sexta-feira, novembro 17, 2017

A técnica adequa-se ao objetivo. Uma técnica adequada é bom, independentemente do que se diz ou conclui?




"Para convencer alguém de uma verdade ou desviá-lo de um erro (...), a primeira regra a seguir é fácil e natural: apresentar primeiro as premissas e em seguida a conclusão. E, contudo, esta regra raramente é respeitada, procedendo-se exatamente ao contrário. Um zelo impaciente e a necessidade de ter razão pressionam-nos a gritar bem alto a conclusão a quem erradamente defende o oposto. Este procedimento torna o nosso oponente respingão, e a partir daí a sua vontade mostra-se rebelde aos argumentos e às premissas de que ele, antecipadamente, conhece a conclusão.
Assim, devemos dissimular a conclusão e apresentar as premissas com clareza, e sob todos os seus aspetos. Se possível, não devemos sequer anunciar a conclusão. Ela acabará por se impor inevitavelmente, em virtude de leis necessárias, à razão dos auditores e a convicção que nasce assim espontaneamente neles, será mais sincera; além disso, em vez de os encher de confusão, ela será acompanhada de um sentimento de mérito pessoal.
Em casos difíceis, podemos mesmo fingir querer chegar a conclusões diferentes daquelas que realmente temos em mente (...)
Não devemos produzir argumentos excessivos. Por isso os chineses enunciam a seguinte máxima: "aquele que é eloquente e que tem a língua afiada só deverá enunciar metade de uma proposição; e aquele que tem a razão do seu lado pode voluntariamente sacrificar três décimas do seu discurso."

Shopenhauer, O mundo como vontade e representação

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