo e do político, todo o filósofo é céptico por natureza, e portanto, seria bom que a cautela e o cepticismo imperasse na análise destas matérias.

Se o casamento é, pelo contrário, fruto de uma evolução civilizacional que teve como corolário a monogamia com o fito principal (embora não único!) da reprodução e a educação das crianças num ambiente em que estejam representados os dois sexos parentais (em situação ideal e de princípio geral), pois aqui temos uma ideia de casamento diferente, que não leva nunca ao seu anacronismo como instituição, porque tem regras estritas, definidas e sem excepções, pese o facto de existir muita gente que não se casa por razões privadas (incluindo razões ligadas ao pagamento de impostos).

O que a sociedade tem que fazer é escolher um dos modelos institucionais: ou casamento tal como é, ou o casamento que acomoda todas as tendências e que leva ao seu próprio anacronismo ― é isto que Scruton diz! O casamento gay vai levar, a seu tempo, ao anacronismo do casamento civil e à legitimação de uma só forma de casamento: o casamento religioso.
Não é possível escolher os dois modelos em simultâneo, porque as instituições não podem ser flexibilizadas ao ponto de acomodar todas as tendências presentes na sociedade (um casamento poliamórico entre 11 mulheres e 7 homens, por exemplo, entre homossexuais e bissexuais, e que desse lugar ao nascimento de 5 crianças, levaria a processos de divórcio que levariam o Alberto Martins a defender outra vez o divórcio com “culpa”).

Agora, o leitor que faça a sua escolha e assuma as suas responsabilidades como cidadão livre. Note-se que eu sou a favor da Lei 7/2001 de 28 de Maio, que regula a união-de-facto.

Rest my case.

Alexandre Poço disse...

Este país é definitivamente muito engraçado, surrealista mesmo.
Enquanto o mundo está debroçado numa crise económica e financeira que precupa a vida de milhões de pessoas, pois não sabem como vai ser a sua vida dentro de uma semana, se ainda vão ter dinheiro para pagar casas, carros e outras despesas importantes...o nosso "velho país à beira mar plantado" 'diverte-se com questões que ou já deviam estar resolvidas ou que surgem para discussao no timing errado! Obviamente que com isto nao quero dizer que o assunto não tenha a sua importância...mas o país todo estar entretido nesta "palhaçada" em vez de se preocupar com assuntos pretinentes e urgentes é surreal! Mas não me refiro apenas ao facto do casamento gay, refiro me também a se andar a discutir candidatos para autarquias a 1 ano de eleições, a discutir o local de fabrico do Magalhães, entre outros! Mas também é isso que torna o nosso país giro e engraçado, é este modo de ver as coisas...

Cumprimentos

Alexandre Poço disse...

Mas como eu também sou português...aqui deixo a minha opinião sobre o tema!
Para mim, esta ideia de aceitar o casamento gay vai ser totalmente possível e indiscutível daqui a cerca de 40 anos, isto é, quando a geração do tempo da outra senhora ja não estiver cá. Com isto quero dizer que ainda vivemos num país conservador, muito ligado aos costumes, à tradição, à igreja...Mas dou um exemplo, até ha cerca de 20 anos, o objectivo dos jovens era casar, ter filhos e viver para sempre com a mesma mulher ou homem...e isso mudou, hoje em dia, os jovens, quando se lhes fala em casamento riem-se e dizem "não preciso de um papel e 2 aneis para ter felicidade", facto que também concordo! Então, daqui a cerca de 40 anos, já irá ser normalissímo ver casais do mesmo sexo a passearem se no parque da cidade, a andarem de mão dada sem levarem com o olhar conservador e preconceituoso actual...Quando me questiono e "porque não já, agora em 2008 ou para o ano, em 2009" , chego à conclusão que não pois ainda nao sabemos lidar com essa diferença e porque a ideia que temos de um homossexual, é daquele(a) individuo(a) com hesterismos, com um ar excentrico, a andar pela rua com "toques estranhos", sem pudor, a mostrar certas partes do corpo, etc...tipicamente o que as pessoas dizem por aí e desculpem me a expressão, mas de certeza que todos já a disseram ou ouviram,"os bichas" e porque será!? Porque dos gays mais famosos que conhecemos, como George Michael, Freddie Mercury, Elton John, entre outros, só conhecemos a faceta demonstrada na televisão, isto é, atitudes ridiculas e espalhafatosas que levam à generalização do comportamento da classe apenas observando dois ou três exemplos, o denominado estereotipo. Assim a mensagem que passa para todos é que se aceitarmos o casamento homossexual passaremos a ver no nosso quotidiano atitudes como as que vemos aos famosos! Por isso, continuo a acreditar que só daqui a 40 anos viveremos numa sociedade que aceita ambos os casamentos, o "tradicional"(se ainda o existir) e o homossexual...

