quarta-feira, outubro 22, 2008

Descartes e o problema do conhecimento, parte 4 - O realismo indirecto

O próprio Descartes não era um solipsista. Era um fiel realista, que acreditava firmemente que existe o mundo dos objectos externos, objectivos e físicos e que, não obstante os argumentos do género dos do “sonho” e do “espírito maligno”, podemos conhecer esse mundo através dos sentidos. Porém, ele também pensava que que esses argumentos mostram que não o sabemos directamente. O que conhecemos directamente são os conteúdos das nossas mentes, o rico fluir das experiências que constitui a vida consciente do dia-a-dia. O mundo físico que é representado por essas experiências é realmente aquilo que é a causa delas e não cientistas loucos ou demónios. Porém, só temos acesso directo às próprias experiências. É como olhar para as imagens de um ecrã de televisão sem poder observar a fonte de onde provêm originalmente as imagens. Poderemos supor que o que estamos a ver é uma transmissão directa de astronautas dentro de uma nave especial em órbita à volta da terra. Podemos até ter razão, mas é pelo menos possível que o que estamos realmente a ver seja uma gravação de acontecimentos ocorridos anteriormente, actores num estúdio em Hollywood e alguns efeitos especiais inteligentes ou mesmo uma imagem inteiramente gerada por computadores. É claro que podemos saber se se trata de uma transmissão directa recorrendo a uma fonte independente, mas o facto de não podermos sabê-lo observando apenas as imagens, mostra que necessitamos dessa fonte independente e que o que vemos directamente podem não ser mesmo realmente astronautas, mas apenas uma representação deles. De modo semelhante, segundo Descartes, ao nível da percepção, quando um livro está diante de nós e é o que origina a experiência ‘livresca’, nós estamos realmente a ver o livro, embora indirectamente; quando a experiência é originada por um sonho, uma realidade virtual ou um demónio, não estamos a ver de forma nenhuma o livro. Em qualquer dos casos, o que você “vê” directamente nunca é o próprio livro, mas apenas a representação perceptiva do livro.
Esta perspectiva – que tudo aquilo de que alguma vez estamos directamente nos apercebemos é o “véu das percepções” que constitui as nossas experiências conscientes – é conhecido por realismo indirecto, realismo representativo ou realismo causal. “Realismo”, porque porque defende que há um mundo físico fora das nossas mentes; “indirecto”, “representativo” ou “causal”, porque sustenta que apenas indirectamente conhecemos esse mundo através da nossa consciência directa das representações perceptivas que esse mundo provoca em nós, pelo seu impacte nos orgãos sensitivos. Uma longa lista de filósofos, incluindo empiristas como John Locke (1632-1704) e Bertrand Russell (1872-1970) – que não concordam, por outro lado, com o racionalismo de Descartes - sustentou esta perspectiva (…)

Edward Feser, Philosophy of mind. A beginner’s guide. (Oxford, 2006). Trad. Carlos Marques.

26 comentários:

MassaMansa disse...

É por tudo isto que a Filosofia é subversiva por natureza.Mas a maioria dos professores na escola utiliza a autoridade ilusória dos filósofos mortos para alimentar as aspirações mais palermas. O poder do pensamento crítico dos alunos, que a escola proíbe, restituiria o filosofar genuíno, genuinamente subversivo.

Carlos Marques e Helena Serrão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Marques e Helena Serrão disse...

caro/a massamansa: a escola é uma instituição, cada sala de aula tem vinte e tal alunos e 1 só professor, um programa e uma avaliação sobre competências e conteúdos que o aluno terá de demonstrar se domina ou não. Não há nada de mal nos filósofos mortos, na verdade eles não estão mortos, muita coisa nos podem ensinar se os soubermos ler e compreender. Nós, os vivos, devemos acrescentar algo de novo ao que já foi dito e pensado, discuti-lo, pensá-lo de novo porque há problemas que são universais e intemporais. A filosofia é subversiva, sem dúvida, incómoda, sem dúvida, o saber, o querer saber, querer ver claro, é um trabalho continuado, recomeçado, interrompido, persistente, inacabado. Os filósofos mortos ou não, são parceiros privilegiados desse trabalho crítico. Folgo em saber que, sendo aluno, não é massamansa, apesar de ser esse o seu nome por aqui e obrigada pelo comentário.

