domingo, dezembro 07, 2008

FAZ SENTIDO ARGUMENTAR ACERCA DO PROBLEMA DA EXISTÊNCIA DE DEUS?


O texto abaixo foi retirado e traduzido do site http://www.askphilosophers.org/ (vale a pena visitar!) no qual os cibernautas podem colocar perguntas a um vasto painel de filósofos e obter resposta. O livro de Alexander George, Que Diria Sócrates?
Filósofos Respondem Às Suas Perguntas Sobre O Amor, O Nada E Tudo O Resto, recentemente publicado pela editora Gradiva, baseia-se em perguntas que foram seleccionadas de entre as muitas enviadas para este popular site.


PERGUNTA
Têm sido propostos muitos argumentos que visam dar suporte à proposição que afirma que Deus existe. Até agora, parece que nenhum deles foi convincente. Pensa que é possível que um argumento que conclua com ‘Deus existe’ venha a ser alguma vez convincente? Se um tal argumento não puder ser convincente, não podemos inferir que não é convincente nenhum argumento que procure estabelecer a existência de Deus? Ou pensa que podemos vir a encontrar um argumento que seja convincente?

RESPOSTA (de Allen Stairs)
Se por “convincente” quer dizer algo como “acima de qualquer dúvida”, a resposta é quase de certeza não. No entanto, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. A tese que afirma que Deus existe tem pelo menos em comum com as teses filosóficas em geral o facto de haver bastante margem de manobra para se argumentar a favor ou contra.
Por outro lado, se a questão é saber se existem argumentos para acreditar em Deus que alguém possa achar convincentes sem cair na irracionalidade, a resposta é quase de certeza sim. Mas, uma vez mais, isto não é algo exclusivo dos argumentos acerca da existência de Deus. Pense no que quer que seja em que os filósofos estejam em desacordo e verificará que alguns filósofos no seu perfeito juízo se deixam convencer por argumentos que outros não consideram persuasivos. 
Pode alguém, razoavelmente, considerar um argumento persuasivo, mesmo tendo consciência de que este dá azo a objecções que ainda não obtiveram resposta? Se um padrão de razoabilidade é alcançável pelos seres humanos, a resposta também é sim. Em parte, isto deve-se ao facto de haver duas maneiras de encarar objecções. Uma, é pensar nelas como refutações; outra, como problemas a resolver: ‘se calhar esta questão que me atormenta vai ser fatal para as minhas convicções’; ou ‘se calhar, com algum jeito, eu ou outra pessoa, acabaremos por descobrir uma resposta convincente’. Pessoas razoáveis podem diferir, e diferem, sobre como encarar cada caso. Na verdade, o facto de os filósofos e outro género de teorizadores diferirem quanto a isto é uma das coisas que os vai mantendo ocupados!
Tradução Carlos Marques.

7 comentários:

Man40 disse...

Poder-se-á considerar que o problema da existência de Deus está para além da esfera da razão...A razão tem os seus próprios limites. Pretender-se "provar" ou "nao provar" a existência de Deus pela razão será sempre um exercicio académico sem o menor impacto na humanidade. Nenhuma prova racional da sua existência levou a uma qualquer conversão de um céptico tal como nenhuma prova racional da sua não existência levará um crente a abdicar da sua crença.
A crença em Deus é um dos campos da existência humana que esteve , está e estará para alem dos exercicios da razao.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caro Man40
O seu comentário toca na distinção entre religião natural e religião revelada, referindo que a primeira não tem poder de conversão.
Estou de acordo consigo. Creio que ninguém chega a deus sem fé, seja isso lá o que for (eu pessoalmente não sei o que é).
Acho realmente que quem acredita, não o faz em resultado de um processo argumentativo. Estou até de acordo com Kierkegaard que afirmava que não há convicção religiosa sem um desafio à razão (o absurdo), lembrando a história bíblica do sacríficio de Isaac pelo seu pai, Abraão. Para ter fé é preciso aceitar o que a razão diz ser inaceitável. É isso, porém, que eu não sou capaz de fazer.
Carlos Marques

Man40 disse...