Cumprimentos

José Santana disse...

O plano da argumentação de Orlando assenta no seguinte postulado: se o casamento entre os gays for permitido então tudo é possível, nomeadamente a casamento múltiplo, a pederastia, a pedofilia, etc. Nesse caso estamos a traçar uma equivalência entre o homossexual e o desviante, criminalizando a sua conduta. Ora nenhum Código Penal hoje diz que ser gay é ilícito e punível com prisão ou multa. A instituição casamento não é invariante e o direito das minorias não deve ser rechaçado só por que são… minorias (isso seria uma ditadura das maiorias). É preciso atender ao tipo de minorias naturalmente. Não vamos legalizar os torturadores, os pedófilos, etc só porque são minorias e têm direitos, mas não vamos perseguir os ciganos, os negros, os homossexuais e os judeus (como fizeram os nazis) porque são minorias e pretendem ter direitos. Na verdade a argumentação de Orlando radica na tese de que ser gay é sofrer de uma perturbação de personalidade. Não aceito essa tese. A homossexualidade como problema médico nasceu no séc XIX e deixou de ser patologia precisamente em 1973 pela comunidade médica (DSM). A pederastia era admitida pelos gregos e pelos romanos e agora parece-nos bizarra. Talvez seja na verdade, mas não é isso que está em questão.
A sua tese de que todas as parafilias seriam admissíveis via casamento entre gays é relativamente frágil. Ser gay não é uma parafilia. Como disse, a homossexualidade deixou de ser considerada doença psicológica (a pedofilia não) e sendo admitida como orientação sexual possível por que motivo não pode aceder às instituições? A inadmissibilidade do casamento entre gays (que por acaso não colhe o assentimento na Europa) parte de um outro postulado que me parece duvidoso, que Scruton adopta, e que eu chamaria fundamentalismo biológico, e que defende o casamento como instituição confinada aos heterossexuais porque são distintos biologicamente (isso é confundir sexo com género). Os muçulmanos admitem a poligamia e os eurocêntricos não. O que fazemos? Vá lá convencê-los de que são uns anormais…
A prevalência da homossexualidade será sempre minoritária. Contudo não pode ser excluída ou estigmatizada como em tempos mais ou menos remotos. A asserção de um «máximo denominador comum idiossincrático da sociedade» que tenha que se impor levaria à exclusão de todas as minorias e à aceitação do racismo (que por acaso radica, também ele, em teses biológicas). É a velha questão habermasiana do consenso. Mas a legitimidade do consenso acaba por afastar aqueles que não são chamados a opinar na comunidade argumentativa. Podemos aceitar o cinismo da Igreja quando defende que devemos ter compreensão pelos homossexuais desde que sejam castos e renunciem à carne? Acho que a homofobia é um sentimento bem mais anacrónico e que não colhe o consenso.


Depois temos a tese da evolução. Não me parece que o casamento seja fruto de qualquer evolução. O que me parece é que as instituições devem renovar-se e transformar-se quando não respondem já aos anseios das pessoas. O divórcio levou à separação de pessoas que se arrependeram? Não podem voltar atrás? Quem lhe disse? Podem voltar a… casar-se. O que não é admissível é colocar entraves fantásticos àqueles que já não se suportam, como se fazia antigamente.
Não sei muito bem onde foi buscar a absoluta separação entre o foro privado e o Estado. Na verdade o Estado regulamenta muito do nosso comportamento em privado, criminaliza ou permite determinados comportamentos, não remetendo para uma permissividade em privado. A violência doméstica por ex era algo confinado ao segredo do Lar que, felizmente, ascendeu a problema do Estado. Os costumes são práticas, não são regras conceptuais perenes, daí que o argumento de Alexandre Poço faça todo o sentido. Pelo menos assume algum pragmatismo que não está confinado ao cepticismo das grandes «mentes filosóficas».

