quinta-feira, dezembro 11, 2014

Na perspectiva da humanidade

O contributo do estudo e do conhecimento para o avanço da humanidade é um facto, só controverso se aceitarmos que existe apenas avanço material mas não Ético e que continuamos a ser os mesmos bárbaros apenas com armas mais sofisticadas. A prova de não sermos os mesmos bárbaros encontra-se na importância dada à educação, à educação pública, com ela pretendemos montar uma estrutura que permita a todos ascender ao topo da sociedade sem passar pelo privilégio do nascimento, permite-nos ultrapassar as condicionantes sócio-económicas a que estaríamos condenados se não houvesse leis que protegessem os mais fracos e desfavorecidos, se não houvesse uma escola para todos. A Escola para todos é uma utopia a que nos agarramos, mas uma utopia, para quem sabe dar valor às utopias escrevo este texto. Parto do pressuposto que há uma perspectiva da humanidade, isto é, uma perspectiva onde todos estivessem de acordo sobre certos princípios serem correctos, mesmo não tendo conhecimentos, mesmo partindo de uma cultura diferente da nossa, esses princípios seriam de natureza ética mas não se restringiriam apenas à natureza inter-pessoal da ética, são princípios que estão na base de leis mais justas, e estas permitem uma sociedade mais equilibrada. Tudo frases feitas, dirão, eu diria que podemos sem esforço alcançar uma perspectiva da humanidade e essa pode ser a nossa bússola, a nossa referência para julgar e apreciar o problema da escola pública. Na perspectiva da humanidade o conceito de "Escola Pública" protegido pelo idealismo resultante da Revolução Francesa é um privilégio de certos países e de certas culturas mas um objectivo comum. Uma estrutura que beneficia a sociedade pelas razões atrás expostas, sendo assim criada para fins estritamente éticos. Os fins éticos caem, no entanto, muitas vezes, no vazio das inutilidades ou dos palavrões bombásticos se não houver uma defesa política da Escola Pública e dentro das políticas que destroem o conceito de escola pública situa-se a Propaganda. A Propaganda que se faz hoje ao acaso e se quer "sem ideologia" com fins estatísticos e perseguindo factos é um dos cancros da Escola Pública, ela exerce-se exactamente sobre a política de não fazer política, como se houvesse factos que valessem por si, sem uma leitura política. Exemplos da Propaganda dos últimos dias : Ranking de Escolas; Licenciados desempregados; Professores em exame; para citar alguns dos títulos mais brilhantes. Então olho para um aluno à minha frente, de uma classe baixa, onde as expectativas continuam baixas e não sei como lhe dizer que o conhecimento e o estudo são a única forma de alterar essa situação, se o dissesse estaria a mentir. Então? Acredito que sim, mas toda a propaganda social grita que não, no concreto, na vida quotidiana. Continuo a pensar que tenho razão mas está difícil convencer alguém, seria talvez desejável que todos os que pensam o mesmo, pudessem contribuir de forma decisiva para a política da Escola Pública criando nichos de debate onde a dignidade e a Ética não fossem mais palavrões para enfeitar o discurso mas uma arma, uma arma feita das crenças no futuro da humanidade.

Helena Serrão

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