Gostei da referência a Kierkegaard...De facto basta olhar à nossa volta para todos os indicios serem contrários à existência de um Deus bom ou justo...Este mundo parece a prova mais clara da sua não existência, ou se se preferir, seria mais "lógico" postular a existência de um Deus com qualidades opostas às que vulgarmente lhe são atribuídas (refiro-me ao celebre problema da existência do Mal..bem pujante, de boa saúde, e disseminado em abundancia). Contudo...se sairmos da esfera da Razão, das evidencias "visuais" que nos limitam, diria mesmo, que nos aprisionam,poderemos ser compelidos a postular a existência de um Algo que nos transcende,Algo que seduz não a razão mas outros níveis do nosso Eu (Eu mais profundo, diria eu...). Entramos claro está no nível do mistico, não apenas do mistico, mas também muitas vezes na Arte , que muitas vezes sente o sopro desse Algo.
Em resumo, a Razão é um orgão poderoso, mas limitador. E uma das suas caracteristicas mais destruidoras é excluir outras formas de aceder à Realidade ( o que quer que ela seja...).
Admitindo que o mundo é um mistério escondido pelo hábito de o vivermos todos os dias, acha que é possível "tocá-lo" ligeiramente quando frui uma obra de arte ou é transportado por sentimentos nobres como a generosidade e o amor?

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caro Man40
A razão tem limites, mas só será limitadora se esperarmos dela aquilo que ela não pode dar. Não vejo que não possa conviver tranquilamente com outros modos de nos relacionarmos com o mundo.
Estou disposto a aceitar que a arte, a nobreza de sentimentos e até o génio científico ou filosófico sugerem a 'presença' de qualquer coisa de especial, de sui generis, um mysterium que nos parece dizer que há qualquer coisa de absoluto neste mundo tão imperfeito. A propósito de Beethoven, o compositor e maestro Leonard Bernstein disse: 'O nosso homem tem com ele o que há de melhor, algo que vem do céu. Enfim, o poder de nos fazer sentir: Há qualquer coisa certa neste mundo. Qualquer coisa que, a todo o momento, tem coerência, que segue consistetemente a sua própria lei, qualquer coisa em que podemos confiar e que nunca nos deixará desamparados.' Esta sensação é-me familiar e ainda bem. Mas é o máximo a que consigo chegar nos caminhos do religioso...
Carlos Marques

Man40 disse...

Caro Carlos:
O que é exactamente o "sentimento religioso"? Como se poderá designar essa "sensação que lhe é familiar" que advém da audição d uma sinfonia d Beethoven ou da fruição uma forma de Arte ? Como se poderá designar a exaltação obtida pela compreensão de uma verdade matemática, bela e abastracta? Não será a mesma sensação obtida por vias diferentes?
Voltando ao problema inicial- Deus.Não será este um mero nome para sentimentos que nos abrem novas janelas para Algo que nos ultrapassa? E que Deus seja uma construção "mental", com adição sucessiva de adjectivos( justo, poderoso, etc) que lhe conferem deste modo existência?
Eu deslocaria a "discussão" deste Deus construído para o terreno das sensações que nos fazem entrever o grandioso e o maravilhoso para além de nós. Deslocaria a "discussão" do território da razão clara e rigorosa para uma zona escura onde apenas existe igorância e assombramento...Do assombramento poderá surgir qualquer coisa..Acho que devíamos mergulhar, nas sinfonias de Beethoven para quem se sente por ele assombrado, nas verdades matematicas para quem gosta de matematica, nas profundezas da astronomia, ou, simplesmente, levando uma vida exemplar (eticamente falando). Acho que se o melomano, ou o matematico, ou o astronomo, ou o....falassem uns aos outros dos seus assombramentos, talvez aprendessemos qualquer coisa do que está para além da pequenez da nossa mente.
Para finalizar: gosto das suas citações que trazem para o nosso teledialogo outros interlocutores, de mod que o nosso dialogo alem de vencer o espaço vence igualmente o tempo.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

