domingo, março 07, 2010

Radicalismos 7: Nunca mentir

Nicola Vinci

É um dever dizer a verdade. O conceito de dever é inseparável do conceito do direito. Um dever é o que num ser corresponde aos direitos de outrem. Onde nenhum direito existe também não há deveres. Por conseguinte, dizer a verdade é um dever, mas apenas em relação àquele que tem direito à verdade. (...)
Ora a primeira questão é se o homem, nos casos em que não se pode esquivar à resposta com sim ou não, terá a faculdade (o direito) de ser inverídico. A segunda questão é se ele não estará obrigado, numa certa declaração a que o força uma pressão injusta, a ser inverídico a fim de prevenir um crime que o ameaça a si ou a outrem.
A veracidade nas declarações, que não se pode evitar, é o dever formal do homem em relação seja a quem for2, por maior que seja a desvantagem que daí decorre para ele ou para outrem; e se não cometo uma  injustiça contra quem me força injustamente a uma declaração, se a falsificar, cometo em geral, mediante tal falsificação, que também se pode chamar mentira (embora não no sentido dos juristas), uma injustiça na parte mais essencial do Direito: isto é, faço, tanto quanto de mim depende, que as declarações não tenham em geral crédito algum, por conseguinte, também que todos os direitos fundados em contratos sejam abolidos e percam a sua força – o que é uma injustiça causada à humanidade em geral.

2 Não posso aqui tomar mais acutilante o princípio ao ponto de dizer: “A inveracidade é a violação do dever para consigo mesmo.” Pois tal princípio pertence à ética; mas aqui fala-se de um dever do direito. – A doutrina da virtude vê naquela transgressão apenas a indignidade, cuja reprovação o mentiroso sobre si faz cair."

Immanuel Kant, Sobre o suposto direito de mentir, LusoSofia Press, pp.4,5


Tradução de Artur Morão

A impunidade da mentira, o  medo de dizer a verdade quando esta acusa alguém poderoso que pode vingar-se, a opinião generalizada e torpe de que confessar é sinal de fraqueza e que calar-se e aguentar é sinal de força, são factos repetidos e continuados, indesmentíveis. Formalista e rigorista parece ser esta Filosofia de Kant, exigindo uma verdade a todo o custo  seja qual for a circunstância. Funciona, no entanto, como um fiel de balança, para os excessos da realidade humana haverá sempre uma voz crítica. Que a Ética não se separe nunca do direito e que essa voz crítica possa ser actuante e acusadora. Casos como o do Leandro que se atirou ao Tua com 12 anos fazem-nos pensar sobre o medo de dizer a verdade, como se dizê-la fosse o pior dos crimes, pior ainda que matar. Inversão total dos deveres.

Helena Serrão

3 comentários:

pbc disse...

Embora a verdade não exista, uma vez que é apenas resultado de uma convenção, de um consenso gerado em torno do nosso olhar e do nosso entendimento da realidade num determinado local, num determinado momento e em circunstâncias sempre específicas, é portanto sempre relativa, a verdade absoluta não existe e no entanto é absolutamente necessária para que nos reconciliemos com o presente e nos sintamos confortáveis com os nossos julgamentos sobre nós e sobre os outros, sobre as nossas escolhas e as nossas convicções. A nossa verdade é uma construção simbólica que consolida e determina o Eu de cada um de nós. Mas, a única verdade é que nunca saberemos a verdade sobre nada e que o futuro nos virá desmentir tal como nós desmentimos as verdades do passado.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

pbc: Olá! Em primeiro lugar obrigada pelo comentário oportuno e bem-vindo a este espaço.
Permite-me discordar, a verdade existe,se assim não fosse não existiria mentira ou erro e tudo se equivaleria. Um universo onde a verdade fosse relativa a uma opinião sem ter em conta factos e investigação, seria um universo onde a demagogia prevaleceria, nesse universo ninguém quereria viver, é passado. Neste caso há uma verdade, mesmo que não a possamos saber, ela existe. Talvez nos aproximemos, é urgente exigirmos essa verdade. "Putos" como o Leandro exigem-nos isso.
Helena Serrão

Carlos Pires disse...

pbc:

É verdade que a verdade não existe?