domingo, abril 18, 2010

Crítica ao relativismo


Kaatje Vermeir
(...)o verdadeiro é apenas um problema. Aqui radica a legitimação,mais ainda, a obrigação de cada um pensar  lançar-se ao caminho, não para demandar a pedra filosofal, pois, graças à filosofia do nosso tempo, a investigação é dispensável e cada qual sabe que, assim como está de pé e anda, tem em seu poder esta pedra. (...)
Contra esta atitude simples se levanta já a pretensa dificuldade, a partir da infinita diversidade de opiniões, se poder distinguir e descobrir o que nelas haverá de universalmente aceite e válido; e não é difícil poder divisar nesta dificuldade uma seriedade justa e verdadeira em torno do assunto. Mas, na realidade, os que se aproveitam desta dificuldade encontram-se na situação de não verem a floresta por causa das árvores: deparam com o embaraço e o enleio que eles próprios ergueram; mais ainda, esta descrenca, esta dificuldade é a prova de que pretendiam algo diferente do universalmente aceite e válido, da substância do direito e da Eticidade. Se de tal verdadeiramente se tratasse, e não da vaidade e da particularidade do opinar e do ser, ater-se-iam ao direito substancial, aos mandamentos da Eticidade e do Estado, e por eles ordenariam a sua vida.
(...)Esta turva prática da reflexão e da vaidade, a aceitação e o favor de que ela goza seriam, de per si, uma ocorrência que em si e, a seu modo, se vai desenrolando;mas, por causa dela, expôs-se a filosofia em geral a múltiplas formas de desprezo e de descrédito. A pior de todas elas consiste em que, como se afirmou, cada qual, assim como está de pé e anda, tem a convicção de saber algo sobre a filosofia em geral e de ser capaz de a discutir. A nenhuma outra arte e ciência se vota este desprezo derradeiro: crer que qualquer um, sem mais, a possui. (...)
De facto, o que com a máxima presunção vimos emanar da mais recente filosofia, a propósito do Estado, justificou em todo aquele que se deliciou em entrar na disputa, a convicção de conseguir tirar de si algo e demonstrar assim que está na posse da filosofia. Aliás, essa chamada filosofia declarou expressamente que o verdadeiro não pode ser conhecido; que o verdadeiro é o que cada qual deixa surgir do seu coração, do seu ânimo e entusiasmo acerca dos objectos éticos, em especial acerca do Estado, do governo, da constituição.
(...)Mas a superficialidade, quanto ao ético, ao direito e ao dever, leva por si aos princípios que, em cada uma destas esferas,constituem justamente o trivial, aos princípios dos Sofistas, que Platão nos deu a conhecer - os princípios que fazem assentar aquilo que o direito é nos fins subjectivos e nas opiniões, no sentimento subjectivo e na convicção particular - princípios de que provém a destruição da eticidade interior, da consciência jurídica, do amor e do direito entre pessoas privadas, e ainda a subversão da ordem pública e das leis do Estado.

G.H.F Hegel, Princípios fundamentais da Filosofia do Direito,Lusosofia. pp 6,7,8
Tradução de Artur Morão



3 comentários:

António Fernandes disse...

É possível extrair deste texto a forte crítica que Hegel faz à "filosofia" dos dias de hoje.
O que se verifica na actualidade é que cada um pensa ter a filosofia na sua posse, um pouco semelhante ao que Sócrates classificava como uma falsa sabedoria. Surge a vaidade de opinar e discutir sobre assuntos que não foram investigados, isto é, cada um possui a sua pedra filosofal contribuindo para que o verdadeiro exista, de novo, apenas em cada um.
Mas não é bem assim, segundo Hegel. A dificuldade, afirma, seria no meio de tantas filosofias encontrar o universal e válido. O que se passa é que (e mais uma vez demonstrando a vaidade) há quem se aproveite desta dificuldade para assentar que "se o verdadeiro é tão difícil de encontrar, então a minha opinião e o meu pensar não podem ser excluídos e considerados falsos".
Esta ideia é a base desta "nova filosofia": o verdadeiro está em cada um seja de que etnia ou estrato social for e não pode ser conhecido. E esta ideia de que "todos sabem tudo e todos têm razão" está a destruir a eticidade, a consciencia jurídica e o respeito pelas leis, graças à superficialidade, a tal falta de investigação e a ida ao fundo da questão, já que parecem existir obstáculos...

António Fernandes
nº2 10ºB

Anônimo disse...

Como ja tinhamos falado na aula anterior o autor nao concorda com a opinião que todos reêm a sabedoria e a verdade. Sendo a verdade tão dificil de encontrar, muita gente aproveita se da ideia errada das pessoas e por vaidade criam novas filosofias falsas. Para Hagel - os princípios que fazem assentar aquilo que o direito é nos fins subjectivos e nas opiniões, no sentimento subjectivo e na convicção particular - princípios de que provém a destruição da eticidade interior, da consciência jurídica, do amor e do direito entre pessoas privadas, e ainda a subversão da ordem pública e das leis do Estado.
Diogo Mendonça, nº7 10ºB

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

António Fernandes: O seu comentário salienta, de forma clara, que a investigação filosófica deve ser crítica, isto é, não deve preocupar-se apenas com o saber mas em desmascarar racionalmente os "falsos saberes" que podem conduzir ao relativismo.

Helena Serrão