CaroMan40
Como lhe disse, é-me familiar o sentimento de que há uma ordem independente que se manifesta através do génio artístico, científico e da grandeza ética.
O diálogo que temos mantido fez-me ir reler um livro que tinha lido há anos (eis um benefício deste convívio!). O livro chama-se O Sagrado e o autor Rudolf Otto (traduzido pelas edições 70). Neste livro, o autor procura identificar esta categoria. Sucintamente, confirma que o sagrado não é da ordem do racional, pois não é (inteiramente) captável por conceitos, mas apenas num certo tipo de sentimento que nos arrebata e que se liga à presença de algo que está absolutamente acima das criaturas do mundo. O sentimento que designa mysterium tremendum, um pressentimento de algo completamente estranho em qualidade e que, por isso, nos arrepia, inflama, espanta e aterroriza e subjuga de um modo absolutamente único. Tem a ver, continua o autor, com a percepção de uma potência e grandeza esmagadoras que nos fazem curvar na nossa fraqueza e insignificância, que nos subjuga em deferência respeitosa.
Neste sentido, parece ser algo mais do que o o deleite estético ou a admiração moral. Nestas não é clara a objectivação de uma PRESENÇA independente que, no seu ser e poder absolutamentre outros atemoriza, aniquila e nos empurra para extâses tão inevitáveis como (quase) insuportàveis.
É-lhe familiar este sentimento?
Carlos Marques

Man40 disse...

Caro Carlos,
Hoje vou organizar a minha "resposta" em tópicos para nao me perder.
1- Em primeiro lugar, obrigado pelas suas referências "culturais". Tenho um certo preconceito na leitura de certos livros...mas os autores que citou foram todos eles certeiros, e deu-me imenso prazer contactar com o pensamento deles neste dominios. Entao Rudolf Otto expressou de uma forma deslumbrante tudo o que penso e sinto sobre este assunto.Fiquei fascinado com a descrição dada por ele do encontro com esse "mysterium tremendum".
2. Sim, esse sentimento é-me familiar, a deferência respeitosa...o (quase) extâse (já que o verdadeiro extâse so esta reservado alguns... de qualquer modo sei o que é sentirmos algo de bom e belo que nos é no entanto quase insuportável, que nos assombra porque perguntamos: pois que sou tao pequeno que não posso suportar este sentimento?), sentir-se ligado a algo que está absolutamente acima das criaturas do mundo... E ja agora incluo tambem as palavras do Maestro Bernstein a proposito do post anterior: qualquer coisa que (acima de nós) tem coerência...uma ordem...
3- Otto fala-nos de uma experiência sentida por poetas ou misticos, Bernstein da experiência do matematico ou cientista ( quando li o q Bernstein disse sobre Beethoven, fez-me lembrar o que os matematicos ou fisicos declaram quando se sentem possuídos pelo deslumbramento face a um teorema ou teoria...).Lá está, por diferentes meios , chega-se a esse "mysterium tremendum"...
4- Mas se o deus d Bernstein (isso digo eu, não ele..)é um deus da ordem, o deus dos filósofos, e o deus de Otto o deus dos poetas e misticos (mais uma vez, deus é expressão minha, não dele...) falta, para mim, o mais importante. É que quando somos possuídos por esse "mysterium tremendum" não é apenas deferência respeitosa, aniquilamento, extase, sentirmos que algo nos ultrapassa, que nos impregna..para muitas pessoas( e para mim de certeza) o que verdadeiramente me esmaga, me aniquila, é uma sensação a que darei o nome de Amor, de me sentir tremendamente amado (por quem?- não sei), de amar e...isso dói! não me sentir à altura desse amor que me é oferecido, de me sentir minusculo face a esse amor, imperfeito no meu amor que eu sinto.. neste sentimento, sinto muitas ( nao exagerarei e nao direi todas) das minhas imperfeiçoes e limitações que ficam mais expostas.Haverá pessoas que saberão expressar melhor este sentimento, mas, por limitações proprias, nao sou capaz de ir mais longe.
5-Acho curioso que a nossa sociedade, irei mais longe, a nosssa cultura, pareça ter um pudor em falar publicamente do Amor. Esse algo de que estamos a falar, ese mysterum tremendum, também é ( eu atrever-me-ia a dizer, é essencialmente..) Amor. O Amor também nos aniquila, nos empurra para o extase, nos faz sentir imperfeitos.
6- Obrigado Carlos por ter aceite de ao falarmos deste assunto nos termos deslocado do terreno do argumentativo, do "racional", para o terreno " do que se sente" que é tão real, tao objectivo e tão verdadeiro como uma verdade matematica.
7- Por último: assim dá prazer falar com um filósofo! Num dialogo o mais importante (para mim) é a sinceridade. Quando se procura a "verdade" a melhor arma, a mais poderosa, é o sentimento sincero de a encontrar.