Carlos Marques e Helena Serrão disse...
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Carlos Marques e Helena Serrão disse...
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Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Vejo com satisfação que o texto de Scruton teve pelo menos o mérito de provocar uma troca viva de pontos de vista.
Fico tambémmuito satisfeito pelo facto do nosso já velho conhecido "Orlando" ter decidido não nos privar dos seus interessantes comentários.
Ao Orlando gostaria de lhe dizer o seguinte: não há da parte dos editores do logosfera nenhuma agenda não filosófica. Devo dizer também o seguinte: os textos não assinados pelos editores podem ou não expressar as opiniões dos mesmos. Curiosamente, quanto a este assunto dos 'casamentos gay' os dois editores têm pontos de vista pessoais diferentes (incluindo desacordo quanto à forma correcta de interpretar o texto) - e convivemos tranquilamente com isso!
Voltando ao texto de Scruton e aos comentários sobre o tema, volto a insistir que a discussão se devia centrar sobre o que o texto diz! É que grande parte do que é dito nos comentários passa ao lado, ou vai para além, do que o texto diz. O texto não discute a moralidade ou imoralidade das relações ou uniões homossexuais ou mesmo a questão da igualdade de direitos das pessoas com orientações sexuais ou relações 'conjugais' minoritárias. Essa é outra discussão.
O Orlando percebe que a questão levantada no texto é essencialmente conceptual ao dizer que o texto não diz, é "que a intenção de estender o casamento a tudo, é mesmo essa: transformar o casamento em nada." Mas outras vezes deixa-se levar, talvez devido ao calor da discussão, por vias que não esclarecem muita coisa...Por exemplo, misturar a ideia de laxismo moral nesta discussão parece-me, além de irrelevante, pouco consistente.
Por outro lado, penso que quando o José Santana diz: "Dizer que a finalidade, o telos do casamento é a consagração da diferença sexual é uma tese como outra qualquer. É a definição por excelência dos motivos do matrimónio? Tenho dúvidas. Mas é isso que Scruton faz para alegar a incongruência do casamento gay." coloca uma questão pertinente. Scruton terá aparentemente razão se a diferença sexual (a par das outras referidas por Scruton) for algo essencialmente ligado ao conceito de casamento tal como o conhecemos. Se assim for o reconhecimento legal de uma união gay não pode aparentemente ser nunca um casamento, mas uma outra coisa (apesar de lhe podermos apor a designação 'casamento'). Eu até estou, no entanto, de acordo com a conceptualização de Scruton. Porém, vislumbro uma dificuldade: não é a diferença sexual algo de dimensão espiritual (e não meramente de constituição biológica)? Se é, significa que podemos ter, p. ex., um casal de homens (do ponto de vista biológico) onde se mantenha o embate do masculino e do feminino (espiritualmente). Pode argumentar-se que a biologia determina a identidade sexual e, assim, afirmar que só há masculino versus feminino se houver pénis versus vagina (para simplificar). Creio, no entanto, que esta equação biologia-identidade é desmentida pelos factos.
Seja como for, o que leio nas entrelinhas de Scruton é que o que é importante é não confundir a questão de se saber se os casais gay devem ter os mesmos direitos à face da lei com a questão do casamento.
A mim parece-me que a questão casamento ou não casamento é uma preocupação de quem devia usar o seu tempo para pensar melhor sobre a questão verdadeiramente relevante - os direitos dos indivíduos.
Carlos Marques

Afonso Carrêlo disse...

Olá a todos
Apoio bastante a ideia de Portugal "se diverte com questões que ou já deviam estar resolvidas ou que surgem para discussão no timing errado" e esta uma questão que pouco interessa para a situação actual, pois se os portugueses não repararam estam a existir muitas tensões entre nações que podem despoletar guerras inimagináveis. Isto demonstra como está a mentalidade dos portugueses.
Bom, sobre os casamentos gays é algo onde me sinto indiferente, pois acho que iria alterar a sociedade, mas sinceramente, como já referi, há mais em que pensar e hoje em dia; nos dias de hoje a instituição do casamento não tem tanto valor como tinha à uns anos atrás.
Mas se estivermos a falar do casamento através da religião, então é ligeiramente diferente, dado que não depende do Estado, mas sim da Igreja e pela Igreja actos homossexuais são condenáveis (hoje em dia não tanto) e também temos que ver, qual o objectivo do casamento; que eu penso que seja um compromisso a outrem e sendo assim não vejo qual o problema de casamentos homossexuais.
Se nós pensarmos que o casamento é algo que não tenha importância hoje em dia, o que para a maioria, penso que seja essa a verdade, então também não tem importância os homossexuais casarem-se, logo não há problema.
O verdadeiro problema é a adopção nos casais homossexuais, pelo simples facto que podem estar a "passar a sua homossexualidade" para os seus filhos adoptivos ou a criar embaraços dentro da sociedade.
Sobre isto apenas digo que no passar a homossexualidade não há provas cientificas nem exemplos a dar, logo é um problema a excluir, sendo que cada casal sendo ele homossexual ou não, é analisado psicologicamente para que se saiba se está apto a educar e a criar uma criança (penso eu, se assim não for deveria ser); o outro grande problema é os embaraços, que exemplifico com a já conhecida frase: "tenho dois pais" ou "duas mães" e isto é algo que demonstra outra vez a mentalidade dos portugueses (sendo ela bastante subdesenvolvida), pois isto é um problema mínimo neste tema, que pode ser facilmente resolvido, mas possivelmente, só o será daqui a 40 anos (como já foi referido noutro comentário), talvez nessa época as pessoas tenham outra mentalidade.

