terça-feira, janeiro 22, 2008

O campeão dos cavalos de pau.


O Paulo sabia qual o cavalo que ia vencer a corrida. Sentia-se seguro quanto a isso e sempre que sentira esta certeza no passado, nunca se enganara.
A convicção do Paulo não se baseava no estudo de cavalos; nem o Paulo tinha visões do futuro. Muito simplesmente, o nome dos vencedores ocorria-lhe quando se punha a baloiçar no seu cavalo de pau (embora fosse já demasiado crescido para isso).
O Paulo não ganhava todas as suas apostas (incluindo aquelas que os adultos que conheciam o seu segredo faziam em seu nome). Por vezes, sentia-se menos seguro e noutras ocasiões não sabia de todo o que fazer, deitando-se apenas a adivinhar. Porém, nesses casos não apostava grandes somas. Quando se sentia completamente seguro, isso sim, apostava quase todo o dinheiro que tinha. Até à data, o método nunca o deixara ficar mal.
Óscar, um dos seus colaboradores adultos, não tinha dúvida de que Paulo possuía um dom misterioso, mas não se convencera de que Paulo conhecesse realmente os cavalos vencedores. Não bastava para isso que o Paulo tivesse sempre ganho até agora. Sem saber porque é que acertava, os fundamentos das suas crenças seriam sempre incertos para poderem ser considerados verdadeiro conhecimento. Apesar disso, Óscar não deixou de apostar algum do seu dinheiro nas dicas do Paulo.

O que é o conhecimento por oposição à mera crença correcta? Tem de haver alguma diferença. Por exemplo, imagine que alguém que nada sabe de geografia encontra um cartão com uma lista dos principais países e suas capitais. Pode ler-se: Reino Unido - Edimburgo; Espanha - Barcelona; Itália - Roma. Essa pessoa aceita o que o cartão diz tal qual e, portanto, acredita que estas cidades são na realidade as capitais dos seus respectivos países. Engana-se em todos os casos, excepto num, Roma. Embora acredite que Roma é a capital de Itália e esteja nisso correcto, é justo dizer que ele sabe que isso é verdade? A sua crença baseia-se numa fonte demasiado fraca para poder contar como conhecimento. Dá-se apenas o caso de nesta circunstância, contrariamente ao habitual, a sua fonte estar correcta. A sua crença verdadeira não lhe dá mais conhecimento do que lhe daria a circunstância de ter adivinhado o nome da capital de Itália.
É por esta razão que os filósofos insistem usualmente que as crenças verdadeiras têm de ser justificadas de um modo apropriado para poderem contar como conhecimento. Mas que tipo de justificações são essas? No caso de Paulo, a sua pretensão ao conhecimento baseia-se num simples facto: a fiabilidade da fonte das suas crenças. Quando se sente convencido que sabe o nome do cavalo vencedor acerta sempre.
O problema é que o Paulo não tem ideia de onde vem essa convicção. A evidência de que esta fornece um caminho fiável para o conhecimento provém somente dos resultados até à data, mas isto não mostra que o mecanismo não é de confiança. Por exemplo, pode ser que alguém que tenha o poder de viciar os resultados da corrida consiga, de algum modo, colocar na mente do Paulo os nomes dos cavalos vencedores, sendo o seu objectivo o de um dia colocar na mente do rapaz um nome errado arrebatando-lhe assim todas as poupanças que acumulou. Tal como a falta de fiabilidade da lista das capitais de países do cartão não pode ser fonte de conhecimento, mesmo se algum dos exemplos é correcto, também a falta de fiabilidade introduzida pela hipótese do viciador de corridas mostra que os nomes que ele coloca na mente do Paulo não podem ser fonte de conhecimento, mesmo se bateram sempre certo até agora.
E se a fonte das crenças do Paulo é algo genuinamente misterioso? E se não é algo do tipo de um viciador de corridas, que sabemos não digno de confiança, mas simplesmente algo que não conseguimos explicar? Nesse caso, o único juíz sobre o que é ou não digno de confiança seria a experiência do passado. Isso abriria a possibilidade de erro no futuro. E será que há algum caminho para um conhecimento seguro sobre o qual não tenhamos dúvidas sobre a sua fiabilidade futura?

Julian Baggini, The Pig That Wants To Be Eaten... (London, 2005).  Trad. De Carlos Marques.
Ilustração: As corridas de cavalos, Degas, Paris, 1911

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