domingo, maio 10, 2026

Na exposição


Nadya Ismail, "No atelier", óleo sobre tela, maio 2026
 

Tarde no Centro Olga Cadaval, para ver uma exposição de uma antiga aluna, Nadya Ismail. Trabalha sobre a fotografia, usa a tela em branco como cor ou contraste, utiliza muito pouca cor, persegue, encantada a luz e a sombra, um jogo onde vislumbramos a efemeridade dos corpos, o seu aparecimento fugaz, as suas ausências e o rasto de luz que nos deixam. Há um universo feminino na escolha da casa, no carinho pelos objetos quatidianos mas, simultaneamente, uma necessidade de fuga, uma espécie de enclausuramento que emana, um compasso de espera antes da saída, um estalar de dedos, a eminência de que algo está verdadeiramente para acontecer, espera-se, mas ainda não aconteceu.

Como a Nadya se inspira em Rilke, selecionei um poema:


III


Espelhos: o que sois na vossa essência,
nunca ninguém saberá explica-lo.
Como os furos do crivo, sois a ausência,
do tempo a preencher cada intervalo.


Vós, que esbanjais a sala inda deserta,
vastos como florestas, quando a noite regressa…
e o lustre, como hastes múltiplas de algum gamo alerta,
vossa água inviolável atravessa.


Tanta vez estais cheios de pinturas.
Umas em vós parecem entranhadas,
as outras afastou-as a vossa timidez.


Mas a mais bela de todas as figuras
ficará lá no fundo, até nas faces recatadas
romper claro o narciso em sua nitidez.




Rainer Maria Rilke
Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu
trad. de vasco graça moura
quetzal
2017

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