sábado, novembro 22, 2008

MELHOR QUE A FILOSOFIA NÃO HÁ

  É frequente pensar-se que a Filosofia é um luxo desnecessário sem valor prático. Uma espécie de coisa fútil ou, na melhor das hipóteses, um entretenimento que adicionamos à vida após termos resolvido os aspectos práticos desta. Isto é um erro.

  Longe de ser desnecessária, a filosofia é inevitável assim que as pessoas deixam de ter por adquiridas as crenças que receberam, e começam, ao invés, a pensar nestas pela sua própria cabeça. A glória da filosofia - e certamente dos aspectos que para ela muitas pessoas atraiu - é que nada é interdito, nem sequer o valor da razão, ou mesmo (embora isto pareça paradoxal) o próprio estatuto da filosofia. Não há limites. Apenas a argumentação e o debate sem fronteiras parecem ser uma constante. Trata-se de uma liberdade maravilhosa. Ou se é escravo das crenças que por acaso recebemos nas circunstâncias contingentes em que crescemos, ou se é, até certo ponto, um filósofo. A filosofia é, acima de qualquer outra disciplina, o bastião do pensamento livre e da exploração de ideias.

  E quanto à acusação de que é um luxo sem valor prático? Também isto é um erro, porque as crenças conduzem a acções (e à inacção), e ideias mal pensadas conduzem frequentemente a acções terríveis. A nossa responsabilidade sobre aquilo em que acreditamos, e sobre aquilo em que podíamos ter pensado, não se pode divorciar da nossa responsabilidade sobre as nossas acções. Ideias que em tempos não difíceis podem até parecer benignas, em circunstâncias extremas conduzem a acções horríveis.

  A filosofia considera por vezes a questão de como devemos viver. Pode argumentar-se que manter uma atitude filosófica é exactamente o modo como devemos viver - tudo o resto é escravidão crédula. É claro que uns vão mais longe do que outros, mas para a maior parte de nós a liberdade de pensamento é uma ida sem retorno: depois de a ter ninguém quer a escravidão de volta.

  Seria errado pensar que a Filosofia nos deixa constantemente num estado de dúvida vaga. Aceitamos as nossas crenças com base nos melhores argumentos. Porém, deixamos a porta aberta para argumentos novos. Na realidade, são aqueles que vêem as suas crenças como actos de vontade e de fé que se colocam numa escarpa instável da qual podem cair abaixo com as consequências dolorosas do desapontamento e dos sentimentos de vazio e perda. O resultado pode ser catastrófico, porque no caso de caírem, fazem-no de uma grande altura e de um lugar que julgavam inabalável. Depois disto, o quê? A filosofia não confere esperanças tão altas. E está até preparada para viver com isso corajosamente. Mesmo que mudemos as nossas crenças à luz de novos argumentos, podemos dizer a nós mesmos que quando formámos a opinião que tínhamos fizemos o melhor que estava ao nossso alcance para chegar ao fundo da questão. A filosofia nem cria a dúvida vazia, nem a certeza inalcançável.

  Como modo de vida, a filosofia e o pensamento filosófico não prometem felicidade; mas, penso, trazem ao de cima o que é melhor nos seres humanos. A filosofia dá corpo ao que há de mais nobre na nossa espécie.

John Shand, 'Introduction' in John Shand (ed.) Fundamentals of Philosophy. (London and New York, 2003, pp. 2-3). Tradução Carlos Marques.

2 comentários:

João da Quinta disse...

"deixamos a porta aberta para argumentos novos"

É precisamente isto que a escola não faz. Coma agravante de avaliar e poder com esse acto influenciar para sempre a vida de um aluno.

AP disse...

Quando a filosofia se demarca da imagem que tem na sociedade e no mundo, perde consequentemente, a consistência e o orgulho do trabalho efectuado após tantos séculos por tantos filósofos que dedicaram a sua vida à reflexão dos problemas que o Homem nunca conseguiu resolver.

Cumprimentos