terça-feira, abril 08, 2008

O fundamento objectivo da ética é dar-nos uma perspectiva mais ampla das relações humanas

As verdades éticas não estão escritas na estrutura do universo: até aqui o subjectivismo tem razão. Se não existissem seres com desejos ou preferências de qualquer tipo, nada poderia ter valor e a ética não teria qualquer conteúdo. Por outro lado, uma vez que existem seres com desejos, há valores que não se reduzem aos valores subjectivos de cada ser individual. A possibilidade de se ser conduzido, pela razão, ao ponto de vista do universo fornece a "objectividade" suficiente. Quando a minha faculdade da razão me mostra que o sofrimento de outro ser é muito semelhante ao meu próprio sofrimento e (nas circunstâncias adequadas) é tão importante para outros seres como o meu próprio sofrimento é importante para mim, então a minha razão está a mostrar-me uma coisa que é inegavelmente verdadeira.Posso sempre escolher ignorá-la; porém, já não posso negar que, ao fazê-lo, a minha perspectiva é uma perspectiva mais estreita e mais limitada do que aquilo que poderia ser. Isto pode não ser suficiente para manter uma posição ética objectivamente verdadeira. (Uma pessoa pode sempre perguntar: qual é a vantagem de ter uma perspectiva mais ampla e mais abrangente? ) No entanto, não se pode encontrar um fundamento mais objectivo para a ética.


Peter Singer, Escritos sobre uma vida ética, Dom quixote,Lx,2008




Tradução de Pedro Galvão, Maria Teresa Castanheira e Diogo Fernandes

4 comentários:

Orlando disse...

1. Peter Singer é ateu. Convém que se diga isto em nome da transparência ideológica.

2. O facto incontestável de que a natureza obedece a leis necessárias, é um facto incompreensível (v. Lotze, idealista alemão) Assim, como se pode afirmar que "as verdades éticas não estão escritas na estrutura do universo", se não conseguimos sequer compreender a necessidade das leis da natureza?

A necessidade das leis da natureza só se torna compreensível se se admitir que não é um facto ultimo mas apenas um meio que se manifesta e revela, na sua própria organização, o objectivo ultimo que tende a realizar: a ética, e em consequência, o Bem.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

caro orlando,
Em 1º lugar, obrigado pelo seu interessante comentário.
Estou de acordo consigo quando subscreve a ideia de que o facto de as leis da natureza serem necessárias é, em última análise, incompreensível.Porém, não vejo que daí tenhamos de aceitar que a natureza seja apenas um meio para realizar fins éticos.
Por outro lado, não me parece que o argumento de Singer dependa de uma visão dessacralizada da natureza. Podemos ler o seu argumento do seguinte modo: admitir que a ética não está inscrita na estrutura da natureza não faz de nós subjecivistas éticos. É claro que isto é dizer algo que o Orlando provavelmente não aceita: a objectividade da ética não é logicamente dependente do postulado de que Deus existe.
Mas espero com muita curiosidade o que tem a dizer sobre isto.
Abraço.

Anônimo disse...

Beijinho helena

MassaMansa disse...

"Cada um é, a partir dos 30 anos, responsável pela cara que tem"

António Alçada Baptista