MassaMansa disse...

Mas essas "competências" e "conteúdos" que o aluno terá de dominar variam de turma para turma. E uma dessas competências deveria ser a "serenidade", mas dirigida aos professores, coisa que não se passa. Para Sócrates, Epicuro, Lucrécio, Virgílio, Séneca, a "serenidade" era um sinal da vida que não teme a morte; para Montaigne uma medida do homem livre; para Espinosa, o outro nome da alegria e da tristeza; Heidegger dedicou-lhe uma conferência; como é que nesta Escola pode haver "serenidade", se um aluno de "Artes" vale mais 3 valores que um aluno de "ciências"?

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caro massamansa,
Gostaria que esclarecesse sff o que quer dizer com "um aluno de "Artes" vale mais 3 valores que um aluno de "ciências".

MassaMansa disse...

Por que é que no ano passado deram na disciplina de Filosofia mais 3 valores a alunos de "Artes", que passaram de 5 para 8 valores, e não foi usado o mesmo critério nos alunos de "Ciências"? Se a avaliação tivesse sido justa , a turma de "Artes" teria desaparecido, e os postos de trabalho estariam em risco ( foi o único critério subjacente a essa decisão ).

"Aquele que se escondeu bem, viveu bem" - Descartes (inscrição que preparou para o seu próprio túmulo)

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

caro/a massamansa: este espaço o Logosfera é um espaço de comentário aos artigos que são expostos ou a problemas que deles possam derivar, é tranquilizador discutir racionalmente o que nos confunde procurando objectivamente um esclarecimento, procuramos afastar-nos do juízo fácil e imediato sobre aspectos que não dominamos e dos quais não sabemos exactamente o contexto para ter sobre eles uma opinião livre e justa. É o caso que está a falar.Não o entenda como fuga à questão, mas sim como impossibilidade, neste espaço, de lhe definir os contornos com exactidão.

MassaMansa disse...

"Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo"

Voltaire

Júlio Gonzaga disse...

A discussao efectuada pelo(a)massamansa não tem directamente haver com o tema do texto, nem penso que este seja o sítio mais apropriado para a ter, mas se é verdade que esse facto aconteceu na vossa escola...é grave e deverá ser averiguado! Acima de tudo "Igualdade para todos" no julgamento de situações...

Rosa disse...

A razão pode conduzir-nos ao desprendimento, á aceitação, á libertação e á iluminação. A Lógica ao retrocesso e ao engano. O Conhecimento não se transmite; adquire-se ao experimentar a informação recebida.
"Só a critica pode cortar pela raiz o materialismo, o fatalismo, o ateísmo, a incredulidade dos espiritos fortes, o fanatismo e a superstição que se podem tornar nocivos a todos e por último também o idealismo e cepticismo que são sobretudo perigosos para as escolas, e dificilmente se propagam no público", Immanuel Kant,Critica da Rzão Pura.

Uma rosa pode dizer-nos mais do que todo o roseiral!

Afonso Carrêlo disse...

Bom, já que se tocou num assunto delicado que é a educação ou a forma de como educar . Irei demonstrar a minha opinião sobre este o tema.

