segunda-feira, junho 03, 2013

Greve às avaliações




Portugal tem um digno serviço público de ensino. Tem fragilidades mas garante uma formação geral que, comparativamente com outros países como a Inglaterra ou os Estados Unidos, é globalmente boa. Portugal não tem uma economia que garanta emprego às pessoas, muitos não arranjam trabalho, acima dos quarenta diria, pelos casos que conheço, é quase impossível arranjar trabalho. Colocados estes dados, que, penso, são consensuais, não há nenhum sistema de razões mais poderoso que aquele que nos permite concluir o seguinte: Primeiro: aumentar as turmas e o horário de alguns professores, os que estão há mais anos no ensino e, por isso, mais cansados, para poder despedir com justa causa outros mais jovens mas não tão jovens que possam arranjar aos trinta e tal anos outro trabalho, é, no mínimo inumano, ilógico, insustentável.

Segundo: Se o Estado está falido e não tem dinheiro para pagar aos seus funcionários, faça uma nova gestão do dinheiro que tem para distribuir e não entre no absurdo capitalista de se considerar como uma empresa de lucro, como tantas empresas capitalistas. As pessoas, a educação, a saúde, não são elementos para o lucro capitalista. Não são.Ponto. Há limites para o absurdo. Criar mais riqueza para criar outros empregos quando isso implica despedir milhares de pessoas? Não tem sentido. Não tem sentido dar mais trabalho a uns para tirar trabalho aos outros.Daí que esta greve às avaliações seja o único instrumento da profissão que permite dar uma resposta a este absurdo, é uma questão ética e política. Não contem comigo para ser cúmplice desta pseudo-evidência de que se o barco se afunda, e os botes não chegam para todos, salvem-se alguns. Corramos todos para os botes. Todos temos esse direito. Se formos ao fundo, pelo menos vamos com dignidade. Não me quero "salvar" à custa da morte dos outros. A possiblidade deste pensamento dilemático já é um atentado à liberdade e à igualdade. Princípios nos quais acredito e defendo, seja qual for a circunstância.

Helena Serrão

 

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