Não venho aqui defender nenhum dos lados, mas penso que os homossexuais não podem ser tratados como diferentes, mas também, os próprios homossexuais, não se deveriam demonstrar como diferentes, através de "marchas gay", ou as "paradas do orgulho homossexual"; nisso sou completamente contra, pois também não existem paradas heterossexuais (acho eu), como também não acho bom estar-se a fundamentar o estereótipo gay dos "homens bichas" e das "mulheres machonas", porque na maioria dos casos não corresponde à verdade, sendo os próprios homossexuais um pouco culpados pelos tabus e barreiras criadas pela sociedade.

Anônimo disse...

Calem-se todos mazé.

Quem tem razao é Jesus

Frederico Jesus disse...

É com muito agrado que vejo um debate de ideias tão profundo como este, mas com todo o respeito acho que quando o Sr.Orlando diz que estas ideias de aprovação de casamentos gay é própria de uma mente revolucionária, relembro que foi de mentes revolucionárias que surgiu a evolução cultural e social, se não houvesse essas gandes mentes hoje ainda se faria fogo á base de fricção entre as pedras, relembro também que foram as revoluções e as respectivas mentes que hoje em dia nos deram o direito á liberdade de expressão, caso nao tivesse-mos esse direito hoje muito provavelmente não estaria a expor o seu pensamento.
Portanto não se esqueça que mentes revolucionárias são precisas para o progresso universal,não mentes sedentárias, e sublinho que os filósofos pertenciam ao primeiro conjunto.
Relativamente ao assunto retratado aqui, está implantado nos direitos dos homens/mulheres o direito á felicidade, ou seja, ao estarmos a impedir a junção de um homem/homem ou mulher/mulher estamos a impedir claramente que este direito universal adquirido seja manifestado. Depois penso que já é tempo do preconceito social ser abulido das nossas vidas, pois a homossexualidade hoje em dia já é tão banal como qualquer outra coisa que se passe no quotidiano, como o colega Alexandre disse "penso que daqui a 40 anos seja possivel", mas daqui a 40 vai haver outros que dizem mais 40 e por ai fora, a sociedade tem de se libertar dos dogmas da igreja e da propria sociedade em si se quiser ter uma evoluçao social e cultural constante.
Estar a admitir casamentos homossexuais não é mesmo do que estar a premitir a pedofília ou outros actos preversos, é simplesmente estar a premitir a aquisiçao de um direito que há muito lhes pertence.

"Este é o CAMINHO que ajuda, pela percepção, a ver o que todos olham e alguns entendem", José Medeiros

Anônimo disse...

A mulher veio ao mundo para fazer companhia ao HOMEM ( escrevo HOMEM com letra grande). Não digo mais nada...

Afonso Carrêlo disse...

Apoio totalmente o Senhor Jesus (sendo ele o messias que nos guiará á salvação do Senhor),sendo que tem toda razão no seu discurso.
Só há algo tenho de sublinhar, é que a liberdade total de escolha sexual iria tornar a sociedade actual nalgo totalmente diferente, algo mais como os gregos, em que ser-se homossexual e casado com uma mulher ao mesmo tempo seria totalmente normal, (não digo que o casamento dos homossexuais o iria provocar (e que não o provocaria), mas iria dar-se um passo nessa direcção), mas o problema nisso tudo é a mentalidade das pessoas é por isso que se é dito que daqui a 40 anos talvez se seja mais aceite.
O pior inimigo deste direito à felicidade não certas pessoas, mas sim a sociedade.

pseudo-physis disse...

Afonso, tenho que discordar consigo quando afirma que não há qualquer razão para haver paradas gays... Há, e a razão baseia.se na diferença existencial de cada um e para cada um.
Agora o argumento colocado não se baseia nas paradas gays, mas sim no facto do casamento gay se tornar ou não um casamento real.
E quando o Afonso afirma e teme que estes casamentos serão supérfulos e poderão originar certos problemas sociais como a adesão dos "filhos" dos homossexuais à homossexualidade, por amor de deus.. O termo "gay" nada se relaciona com a educação de cada um, mas sim com a sua forma de ser, que de certa forma, já nasce conosco!

Afonso Carrêlo disse...

Pseudo-Physis
Não quis dizer isso e sei que não é isso que se sucede
aliás:
"não digo que o casamento dos homossexuais o iria provocar (e que não o provocaria))", foi o que eu escrevi. Estava apenas a basear me nos factos propostos pelos outros comentadores.