Eu apoio o senhor massamansa na sua ideia, e também pelo que vi no seu blog, de que este sistema de educação está completamente errado, e que muitas das vezes se usam "autoridades ilusórias" para se manietar as gerações vindouras, tornando-as em "robot's de produção", sendo que estes governos de hoje em dia estão construidos de forma a defender o progresso económico sustentando assim certas famílias e pessoas que no fundo são elas que nos controlam a todos.
E isto não uma ideia da conspiração.Não.Isto é a Realidade.
E toda a gente o sabe mas não o comenta porque pensam que não podem fazer nada quanto a isso e porque "isto também há-de mudar", o que é falso; isto só há-de mudar se Nós o mudarmos.E como?. Uma das poucos coisas que, possivelmente, se pode mudar é a Educação.
Estas bolsas de mérito, estes quadros de honra e essas (sem ofensa) bacoradas propagandistas, são apenas formas de se dizer aos alunos que têm que estudar e de ter grandes notas para serem alguém, sendo isso falso; pois se eu entrar num curso de média de 11, para que é que necessito de um 20, e tirando esse curso posso tornar-me no Homem mais conceituado e rico e etc... da história, aliás (um grande senhor bastante conhecido) Einstein nunca teve grandes notas e foi considerado o melhor génio de sempre (e já agora a média para entrar em Física é mínima).
Espero ue ninguém se ofenda (ou se canse) com o meu discurso, mas eu acho que temos que dar a volta, tendo um sistema de ensino onde se desenvolvam capacidades para o futuro e onde se deêm aptidões para que se desenvolvam intelectos, sendo que em vez de sermos avaliados pelo que nós conseguimos fazer e atravéz da nossa evolução ao longo do nosso percurso no ensino ( pois todas as pessoas são diferentes e neste ensino é como se fossemos iguais) somos avaliados pela nossa capacidade de memória (para decorar definições(muitas das vezes de "autoridades ilusórias")) e de percebermos algo que na maioria das vezes não é possivel demonstrarmos que a percebermos num teste (sendo que um teste é algo bastante anti-pedagógico, pelo menso para mim e para muitos dos psicologos).
Para finalizar, digo que o melhor exemplo que se pode dar, neste caso, é o de virar o olhar para à mente deste povo Português, onde podemos ver que esta é bastante subdesenvovida e atrasada. Sendo assim penso que seja inadmissível(para os que têm uma mente mais desenvolvida) não se fazer nada pela educação (sendo que esta está errada) dos filhos da Nação, pois eles são o futuro da nossa Pátria, Portugal.


Espero ter sido claro, não quis criticar ninguém e peço desculpa que este comentário não tenha nada ver com o texto de Descartes.

MassaMansa disse...

Afonso carrêlo

Aqui fica provado que os alunos também deveriam ter voz na Avaliação dos Professores e não só gramarem com o Kant e a sua ideia de "Iluminismo", seguida do exemplo dos bois que puxam a carroça, que na realidade desta escola simbolizam os alunos.É por isso que são penalizados por emitirem opiniões. Quando vos falarem do "Iluminismo" lembrem-se de que ele está proibido de entrar na vossa Escola. Isso ficou bem patente no ano passado quando uma aluna foi suspensa depois de ter filmado uma aula de inglês e publicado no Youtube. O que lá se via era uma balda geral que ela denunciava, mas no final, além de não ter havido um julgamento justo, a Escola (Obscurantismo) condenou a aluna e absolveu a responsável por aquele caos.

Maria de Lurdes Rodrigues disse...

É com imenso agrado que encontro um Blog dinâmico, onde além dos alunos aprenderem, podem emitir as suas opiniões sem serem censurados. Parabéns aos professores e aos excelentes alunos que esta Escola tem. Conservem-na assim!

