quarta-feira, janeiro 14, 2009

QUALIAS DANÇANTES NUM CÉREBRO SINTÉTICO

Muitas pessoas acham fascinante saber se a consciência poderia surgir num sistema sintético complexo. Embora a construção desse sistema ainda possa demorar décadas ou até mesmo séculos, uma experiência mental fornece forte evidência de que um cérebro artificial, se organizado de forma adequada, teria os mesmos tipos de experiência consciente de um ser humano. 

Considere-se um sistema de silício no qual os chips são organizados e funcionam da mesma forma que os neurónios no nosso cérebro. Isto é, cada chip no sistema de silício faz exactamente o que seu análogo natural e está interligado a elementos adjacentes precisamente da mesma forma. Assim, o comportamento do sistema artificial será exactamente igual ao nosso. A questão crucial é: ele será consciente da mesma forma que nós? Vamos supor, para efeito de argumento, que não seja. (Usamos aqui uma técnica de argumentação conhecida como redução ao absurdo, em que supomos a hipótese oposta à que queremos provar e mostramos que ela implica conclusões insustentáveis.) Isto é, o sistema tem experiências diferentes - digamos, uma experiência do azul quando nós vemos o vermelho - ou nenhuma experiência. Vamos considerar aqui o primeiro caso (o raciocínio é similar para as dois casos). Como os chips e os neurónios têm a mesma função, eles são permutáveis entre si, com o interface apropriado. Assim, os chips podem substituir os neurónios, produzindo um contínuo de unidades em que uma proporção cada vez maior de neurónios são substituídos por chips. Ao longo desse contínuo, a experiência consciente do sistema também irá mudar. Por exemplo, podemos substituir todos as neurónios do nosso córtex visual com uma versão de silício organizada de forma idêntica. O cérebro resultante, com um córtex visual artificial, terá uma experiência consciente diferente da experiência do original: se anteriormente se via vermelho, experimenta-se agora a cor púrpura (ou talvez um rosa pálido, caso o sistema de silício não tenha nenhuma experiência). 

Os dois córtices visuais são então ligados ao nosso cérebro por um interruptor de duas posições. Quando o interruptor está numa posição, usamos o córtex visual normal; quando está na outra, o córtex artificial é activado. Quando o interruptor é manipulado, a vivência muda do vermelho para o púrpura ou vice-versa, e quando é repetidamente manipulado, as experiências "dançam" entre os dois estados conscientes (vermelho e púrpura), estados conscientes esses conhecidos como qualia. Entretanto, como a organização do cérebro não mudou, não pode haver alteração comportamental quando o interruptor é manipulado. Portanto, quando nos perguntam a respeito do que vemos, diremos que nada mudou. Afirmaremos que vemos o vermelho e apenas o vermelho, ainda que as cores dancem diante dos nossos olhos. Esta conclusão é tão desarrazoada que deve ser considerada uma redução ao absurdo da suposição inicial - de que um sistema artificial com organização e funcionamento idênticos teria uma experiência consciente diferente daquela do cérebro neuronal. Afastando então essa suposição, provamos o seu oposto, isto é, que sistemas com a mesma organização têm a mesma experiência consciente.
David J. Chalmers, in Scientific American, nº 23 - versão brasileira (edição especial), p.48, adaptado.

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