quarta-feira, setembro 16, 2009

Existir num lugar preciso.

Uma rua de Paris, Fotógrafo desconhecido


Como era triste, a sala de jantar onde estudava para o curso! A janela aberta mostrava as copas dos castanheiros em flor, e mais longe, sobre os telhados das casas, fumos brancos e cinzentos inclinavam-se no céu como grandes plumas. Debruçando-me um pouco, apercebia-me da entrada do museu e do ruído dos automóveis subindo sem cessar até aos meus ouvidos. O mundo estava cheio de gente que sabia para onde ia, aqui uns, outros ali. Nesta organização de inquietações e alegrias, qual seria o meu lugar? Sentia-me ao mesmo tempo o mais rico e o mais inútil dos seres. Como poderia ser que, durante horas, os homens consentissem, por exemplo, em guardar as salas vazias do Luxembourg, ou a dormitar no Senado, ou a fazer somas nas traseiras de uma loja? Que quereria dizer esta ordem que matava a vida? Porque o simples facto de viver é opressivo e não nos habituamos a ele, sem dúvida, senão cumprindo ocupações imbecis. Mas eu, não podia mais que existir.


Procurava, como outrora, os locais onde a vida não se assemelhasse, onde esquecesse que tinha um quarto, à esquina da rua Féron, uma mãe atenta, e manias, formas de pensar que eram como uma prisão.


Esta obscura necessidade de me libertar conduzia-me a um sítio estranho que não me parecia situado nem no sonho nem na realidade tal como a conhecemos. Se tenho boa memória, era na esquina de uma rua que vai dar ao Champs-de-Mars. Todos os dias, centenas de pessoas por lá passavam e não viam, sem dúvida mais que uma vasta construção inacabada onde o meu olhar descobria um outro mundo.

Julien Green, L'Autre Sommeil, pag 85,86, Fayard, Paris, 1994 (1ª Edição 1931)

Traduzido do Francês original por Helena Serrão

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