Carlos Marques e Helena Serrão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caros comentadores,
Estou de acordo quando se diz que o nosso sistema de ensino não é bom. Aliás, estou convencido de que se está a tornar pior, pois temo que estejamos a enveredar por um facilitismo que terá efeitos devastadores sobre as capacidades humanas que tornam possível o desenvolvimento de espíritos crítico consistentes.
Não há bom ensino sem exigência e rigor, pois só o conhecimento nos livra de sermos pessoas do tipo "maria-vai-com-as-outras". É claro que, como diz o amigo massamansa, é preciso haver um clima de abertura e de tolerância pelas ideias dos outros (especialmente, por aquelas com que não concordamos). Este blogue é um espaço desse género criado por professores (obrigado pelo seu elogio, cara Maria de Lurdes Rodrigues). Logo, nem todos os professores são castradores!
É preciso, no entanto, não confundir tolerância para com ideias e tolerância para com laxismo, facilitismo e faltas de respeito pelo trabalho intelectual (que é aquele a que nos devemos dedicar nas aulas). Sem trabalho não se progride em nenhuma esfera, seja a do conhecimento, seja a do desporto,e por aí a diante. Portanto, os profs. não podem ser coniventes com aquilo que objectivamente prejudica o progresso intelectual dos alunos.
Se queremos ser capazes de saber circunscrever problemas e clarificá-los, para depois podermos estar em condições de discuti-los e resolvê-los, temos de possuir uma educação sólida, que, quer queiramos quer não, não se pode obter sem leituras, sem treinar as nossas aptidões lógicas,etc. E tudo isso exige esforço, concentração, dedicação. Creio que as pessoas devem ter a liberdade de não querer estudar, de preferir outro tipo de vida que não a de dedicação ao estudo. Mas é bom que estejamos conscientes que isso terá consequências no tipo de pessoas que seremos. Se queremos ser espíritos independentes, capazes de pensar autonomamente, não nos iludamos: temos de trabalhar para isso, tal como aqueles que preferem investir no surf ou no atletismo. Sem esforço e dedicação não seremos bons em nada. Também é legítimo não querer ser bom em nada. O que não é legítimo é pensar que sem nada fazer poderemos recolher os frutos só alcançáveis com trabalho árduo. Poderia a Vanessa Fernandes aspirar às medalhas que tem ganho sem o grande sacrifício para se manter na forma atlética que possui?
Carlos Marques

Tomás Rogeiro disse...

O MassaMansa é o Provedor dos alunos da Escola Secundária Luís de Freitas Branco!

MassaMansa disse...

Tomás Rogeiro, "Provedor" não, sou uma espécie de Professor Pangloss do Voltaire.

O PORTUGUÊS disse...

"Maria de Lurdes Rodrigues"
Esse é o nome da Marilú; olha que estranho ela veio cá comentar; uma "grande" pessoa que se disponibiliza em martirizar os alunos e professores;
É melhor não falar mal dela ou posso aparecer morto num canto ou coisa parecida, esclarecendo que este governo é mais fascista que muitos dos que se dizem fascistas.
Mas:

Pena não se poder atirar calhaus pelos blogs. SERIA FANTÁSTICO!!!!!!!!!!!

O PORTUGUÊS disse...

Isto deveria ter letras Maiúsculas no nome. Não é o português, é
O PORTUGUÊS.

Salgueiro Maia disse...

Caro português desde o 25 de Abril que a liberdade de expressão do português nunca esteve em causa, se não o sabe devia pesquisar. Por isso é que se chama ao que vivemos um pleno Estado de Direito.
Vejo que o senhor/a nunca sofreu com a opressão e nem deve fazer a minima ideia do que é! Deve ser mais um dos que defende Salazar, por achar que ele é um D.Sebastião, mas engana-se!
É preciso saber utilizar a liberdade de expressão, pois esta sob a forma de inssulto torna-se na arma dos fracos. "A liberdade de um murro acaba quando este toca no nariz do outro".

Só me resta dizer "Ao ESTADO que isto chegou"!

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Caro português
Neste blogue pode fazer as críticas que entenda e a quem quiser, de preferência justificando as suas posições. Mas não queremos atirar pedras a ninguém.

MassaMansa disse...

Este é que é o verdadeiro Blog da Filosofia. Até os mortos cá vem.

WEMERSON disse...

Me divirto imenso lendo os comentários do/a massamansa, pois revelam um grande sentido de humor!
Mas se é verdade o que afirma, penso que seja caso de delegacia, pois não se pode diferenciar os moleque na sua avaliação final.
Pois os Professores também não gostariam de ser injustiçados na sua Avaliação.
Abraço do vosso povo-irmão!

WEMERSON disse...

Porque é que meu comentário sumiu e não foi postado imediatamente apos o ter redigido!

Penso que tal medida é ditatorial!

Abraço do vosso povo-irmão

Afonso Carrêlo disse...

Acredito no que O Português quer dizer, pois este governo "é mais fascista que muitos dos que se dizem fascistas", "mas também é verdade que liberdade do outro acaba quando começa a nossa."

José Manuel disse...

A discussao acalmou?!

Já nao era sem tempo...

Cumprimentos