domingo, março 29, 2026

Clive Bell, O que é estético é meramente formal


Paul Cezanne, Mont Sainte-Victoire, 1887

Porque somos tão profundamente tocados por formas relacionadas de uma forma particular?” A questão é extremamente interessante, mas irrelevante para a estética. Na estética pura, temos apenas de considerar a nossa emoção e o seu objeto: para efeitos da estética, não temos o direito, nem há necessidade, de bisbilhotar o objeto e o estado de espírito de quem o criou. tentarei responder à questão; pois ao fazê-lo, poderei desenvolver a minha teoria da relação da arte com a vida. Não me iludirei, porém, de que estou a concluir a minha teoria da estética. Para uma discussão sobre a estética, basta concordar que formas organizadas e combinadas de acordo com certas leis desconhecidas e misteriosas comovem-nos de uma maneira particular. A relação entre forma e cor é irreal não se pode conceber uma linha sem cor ou um espaço sem cor; nem se pode conceber uma relação de cores sem forma.Num desenho a preto e branco, os espaços são todos brancos e todos são delimitados por linhas pretas; na maioria das pinturas a óleo, os espaços são multicoloridos, assim como os limites,não se pode imaginar uma linha de contorno sem conteúdo, ou um conteúdo sem uma linha de contorno. Portanto, quando falo de forma significativa, refiro-me a uma combinação de linhas e cores (contando o branco e preto como cores) que me comove esteticamente. Algumas pessoas podem ficar surpreendidas por eu não ter chamado a isto “beleza”. É claro que, para aqueles que definem a beleza como “combinações de linhas e cores que provocam emoção estética”, concedo de bom grado o direito de substituir a minha palavra pela deles. Mas a maioria de nós, por mais rigorosos que sejamos, tende a aplicar o epíteto “belo” a objetos que não provocam aquela emoção peculiar produzida por obras de arte. Suspeito que todos já chamaram uma borboleta ou uma flor de bela. Alguém sente o mesmo tipo de emoção por uma borboleta ou uma flor que a emoção que a maioria de nós sente, geralmente, pela beleza natural. Sugerirei, mais adiante, que algumas pessoas podem, ocasionalmente, ver na natureza o que vemos na arte e sentir por ela uma emoção estética; mas estou convencido de que, por norma, a maioria das pessoas sente um tipo de emoção muito diferente pelos pássaros e flores e as asas das borboletas daquela que sentem por quadros, vasos, templos e estátuas. Por que razão estas coisas belas não nos comovem como as obras de arte comovem é outra questão, e não estética. Para o nosso propósito imediato, temos que descobrir apenas qual a qualidade comum aos objetos que nos comovem enquanto obras de arte. Na última parte deste capítulo, quando tento responder à questão — “Porque é que somos tão profundamente comovidos por algumas combinações de linhas e cores? Espero poder oferecer uma explicação aceitável do porquê não sermos afetados por outras qualidades.

Uma vez que chamamos “Beleza” a uma qualidade que não desperta a emoção estética característica, seria enganador chamar pelo mesmo nome à qualidade que a desperta. Para fazer da “beleza” o objeto da emoção estética, devemos dar à palavra uma definição mais rigorosa e menos familiar. Todos usam, por vezes, “beleza” num sentido não estético; a maioria das pessoas fá-lo habitualmente. Para todos, excepto talvez aqui e ali algum esteta ocasional, o sentido mais comum da palavra é não estético.

Clive Bell, Art,NEW YORK, FREDERICK A. STOKES COMPANY PUBLISHERS,